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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O budismo não é a religião do acreditar. É a religião de despertar.


Pergunta – O budismo acredita que possa existir algum tipo de entidade, como essa do mal?

Monge Genshô – O budismo não é a religião do acreditar. É a religião de despertar. Você tem evidências da existência dessa entidade?

Pergunta – Sim, dessa não, mas tive experiências de contato com entidades.

Monge Genshô –  Você teve, mas essa experiência é intransmissível, portanto, para os outros tanto faz, é irrelevante para o despertar. Se você não mostra evidências da existência ou não de entidades, isso não tem a menor importância. Mas mesmo que você prove que existem essas entidades, esse fato continua irrelevante para a prática budista.

O mesmo pode ser dito a respeito de deuses, eles existem ou não? Não existe nenhuma evidência, nenhuma forma de verificação. Se você acredita está bem e se não acredita também está tudo bem. Não faz diferença para o praticante do Zen. As vezes as pessoas estão cheias de sabedoria e vem à Sangha com suas convicções tentando convencer as outras pessoas. Isso mostra o quanto ela tem dúvidas de seus conhecimentos, o quanto lhes falta de certeza. Por que tenta convencer os outros? Para que mais pessoas pensem como você? Se você tem certeza e sua experiência for válida, não será preciso convencer ninguém de nada. A forma como as pessoas chegam à Sangha se assemelha a história do aluno que pede explicações para o mestre, mas não para de falar, então o mestre o convida para um chá e começa a encher sua xícara até transbordar. Ao ver que o mestre não vai parar o aluno diz, “Mestre, já está cheia, não cabe mais nada”. “Igual a sua mente, você sabe muito, não cabe mais conhecimento nela”. Não se pode colocar nada em uma mente cheia, é necessário se esvaziar primeiro. Você deve sentar para meditar e assumir sua ignorância, esse é o grande sábio.

 O Zen é muito simples, rico, mas simples. Como na historia do mestre que caminhando com seu aluno lhe pergunta; “Ouves o riacho?”, “Sim.”, responde o aluno. “Então não tenho mais nada pra te ensinar”, diz o mestre.  Quem faz retiro na Pousada Passarim sabe o que quanto é difícil escutar o riacho que passa ali perto.

Pergunta – Não sei se é a isso que o senhor se refere, mas as vezes na vida ficamos preocupados com verdades transcendentais e deixamos de lado o aqui e o agora, como na história de Budha em que há uma pessoa ferida com uma flecha e todos ficam se perguntando quem atirou a flecha, de onde veio, onde ele estava etc. e se esquecem de ajudar o ferido.

Monge Genshô – Sim, é verdade.

Pergunta – Ainda sobre a existência ou não de espíritos ou entidades. Há uma historia de Chico Xavier em que uma pessoa acusada de assassinato é absolvida porque Chico Xavier psicografou uma carta do assassinado dizendo que o réu não era culpado.

Monge Genshô – Sim, o que aconteceu foi que os jurados aceitaram uma carta escrita por Chico Xavier, onde o suposto assassinado dizia que aquela pessoa não era culpada pela sua morte. Mas você sabe se a carta era ou não verdadeira? O que sabemos é que os jurados, baseados em sua fé, aceitaram aquela carta e a consideraram uma evidência. É a evidência de que? Da fé dos jurados em Chico Xavier.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Acreditar que somos separados



Pergunta – Fiquei pensando no que o senhor disse semana passada, que somos atmosfera...Mas então me veio a idéia do carma, eu me identifico perfeitamente quando dizes que somos iguais e feitos da mesma substância, mas e o carma? O senhor falou do banco de plástico e do cabide, mas o tempo de decomposição de um é diferente do outro, eu tentei imaginar que somos atmosfera, mas onde entra o carma de cada um, como vai se formando ou de onde originou?

