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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Enxergando o desperto



Pergunta: Os que acham a resposta, acham respostas semelhantes e quando se encontram, se notam?
Monge Genshô: Sem dúvida. um texto de Dogen que tem o título: “só Buda reconhece Buda”, porque só aquele que experimenta é capaz de identificar quem experimentou também e eles dois podem conversar e instantaneamente dizem: “ah, você sabe do que eu estou falando”. Mas quem não sabe, não adianta, inclusive não pode enxergar. Você desconfia e pensa: “eu acho que aquele sabe alguma coisa”, mas você não tem certeza. É por isso que na nossa tradição você vai até seu Mestre e diz: “eu acho que achei, por favor, me teste” e  o Mestre faz perguntas testes. Às vezes isso pode ser surpreendente.(continua)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Pra quê o budismo foi criado? (Bodhidharma Parte II)


(continuação)

E depois que Bodhidharma foi para a caverna, muitos apareceram por lá querendo aprender com aquele grande e famoso mestre que tinha respondido para o Imperador, deixado-o confuso. E Bodhidharma não dá atenção a nenhum deles, e eles quando vêem aquilo, vão embora. Até que Taiso Eka vai até lá e fica na frente da caverna sem desistir durante 3 dias. No terceiro dia nevava muito, a neve cobriu os pés de Eka, que fica desesperado, já com fome, sede, e agora frio excruciante, e então ele corta o braço pra mostrar sua sinceridade, para jurar pelo seu sangue. 

Vendo seu sangue cair na neve, Bodhidharma vai até ele e pergunta:

- Muito bem, o que é que você quer? 

E Eka responde:

- A minha alma não tem paz, por favor, pacifica a minha alma!

E Bodhidharma responde:

- Me mostre tua alma e eu a pacificarei. 

E Taiso Eka não consegue resposta nenhuma, não consegue encontrar sua alma. E Bodhidharma diz:

- Pronto, já pacifiquei a tua alma. 

Tendo passado por toda aquela angústia, desespero, de ter chegado até lá, disposto a aprender com um mestre, depois de tudo aquilo que Eka tinha passado, quando Bodhidharma dá essa resposta, ele desperta das ilusões, descobre que ele não tem uma alma, sente-se uno com todas as coisas, compreende internamente o que Bodhidharma estava querendo dizer. 

E assim Eka fica como discípulo de Bodhidharma e ele é o 27º patriarca da nossa linhagem. Bodhidharma é o 26º e Taiso Eka Daioshô, grande mestre, o 27º. E nós descendemos dessa linhagem de ensinamento.

Então, o  quero dizer a vocês é que o budismo foi criado para atender este tipo de desespero, o desespero de Taiso Eka, "minha alma não tem paz". Isso sim, para isso o budismo voltou sua atenção. Para isso Buda voltou a atenção porque ele tinha uma angústia, uma angústia existencial muito grande.

Se toda vida termina em velhice, doença e morte, o que eu estou fazendo aqui? Como é que eu saio disso? Como é que eu encontro solução para a angústia de enfrentar essa finitude da vida humana? Essa angústia existencial é que é a angústia de Buda, e o budismo se voltou para isso, não para o conforto das coisas pequenas da vida.


Então o budismo e em especial o Zen só tem sentido se nós estamos procurando a iluminação. Só aí tem sentido você sentar e realmente se esforçar como a gente demanda num Centro Zen, caso contrário, não é o lugar para nós. Se é só consolo, há outros lugares.
 
Se é para se sentir abençoado para ganhar dinheiro, também tem outros lugares. Se quer qualquer solução mágica também há outros lugares. Mas no budismo não existe nada assim.
 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Livre arbítrio



Pergunta: Como a meditação nos ajuda a atingir o despertar?

Monge Genshô – Te dando lucidez. A meditação ajuda para obter clareza. Quando eu digo isto sobre a floresta e sobre o mar, numa analogia à humanidade, é porque sentado em meditação eu senti isso. Então eu posso falar. Você usa o seu corpo como âncora para estabilizar a sua mente, e à medida que com a sua mente você vai a níveis mais profundos de consciência, passa a compreender coisas que não compreendia antes, não com o seu raciocínio, mas com seu sentimento. Se você for a um nível mais profundo, nenhuma pergunta resta sem resposta. Uma vez eu me reuni com um empresário de palestras, e ele me falou que “perguntas e respostas são sempre perigosas”, porque imagine se alguém faz uma pergunta e o palestrante não sabe responder? Mas, na verdade, para um professor do zen, qualquer pergunta é admissível, e você tem que responder todas.

