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segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Sentido da Vida



No mundo de hoje é mais fácil uma pessoa morrer de suicídio do que em guerras, ou assassinada. No fundo, o mundo mudou imensamente, mas nós não conseguimos enxergar. Em contrapartida, a angústia existencial aumentou. Na Coreia do Sul, na década de 1980, o índice de suicídios era relativamente baixo. Naquela época, A Coreia do Sul tinha uma renda semelhante à do Brasil. Só que dessa época para cá a Coreia do Sul enriqueceu, então as pessoas têm comida, emprego e educação como nunca tiveram antes. 30% das pessoas têm cursos universitários, o crime é baixo, o nível de vida é alto e o índice de suicídios triplicou.

Essa angústia existencial é a mesma que Buda sentiu. "Qual é o sentido da vida se eu vou envelhecer, adoecer e morrer? O que é essa vida? Por que nós existimos assim?". Essa foi a essência da angústia de Buda, foi por isso que ele foi meditar.

Nós não podemos nos conformar com a ideia de que a nossa vida já está certa, ou que as coisas são como nós vemos. Nós temos que compreender que existe algo muito mais profundo para ser descoberto, e que as nossas vidas não podem ser desperdiçadas. Por isso aquela oração no fim do dia: “eu vos peço encarecidamente, não percam tempo. O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde, cada um de nós deve se esforçar para despertar”, porque que sentido teria a vida vivida num pesadelo? Que sentido tem viver a vida se enganando ou tentando se distrair para não ver a vida? Eu não quero ver a vida, então vou a uma festa com uma música bem alta com a qual eu não consiga nem conversar, apenas deixarei minha libido se manifestar, me embebedarei, me entorpecerei, e no dia seguinte terei dor de cabeça, talvez até vomite. E depois vou contar: “ah, eu estava muito louco, foi muito divertido”. Do ponto de vista de Buda isso é o inferno, e sua vida no palácio com diversão, amantes, bebidas, aquela vida era um inferno, porque ela não realizava mais nada além de velhice, doença e morte.

sexta-feira, 30 de março de 2018

O Sentido da Vida




A questão sobre esse tema bem importante do inominado, do inconcebível, da vacuidade, é que quando nós enxergamos nossa verdadeira natureza, ou seja, que nós somos manifestações desta grande base, aquilo que nós estávamos procurando como sentido desaparece, porque esta questão de “eu estou procurando um sentido para minha vida” também é uma pergunta falsa, porque é uma pergunta baseada na noção de um eu pessoal. Não tem sentido procurar um sentido para a minha vida, mas tem muito sentido que eu transforme a minha manifestação cármica em uma vida com sentido, realizando e fazendo coisas que dão valor a essa vida. Mas, essencialmente, não tem como nós, manifestações cármicas, irmos embora desse universo, isto nos remete a questões como por exemplo: “suicídio é uma saída?”. Não, suicídio não é saída para coisa nenhuma; você é uma onda cármica, se suicida, o que vai acontecer? Essa onda cármica continua, se manifesta de novo com todos os problemas presentes e mais um. Todos os sofrimentos que você causou com o seu suicídio e ainda com uma tendência para repetir esse procedimento, uma vontade de fazer de novo. Você vê isso como uma saída e pode fazer isso um milhão de vezes sem jamais resolver o problema. Ou seja, só teria sentido tentar resolver o problema mesmo.

[Trecho de Palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quarta-feira, 7 de março de 2018

Eu tenho a capacidade de ficar sem nada





Pergunta: Sobre a questão da experiência, uma vez eu li sobre um problema seu. O senhor fala que você voltou para casa, pensando naquilo tudo e foi sentar em zazen. Então gostaria que o senhor falasse pensando em alguém que não é budista, ou não tem uma prática meditativa, como essa pessoa pode dar um primeiro passo para começar a lidar com as crises da vida?

Monge Genshô: Essa foi uma experiência bem interessante, porque foi um insight. Eu estava numa empresa onde eu era avalista de operações e houve um desfalque. Um sócio roubou o dinheiro. Eu voltei para casa dirigindo o meu carro e pensando “a empresa vai à falência, meu nome será arrastado, perderei crédito, vai acontecer mais isso, isso e aquilo”. Toda a minha vida profissional estava vindo abaixo naquele instante e fui para casa pensando no tamanho desse desastre e em como eu não sabia como sair dele. Quando cheguei em casa, sem saber o que fazer, peguei um zafu (almofada), coloquei no quarto, fechei a porta e me sentei. Não demorou muito para me vir o seguinte insight: “eu posso falir, eu posso perder meu nome, meu crédito, eu posso! Eu tenho essa capacidade. Então não tem problema, porque eu tenho a capacidade de ficar sem nada”.

Levantei-me consciente dessa capacidade de perder tudo, peguei o carro e dirigi de volta para a cidade onde estava a empresa. Cheguei e tomei providencias: vamos vender o estoque, vamos negociar com os credores, vou sentar na frente de cada um deles e explicar que houve um desfalque e que quero que eles me ajudem a resolver, vamos vender as máquinas, etc. Resolvi. Resolvi tudo.

Semanas depois eu estava vendo televisão e vi uma entrevista de um diretor de uma empresa contanto sobre um projeto, olhei e pensei que poderia fazer melhor. Liguei para ele, me apresentei e disse que tinha uma ideia sobre o projeto que ele estava querendo fazer. Sentamos juntos e estruturamos, pedi porcentagem de remuneração sobre o resultado, os sócios conversaram e algumas semanas depois fechamos o contrato. Vendemos 2 milhões de dólares e eu ganhei um percentual sobre o valor. Essa era uma empresa de turismo. Naquela época sofríamos com uma inflação violentíssima com o governo Collor e eu bolei um sistema de poupança turismo para eles e nós vendemos isso para as pessoas. Deu muito certo, foi o primeiro projeto de poupança turismo. Isso foi em 1989. Então faz muito tempo, mas a história é interessante no sentido de: enquanto eu pensei que era um problema enorme, ele me esmagava. Quando eu pensei “posso perder tudo”, o problema se resolveu. Então se você pensa “eu posso morrer”, está resolvido. Não existe um problema tão grande que seja superior ao seu próprio desaparecimento, mas isso é inevitável, então não existe um problema real.

Nessa época eu não era Monge, não tinha nem o meu rakusu, só sabia o que era sentar em zazen e já me foi possível resolver um problema assim, através de um insight. Isso é possível. Espero que vocês achem esse tipo de história interessante, mas provavelmente todas as pessoas já passaram por algum momento na vida onde pensaram: minha vida está sem sentido, destruída, ou qualquer coisa assim, mas isso não é verdade. Não é verdade se você olhar com outros olhos.