Monge Genshô – O budismo não responde esse tipo de pergunta, por exemplo, “qual a origem do universo?”, ou ainda, “Como surgiu o primeiro carma?”. O objetivo do Budismo não é dar explicações sobre coisas não verificáveis. Há uma história nos sutras que ilustra bem isso, adaptando: - Um homem levou uma flechada e um amigo chega perto e lhe pergunta, “quem atirou a flecha era alto ou baixo, magro ou gordo?” O homem então lhe responde, “qual a importância disso, apenas tire a flecha”, ou seja, todos estamos sofrendo mergulhados em nossas ilusões, que utilidade teria para nós saber a origem do universo? Sabemos que o carma surgiu em algum momento e de alguma forma, pronto. Explicações são objeto da ciência. Provavelmente tenha surgido naturalmente pelas irregularidades da vida e do universo. Há o primeiro ato e qualquer ato provoca um efeito. Tudo tem consequência. Todo e qualquer efeito tem uma causa anterior. Se você pergunta qual a primeira causa pode cair numa regressão sem fim e sem sentido. Há outra história também muito interessante sobre isso. Um rei perguntou à um Monge: “A Terra está apoiada sobre o que?”, e o Monge respondeu: “Sobre um grande elefante”. “E em baixo do elefante o que tem?”, “Uma tartaruga” respondeu o Monge. “E em baixo da tartaruga, o que tem?”, “Outra tartaruga, Majestade é melhor pararmos por aqui por aí em diante são só tartarugas”.

Pergunta – O senhor falou da mente que se engana, como eu sei que estou enganado?

Monge Genshô - O que você pensa sobre isso, como você sabe que sua mente está enganada? Como você sabe que está separada das outras pessoas? Você olha para todas essas pessoas e as vê separadas de você. Mas você não vive sem elas. Não vive sem nada que existe, sem sol, sem chuva, árvores, pássaros, na realidade você é tudo isso misturado. Se você pensar sobre o que é esse guardanapo de papel em sua mão, do que ele é formado? Chuva, sol, árvore, carbono, tudo igual a você. Você é tudo isso junto, no entanto você olha para tudo e diz: “Eu estou separado”. Isso em si só já é uma grande ilusão. Por acreditar nessa ilusão é que você nasce e morre. Chamamos isso de ignorância. Por sermos ignorantes nascemos e morremos e acreditamos estar separados.

O carbono presente nessa folha de guardanapo em sua mão é muito antigo, bilhões de anos, os resíduos de bilhões de anos e de resto de estrelas estão todos contidos aí nessa folha na sua mão. O que você diria se essa folha dissesse: “Eu sou um guardanapo separado”? Você não diria para esse guardanapo, para esse carbono que ele está enganado? Claro que diria, no entanto olhando para sua mão você pode dizer que ela é predominantemente carbono. É tão evidente que estamos mergulhados em uma ilusão, o simples fato de você estar vivo e dizer “eu sou” é uma grande ilusão. É um sonho. Eu sou um ser de sonho falando para seres de sonho. Se acordarmos veremos que é tudo igual, mas tudo diferente. “Antes de estudar o Zen, pensava que as montanhas eram montanhas e os rios eram rios. Quando comecei a estudar o Zen percebi que as montanhas não são montanhas e os rios não são rios. Agora que despertei, as montanhas são montanhas e rios são rios”, essa é uma famosa história Zen. São as mesmas montanhas e os mesmo rios, só que é tudo diferente. Por isso os mestres Zen dão tantas risadas. Em um diálogo com Shariputra, um homem da Escola de Zoroastro, que acreditava num Deus único e criador do universo, diz à Shariputra, “Nós temos a verdade e acreditamos em um Deus único”, então Shariputra ri e responde: “Ah, temos muito de deuses únicos aqui na Índia também”. (Gore Vidal)

Os homens criam muitas histórias para acreditar, todas são ilusórias. As crenças são ilusões, quando você chega no Budismo ele não lhe oferece nada em que crer ou algo do tipo, acredite no que o professor está dizendo. O Budismo é experiencial. Teste e experimente, se funciona pra você é bom se não funciona, desista. Se você não gosta do professor porque ele é muito desagradável dizendo coisas desoladoras, pode ir embora. O Budismo não faz força para atrair pessoas, mais ainda, costuma dizer coisas para as pessoas irem embora. O Zen Budismo é para despertar, não para acreditar. Uma pergunta que sempre surge é: “Em que que o Budismo acredita?”, a resposta, não sei, isso é problema seu que acha que é preciso alguma crença.

Sempre conto essa historinha ilustrativa, se vem alguém na Sangha dizendo que acredita em homenzinhos verdes de uma galáxia distante, não há problema algum nisso, podem sentar e meditar. Agora, se os homenzinhos falarem com você então o caso é grave e é melhor procurar tratamento. O zen tem sempre muitas histórias. Conta-se uma história de um monge que sentado em meditação dizia estar vendo os discípulos de Buda em seu redor cantando mantras. O mestre então mandou que os outros monges lhe dessem um banho de água gelada e dessa forma resolveu o problema.