Mostrando postagens com marcador religiões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador religiões. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Jamais tente impor seu ponto de vista


Monge Genshô: A opção budista é fazer um trabalho para mudar a própria mente, ampliar a visão e mudar o olhar. Um homem uma vez disse para mim: “você é um estratosférico” e eu compreendo que para ele eu seja assim. Nós tivemos essa discussão porque ele matou o gato da vizinha. O gato estava matando os passarinhos do jardim dele e a menina dona do gato o chamou de assassino. Eu lhe disse que o mundo podia ser diferente e que ele não tinha direito de interferir na relação entre o gato e os pássaros e foi nesse momento que ele me chamou disso. O que o budismo propõe é mudar a mente, mas se você quiser mudar a sociedade porque você sabe o que é bom para a sociedade também haverá um problema. Se eu chegasse e dissesse: “ninguém mais pode derrubar floresta e colocar boi, ninguém mais pode comer churrasco e quem fizer essas coisas eu fuzilo”, pronto, eu viro Che Guevara tentando impor minha visão de sociedade boa matando todo mundo que não concorde comigo. Temos que ter cuidado com o pensamento e como ele transcorre. A opção budista é: mudar as mentes, para mudar as pessoas e a sociedade, mas não imporei sobre ninguém, nem sobre nenhuma sociedade, a minha visão. Tenho que olhar para os ignorantes como eu olho para um pássaro que desce e come uma minhoca. Como eu vou dizer para o pássaro não comer minhocas? Não posso, essa é a natureza dele. Eu tenho que olhar para um homem ignorante e fazer o mesmo, não dizer nada, não cabe a mim dizer aos outros como eles devem viver. Isso é delicado e importante. O grande problema é acreditar que você sabe o que é certo e querer que a sociedade se comporte dessa forma.

Aluno: Posso influir?

Monge Genshô:
Você pode influir e fazer o seu discurso moderadamente, mas jamais tente impor, porque todos que tentam impor acabam recorrendo à violência. Já tivemos muito disso. Gente que queima livros, que fuzila, que tortura, etc, porque querem convencer os outros de qualquer jeito. As próprias religiões fazem isso. Se você não concorda, se torna um herege e será queimado na fogueira. Pensam: “podemos não te convencer, mas se isso acontecer você será calado”.(continua)

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O medo da morte



Aluno: Sobre o sofrimento com a morte, nós poderíamos dizer que esse sofrimento nos faz ficar apegados a uma vida e não vivê-la como deveríamos?

Monge Genshô: Enquanto você não experimenta a liberdade você tem medo. Libertar-se do medo de morrer é o requisito para viver plenamente. É o medo de morrer que cria as religiões. As pessoas querem uma solução para esse eu que quer viver para sempre. Paraíso, alma eterna, ressurreição, tudo isso foi criado para solucionar isso. 

Um dia duas senhoras foram até a minha casa e começaram a me explicar que estava prometido que 144 mil pessoas iriam ressuscitar e seriam salvas, enquanto os outros todos iriam ser aniquilados. Elas estavam me dizendo que eu poderia estar entre esses 144 mil. Eu disse para elas “mas isso não é felicidade, se eu ficar com os salvos sabendo que todos os outros foram destruídos eu não vou ser feliz. Prefiro uma outra ideia. Enquanto houver alguém sofrendo eu vou voltar para estender a mão e tirá-lo do sofrimento. Enquanto houver um para ser salvo eu não quero ser salvo”. 

No fim do zazen a gente faz esse voto do Bodhisattva. São quatro votos impossíveis, paradoxais, mas por isso são bonitos. Que graça teria ser do grupo dos salvos e ver os outros serem destruídos?