Pergunta – Tem como o senhor falar um pouco sobre a visão que o senhor tem do livre arbítrio? Nós temos livre arbítrio?

Monge Genshô – Em parte, sim. Mas de maneira muito limitada. O livre arbítrio foi apresentado como uma construção para tornar um criador inocente das consequências (da criação). Se o criador fosse responsável por todas as consequências de tudo o que ele fez, se ele soubesse de tudo, ele seria tão responsável quanto qualquer artífice que faz uma coisa que dá errado. O livre arbítrio me faz lembrar-se de uma frase do João Ubaldo Ribeiro, que morreu estes dias, no livro sobre luxúria: - “Como alguém pode se sentir culpado de sentir algo que foi criado para sentir?”. Então quando nós dizemos livre arbítrio, você tem que se perguntar se você o tem realmente sobre o crescimento de sua barba, por exemplo. Não, não tem. Diante de quem? Da testosterona? Dos hormônios do seu corpo, que podem alterar o seu humor e seus desejos? Você é livre realmente, ou em grande parte sua conduta é ditada pela sua própria condição de ser humano? Então em que medida nós estamos realmente livres nas nossas decisões? Normalmente nós fizemos uma corrente de acontecimentos que nos conduzem numa determinada direção. Às vezes nesta corrente existe um remanso e você tem a oportunidade de nadar para o lado, de mudar o rumo da sua vida. Às vezes você tem grandes momentos de escolhas, uma escolha pequena que pode causar um enorme resultado, como aquele exemplo do efeito borboleta. Mas em grande parte a nossa vida vai transcorrendo numa corrente lógica. Vocês precisam comer, então precisam trabalhar, precisam ter renda, e precisam disso e daquilo. Então, as escolhas que fazemos têm que ser amadurecidas e às vezes levam anos para que possam ser executadas, devido à própria contingência da condição humana. Mudar o carma é complicado, precisa grande esforço. É possível? Sim, é possível. Claro que é possível. Mas vai demandar esforço, tempo... agora dizer que uma pessoa é verdadeiramente livre, é ignorar as condições em volta. Você vai dizer a um rapaz criado numa periferia violenta de uma grande cidade que ele teve livre arbítrio?  Nós temos que pensar no carma. Quais foram as circunstâncias pregressas que resultaram nesta condição? O objetivo de agora em diante, portanto, é saber como conseguir se livrar destes condicionamentos e energias aprisionantes a certas formas de reação.

Pergunta – Mas quando se fala em livre-arbítrio, eu me reporto àquela ideia de que todos os dias nós temos a possibilidade de escolher este ou aquele caminho, de ir para a direita ou esquerda, por exemplo... se não, a impressão que fica é que estamos totalmente presos, sem possibilidade de mudança...

Monge Genshô – Sim, nós temos alguma opção, mas isso não pode ser confundido com liberdade plena. Eu não posso chegar e dizer assim: - “Você é culpada por tudo o que está acontecendo na sua vida, desde o seu nascimento”. Não é verdade! Você já nasceu no Brasil, isso já muda as coisas. Se você tivesse nascido na Noruega seria diferente. Uma coisa é você nascer na Faixa de Gaza, outra coisa é você nascer em Luxemburgo. Então o livre arbítrio ocorre em termos, porque você tem alguma liberdade, mas ela não é tanta assim. E a maioria das pessoas que eu conheço, têm suas vidas condicionadas desde a infância, com coisas que começaram muito remotamente. Com papai, com mamãe, com dado país. Até o fato de você ter nascido mulher, dá para mudar? Olha, até dá, mas é complicado à beça. Então você é completamente livre? Não! Grande parte do que você é já está predeterminado agora. Na verdade este conceito de livre arbítrio não pertence ao budismo. Nós estamos comentando aqui, mas ele veio de outra cultura. Ele vem de um raciocínio medieval para solucionar a questão da responsabilidade do criador na existência do mal. É isto! Mas o budismo não tem criador, portanto esta questão em essência não se coloca.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Eu não sei


Pergunta:    Um depoimento muito bonito que uma pessoa, que  estava num estado mais elevado... isso pode ser considerado Dharma também? Ou é só quando o monge autorizado fala, que é Professor do Dharma, que podemos dizer que é Dharma?

