As
indicações dadas nos ensinamentos são: “olhe é por aqui”, “treine assim”, “faça
assim”, “procure aqui e se você fizer desta forma terá condições de alcançar o
despertar”, mas quando alcançar o despertar para que servem os mantos? Os
símbolos, as roupas e o bastão? Eles são apenas meios hábeis. Eu estava dando
uma palestra para 30 padres e um deles me perguntou “o que é isso na sua mão?”
e eu disse “originalmente é um bastão para coçar as costas”. Com o tempo, como
tinham Mestres sempre o usando, ele se transformou no símbolo do Mestre. Mas
não é diferente do báculo do bispo católico, então eu disse “é um instrumento
litúrgico” e os padres começaram a rir compreendendo. Mas o que é mesmo? É meio hábil. O
manto é meio hábil, as pessoas fazem reverência para quem está usando o manto e
por causa disso elas acreditam mais em quem está usando o manto. O que é o
bastão? Um pedaço de madeira. O que é o manto? Embora maravilhoso, é um pedaço
de pano. Na realidade é isso. Mas por causa das nossas condições humanas e das
nossas ideias sobre características, então eles têm influência. É muito
interessante isso. Nós usamos esses meios, mas na verdade são só o que aparentam.(continua)
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segunda-feira, 23 de maio de 2016
quarta-feira, 16 de março de 2016
A importância dos meios hábeis
Palestra em Sesshin de Goiânia [novembro de 2015 - parte 5]
Monge Genshô: Por que existem os rituais? Por que existem as vestes? Por que existem todas essas coisas? São fenômenos culturais sim, no entanto eles são meios hábeis que permitem todas essas coisas, permitem as instituições, permitem uma espécie de poder porque nós temos uma atitude em relação a isso, somos nós que fazemos o rakusu, um objeto especial, porque nós costuramos longamente; cada vez que nós vamos costurar, vamos lá e fazemos três prostrações e pegamos o rakusu, acendemos o incenso e vamos costurar, e é complicado, dá muito trabalho. E por causa disso o rakusu torna-se um objeto especial, ele é um teste também de persistência. Muita gente começa a costurar o rakusu e não termina, mas sempre o motivo é mental, porque alguém que realmente já sabe fazer e resolve fazer o rakusu, poderia costurar em 2 dias. Normalmente a gente leva 2 a 3 meses costurando, e pode ser uma experiência muito interessante. O que quero dizer é que ele se torna sagrado porque você o torna, não porque ele é. Trata-se só de um pedaço de pano, assim como o manto de Buda, só um pedaço de pano.
Os rituais não são nada mais que caminhar, oferecer incenso, etc., etc. Como é que a cerimônia da manhã pode ganhar significado? Se você pensar: “estou recitando os nomes de todos os patriarcas de Buda, um a um, não são esquecidos como meus bisavós, porque lembro o nome deles, Shakyamuni Butsu Daioshô, Makakashô Daioshô, Ananda Daioshô, Shônawashu Daioshô, Ubakikuta Daioshô, mais de 2 mil anos, nós lembramos os nomes, meus bisavós não lembro, meus antepassados do Dharma, aí sim”. Este é o significado. (Continua)
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Os meios hábeis
P: Uma coisa que esse discurso budista sempre procura esclarecer (pelo menos nas experiências que já tive) é o não-julgamento de tais religiões, embora esteja implícito um certo julgamento de valor, evolução ou escala gradativa. Lembro de uma situação em que me disseram algo como: "Não julgamos tais práticas. Apenas seguimos o caminho do Buda e servimos de exemplo que eles possam tomar como referência". Essa ideia de "servir de exemplo" não carrega consigo certa lógica de superioridade? Ainda que somente no plano soteriológico, doutrinário e, até, metafísico...?
R: (Do Prof.Dr. Monge Ricardo Mário Gonçalves)
Muito pertinente seu questionamento sobre preconceito, que vou tentar responder.
Existe, no Budismo Mahayana uma chamada "Filosofia da Assimilação" pela qual lidamos com as divindades das demais religiões. Essa filosofia repousa sobre dois pilares:
1.O conceito de "hábeis meios salvíficos (sanscrito "upaya"; japonês "hôben").
2.Os conceitos de "essência e manifestações" (japonês "Honji-Suijaku).
Segundo o conceito de "hábeis meios salvíficos", os Budas e Bodhisattvas, em sua infinita Compaixão, assumem inúmeras formas e emitem discurso em vários níveis, adequando-se à índole e às características dos diferentes seres viventes para intruí-los e conduzí-los à Iluminação. Aplicando esse conceito "lato sensu", praticamente todas as religiões seriam "hábeis meios salvíficos", do ponto de vista budista, convergindo para o mesmo.
A teoria do "Honji Suijaku" que foi usada no Japão medieval para harmonizar o xintoísmo com o Budismo, diz que uma divindade cuja essência (Honji) é budista, faz emanar de si múltiplas manifestações (suijaku) que correspondem aos deuses nacionais dos diferentes povos, para conduzir esses povos ao Dharma. Para dar um exemplo, o mestre do Shinshû Zonkaku (século XIV)aplicou essa teoria ao Budismo Shin: aproveitando o fato do Buda Amida apresentar características "solares" - Shinran se referia a ele como "Sol da Sabedoria", interpretou a deusa solar do xintoísmo Amaterasu como uma emanação -suijaku - de Amida - honji.
Nada nos impede de aplicar essa filosofia aos Orixás e outras divindades do panteão afro-brasileiro, vendo nelas emanações dos Budas e Bodhisattvas.
Existe, porém, um único ponto em que o Budismo expressaria uma nítida reserva em relação aos cultos afro: trata-se do sacríficio sangrento de animais. A mesma reserva tinha o próprio Buda em relação aos sacrifícios adotados por alguns cultos hindus, como lemos nos Sutras. Em seu relacionamento com religiões étnicas, o Budismo sempre aconselhou a substituição de sacrifícios sangrentos por oferendas incruentas como lamparinas, flores, água, incenso, etc.
As religiões monoteístas procuraram eliminar os deuses das religiões étnicas, demonizando-os ou rotulando-os de falsos deuses. O Budismo, pelo contrário, absorveu-os, dando uma interpretação budista aos mesmos.
Concluindo, verificamos que o Budismo lida com as religiões étnicas não de um ponto de vista evolucionista, mas sim do ponto de vista oposto, ou seja, um emanacionismo. Usando uma metáfora taoísta muito empregada no Japão, Budas e Bodhisattvas "atenuam seu brilho" para "misturar-se à poeira" das divindades étnicas.
Gasshô,
Shaku Riman (nome monástico Shin do Prof)
(copiado de uma brilhante resposta do Prof em uma lista Shin)
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