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SAINDO DO CASULO

Então poderíamos analisar um pouquinho mais essa questão da compreensão. Eu estava explicando há pouco, voltemos à analogia do mar, nós somos ondas tocadas pelos ventos do carma, quem é que formou as ondas? O carma. O carma é o vento que forma as ondas do mar. A onda é puro movimento, energia passando na água. Ela não é algo em si. Ela perpassa pelo mar sem mover a água para adiante. Se isso acontece, então nós, que somos manifestações cármicas, não somos mais do que energia passando na superfície do universo. Nós somos um movimento. O carma fez surgir essa manifestação como uma onda extemporânea, evanescente e fulgaz. Nós, como seres humanos, não temos a tranquilidade dos pássaros e dos peixes, para eles está tudo bem. Uma borboleta que a gente vê passando aqui pela floresta tem um ou dois dias de vida, é muito fulgaz aquele momento, mas ela não pensa nisso, ela apenas continua, a sua espécie se reproduz e nascem lagartas que vão gerar outras borboletas. Está tudo continuando, mas o homem se angustia pois, ele é uma onda que se apega ao seu “eu”.
Ele entende quem é, vê seu corpo funcionando, vê os outros e, quando ele tem essa percepção, este “eu” dentro dele não quer ir embora de jeito nenhum. Ele tem medo de qualquer alteração que surja por isso o homem tem medo de morrer e porque tem medo de morrer o homem criou as religiões. E as religiões sempre são soluções fantasiosas de continuidade. Continua em algum lugar ou de alguma forma, melhor do que aqui. Tem sempre uma promessa assim. E essas fantasias são extremamente atrativas pois, nós queremos acreditar nelas mesmo que no fundo nós duvidemos.
Nós queremos acreditar para que elas nos salvem da evanescência da nossa identidade, do nosso “eu”. Buda disse que era ilusão, que nós criamos ilusões, que nada disso era verdadeiro, não havia um “eu” real dentro das pessoas mas sim, só ilusões construídas e que portanto todas as coisas são vazias de um “eu”. Nós somos algo muito além disso, só que nós não percebemos e por isso ficamos presos a essa forma de manifestação cármica. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Você pensa por isso pensa que existe


Pergunta – O senhor pode falar mais um pouco sobre forma e vazio?

Monge Genshô – Forma é vazio e vazio é forma. Todas as coisas são vazias de um “eu”, não no sentido de não terem nada dentro, mas sim que não possuem um “eu” inerente. Todos somos vazios de um ”eu” inerente, mas nos manifestamos como pessoas. Toda a forma é vazia, mas se tirarmos a forma não sobra nenhum vazio, não existe algo que resta, pois a forma é vazio e vazio é forma.

Pergunta – Sobre o momento de estar presente. O pensamento sempre vem e nos leva junto. Depois de algum tempo é possível ficar presente sem ser levado pelos pensamentos? É possível segurar os pensamentos e não deixar que eles nos arrastem?

Monge Genshô – Porque você acha que é diferente de seu pensamento? Você e seu pensamento são uma única manifestação. Você só pensa que é você porque pensa. Você pensa por isso pensa que existe, Descartes estava enganado.

Pergunta – Então um peixe não sabe que existe?

Monge Genshô – Exatamente por isso, porque não sabe, é que ele está presente. Aquele que pensa que sabe não está presente, pois está pensando. “Os peixes são verdadeiramente peixes, pássaros são verdadeiramente pássaros, somente os homens não são verdadeiramente homens”.

Pergunta – É verdadeiro dizer que o Zen tem uma espécie de aversão à razão?

Monge Genshô – Pode, mas não significa que você esteja certo.

Pergunta – Uma vez que já somos e apenas não percebemos que somos, o despertar não é algo que tenha que ser atingido, mas sim realizado. Se já somos e já estamos onde deveríamos estar, não há nada a ser feito que demande tempo, pois o tempo e o espaço também são uma ilusão. Certo?

Monge Genshô – Já estamos, de certa maneira, despertos. Todos temos a condição de despertar. Podemos dizer que todos somos Budas e, apenas ainda não o somos completamente, porque ainda estamos vivendo num mundo de sonhos, um sonho muito nítido que nos ilude. A vida é um sonho nítido.

Pergunta – Se um peixe não sabe que existe e por isso é um desperto, ele se compara a um Buda? Existe uma semelhança?

Monge Genshô – Embora o peixe não esteja perdido, tem a obscuridade de um animal, lhe faltam sabedoria e clareza. O homem ganha o pensamento e o raciocínio e neles se perde. Perde a vida, o momento presente e tem medo da morte. Por isso não é um iluminado, mas quando um homem desperta, sua clareza ilumina o universo inteiro. Todo o universo que ele olha se ilumina junto.

Pergunta – Quando um animal se vê ameaçado, rapidamente foge. De certa maneira tem um medo instintivo que o alerta. Também possuímos esse medo, com a diferença que vivemos agarrados a ele. Um animal através desse sentimento, pode também ter um sentimento egóico, ou temos o mesmo sentimento deles, pois também possuímos um mundo animal dentro de nós?