Monge Genshô:  Acho que eventualmente pessoas dizem coisas muito pertinentes e vamos ter que ouvir e ter o discernimento de que ensinamento “reconhecido” tem que ser dado por alguém que recebeu a transmissão. Isso é pelo menos um padrão de qualidade para se dizer: “ isso aqui nós vamos considerar”. Mas mesmo assim, é como se dizia em latim, cum grano salis – com um grão de sal. Porque você aceita um professor e começa a ouvi-lo. Ele vai ajudar você dentro do caminho, na medida do que ele conhece e sabe. Mas haverá algum momento em que o seu caminho não é exatamente igual ao do professor. Eu posso falar sobre experiências que eu tive, mas existem experiências que eu não tive, e eventualmente alguém me pergunta: “O que eu faço nessa situação?” E eu respondo: “Eu não sei. Você vai ter que decidir sozinho, porque é seu carma, sua vida, seu momento. Eu não sei.” Eu posso dizer que comigo aconteceram tais e tais coisas e levo e digo isso, para que você considere que existem essas possibilidades. Posso ajudar você a pensar, mas não posso decidir por você. Até porque é uma responsabilidade imensa.

Esses dias um rapaz disse: “Ah, eu briguei com minha namorada. Eu a procuro, peço desculpas, volto, não volto, tento que ela volte, tenho medo que ela não volte”. Eu disse: “Eu não sei.” São tantas coisas que eu não sei sobre esse relacionamento, do futuro. Como é que eu posso dizer? Não sei. Posso dizer uma coisa com certeza: se acabar, você vai sofrer um pouco e depois de determinado tempo, isso vai passar. Isso eu sei. Que tudo acaba passando.  Se no futuro você vai dizer, “ah, não podia ter perdido aquele relacionamento”! Isso eu não sei. Pode ser. Como eu poderia saber? Então, o Dharma é uma porção de ensinamentos bem consolidados sobre impermanência, causa, efeito, sobre as marcas da existência, sobre o carma, mas ele não é uma solução para tudo. E tem várias coisas  que Buda evitou responder. Disse: “Eu não vou responder a essa pergunta”. Deus existe ou não existe? Essa pergunta não faz parte do budismo. Trata-se do tipo de assunto não verificável,  se é não verificável, então não faz parte do objeto de estudo do budismo. No momento em que for verificável, sim.

Pergunta: Então o Dharma seria somente fenomênico?

Monge Genshô: Não. Ele também tem conceitos abstratos, mas que são lógicos. Por exemplo, o conceito de pecado não existe no Budismo. Porque não existe conceito de pecado? Porque não existe alguém a quem você deva obedecer e que vai taxar de pecado se você fizer isso ou aquilo. Por isso não existe o conceito de pecado. Existem consequências. Qual é a consequência do seu ato?  É isso. A ética do Budismo é construída em cima das consequências. Quais são as consequências?

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Do que é verificável


(continuação  de palestra pública)
Pergunta – Mas a pergunta é mais assim: como encontrar a resposta dentro de nós mesmos? Já que a gente compreende que não está fora, nem em livro, nem em outra pessoa?

Monge Genshô - Boa pergunta. A meditação ajuda muito, por quê? Porque quando você senta para fazer zazen, senta para meditar, joga fora o passado, joga fora o futuro, fica no momento presente, isso estabiliza a mente, e você começa a ver as coisas com mais clareza. Aquilo que parecia complicado para você de repente não é mais. É complicado porque você está agregando àquilo uma série de considerações e coisas do passado. Você carrega um enorme passado junto com você, e esse passado emaranha tudo. Então, aprender meditação é essencial para dar lucidez e clareza. É para isso que você começa praticando meditação.  Então  surge sabedoria.

