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quarta-feira, 7 de março de 2018

Eu tenho a capacidade de ficar sem nada





Pergunta: Sobre a questão da experiência, uma vez eu li sobre um problema seu. O senhor fala que você voltou para casa, pensando naquilo tudo e foi sentar em zazen. Então gostaria que o senhor falasse pensando em alguém que não é budista, ou não tem uma prática meditativa, como essa pessoa pode dar um primeiro passo para começar a lidar com as crises da vida?

Monge Genshô: Essa foi uma experiência bem interessante, porque foi um insight. Eu estava numa empresa onde eu era avalista de operações e houve um desfalque. Um sócio roubou o dinheiro. Eu voltei para casa dirigindo o meu carro e pensando “a empresa vai à falência, meu nome será arrastado, perderei crédito, vai acontecer mais isso, isso e aquilo”. Toda a minha vida profissional estava vindo abaixo naquele instante e fui para casa pensando no tamanho desse desastre e em como eu não sabia como sair dele. Quando cheguei em casa, sem saber o que fazer, peguei um zafu (almofada), coloquei no quarto, fechei a porta e me sentei. Não demorou muito para me vir o seguinte insight: “eu posso falir, eu posso perder meu nome, meu crédito, eu posso! Eu tenho essa capacidade. Então não tem problema, porque eu tenho a capacidade de ficar sem nada”.

Levantei-me consciente dessa capacidade de perder tudo, peguei o carro e dirigi de volta para a cidade onde estava a empresa. Cheguei e tomei providencias: vamos vender o estoque, vamos negociar com os credores, vou sentar na frente de cada um deles e explicar que houve um desfalque e que quero que eles me ajudem a resolver, vamos vender as máquinas, etc. Resolvi. Resolvi tudo.

Semanas depois eu estava vendo televisão e vi uma entrevista de um diretor de uma empresa contanto sobre um projeto, olhei e pensei que poderia fazer melhor. Liguei para ele, me apresentei e disse que tinha uma ideia sobre o projeto que ele estava querendo fazer. Sentamos juntos e estruturamos, pedi porcentagem de remuneração sobre o resultado, os sócios conversaram e algumas semanas depois fechamos o contrato. Vendemos 2 milhões de dólares e eu ganhei um percentual sobre o valor. Essa era uma empresa de turismo. Naquela época sofríamos com uma inflação violentíssima com o governo Collor e eu bolei um sistema de poupança turismo para eles e nós vendemos isso para as pessoas. Deu muito certo, foi o primeiro projeto de poupança turismo. Isso foi em 1989. Então faz muito tempo, mas a história é interessante no sentido de: enquanto eu pensei que era um problema enorme, ele me esmagava. Quando eu pensei “posso perder tudo”, o problema se resolveu. Então se você pensa “eu posso morrer”, está resolvido. Não existe um problema tão grande que seja superior ao seu próprio desaparecimento, mas isso é inevitável, então não existe um problema real.

Nessa época eu não era Monge, não tinha nem o meu rakusu, só sabia o que era sentar em zazen e já me foi possível resolver um problema assim, através de um insight. Isso é possível. Espero que vocês achem esse tipo de história interessante, mas provavelmente todas as pessoas já passaram por algum momento na vida onde pensaram: minha vida está sem sentido, destruída, ou qualquer coisa assim, mas isso não é verdade. Não é verdade se você olhar com outros olhos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu não sou assim...



(continuação)  Monge Genshô: Uma vez, 20 anos atrás, um homem num posto de gasolina desceu do carro para brigar comigo por um lugar em uma fila, também desci para não ser agredido sentado mas disse, “não, tudo bem, o senhor pode ir na frente, eu troco meu carro de lugar”. Então peguei meu cartão de apresentação, fui até o carro onde ele havia voltado a entrar entreguei e disse: “vamos transformar isso numa coisa boa”? E ele se desarmou, apertou minha mão etc., passaram alguns minutos, ele abasteceu o carro dele e veio falar comigo, andando com os braços abertos e disse: “eu não sou assim, eu não sou assim, o senhor veja eu perdi meu filho único de 21 anos, morreu semana passada, nem minha família me aguenta mais”. Aí todo mundo que tinha visto a cena no posto, não entendeu nada, porque os homens prestes a se engalfinhar estavam abraçados e um chorava. Então a gente não sabe o que está acontecendo na cabeça dos outros, porque é que ele está falando palavrões, porque é que ele está agredindo, você não sabe.