Monge Genshô – Nós somos animais também, apenas gostamos de pensar que somos especiais. Não somos nada além de um primata que evoluiu um pouco mais e tem um cérebro melhor. Mas também porque pensamos, temos uma angústia existencial, pois descobrimos que vamos morrer. Essa é a essência da angústia humana. Foi esse questionamento que levou Buda a abandonar o palácio onde vivia e se perguntar - “Por que existe velhice, doença e morte”? Qual é o sentido da vida? Somos diferentes dos animais porque temos essa percepção do futuro que nos aguarda - velhice, doença e morte - e exatamente por isso sofremos. Por isso os homens criaram as religiões, pois querem escapar desta angústia, por isso procuram crenças. O Zen é a oportunidade de destruir as crenças, não existe no Zen qualquer tipo de dogma, é como disse Buda: “Não acreditem em mim, testem”.

sábado, 30 de agosto de 2014

Minha construção diária


 (continuação)
O budismo veio das vertentes das práticas indianas. Ele tem diferenças fundamentais em relação ao hiduísmo, sobretudo no que se refere à noção de “atman”, em que supostamente existe uma partícula fundamental dentro de mim que é permanente e continua. Deste conceito – atman – surgiu o conceito grego de alma. A linha budista é diferente. Buda ensinou que o que existe é “anatman”. Ou seja, não há uma partícula individual, separada dentro de você, que é você mesmo. O que Buda ensinou foi que nós todos somos um, e não há a noção de que eu estou separado de cada um dos outros. Aliás, este é o engano fundamental.
Diferentemente de setores da filosofia ocidental, em que Descartes começa o seu “discurso do método” dizendo cogito ergo sum – “penso, logo existo” –, para os zen-budistas as coisas ficam mais ou menos assim: - “eu penso, por isso penso que existo!”. Eu imagino que existo, e este meu “eu” é uma construção que eu faço diariamente.

Pensem, pela ótica budista, uma criança pequena sendo ensinada a ser um “eu”. Ela nasce, e quando ela começa balbuciar as primeiras diz simplesmente que “neném quer”. Neném não é um “eu”, mas nós ensinamos esta criança a assumir uma personalidade. – “Você é ‘eu’, é um indivíduo separado! Seu nome é este!”. A criança absorve isso, e assim começamos a criar a dualidade. Aliás, a nossa linguagem tem esta característica, sobretudo quando queremos entender as coisas. É daí que surgem as classificações, que fazemos questão de colocar na nossa “prateleira de conceitos”. – “Isto é isso ou é aquilo? Embaixo, ou encima? Certo ou errado? É direita ou é esquerda?”. Nós queremos entender tudo por classificações, colocando todas as pessoas em escaninhos. Não admira que algumas pessoas perguntem: - “Em que mês você nasceu? Ah, as pessoas que nasceram em tal mês, do dia tal ao dia tal, são isso...”. E aí colocam você naquele escaninho e dizem “você é assim, assim e assim...”. Isso ocorre porque a nossa maneira de conhecer o mundo é através da classificação.

Na verdade, e relativamente falando, nós somos todos sutilmente diferentes, e é daí que também surgem as diferentes correntes religiosas. E a dificuldade de existir um diálogo inter-religioso é exatamente a incapacidade de “abandonarmos os escaninhos”, as classificações que geram separação, distanciamento. Só ao abandonarmos isso é que a partir daí podermos dizer que todos nós temos similaridades, todos somos seres mergulhados em ilusões. E qual é o efeito da ilusão? É provocar sofrimento, a partir do momento em que eu acredito piamente numa única forma de interpretar o mundo, e tendo a qualquer custo encaixar todas as coisas e respostas nesta visão de mundo.
(continua)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A igualdade pregada por Buda


5) Mas, por exemplo, as regras sociais são ditadas por uma maioria, um grupo.

Monge Genshô – Você tem certeza? Moisés, por exemplo. Existiam as regras sociais da época e todos viviam de acordo com elas. O que ele fez? Desceu do Monte Sinai com os Dez Mandamentos e disse: “As regras agora são essas”. Foi a maioria de pessoas que decidiu ou foi somente ele? Quando Jesus Cristo surgiu, apresentou idéias muito revolucionárias para sua época e não foram idéias de um grupo, mas seu ensinamento. Em todos os lugares vemos isso, por exemplo, andando pelas ruas vemos as casas numeradas, mas antes de 1805 não eram assim. Quem mandou numerar as casas? Napoleão, mas essa não foi sua única contribuição, ele mudou todo um código civil que alterou o comportamento da sociedade. Antes dele somente os filhos mais velhos tinham direito a herança e essa mudança foi adotada por toda a Europa.  Se dependesse da maioria, as casas seriam numeradas por ordem de construção, como até hoje é no Japão, onde para encontrar uma casa tem que se ter um mapa. Por que os Estados Unidos e a Inglaterra têm um sistema de medidas diferente do resto do mundo? Porque o sistema métrico foi criado na revolução francesa por um pequeno grupo de sábios e como na Inglaterra não queriam usar o mesmo método, ficaram com medidas que representam um verdadeiro atraso como, por exemplo, um pé que era a medida do pé de Henrique VIII, uma polegada, uma jarda.