Mas, esse é um sub-produto inicial da prática. Você começa a praticar e chega um momento que não há mais motivo para você estar sentado, para fazer meditação, porque você pratica, porque você está sentado? - Não sei mais. Monge eu não sei mais porque eu sento. Ah, quando alguém me dá essa resposta, gosto muito. Quando não sabe mais, ficou bom. Quem sabe você começa a pensar nos outros? Porque até agora, você sentou só pra resolver o SEU problema.

Isso acontece com alguns monges. Ah, eu quero ser monge. Para quê? Monge é aquele que começa a trabalhar pelos outros. Está trabalhando,  trabalhando e é leigo. E a gente diz assim: “trabalha como monge”. “Bom, você deve ser monge”. Este é que é o monge. No Brasil há muita gente que diz assim: “O que eu faço para ser monge”? É a primeira pergunta que ele faz. Se  tudo o que ele quer é que as pessoas façam reverências para ele é tolo, ele deveria sentir vergonha quando as pessoas fazem reverencia, porque você sabe que você não merece reverências.

Pergunta – O Senhor tocou no assunto da fé, e a fé é um produto ligado à nossa cultura cristã, então às vezes fica um pouco difícil. O que é fé sob a ótica budista? Se é que existe fé.

Monge Genshô - Posso pegar a definição de Hebreus 11.  Paulo em Hebreus diz: “a fé é a firme crença nas coisas que não se vêem e não se ouvem”. Isso não existe no budismo. Nós estávamos sentados eu, um rapaz e Saikawa Roshi meu mestre. E o rapaz perguntou para ele: “E Deus”? E Saikawa Roshi respondeu: “Bom, isso é um assunto não verificável. Se você acredita, está bem. Se você não acredita,  está bem também”.

O budismo não trata de assuntos não verificáveis. Não dá pra verificar, não se coloca. O que se coloca é sabedoria. Você não sabe nada, e eu digo para você: “meditação é uma prática construtiva, que vai levar você a mais lucidez e clareza”. Tudo o que você precisa é confiar em mim. E aí você começa. Se tiver uma experiência positiva, pode continuar. Se você chegar e disser que acha que não funciona, não tem problema. Procure alguma coisa que funcione para você. Porque na realidade nós não temos uma fé pra oferecer. Só temos experiência para oferecer.
(Continua)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

As respostas estáticas aos problemas humanos


 (continuação)
Pergunta – Existe incompatibilidade entre a ciência e o budismo?

Monge Genshô - Não posso enxergar, porque, se houver uma coisa que você comprove verdadeiramente, o budismo pode mudar de idéia a qualquer momento, porque ele não é dogmático. O budismo vem mudando através do tempo. Nós começamos com um determinado budismo e ele foi sendo adaptado.  Pai Tchang (Baizhang Huaihai; Japanese: Hyakujō Ekai (720–814 AC)) na China, mudou as regras para os monges zen, há 1 400 anos o monasticismo zen budista não segue o chamado Vinaya indiano,  em 1872, na nossa ordem e em todo o Japão, mudamos as regras, os monges podem casar. Mês passado eu fiz um casamento de um casal de rapazes. Para o zen budismo, nós temos que ser como a água, mudar como o mundo muda. Eu cheguei em um mosteiro, olhei um monge e não conseguia decidir se ele era homem ou mulher, aí perguntei para outro: “ele é monge ou monja”? e ele disse: é um transexual, mas ele quer ser mulher, então nós demos um papel para ele de que ele é mulher e pronto, ele então é monja. Ok. Isso dentro de um monastério zen budista. É claro que podemos achar virtudes na conservação estrita de regras antigas assim como na adaptabilidade e também problemas advindos de ambas as atitudes.

Mas o zen budismo está em mudança constante, não está congelado no tempo. Esta é uma virtude da ciência, a ciência pode sempre alterar o que ela pensa. Ela diz uma coisa, amanhã aquela tese está vencida e vem outra. Essa é uma coisa que a ciência pode fazer. Mas a ciência também tem um sistema de crenças. Também tem axiomas, e também tem muitos problemas, e há problemas indecidíveis na ciência, inclusive na matemática. Se vocês duvidam é só verificar o que Godel escreveu sobre os teoremas indecidíveis. É impossível decidir isso pelo uso da matemática, pronto, acabou. A matemática tem limites, assim como a linguagem tem limites.