E tendo essa compreensão mais abrangente da vida, você poderá perdoar tudo. Você não vai pensar: “é para mim”, porque não é para você. Ele está brigando com o mundo e, por acaso você estava ali. Aquele homem se sentia injustiçado pela morte do filho, é isso, e então ele queria brigar com o mundo.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papéis sofredores


Pergunta: E quando não tem mais jeito de ajudar uma pessoa? Quando o nível de depressão dela é tão grande, que faz até medo ela se suicidar... Os amigos trabalham o tempo inteiro  mas a pessoa não reage...

Monge Genshô – Esta é uma questão muito comum, que sempre é levantada. Por exemplo, uma pessoa perdeu um filho único, e daí toda a família quer ajudar, e fica todo mundo em volta. Então, quem ela é? Ela é a mãe sofredora que perdeu o filho. E se ela abandonar isto, cadê a identidade dela? Ela não sabe, mas precisa ser a mãe sofredora que perdeu um filho para ser importante. Em algum momento alguém precisa chegar e dizer: -“ Chega!”. A vida, o tempo inteiro, se apresenta na frente. Há uma vida e mais outras vidas para viver, você não precisa acabar-se porque perdeu um filho. Minha avó materna perdeu 20 filhos. Ela teve 23 filhos, sobraram três e ela continuou vivendo. Ela era uma avó muito interessante para mim, muito amorosa com o neto. A minha mãe perdeu quatro filhos. E no fim da vida ela dizia “como eu sou feliz, como eu sou feliz”. Sim, muito feliz. Não é necessariamente porque aconteceu algo em sua vida que você está acabado, porque ainda há muita coisa, ainda há muitas vidas para se viver. Agora se você ficar agarrado na fantasia, no papel de sofredor e de vítima, pode ser que este papel seja tudo que sobrou para você, e a atenção dos seus amigos seja preciosa. Imagine, e se abandonar este papel? Será que os amigos vão correr atrás, vão tentar consolar?  Quem sabe vocês estão ajudando tanto esta pessoa, que ela não pode mais escapar deste papel?

Pergunta: Voltando à questão das identidades, como tratar disso com as crianças pequenas?

Monge Genshô – Então, como eu já falei nós precisamos de identidades para transitar no mundo. Então dê a elas identidade. Iluminação é outra coisa que vem depois, mas como ser humano você não vai poder viver sem identidade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A nossa chance é o caminho


Por favor, sentem-se em zazen, não se levem muito a sério, tentem se livrar de vocês mesmos, essa é a nossa chance. Sesshin é uma grande oportunidade de ter uma experiência mais profunda. Por isso fazemos um zazen atrás do outro. Não desperdicem o zazen. Essa aventura de despertar é a aventura principal. Só ela pode nos livrar dessa prisão de eternos retornos, de manifestações humanas sempre começando. Não estou preparado para ser um Buda e não estarei provavelmente, de forma que sei que vou voltar. Tento ser um bom pai para meu filho  e digo assim: “quando eu for renascer quero renascer como teu filho, então preste atenção, me trate bem”, porque fico imaginando, a gente vive e morre e depois sem memória nenhuma do que aconteceu no passado, só guardando nossos impulsos, e meus impulsos não são lá essas coisas, tenho maus impulsos, então, de repente, só carregando isso, me ver de novo como um bebê, tomando mamadeira sem nenhum guia, só meus impulsos. Então temos que trabalhar nossos impulsos, nossa maneira de ser, nosso caráter, porque nós só conservamos isso. O carma só leva impulsos, não leva o “eu”.