Buda também foi assim, ele disse que homens e mulheres são iguais espiritualmente, ambos podem  ser monges, oficiar cerimônias, ser mestres, castas são bobagens, os monges podem ser de qualquer casta, de qualquer sexo, a iluminação é igual para todos. Num mundo cheio de deuses deixou de falar neles, onde se falava em almas e espíritos os negou. Quantas religiões existem ainda hoje que dizem que homens e mulheres são diferentes para o sacerdócio? 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés



Porque temos uma mente que pensa, pensamos “eu sou”. Por isso Descartes disse, ”penso logo existo”. Para o Budismo a frase correta é, “Penso, por isso penso que existo”. Somos uma ilusão ambulante com um cérebro fabricando continuamente a noção de um “eu”. Por estarmos continuamente fabricando a noção de um “eu” nos perdemos da interconexão, interdependência e da unidade de todas as coisas.

Voltando à analogia da onda. Somos uma onda e não percebemos que somos mar. As ondas surgem e desaparecem, o mar não. As pessoas ficam tristes quando vêem uma onda morrer na beira da praia? Não, as pessoas olham o mar e dizem -”Que lindo”. Quando as pessoas olham as ondas quebrando, elas vêem o mar e sua verdadeira natureza, e sabem que as ondas são manifestações que surgem e desaparecem na sua superfície, sempre retornando a ser mar, a única realidade verdadeira. A dimensão suprema do oceano é o próprio oceano. As ondas vivem numa dimensão histórica, surgem e desaparecem, surgem e desaparecem continuamente. Isso é muito claro sobre o mar, não é? Mas não é igualmente claro sobre nós mesmos.

Vemo-nos como ondas, pensamos que existimos e temos medo de morrer na beira da praia. Porque não nos vemos como o próprio oceano, perdemos de visão nossa verdadeira natureza, só percebemos nossa natureza temporária, que surge e desaparece, sofremos e temos medo de morrer. Por termos esse medo e essa angústia existencial, inventamos religiões. As religiões existem para dar uma crença na continuidade do “eu”. Por isso inventamos almas e espíritos imortais. As religiões sempre fizeram isso. Os egípcios mumificavam seus corpos para sobreviver à morte. Os gregos acreditavam que após a morte os bons iriam para uma ilha onde a comida caía do céu e poderia se passar tempo discutindo filosofia. Para os Vikings o céu era uma eterna guerra de muitas batalhas e saques. Em todas as religiões há uma solução para salvar o “eu” após a morte.

O Budismo não se encaixa facilmente como uma religião porque não tem nenhuma crença desse tipo para oferecer. O Budismo lhe diz: “Você está iludido e estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés”.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Seja aquele que canta lá fora



As experiências místicas muito provavelmente não acontecem no zazen, as melhores experiências acontecem fora, depois quando estamos caminhando, ou em outra situação e percebemos que nossos sentimentos estão mudando, se fizermos tempo suficiente de prática nossos próprios sonhos mudam, nosso sono muda, mas nossos sonhos melhoram, porque nosso inconsciente muda. Agora temos apenas um dia mais ou menos de sesshin, esses primeiros zazen do primeiro dia é como se fossem uma limpeza, muitos pensamentos já vieram e se foram, muitos pensamentos que surgiram nos primeiros zazen já não tem mais sentido. Talvez agora estejam retornando imagens ou pensamentos que não são dos últimos dias, mas sim coisas mais básicas e também elas se tornarão cinzas, mas não se importem, não mexam com elas, apenas retornem para cá, para essa imensa dificuldade que é viver o momento presente, a verdadeira vida.

É necessário esquecer de si mesmo. Esquecer de mim, este que sempre quer explicar tudo, que sempre quer ter sucesso, que sempre vai procurar culpas, ou para se martirizar ou nos outros, esqueçam este eu, joguem fora, ele também é uma construção, também é imaginário. Por isso fazemos tudo junto, nunca separem-se do grupo para fazer algo sozinhos. Nós fazemos tudo juntos. Porque não somos ”eus” separados, somos participantes de um grande ser. Esse eu separado que nós tanto prezamos e acreditamos, esse é que nasce e morre, se nos livrarmos dele, nos livramos também de nascimento e morte. Isso é iluminação. Por isso a iluminação é um acontecimento de grande alegria, felicidade imensa, porque morte e nascimento desparecem e de repente você ganhou vida eterna.