Há uma declaração budista antiquérrima que diz que a linguagem serve para tentar explicar algo para vocês aqui, mas vocês não estão entendendo realmente o que eu estou dizendo, estão entendendo uma boa parte. Mas uma parte não podem entender, porque o único jeito de entender é experimentando. Não adianta explicar o gosto da lichia para quem nunca experimentou lichia. “Você já comeu lichia”? Não. Se eu te explicar que o gosto da lichia parece uma mistura de morango com abacaxi e uva, deu para entender? Não. Não tem como explicar ela tem que experimentar e colocar na boca. Sem palavras para traduzi-lo. As palavras são um mau instrumento que nós temos para comunicar a realidade. É aquilo com que nós podemos comunicar a realidade na medida do que o cérebro pode entender. O que não é muita coisa.

Pergunta – É lógico que para mudar um efeito, eu tenho que mudar a causa, mas a dificuldade é saber o quê fazer, como fazer, quando fazer, para mudar uma causa que está nos trazendo sofrimento.

Monge Genshô - Às vezes eu posso ajudar, outras vezes não posso, e é você mesmo que tem que resolver. Às vezes as pessoas me perguntam: eu tenho tal e tal problema. Me separo ou não me separo? Eu não sei, quer que eu assuma a responsabilidade por isso? Não sei. Você tem que considerar múltiplas coisas.. Normalmente as pessoas estão acostumadas com livros, onde há uma “solução”. Me separo ou não me separo? Não se separa, ponto, não pode.

Agora, no budismo: Monge, me separo ou não me separo? Não sei. Problema seu. E a regra? Não tem regra. Essa história de união foram os homens que inventaram. Separação, foram os homens também que inventaram. O que você pode fazer é pensar: quais as consequências realmente? É isso. Então, o budismo é um pouco decepcionante, porque queremos respostas simples, e o budismo não dá as respostas fechadas, quadradinhas, que “solucionam” tudo e nos tiram a culpa. Não, o carma é seu.
(continua)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Manter uma mente correta até o fim


Pergunta – Nossa sociedade nunca foi tão próspera e ao mesmo tempo nunca houve tantas pessoas tristes e deprimidas ou com problemas psicológicos. Essa parece ser a tônica do mundo moderno, construir pessoas estressadas e infelizes. É claro que cada pessoa tem seu próprio conceito de felicidade e sei também que dentro do Dharma não há uma regra, mas quais seriam as atitudes corretas para buscar a felicidade?

Monge Genshô – Primeiro temos que considerar que não existem respostas fechadas no budismo. Se formos considerar uma cidadezinha do interior do Pará onde não existe atendimento médico, a isolarmos e fizermos uma pesquisa na qual iremos verificar quantas pessoas existem nesta comunidade com problemas de estresse ou com problemas como depressão, a resposta será próxima a zero.  Mas se colocarmos uma equipe médica para analisar isso, começam a surgir grande quantidade de casos. Um dos efeitos do aumento de atendimento médico é o aumento da notificação de doenças. Esse exame das coisas muitas vezes distorce o que julgamos na sociedade.

Existe o que é chamado de “O Sinal e o Ruído”, de Nate Silver, que fala sobre isso. O conceito é que o que ouvimos de informação vem carregado de ruídos, que não é o sinal ou a verdade que está por trás dos fatos, mas sim um ruído que deturpa e distorce a informação. Neste livro ele dá um exemplo sobre notificação de gripe no México e nos EUA, que são completamente diferentes. Por exemplo, nos EUA é maior a notificação e a mortalidade menor, enquanto que no México é o contrario, porquê? Porque a notificação no México é baixa e o que é notificado é aquele que realmente morreu. Através dos dados disponíveis não é possível detectar a verdade.