De forma que, pela tradição, nos manifestamos de novo carregando impulsos, por isso cada pessoa que nasce é diferente, pois carrega suas marcas cármicas, só temos elas e mais nada. Não dá para dizer, “eu sei que isso não dá certo e vou tentar evitar”. A gente tem os mesmos impulsos. E aqueles que têm egos, apegos e desejos, por causa disso, sofrem. Nós sofremos, nós desejamos coisas. Desejamos segurança, filhos, amores, uma boa família e quando as coisas não funcionam como desejaríamos, nós sofremos. Essa é a raiz do sofrimento, aquilo que desejamos e esperamos. Se não tivéssemos nenhum desejo ou esperança não existiria nenhuma expectativa para ser frustrada.  Nós sofremos por expectativas frustradas.

4) E quem gosta de sofrer? Entendo que a gente goste de sofrer por isso estamos aqui, pelos impulsos de sofrimento e de coisas boas, não só coisas ruins, existem as coisas boas também...

Monge Genshô -  Eu penso que a resposta esteja dentro da pergunta - nós gostamos de sofrer - por isso estamos aqui. Vêm coisas boas e ruins juntas, nós queremos amores, mas nos metemos neles e sabemos que eles terminam. Junto com a aquisição do amor vem o sofrimento da perda. Qualquer coisa que nós guardemos. Eu sempre gostei muito de livros, mas os livros velhos que tenho estão se desfazendo. As folhas vão ficando amarelas, existe uma acidez no papel que o vai destruindo. Para conservar seria necessário um ambiente climatizado, uma bibliotecária cuidando. Esses dias vi um livro com uma dedicatória escrita por meu pai, há cinqüenta e tantos anos, quando eu tinha dez anos, se desfazendo e a escrita vai se desfazendo junto com o papel, e me vem a sensação de que as coisas que a gente dá valor se desfazem. Junto com o presente, vem a deterioração do presente.

Então, junto com todo o prazer, junto com todas as coisas boas, vem as perdas e o sofrimento. Estão inextricavelmente ligados. A vida não é só sofrimento. A vida é alegria, prazer e sofrimento. Uma bela garrafa de bebida e amigos dando risada, no outro dia, ressaca, dor de cabeça, vem tudo junto, não tem como escapar. A gente não consegue separar uma coisa da outra. Um filho nasce, você o ama, um dia ele vai embora e você fica sozinho. Um dia ele casa com uma nora que você não gosta e a nora não quer que ele venha na sua casa. Com o filho vem junto a nora. Está tudo conectado. Junto com a saúde vem a doença. Tem um corpo forte, um atleta. Noutro dia velhice, juntas que não funcionam, artrite, decadência física.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O teto do inferno é transitório


Frequentemente recebo cartas de pessoas passando por grande sofrimento. Esse sofrimento é normalmente gerado pelos acontecimentos da vida. Hoje foi uma senhora, cuja mãe está hospitalizada e será submetida a uma cirurgia de grande porte, estando em uma situação grave. Ontem era uma esposa, cujo casamento tinha acabado repentinamente e sentia-se sofrendo grande dor. Na carta dela, dor era um sentimento tão forte que escrevia, por ser da Espanha, DOLORRR, em letras maiúsculas e muitos érres. Grande sofrimento!

Essas pessoas, neste momento, procuram o Dharma. Todos sabem o que é a dor da perda e todos se entendem nisso. Apenas os muito jovens, que ainda não viveram uma grande perda ou desilusão amorosa, não sabem deste sentimento. Mas os que viveram um pouco mais, têm a experiência da perda, da morte, da doença ou do rompimento dos relacionamentos. Há um dito budista sobre o “teto do inferno” um grande amigo monge tem um blog com este título. Nós andamos no teto do inferno. Poucas pessoas poderão dizer que isto é desconhecido. Qual a característica deste andar no teto do inferno?  Normalmente é a perda, a desilusão, ou o fato que você tenta fazer algo e não consegue, um empreendimento que você tenta dá errado, e todos começam a falar mal de quem tentou e não conseguiu são os amigos que estão ao seu lado só no sucesso.