Não sentimos nossa eternidade porque somos indivíduos, porque acreditamos em nós mesmo como pessoas separadas e até criamos religiões que querem que nós continuemos existindo iguais para sempre. E não existe nada igual para sempre, só existe um imenso universo do qual nós somos ondas participantes. Estamos nesse imenso fluxo. Somos como as pedras ou árvores lá fora, somos fenômenos no universo. Nós temos que nos sentir como o universo e para isso é necessário esquecermos de nós mesmos. E isso é imensamente difícil, a prática começa com “esqueça passado e futuro, sente-se e mergulhe e seja um com todas as coisas em volta”. Se você conseguir ser um, nem que seja por algum lapso de tempo, se por alguns segundos você for aquele que canta lá fora, mesmo que por um pequeno instante você terá enxergado o que é iluminação. Iluminação é sentir-se assim sempre.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Práticas diferentes para diferentes pessoas



Pergunta – Essa Mente é vida eterna?

Monge Genshô – Sim, é isso, é eterna, mas talvez a palavra vida aqui não seja adequada, porque vida está conspurcada pela idéia de eu ter uma vida. É como normalmente essa expressão “vida eterna”, sempre foi entendida no ocidente, todas as religiões teístas do ocidente pretendem responder essa pergunta – O que acontece depois da morte? E querem dar uma boa solução para depois. Por exemplo, os adventistas do sétimo dia crêem que os justos ressuscitarão, os Testemunhas de Jeová também. Ressuscitarão e ganharão novos corpos. Os mórmons também, suas almas são permanentes. Os adventistas crêem na ressurreição do corpo e na vida eterna com um corpo. Não só alma num mundo espiritual mas o corpo com tudo que um corpo tem. Isso é um desejo de permanência. No islamismo é ir para o paraíso, morrer e ter o que o sultão tem,  muitas mulheres. Uma vida paradisíaca dentro do imaginário dos nômades da época em que o islamismo foi criado, qual era o mundo perfeito? Viver como um sultão, ter um harem. Já que estavam no deserto, um mundo com água corrente em abundância. No paraíso cristão normalmente, os justos vendo à Deus, conservando a si mesmos e tendo prêmios de acordo com sua conduta na terra. Diferentes graus de felicidade dentro do paraíso. Pelo menos na mítica discrição de Dante em A Divina Comédia. O que eu queria demonstrar é que o que as religiões teístas tentam é dar ao homem uma esperança de continuidade de seu eu particular para uma eternidade feliz, dando à ele aquilo que ele ambicionaria.

A única grande religião que retira isso é o budismo ao dizer que a alma não existe e o grande engano é sua crença num eu particular. Mas o raciocínio todo, quando se lê um texto como esse, acaba sendo bastante complexo. O ensinamento do Dharma é difícil  de ser explicado. Por isso o budismo acabou desenvolvendo diferentes estratégias. Esse tipo de ensinamento aberto, não é secreto, mas de certa maneira auto secreto, porque você não consegue transmitir facilmente. Você explica e não é entendido. E a prática também é muito difícil. O budismo acabou tendo diferentes escolas, níveis de prática para diferentes tipos de pessoas. O budismo tibetano, por exemplo, é bem abrangente nesse aspecto, porque é o budismo de um país inteiro, então precisava solucionar esse problema, então qual é a prática que se dá para um camponês analfabeto? Dou uma repetição de mantras. Pode se iluminar assim? Por que não? Você dá essa prática que está dentro do alcance desse praticante. No caso do Zen, nós estamos aqui no sesshin fazendo uma prática que no oriente é quase privativa dos monges. Porque havia profundo interesse no ocidente, os mestres que chegaram começaram a ensinar aos alunos, a prática dos monges. E os leigos todos puderam praticar.

Pergunta – (...) Seria mais ou menos assim, as diferentes escolas, as diferentes formas de compreender, vão chegar num nível desses...

Monge Genshô – Você vai encontrar isso como no exemplo que dei do budismo tibetano, quando você chega no Dzogchen. O tipo de ensinamento é igual ao Zen, mas na prática normal, no Tibete você levaria vinte anos para chegar lá, fazendo passo a passo, subindo passo a passo num caminho programado. A essência, para nós entendermos, é que as diferentes escolas budistas foram construídas pelos mestres para atender as diferentes necessidades de diferentes culturas de diferentes povos de diferentes pessoas, portanto é necessário que existam. É necessário que existam os diferentes veículos. Num pensamento mais abrangente também é necessário que existam outras religiões para atender pessoas dentro daquelas necessidades.