Mas o que Buda disse a respeito da felicidade? Que a vida é cíclica e, portanto, parece instável e sofrida, principalmente porque esperamos da vida estabilidade e segurança que ela não nos dá, porque todas as coisas que desejamos que durem, não duram. Não há nada que dure para sempre, por isso a vida naturalmente já tem esse aspecto de instabilidade. Buda disse que há uma causa para nosso sofrimento e que essa causa é o nosso desejo pela estabilidade das coisas e dos desejos. A maneira de resolver isso, diz ele, é através do Nobre Caminho Óctuplo. O primeiro passo é a compreensão destes fatos, ou seja, se eu compreendo e aceito que a vida é insatisfatória e instável, poderei até rir das coisas. Se temos certeza que vamos morrer, porque todos vão, deveríamos pensar o que de fato é irrelevante na vida?

Estava conversando com um amigo e ele reclamava de uma situação no trabalho, então eu lhe disse que não se preocupasse, pois isso tudo seria esquecido. Ele continuou argumentando sobre os créditos no trabalho que sairiam para outra pessoa, mas e daí? Isso também será esquecido. Damos importância demais para coisas muito pequenas. Se pensássemos na morte constantemente, teríamos uma vida iluminada. Para pensarmos melhor sobre a vida deveríamos colocá-la sob a perspectiva de que vamos morrer em trinta dias, o que é importante nesse período que lhe resta?

Alguém lhe diz que seu nome está no SPC, se você vai morrer mês que vem com certeza vai rir disso. Com que mente vamos morrer é determinante sob o ponto de vista budista. Os impulsos mais importantes são os últimos, são eles que determinarão a próxima manifestação. Como não sabemos quando iremos morrer, o tipo de mente que cultivamos é extremamente importante. Como não sabemos a hora da morte, devemos nos manter prontos, com a mente correta. Sentamos para meditar e treinar nossa mente. Fazemos cerimônia para treinar nossa mente. Não importa a forma com que você busque, mas o importante é seguir o ensinamento de Buda, a compreensão correta, o vazio de um eu inerente em todas as coisas, a insatisfação com a vida e também o fato da vida ser cíclica.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Modos de vida


Pergunta – O isolamento, como o do eremita ou em monastérios, não seriam então ato de bodhisattvas?

Monge Genshô – Retirar-se do mundo torna as coisas mais fáceis e é comum uma pergunta entre esse tipo de praticantes que é: “Será que ainda tenho os desejos e apegos”? Como ele está afastado do mundo não existe a oportunidade destes sentimentos surgirem.  Há a anedota do eremita que certo de sua libertação desceu até a cidade, na praça do mercado um homem lhe pisou o pé o que o deixou furioso, no mesmo instante percebeu que havia apenas se isolado, não havia mudado sua mente.

Pergunta – Quando fazemos retiro, o ambiente que estamos vivendo faz surgir um sentimento de pureza muito grande que não permite que surjam esses tipo de sentimentos, digamos, mundanos.

Monge Genshô – Exatamente, como não existe inclusive a comunicação em razão do voto de silêncio, tudo vai desaparecendo, o desejo sexual, a gula, os atritos, mas isso é um mundo criado para o retiro, é uma vida artificial.  Isto não quer dizer que um eremita não possa ser um bodhisattva.

Pergunta – O que o senhor entende por um modo de vida correto?

Monge Genshô – É um modo de vida que não cause sofrimento aos outros seres. Uma profissão que não cause destruição e sofrimento. Profissões como caçador ou magarefe não podem em geral ser consideradas modo de vida corretos. Um modo de vida que ajude os outros seres é um modo de vida correto e que não seja um impeditivo à iluminação.

Pergunta – Esse era o sentido de minha pergunta, trazendo as escrituras para os dias atuais, eu que trabalho na UFSC, não me sentiria à vontade desenvolvendo um projeto para uma indústria química, por exemplo, que causa em geral, muitos estragos à natureza e consequentemente à todos os seres humanos.

Monge Genshô – Você é que deve decidir. Não tenho uma resposta pronta para resolver essa questão para você. Pode ser que você realize um grande projeto que muda a visão e o modo dessa empresa atuar. Quando Oppenheimer ajudou a desenvolver a bomba atômica, a idéia era de que fossem sacrificados talvez cem mil japoneses e o Japão se rendesse, poupando a vida de milhões de soldados americanos e mais alguns milhões de soldados japoneses. Tendo isso em mente, a bomba parecia algo bom. Depois de jogada a bomba, Oppenheimer pediu demissão. Pairava sempre a dúvida da real necessidade do uso da bomba desta forma, por exemplo, poderiam ter feito uma demonstração do potencial da bomba evitando que pessoas inocentes fossem mortas.

