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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A prática e o despertar


Vamos comentar um pouco sobre o que é a prática e o que é a iluminação.

Existem duas grandes correntes no Zen. Uma delas é a que considera que a prática em si, é a iluminação. Essa corrente tornou-se bastante forte e muito popular entre monges e mestres. Ela tenta deixar de lado o que é o “kensho” ou o “satori” como eventos místicos e psicológicos de grande profundidade, e essa corrente dentro da Soto Zen se concentra na prática em si. Ela diz - “não pense nada, não procure nada, não ambicione, você deve se concentrar na forma”- ou seja, entre no zendo com determinado pé, faça o gasshô concentradamente, procure a forma perfeita, sente-se ereto, quieto na melhor forma possível, não se mova, faça seu oryoki com a máxima precisão, faça seu mudra certo, não o deixe torto, não faça nada que não seja perfeito, procure a perfeição no seu ato, conserve sua boca fechada em silêncio, pratique o silêncio da prática do sesshin, não deixe sua mente se dispersar, tente seguir cada coisa com a máxima precisão.

Essa corrente portanto, diz que a prática é a iluminação. Não é propriamente a corrente da nossa linhagem. A nossa linhagem, a linhagem de Saikawa Roshi, é uma linhagem que enfatiza, que dá ênfase a um outro lado, que é do acordar, da experiência mística. O que caracteriza os mestres dessa corrente são as perguntas como – “Quem sou eu”? – ou – “Qual era minha face antes dos meus pais terem nascido”? – nossa corrente enfatiza a procura da experiência mística.

A “forma” nessa corrente é importante, mas se há qualquer engano ou erro, ele não é tomado como erro capital, mas sim um erro que acontece, “não faço perfeito, ninguém faz perfeito”. Tentamos, mas não é nada trágico se alguém troca o pé e entra na sala com o outro pé. Ele se distraiu, mas a gente sabe que naquele momento a mente dele viajou e ele não fez certo, e não fazemos disso um grande acontecimento. Em vez de dizer – “faça certo, preste atenção” - os mestres desta linhagem dizem – “tente, se errar não tem importância, na próxima vez a gente faz melhor". Os ritos e as cerimônias são importantes, são relevantes, mas não são a essência da prática, o sentido é a experiência mística, é ela a iluminação.

Então você procura a experiência, mas como é que se procura a experiência? Procura-se a experiência através do zazen e de procurar acordar, enxergar a realidade da vida através de uma experiência pessoal. Difícil de descrever, mas é caracterizada por emoções, por percepções, insights profundos. As descrições são um tanto obscuras como dizer - “subitamente céus e terra desabaram com estrépito” ou “uma luz dourada envolveu todas as coisas” ou ainda “subitamente uma grande alegria me invadiu e todas as coisas que pareciam ter importância, deixaram de ter. As coisas da vida passaram a ser apenas eventos como de um sonho, e enxerguei o fundo da vida. E o relevante nesse “fundo da vida” é algo diferente do que pensara até então”, descrições como ”sinto-me conectado a todas as coisas e o receio da morte desapareceu completamente”.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Vencer os outros


Pergunta – Hoje está chovendo e muitas pessoas dizem que é um tempo feio. Isso simboliza mais ou menos o que o senhor estava dizendo, pois muitas vezes em nossas vidas as coisas não acontecem como se espera. Aceitar as coisas como realmente são é aceitar a imperfeição?

Monge Genshô – Essa noção de perfeito e imperfeito, bonito ou feio, certo ou errado, do ponto de vista do Zen não acontece. Só percebemos o bonito porque existe o feio. Eles são interdependentes e não estão separados. As coisas tais como são, são integradas. Dividir as coisas em certo e errado, bom e ruim, perfeito e imperfeito, implica em uma mente dualista.

Pergunta – Se tenho a intenção de fazer algo bem feito, mas não consigo realizar desta maneira, qual o julgamento disto?

Monge Genshô – O perfeito depende do imperfeito, não podemos pensar em perfeito, pois o perfeito tem dentro de si o imperfeito. É como o jardim bem varrido. A perfeição do jardim bem varrido está no fato de existirem algumas folhas caídas. É como alguém que não quer ter um gramado porque ele está sempre crescendo, tem que cortar a grama mensalmente, tem formigas, ervas daninhas, então para resolver esse problema ele manda cimentar o pátio, desta forma ele tem realmente um pátio perfeito. Horrível, mas perfeito.

Pergunta – Eu entendo que passa a ser totalmente mecânico, por exemplo, uma busca por marcas em nível de competições, como fica esse aspecto da imperfeição numa competição?