Fim

Palestra ministrada em retiro (sesshin). Decupada da gravação por Chudô San.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Para onde vai meu punho quando abro minha mão?



Pergunta – O senhor falou de sofrimento humano, do que é esse sofrimento, ou por que as pessoas sofrem?

Monge Genshô – As pessoas sofrem porque pensam que a felicidade está na estabilidade das coisas, na permanência. Elas desejam que suas coisas durem para sempre, desejam saúde eterna, amor eterno, vão até uma igreja e juram amar até que a morte os separe. Só que todas essas coisas começam e terminam, logo, elas colocam sua felicidade na permanência e estabilidade das coisas quando estamos em um mundo de coisas instáveis e impermanentes.

Esse é um dos principais motivos do sofrimento. Também sofremos porque temos desejos e como os desejos as vêzes não são satisfeitos, sofremos. Sofremos também por aversão. Existem coisas de não gostamos e quando estas surgem, sofremos. Mas tudo isso acontece porque não sabemos viver com clareza e lucidez. Por não termos clareza e lucidez temos esse sofrimento que é característico das coisas cíclicas, que sobem e descem.

Algumas pessoas dizem que quando buda iluminou-se teria dito que a vida é sofrimento, na verdade a tradução mais correta seria que a vida é instável, insatisfatória e cheia de sobes e desces. Uma dia você está contente em outro triste, as vezes tudo está bem em outros nem tanto, um dia você tem dinheiro em outro perdeu tudo. Esta é a característica da vida, mas quem descobriu a felicidade interna consegue aceitar os sobes e desces da vida com naturalidade. Outra grande causa de sofrimento é acreditarmos em nós mesmos, acreditarmos em nosso “eu”. O “eu” é uma construção da mente que tem uma angústia existencial e não deseja morrer. Por isso o homem inventou crenças e religiões para ter onde se agarrar e dar uma solução ao problema da morte. Nessa ânsia as pessoas andam pelo mundo tentando se consolar e se satisfazer.

Por isso também o mundo está cheio de divertimento e entretenimento. O objetivo é se entreter para não pensar. O que acontece em uma festa ou show? Música tão alta que não se consegue conversar, drogas para embrutecer os sentidos e ficar alegre e para que o cérebro funcione de forma mais acelerada, as pessoas vivem no mundo procurando escapar da existência. O Zen diz: “volte para a existência e dentro dela descubra sua verdade, verdade que está além de nascer e morrer, além dos desejos e do seu “eu”, além dos apegos e da estabilidade, além das características cíclicas da vida”. Onde está o eixo no qual posso realmente me apoiar? Quando você finalmente encontrar esse eixo e mostrar ao seu mestre dizendo: “encontrei o eixo onde me apoiar!”. A pergunta que certamente virá dele será: “Quem está se apoiando?”.

Pergunta – O que são os cinco agregados?

Monge Genshô – Contato, sensação, percepção, formações mentais e consciência. Porque existe um existe o outro. Uma boa analogia é um punho fechado. Cada dedo é um agregado, então eu lhe pergunto: “Para onde vai meu punho quando abro minha mão?”.

(Perguntas em entrevista de Rev. Genshô gravadas e decupadas por Chudô San)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Sementes e crenças

                         Thomas Merton, monge trapista e o Dalai Lama monge budista

Voltando às sementes dentro de nós. Temos sementes adormecidas de tudo, potencial assassino, potencial para o ódio, potencial para a raiva, ambição desmedida, potencial avarento, todas as maldades do mundo estão dentro de nós. Costumamos pensar que somos bons. Dia destes vi uma declaração no facebook, que uso como instrumento para espalhar textos do Dharma, que dizia mais ou menos assim, “Eu queria que o mundo fosse como as pessoas do facebook, em todos os perfis as pessoas dizem que amam os animais, detestam a falsidade, amam a verdade, a honestidade, detestam a corrupção, é um mundo de pessoas maravilhosas”. Se o mundo fosse formado pelas pessoas que postam mensagens no facebook, seria um mundo perfeito. Pelo menos até lermos os comentários... Eu li uma vez sobre uma radio na Itália há alguns anos, que se propôs para o horror e vergonha do país, a permitir, por trinta dias, que todos os comentários e criticas feitos por telefone fossem divulgados ao vivo. Apareceram todo tipo de preconceito, racismo, ódio, insultos, palavrões... os sentimentos mais baixos dos seres humanos, todos expostos por todas as classes sociais e diferentes tipos de pessoas.

