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quarta-feira, 11 de março de 2015
Procurando o sucesso
Palestra dia 05 outubro 2013 – degravada por Shoshin (Liliane)
Monge Genshô – algum tempo atrás uma pessoa escreveu para perguntar por que o nome daquele livro que eu escrevi 'O pico da montanha é onde estão os meus pés'' não era 'No pico da montanha estão os meus pés', porque quando chegamos em algum lugar a preposição necessária é 'em', e eu respondi que é proposital, pois tentei dizer que todos os lugares onde colocarmos os nossos pés são o pico da montanha. Porque o problema da ambição de realizar-se e de obter algum sucesso, alcançar algum determinado lugar e lá colocar os nossos pés, e imaginamos que quando chegamos naquele lugar lá então estaremos felizes, teremos nos realizado, seremos vencedores na vida.
E na verdade essa ambição revela-se constantemente falsa, porque quando encontramos uma pessoa e perguntamos 'você realizou o que você ambicionava na vida?' ela nos diz 'ah, eu cheguei lá', mas aquele chegar não se traduziu numa felicidade completa, porque quando chegamos a sensação é 'é só isso? Era isso o que eu queria?'
Um dia desses eu assisti a um filme antigo, bem antigo, e nele uma moça vai para Holywood e consegue se tornar uma estrela, e acaba ganhando um Oscar, mas nada do que ela ambicionava parece a vida que ela desejava. E o marido dela era um ator, e ele havia conseguido todo sucesso, era um galã do cinema e todos o invejavam, e ele era rico, mas ele se sentia em decadência e começou a beber. Aí, no final do filme, ele, sentindo que está destruindo a vida dela, se joga no mar e se afoga. Constantemente nós vemos as histórias serem assim, como a de Alexandre, o Grande, que quando viu que não tinha mais nada para conquistar, no mundo conhecido, chorou.
Quando nós ambicionamos qualquer coisa e chegamos lá, como quando ambicionamos nos graduar na universidade e obtemos o diploma e naquele dia da diplomação parece uma grande coisa, todos tiram fotos e há cumprimentos e festejos, parece uma coisa maravilhosa. No dia seguinte, começou a vida de novo, e nós somos demandados a sermos profissionais, e é como se tivesse começado tudo de novo, e o pico da montanha está longe. E quando atingimos o sucesso profissional, olhamos para aquele sucesso profissional e ele não é suficiente, sempre há uma sensação de que temos que escalar algo, chegar a um outro lugar que não era bem aquele onde estávamos, e por isso nós olhamos pessoas que seriam aparentemente invejáveis, mas começam a usar drogas, ou são infelizes, porque na realidade elas sempre ambicionaram chegar em algum lugar, mas o lugar onde elas chegam não é aquilo que imaginavam.
Então o grande problema é nós entrarmos nas livrarias e vermos os livros de auto-ajuda que falam sobre vencer, ser bem sucedido, ser vitorioso, ou enriquecer, ou como um que eu vi esses dias, ter a mente de um milionário. Então, quando eu coloquei o título desse livro 'O pico da montanha é onde estão os meus pés' eu queria dizer que a sensação correta é agora, nesse instante, aqui é o pico da montanha, eu tenho que estar feliz agora, exatamente nesse instante, não há nada para alcançar. Tudo o que existe para alcançar já está alcançado, na verdade nós só caminhamos a vida a cada dia dando um passo e fazendo aquilo que devemos fazer, e a sensação deve ser 'agora, aqui onde estou, é o pico da montanha'. Se não for agora o pico da montanha, então eu estou fazendo alguma coisa errada, porque não é um sucesso no futuro que nós temos que tentar conseguir, nós temos que nos sentir realizados agora. Se não formos realizados agora, então está errado, porque não podemos pensar que há algo a alcançar no futuro.
Quando nós sentamos em zazen essa lição está implícita. Nós sentamos e dizemos 'não cogite do passado, não cogite do futuro, fique aqui, agora', aí você tem que se sentir feliz, completo, um ser pleno naquele agora. Este agora é que é o pico da montanha. Quando você está sentado você tem que se sentir a própria montanha. Não há nada para alcançar, tudo já está alcançado. Essa lição é extremamente importante, porque se você alcançar isso, sabe a cada dia exatamente como deve agir e como deve fazer, e cada dia será pleno, feliz, completo. Quando corremos atrás de um sucesso no futuro, corremos atrás de mais um sonho, e esse sonho quando alcançado inevitavelmente se mostra fumaça. E esse é um tipo de pensamento com o qual ninguém está acostumado no mundo ocidental, nem no mundo oriental, vamos lá e vemos esses livros de auto-ajuda e eles todos estão dando lições erradas, ninguém ficará feliz com esse tipo de sucesso. Simplesmente a cada montanha que escalar vai olhar à frente e verá outra montanha. Mais alto, sempre difícil, e quando terminamos a vida assim, parece que não chegamos lá. Por isso nós temos que chegar no pico da montanha agora. (continua)
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terça-feira, 29 de outubro de 2013
Vencer os outros
Pergunta – Hoje está chovendo e muitas pessoas dizem que é um tempo feio. Isso simboliza mais ou menos o que o senhor estava dizendo, pois muitas vezes em nossas vidas as coisas não acontecem como se espera. Aceitar as coisas como realmente são é aceitar a imperfeição?