Monge Genshô – Esse aspecto de competição esconde algo muito ruim, que é um grande ego, um desejo de ser melhor e de destaque. Isso como temos visto, pode levar a uma grande doença. Vejam as olimpíadas que começando como atividade essencialmente amadora tornou-se uma competição de tal nível que os atletas desde crianças são preparados sob um treinamento rigoroso que beira uma verdadeira tortura para chegarem aos primeiros lugares. Drogas são ilegalmente usadas para melhorar desempenho. Então, o que começou como disputa totalmente amadora tornou-se uma disputa egóica entre países e pessoas. Muitas pessoas perderam suas vidas,  como acontecia na Alemanha Oriental onde as atletas eram submetidas a tratamento com hormônios masculinos, transformando totalmente e de forma definitiva seus organismos. O ganhar, o vencer os outros, tem dentro de si uma doença. É uma manifestação doentia do egoísmo. Esta não é uma busca de perfeição desejável, pois leva a uma loucura. Tudo tem um limite. O que todos deveriam estar fazendo é se perguntado o que é a felicidade? Como é ter uma vida feliz? Mas mesmo isso tem um limite. A busca da iluminação é algo desejável, mas sentar-se no zafu até que suas pernas percam as funções e você ficar paralítico é loucura. Desejar tornar-se uma pessoa perfeita também é loucura. Não estamos atrás de um jardim cimentado. Estamos atrás de algo belo, uma expressão da vida e isso inclui perfeição e imperfeição. Para o zazen é necessário uma postura firme e ereta, mas se alguém cansa e se curva, dorme ou troca de posição, não devemos falar nada. Somos seres humanos e desta forma devemos nos expressar, isso significa que somos imperfeitos e essa imperfeição é muito bonita.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Além de todo sofrimento



Pergunta: Talidade então seria a condição para a quebra das ilusões . O aprofundamento da prática permite você vislumbrar momentos de talidade. Mas a quebra das ilusões pode gerar também um sentimento de desencanto, um sentimento desconfortável, não é?
Monge Genshô: quando surge este sentimento desconfortável de desencanto é porque não fomos longe o suficiente.Pode surgir, por exemplo, na prática, um sentimento de grande tristeza. Em geral o sentimento que surge primeiro é de alegria e contentamento.  Os sentimentos de tristeza surgem mais adiante, sentimentos de grande tristeza com o sofrimento do mundo, com o fato da vida na terra ser tão cheia de coisas insatisfatórias ou mesmo de maldades. Agora, isto surge porque o praticante está imerso na noção de sujeito e objeto. Então  ele aqui está vendo o sofrimento lá nos outros seres. É necessário ir mais fundo porque indo mais fundo você ultrapassa a noção de sujeito e objeto. Ultrapassando a noção de sujeito e objeto surge uma noção de sacralidade de toda a existência e uma percepção de perfeição de tudo, mesmo o que parece mau, como perfeito. Dando um exemplo mais claro: nós olhamos para a vida humana com seu sofrimento, morte, desgraça e apodrecimento e todas as coisas que acontecem conosco, nós olhamos isso como terrível. No entanto essas mesmas pessoas que olham o sofrimento e a morte dos seres humanos e se entristecem, andam numa floresta no outono, quando as folhas caem, secam, apodrecem e morrem, olham para tudo como muito lindo. Uma visão iluminada verá tudo o que acontece com os seres humanos, mesmo a morte, mesmo o desfalecimento, mesmo o apodrecimento, tudo, como parte de um ciclo e um processo, como quando olhamos a floresta no outono. Sabemos que flores novas nascerão na primavera. Que as árvores todas ficarão secas, mas que isso não é triste. É muito lindo! E é muito lindo também quando a primavera surge e as flores novas surgem. Embora olhando para essas folhas saibamos que elas cairão, morrerão. Nós só vemos o sofrimento e a infelicidade no mundo porque não enxergamos o ciclo e o processo. Nós olhamos a vida com os nossos próprios olhos e vemos o sofrimento e a morte dos outros, nós vemos o espelho do que vai acontecer conosco, mas somos incapazes de enxergar todo o ciclo. E o ciclo completo não é triste. Ele é o que é sem nenhuma interpretação. Isso é talidade também. As coisas são tais como são, já perfeitas em si mesmas.  Então tudo que nós vemos assim com desencanto é também uma interpretação e uma ilusão. Por isso a mente iluminada vê beleza e é profundamente feliz porque supera toda tristeza. No Sutra do Coração toda a dor e agonia desaparecem quando o bodhisattva vê a vacuidade. E enxergando a vacuidade dos agregados, vendo que tudo surge no vazio (sem nenhum eu inerente em nada, tudo interconectado e interdependente),  quando o bodhisattva vê essa vacuidade, vê que tudo é fenômeno, (onda na superfície) então ultrapassa toda a dor e agonia. É difícil, eu sei, é muito sofisticado.