Os EUA costumam dividir as pessoas em dois tipos, as pessoas winners e os loosers , ou seja, os ganhadores e os perdedores, com um desprezo generalizado pelos perdedores. “Você é um fracassado, um perdedor”. Na nossa sociedade também, para as pessoas de sucesso perdoa-se tudo e, quando alguém  fracassa, muitas pessoas sentem-se felizes, pois isso compensa seus fracassos pessoais, então todos ficam um pouco “contentes” com o fracasso daquele grande empresário ou político. Tudo isso causa sofrimento nas pessoas, porque elas vêem o olhar dos outros, as conversas, e vêem a perda.

Mas o importante do ponto de vista budista é: o teto do inferno não é infinito. Nós andamos em um vale de sofrimento, mas ele tem um fim, ele sempre tem um fim. É difícil explicar isso para as pessoas. Hoje você tem uma perda, mas daqui a dois anos esta perda não parecerá o que parece agora, não é bem assim. Nós acabamos aceitando as perdas, absorvendo aquele sofrimento e nos conformando com ele. Existe também a benção do esquecimento, pois não conseguiríamos ficar para sempre lembrando daquela tremenda angústia, provocada por um sofrimento.
Então tenho acompanhado cada vez mais, essas perdas e sofrimentos e tento dizer: “Isto é impermanente, você vai poder superar isso”. “Não se deixe derrotar”. “Sofra, mas não se deixe derrotar completamente”. É bobagem nós dizermos para as pessoas: “Ah, não sofra, você vai esquecer isso, vai aparecer outra pessoa para você, você vai esquecer essa morte. Afinal de contas todo mundo perde pai, mãe, avós”. Isto é muita falta de sensibilidade, porque as pessoas que sofrem querem ouvir que nós sabemos o que é o sofrimento, que nos solidarizamos com elas e que compreendemos. Não estamos sofrendo com você da mesma forma, porque isso é uma mentira, mas podemos chorar juntos. E esta partilha do sofrimento é a compaixão. Compadecer-se: padecer junto.

Este é um sentimento que devemos cultivar, compreender profundamente o sentimento que o outro tem e que às vezes é incompreensível para nós, pois está longe demais da nossa experiência. Às vezes é uma doença que talvez nunca teremos, mas nós podemos padecer junto.

Esse é o melhor remédio, mostrando, de alguma forma, que o teto do inferno pode ser percorrido. Nós queimaremos a sola dos nossos pés, mas ele acaba, ele tem um fim. Ou seja, nenhum sofrimento é permanente, todos eles são transitórios.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Uma palestra de Saikawa Roshi



 Saikawa Roshi é o Sookan (Superior Geral da SotoShu para a América do Sul) uma das maiores autoridades do zen em todo o mundo, nos seus 45 anos de atividade monástica formou já seis sucessores em 3 continentes diferentes. Uma preciosidade poder ouvi-lo:

Muito obrigado por terem vindo sentar junto conosco. Estou surpreso por ver tantas pessoas virem sentar em um sábado à noite. Como vocês sabem, o caminho de Buda é para salvar a nós mesmos por nós mesmos. Se vocês salvarem a si mesmos, poderão apreciar suas vidas.

Quando sentados em “shikantaza”, que é a técnica do zazen, qualquer coisa que surja em suas mentes vocês devem deixá-las ir da mesma forma que vieram, sem tocá-las, compará-las ou julgá-las como boas ou ruins, certas ou erradas.  Não toquem em nada. Com essa técnica estamos criando em nossa mente a não dualidade.

Na vida diária temos 100% de dualismo, bom ou ruim, eu e os outros, ganho ou perda, grande ou pequeno, vida ou morte e iluminação e delusão. Em todo o tempo, nessa dualidade, estamos checando e continuando com nossos pensamentos, mas a dualidade é um excelente instrumento para resolver problemas e nos comunicarmos com outras pessoas, assim, nossa mente cria a dualidade.