Monge Genshô – Essa noção de perfeito e imperfeito, bonito ou feio, certo ou errado, do ponto de vista do Zen não acontece. Só percebemos o bonito porque existe o feio. Eles são interdependentes e não estão separados. As coisas tais como são, são integradas. Dividir as coisas em certo e errado, bom e ruim, perfeito e imperfeito, implica em uma mente dualista.
Pergunta – Se tenho a intenção de fazer algo bem feito, mas não consigo realizar desta maneira, qual o julgamento disto?
Monge Genshô – O perfeito depende do imperfeito, não podemos pensar em perfeito, pois o perfeito tem dentro de si o imperfeito. É como o jardim bem varrido. A perfeição do jardim bem varrido está no fato de existirem algumas folhas caídas. É como alguém que não quer ter um gramado porque ele está sempre crescendo, tem que cortar a grama mensalmente, tem formigas, ervas daninhas, então para resolver esse problema ele manda cimentar o pátio, desta forma ele tem realmente um pátio perfeito. Horrível, mas perfeito.
Pergunta – Eu entendo que passa a ser totalmente mecânico, por exemplo, uma busca por marcas em nível de competições, como fica esse aspecto da imperfeição numa competição?
Monge Genshô – Esse aspecto de competição esconde algo muito ruim, que é um grande ego, um desejo de ser melhor e de destaque. Isso como temos visto, pode levar a uma grande doença. Vejam as olimpíadas que começando como atividade essencialmente amadora tornou-se uma competição de tal nível que os atletas desde crianças são preparados sob um treinamento rigoroso que beira uma verdadeira tortura para chegarem aos primeiros lugares. Drogas são ilegalmente usadas para melhorar desempenho. Então, o que começou como disputa totalmente amadora tornou-se uma disputa egóica entre países e pessoas. Muitas pessoas perderam suas vidas, como acontecia na Alemanha Oriental onde as atletas eram submetidas a tratamento com hormônios masculinos, transformando totalmente e de forma definitiva seus organismos. O ganhar, o vencer os outros, tem dentro de si uma doença. É uma manifestação doentia do egoísmo. Esta não é uma busca de perfeição desejável, pois leva a uma loucura. Tudo tem um limite. O que todos deveriam estar fazendo é se perguntado o que é a felicidade? Como é ter uma vida feliz? Mas mesmo isso tem um limite. A busca da iluminação é algo desejável, mas sentar-se no zafu até que suas pernas percam as funções e você ficar paralítico é loucura. Desejar tornar-se uma pessoa perfeita também é loucura. Não estamos atrás de um jardim cimentado. Estamos atrás de algo belo, uma expressão da vida e isso inclui perfeição e imperfeição. Para o zazen é necessário uma postura firme e ereta, mas se alguém cansa e se curva, dorme ou troca de posição, não devemos falar nada. Somos seres humanos e desta forma devemos nos expressar, isso significa que somos imperfeitos e essa imperfeição é muito bonita.
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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Oito poemas para treinar a mente
Os Oito Poemas para Treinar a Mente
Considerando todos os seres sensíveis
Superiores até à pedra preciosa que concede desejos,
Que eu sempre os preze mais que tudo
Para atingir a meta mais alta.
Quando em companhia dos outros,
Sempre verei a mim mesmo como o menor de todos
E, do fundo de meu coração,
Todos me serão caros e estarão acima de tudo.
Vigilante, no momento em que surgir uma ilusão
Perigosa para mim e para os outros,
Eu a enfrentarei e a afastarei do caminho
Sem demora.
Quando encontrar pessoas de má índole,
Dominadas por atitudes violentas, negativas, e por sofrimentos,
Serão as que prezarei como raras,
Como se encontrasse um tesouro precioso.
Quando as pessoas, por inveja, me maltratarem,
Insultarem ou outras coisas assim,
Aceitarei a derrota
E o oferecerei a vitória aos outros.
Quando alguém a quem fiz bem
E de quem muito esperei
Causa-me um mal indizível,
Vejo nele meu companheiro espiritual.
Em suma, direta e indiretamente, ofereço
Todo bem e felicidade a todos os seres sensíveis,
Minhas mães;
Que eu assuma em segredo a responsabilidade por
Todas as suas ações nocivas e sofrimentos.
Que eles não sejam maculados pelas noções
Das oito questões impuras.
E, conscientes de que todas as coisas são ilusórias,
Que possam, desimpedidos, livrarem-se da servidão.
Fonte: Livro de dias : mensagens de sabedoria e compaixão / Sua Santidade, o Dalai Lama ; tradução de Maria Luiza Newlands. – Rio de Janeiro : Sextante, 2001.
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