Hoje podemos ver isso na internet. Sem a censura, nos comentários, todos podem dizer o que pensam, surge a alma humana exposta. Na melhor hipótese, desde que sabemos que existem essas sementes e pensamentos dentro das pessoas, seria melhor que eles não fossem expressos, melhor que não fossem ditos, porque quando são ditos é como colocar água na semente, elas se tornam mais fortes, outras pessoas lêem e pensam a mesma coisa. Quando esse meu amigo falou sobre o ódio no Oriente Médio e, é claro ele pertencia a uma das facções, eu lhe escrevi dizendo que não era dessa forma que se deveria pensar, a questão era que enquanto as pessoas pensarem que existem Alauítas, Cristãos, Sunitas, Xiitas etc., enquanto eles acreditarem na diferença haverá luta e oposição. Se amanhã todos perdessem a memória, se cada um de cada grupo esquecesse tudo, olhariam uns para os outros e veriam que são todos iguais, semelhantes, habitantes da mesma região, comem o mesmo tipo de comida, falam línguas parecidas, a paz surgiria no mesmo instante. Nada saberiam de religiões passadas nem de identidades nacionais. Seria um único e grande país.

Deste modo vemos que as sementes são criadas pelo fenômeno da energia do hábito, da repetição e da crença. Se acreditarmos numa determinada diferença ela se consolida, como uma semente. As sementes estão dentro de todos nós. Boas e más sementes. Quando dizemos a prática do Zen, “a prática” significa regar as boas sementes e deixar as más sem água, sem terra fértil, de modo que não consigam germinar. Por tanto tempo, que fiquem esquecidas, de maneira que seja muito difícil faze-las despertar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Os meios hábeis


P: Uma coisa que esse discurso budista sempre procura esclarecer (pelo menos nas experiências que já tive) é o não-julgamento de tais religiões, embora esteja implícito um certo julgamento de valor, evolução ou escala gradativa. Lembro de uma situação em que me disseram algo como: "Não julgamos tais práticas. Apenas seguimos o caminho do Buda e servimos de exemplo que eles possam tomar como referência". Essa ideia de "servir de exemplo" não carrega consigo certa lógica de superioridade? Ainda que somente no plano soteriológico, doutrinário e, até, metafísico...?

R: (Do Prof.Dr. Monge Ricardo Mário Gonçalves)
Muito pertinente seu questionamento sobre preconceito, que vou tentar responder.
Existe, no Budismo Mahayana uma chamada "Filosofia da Assimilação" pela qual lidamos com as divindades das demais religiões. Essa filosofia repousa sobre dois pilares:
1.O conceito de "hábeis meios salvíficos (sanscrito "upaya"; japonês "hôben").

2.Os conceitos de "essência e manifestações" (japonês "Honji-Suijaku).

Segundo o conceito de "hábeis meios salvíficos", os Budas e Bodhisattvas, em sua infinita Compaixão, assumem inúmeras formas e emitem discurso em vários níveis, adequando-se à índole e às características dos diferentes seres viventes para intruí-los e conduzí-los à Iluminação. Aplicando esse conceito "lato sensu", praticamente todas as religiões seriam "hábeis meios salvíficos", do ponto de vista budista, convergindo para o mesmo.

A teoria do "Honji Suijaku" que foi usada no Japão medieval para harmonizar o xintoísmo com o Budismo, diz que uma divindade cuja essência (Honji) é budista, faz emanar de si múltiplas manifestações (suijaku) que correspondem aos deuses nacionais dos diferentes povos, para conduzir esses povos ao Dharma. Para dar um exemplo, o mestre do Shinshû Zonkaku (século XIV)aplicou essa teoria ao Budismo Shin: aproveitando o fato do Buda Amida apresentar características "solares" - Shinran se referia a ele como "Sol da Sabedoria", interpretou a deusa solar do xintoísmo Amaterasu como uma emanação -suijaku - de Amida - honji.

Nada nos impede de aplicar essa filosofia aos Orixás e outras divindades do panteão afro-brasileiro, vendo nelas emanações dos Budas e Bodhisattvas.

Existe, porém, um único ponto em que o Budismo expressaria uma nítida reserva em relação aos cultos afro: trata-se do sacríficio sangrento de animais. A mesma reserva tinha o próprio Buda em relação aos sacrifícios adotados por alguns cultos hindus, como lemos nos Sutras. Em seu relacionamento com religiões étnicas, o Budismo sempre aconselhou a substituição de sacrifícios sangrentos por oferendas incruentas como lamparinas, flores, água, incenso, etc.