Toda a ciência e filosofia estão baseadas no dualismo, por isso a dualidade é uma grande ferramenta, mas também é capaz de criar grande sofrimento para a humanidade. Se vocês vão realmente fundo dentro de vocês, conseguirão ver que nós mesmos e todo o mundo não somos duais. Se vocês realmente virem esta verdade, poderão perceber que também a verdade é não dual. A base do mundo é não dual. Vendo essa verdade vocês poderão salvar a si mesmos e ir além de bem ou mal, poderão ir além de ganho ou perda, poderão ir além de vida ou morte, poderão ir além de iluminação e delusão.

Temos a tendência de usar nossa mente e dessa forma é muito difícil de entender um ser não dual. Na vida diária esse som (bate no chão) é um objeto e eu sou sujeito. Mas esse som (bate no chão) está além de sujeito e objeto. Na vida diária nós usamos eu, meu e minha ou seu e sua, por exemplo, dizemos esse é meu corpo, minha pele, meu sangue, meu rim e meus olhos, mas se vocês forem fundo dentro de vocês mesmos, verão que isso é apenas uma expressão. Se eu dôo meu rim pra Genshô, ele passa a ser o rim de Genshô. Se Genshô der esse rim para Tokushi, esse rim passará a ser de Tokushi, então, na verdade, esse rim não é meu. Se for assim com todas as partes do meu corpo, então esse “meu” não existe. Nós pensamos “minha mente”, “minha opinião”, mas mesmo essa opinião veio dos outros e não desse corpo. Minha mente e minha opinião também não existem. Tudo bem você dizer “meu sangue” na sua vida diária, mas sob o ponto de vista absoluto, “meu sangue” não existe. Isso que chamamos meu corpo e minha mente, é vazio.

Está escrito no Sutra do Coração que por ver a vacuidade você salva a si mesmo, mas isso é apenas a metade. Para usarmos uma metáfora, a vacuidade é como um espelho e um espelho está sempre vazio, mas ao mesmo tempo, todo o mundo está dentro dele. Para o caminho Budista ter nada é ter tudo, essa é a verdade sobre nós mesmos. Se vocês realmente entenderem isso indo profundamente dentro de vocês mesmos, poderão ir além, uma vez que ganho e perda, vida e morte não representarão nada, pois vocês serão um com o universo. Não haverá divisão entre eu e os outros, entre sujeito e objeto. Se vocês realmente virem isso, poderão apreciar suas vidas. Digo até que poderão apreciar seus sofrimentos, pois a raiz do sofrimento pode ser cortada e cortar a raiz é importante, pois só assim poderão aceitar todas as coisas, inclusive a morte. Morte e vida, ganho e perda, eu e os outros são apenas uma idéia dentro da mente e o verdadeiro “eu”, está além desses conceitos em nossas mentes.

Muitas pessoas me perguntam se Budismo é compaixão. Posso dizer que isso seja verdade, mas só se vocês virem que não há divisão entre vocês e os outros, só assim poderão cuidar dos outros como cuidariam de vocês mesmos. Sem essa verdadeira experiência, a compaixão será apenas um entendimento intelectual, mas o Zen não é uma compreensão mental e sim é ter uma verdadeira experiência. Para alcançar esse entendimento usamos o zazen e através dele poderemos ter a verdadeira apreciação da vida. Quer vocês entendam ou não, poderão sentir a base da unidade.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Choro porque quero


Pergunta – E quem gosta de sofrer? Existem as coisas boas também...