Outro fato que ocorreu após isso, foi uma corrida dos países para construir suas próprias bombas. Você teria que se colocar no lugar de Oppenheimer e se questionar sobre várias coisas, por exemplo, e se a Alemanha tivesse desenvolvido a bomba antes dos americanos? É muito difícil de responder, ou melhor, parece fácil dar as respostas, pois quando se está de fora, tudo parece mais simples. Mas é preciso conhecer todas as variáveis. Você, dentro na universidade, desenvolvendo seus projetos terá que pensar o que fazer e mesmo assim, você nunca terá certeza absoluta que sua decisão foi acertada.


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Procurem a paz e a harmonia


Na foto mestres zen de todo o mundo ladeiam Saikawa Roshi (de branco ao centro) no cinquentenário do Templo Busshinji em SP



Respostas do Grande Mestre do Zen Saikawa Roshi em uma palestra em Florianópolis:

1) Se a dor, como o Senhor falou, é um caminho para que a gente veja a inexistência do ego, esse vazio não abraçado não faria essa própria dor não existir?

Saikawa Roshi – Mesmo que a dor exista, sua raiz pode ser cortada. Com a aceitação de vida e morte, vida existe e morte também existe. Se você realmente vê isso, pode ir além, poderá ir além da raiz e o sofrimento poderá ser cortado.

2) Essa sensação de incompletude, que parece ser inerente à vida humana, tem como origem nossa visão das coisas de forma dual?

Saikawa Roshi – É muito bom ter este sentimento, pois pode impulsionar sua prática. Nos sentimos incompletos na nossa vida diária e este sentimento é que nos dá energia para praticarmos, mas durante o Zazen você pode ir além de sentir-se completo ou incompleto, você pode ir além da dualidade. Nesse sentido podemos sentir nossa completude praticando zazen. Somos cem por cento iguais a Shakyamuni Buda. Quando ele sentia sede, sentia sede exatamente como nós, sentia fome da mesma forma que nós. A diferença é que ele realmente viu dentro de si mesmo e tornou-se como um espelho vazio, um com todo o universo. Ele foi além da dualidade e pôde aproveitar sua vida. Sofria quando o sofrimento vinha e sorria com a alegria.

3) Se viemos de uma dimensão única e não dual, qual o objetivo de nossa dualidade? Porque temos que passar por essa experiência?

Saikawa Roshi – Não podemos ver os dois lados da moeda ao mesmo tempo. Um lado é não dual, perfeitamente vazio, mas o outro lado é cem por cento dualismo como nossa vida diária. Mesmo neste dualismo da vida diária, nós podemos tentar ver a situação ideal. Nós pensamos quando uma criança nasce, que ela realmente nasceu; mas na verdade a vida é uma continuidade, por isso, na verdade ela não nasceu. “Eu nasci em tal ano” é simplesmente uma expressão. Conforme vamos crescendo as pessoas vão nos ensinando o mundo da dualidade, você é Genshô, esses são seus pais e seus irmãos, esse é um dos lados da moeda. Desta forma, sem perceber a criança vai aprendendo a dualidade. Precisamos aprender a ver o outro lado da moeda através do shikantaza, o zazen. Se você vir o dualismo poderá cortar a raiz de todo sofrimento. Em um lado da moeda estou aqui tentando falar sobre o Dharma para livrar as pessoas do sofrimento.

4) Em minha mente, não existir bom ou ruim é muito difícil de entender. Qual o principal objetivo então, destruir a dualidade ou compreendê-la e saber de sua existência?

Saikawa Roshi – Nossa mente precisa de dualidade para entender as coisas. Para entender sua vida diária você precisa de sua mente dual. Sem usar a dualidade você não conseguiria operar nesse mundo, você precisa julgar certo ou errado, bom ou ruim. Para tentar explicar eu usei a metáfora do transplante, mas para realmente entender você vai precisar de uma experiência e é por isso que fazemos Zazen.