As religiões monoteístas procuraram eliminar os deuses das religiões étnicas, demonizando-os ou rotulando-os de falsos deuses. O Budismo, pelo contrário, absorveu-os, dando uma interpretação budista aos mesmos.

Concluindo, verificamos que o Budismo lida com as religiões étnicas não de um ponto de vista evolucionista, mas sim do ponto de vista oposto, ou seja, um emanacionismo. Usando uma metáfora taoísta muito empregada no Japão, Budas e Bodhisattvas "atenuam seu brilho" para "misturar-se à poeira" das divindades étnicas.

Gasshô,
Shaku Riman (nome monástico Shin do Prof)
(copiado de uma brilhante resposta do Prof em uma lista Shin)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Correspondência entre monges - Karen Armstrong


> A publicação simultânea de Em Defesa de Deus,da teóloga Karen
> Armstrong, e do autobiográfico Hitch-22, do rebelde Christopher Hitchens,
> traz à tona novos argumentos para o debate religioso.
>
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110219/not_imp681716,0.php>

> - Gasshô
>
> Rev. Wagner (Sh. Haku-Shin)


Caríssimos Irmáos no Dharma,

A postagem dessa excelente matéria me estimula a fazer algumas considerações:

Conheço muito bem a obra da Profa. Karen Armstrong e a considero muito mais uma Historiadora das Religiões do que uma teóloga. Digo mais: uma excelente historiadora das religiões, uma digna continuadora e sucessora de Mircea Eliade, talvez o maior historiador das religiões do século XX. Ela foi freira católica, perdeu a fé, deixou o convento e, através do seu trabalho de pesquisadora e divulgadora da História das Religiões, ela recuperou a fé, mas não mais aquela fé convencional presa a uma determinada confissão religiosa. Trata-se de uma fé dirigida a uma religiosidade que transcende religiões constituídas e dogmatismos, uma Fé no Sagrado além de suas formas e manifestações convencionais, diria eu. Quem ler sua autobiografia espiritual "A Escada Espiral" perceberá mesmo que sua fé tem uma dimensão esotérica ou iniciática: a "Escada Espiral" é um velho tema iniciático. Esse livro nos permite entender a própria vida da autora como um percurso iniciático marcado pela experiência cde "morte-e-renascimento", ou, como prefere dizer a Autora, pela ascenção da Escada Espiral.
Dentre as várias obras de Karen Armstrong, recomendo a meus irmãos budistas sua biografia do Buda Histórico Shakya Muni: "Buda", Coleção "Breves Biografias", Rio, Editora Objetiva, 2001. É um livro bastante objetivo com uma bibliografia muito bem atualizada.
"Last, but not the least", confesso que gosto muito de ler autores ateus inteligentes como Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris e Michel Onfray. Recomendo particularmente o livro mais recente de Sam Harris, "A Morte da Fé", em que ele se mostra bastante próximo do budismo, a respeito do qual desenvolve uma argumentação extremamente interessante. Os ateus funcionam como uma espécie de espelho em que nós religiosos podemos ver refletidas nossas mazelas.

Gasshô,

Shaku Riman
(Shaku Riman é o nome monástico do Rev. Prof. Dr. Ricardo Mário Gonçalves)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Luto

,
Mensagem a uma pessoa que lamenta a morte de um ente querido e que sente-se desiludida quanto a todas as formas de religião, pergunta ela: - Seremos seres sem sentido em nossas vidas?
..........................
à luz do Dharma sofremos porque desejamos que as coisas impermanentes, como a vida, sejam permanentes, a solução para este sofrimento é a liberdade e esclarecimento da iluminação, com ela percebemos que não houve esta morte que você lamenta, que na verdade seu ente querido, assim como todos os seres, estamos aqui para sempre, pois partilhamos de uma unidade perfeita, sendo o nascimento e a morte nada mais que ilusões. Esta compreensão, quando completa, nos liberta de todo o sofrimento.
Olhe pela janela, junto com as folhas das árvores, ali, está seu ente amado, olhe suas mãos, ele é você, nada está perdido, porque nada surgiu, tudo sempre esteve aqui e nada vai embora da unidade.
Mas compreendo seu sofrimento e de todos que amam, e também me entristeço de que haja tais dores no nosso mundo, e tento entender que nós as criamos com nosso desejo de estabilidade e nossa compreensão falha.