5) Como posso cortar a raiz do sofrimento se ela não é minha?

Saikawa Roshi – Na nossa vida diária dizemos “meu corpo, meu sangue, meu rim, minha mente e minha opinião”. Você precisa ver verdadeiramente a raiz dentro de você porque você diz “meu sofrimento”. Estamos tão tenazmente agarrados ao nosso “eu” que não percebemos que se temos um sofrimento, este é só do ”eu”.

De qualquer maneira estamos sentados e podemos apreciar o zazen, mesmo que sentados não hajam julgamentos do tipo “gosto e não gosto”, podemos simplesmente apreciar o zazen. O zazen nos ensina. Por favor, participem dos retiros, façam zazen. A gentileza das pessoas que frequentam as Sanghas é muito importante porque faz com que outras pessoas que venham à Sangha encontrem um lugar de paz e harmonia. Para criar paz e harmonia, pratiquem zazen e tentem ser um com os outros. Essa atmosfera de paz e harmonia vindas de cada um de vocês é muito importante para a Sangha. Por favor, aproveitem cada momento de suas vidas. Muito obrigado

terça-feira, 4 de junho de 2013

É possível não pensar?



Pergunta – Eu tenho uma questão com relação ao zazen. Quando sentamos qual deve ser a intenção? Existe uma técnica para o não pensar?

Monge Genshô – Você não deve pensar em esvaziar a mente ou em não pensar. Isso não funciona. Tem até uma historinha Zen sobre isso, um aluno pergunta ao mestre o que deve fazer e ele responde: “Fácil, não pense em macacos”. No final do dia o aluno retorna e diz, ”Por favor, mestre me livre dos macacos”. Existe uma mente operacional e uma mente verificadora, esta fica o tempo todo checando: “No que você está pensando, em macacos?” o que torna impossível pensar em não pensar.

A instrução para sentar é não seguir os pensamentos, deixe que eles venham e passem, não os agarre. Quando estamos começando a praticar, normalmente os pensamentos que aparecem são o retrato de nossa mente. O que surge é fruto, produto daquilo com que alimento minha mente. O mesmo acontece com os sonhos. Você irá sonhar com aquilo com que você alimenta sua mente. Isso é uma verificação. É preciso muito tempo de prática para chegar ao ponto de repouso, uma serenidade, os pensamentos chegam e vão sem perturbar sua mente. Você passará a maior parte do tempo repousando, simplesmente sendo o momento presente.

Pergunta – Eu li em alguns livros sobre o “não sei” e isso me parece um tipo de condicionamento, como se desapegar e manter esse não sei, mas ao mesmo tempo me parece também que isso é apenas um apego disfarçado.

Monge Genshô – Uma mente “não sei” significa eu aceito que não sei as coisas. É muito comum as pessoas me perguntarem: - O que acontece após a morte sob o ponto de vista do Budismo? Minha resposta é não sei. Eu ainda estou vivo não sei o que se passa após a morte. Existem várias teorias sobre isso, mas não sou testemunha do que acontece após a morte, não sou um fantasma. Às vezes as pessoas querem respostas sobre suas vidas, sobre decisões das mais variadas, relacionamentos, mudanças ou projetos profissionais. Minha reposta é a mesma, “não sei”. Podem acontecer muitas coisas entre a tomada de decisão e seu projeto, como eu posso saber? Não sei.

No Budismo não revelamos profecias, não jogamos cartas, não lemos fundos de xícaras ou os astros, aliás, isso foi proibido por Buda no Parinirvana Sutra. No Zen não existem respostas fáceis. O que o Zen tem para lhe oferecer é um método para a libertação e esse método exige esforço. Temos milhares de anos de experiência para saber que esse método produz ótimos resultados, mas o resultado é mais sabedoria, não mágica ou milagres. Não existe ninguém lá fora para lhe ajudar, não existem santos ou deuses, aqui não há socorro. Por não ter socorro é que podemos nos reunir numa sala pequena como essa, se o Zen oferecesse milagres poderíamos ter um templo com dez mil lugares.