Monge Genshô - Eu penso que a resposta esteja dentro da pergunta, nós gostamos de sofrer, por isso estamos aqui. Vem coisas boas e ruins juntas, nós queremos amores, mas sabemos que os amores terminam, nos metemos nos amores e sabemos que eles terminam. Junto com a aquisição do amor vem o sofrimento da perda. Qualquer coisa que nós guardemos. Eu sempre gostei muito de livros, mas os livros velhos que tenho estão se desfazendo. As folhas vão ficando amarelas, existe uma acidez no papel que o vai destruindo. Para conservar seria necessário um ambiente climatizado, uma bibliotecária cuidando. Esses dias vi um livro com uma dedicatória escrita por meu pai, há cinqüenta e tantos anos, quando eu tinha dez anos, se desfazendo e a escrita vai se desfazendo junto com o papel, e me vem a sensação de que as coisas que a gente dá valor se desfazem. Junto com o presente vem a deterioração do presente. Então junto com todo o prazer, junto com todas as coisas boas, vem as perdas e o sofrimento. Estão inextrincavelmente ligados. A vida não é só sofrimento. A vida é alegria, prazer e sofrimento. Uma bela garrafa de bebida e amigos dando risada, no outro dia, ressaca, dor de cabeça, vem tudo junto, não tem como escapar. A gente não consegue separar uma coisa da outra. Um filho nasce, você o ama, um dia ele vai embora e você fica sozinho. Um dia ele casa com uma nora que você não gosta e a nora não quer que ele venha na sua casa. Com o filho vem junto a nora. Está tudo conectado. Junto com a saúde vem a doença. Tem um corpo forte um atleta, um dia, a velhice, juntas que não funcionam, artrite, decadência física.

Pergunta - O senhor começou sua palestra falando sobre aproveitar sua vida, seja feliz pelo momento e fiquei pensando, não tem como não sofrer, até o mestre iluminado se a mãe dele morrer ele irá chorar. Então seria assim, eu aproveito minha vida, não significa deixar de viver para não sofrer, então vou aproveitar ao máximo minha vida, vou amar, mas eu sei que o sofrimento vem junto. Na verdade amar e sofrer seriam duas coisas iguais?

Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.

Pergunta – Mas se compreender, não chora. Porque a compreensão de a vida é assim, cresce, adoece e morre. É da natureza.

Monge Genshô - Seria assim, nós poderíamos dizer assim – Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.

Observação - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente e sofreram e muitos já estariam até iluminados. Já teriam uma compreensão, já sabiam que iria morrer e mesmo assim sofreram.

Monge Genshô - A resposta é sempre essa, no momento de sofrer, sofra sinceramente.

Pergunta - Mas Buda falou em não sofrer, que foi essa a solução que ele foi buscar. Nós sofremos porque temos apego excessivo mas se você não tiver apego, você chora sem sofrer?

Monge Genshô - A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso - Mas como, o senhor nos ensinou sobre apego e agora o senhor recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e agora o senhor esta aí chorando - o mestre dobra a carta olha para ele diz – Escuta aqui seu idiota, estou chorando porque quero – vira-se para o outro lado e volta a chorar. Esse é o zen.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Cortar a raiz do sofrimento



Saikawa Roshi continua:  "Está escrito no Sutra do Coração que por ver a vacuidade você liberta a si mesmo, mas isso é apenas a metade. Para usarmos uma metáfora, a vacuidade é como um espelho e um espelho está sempre vazio, mas ao mesmo tempo, todo o mundo está dentro dele. Para o caminho Budista ter nada é ter tudo, essa é a verdade sobre nós mesmos. Se vocês realmente entenderem isso indo profundamente dentro de vocês mesmos, poderão ir além, uma vez que ganho e perda, vida e morte não representarão nada, pois vocês serão um com o universo. Não haverá divisão entre eu e os outros, entre sujeito e objeto. Se vocês realmente virem isso, poderão apreciar suas vidas. Digo até que poderão apreciar seus sofrimentos, pois a raiz do sofrimento pode ser cortada e cortar a raiz é importante, pois só assim poderão aceitar todas as coisas, inclusive a morte. Morte e vida, ganho e perda, eu e os outros são apenas uma idéia dentro da mente e o verdadeiro “eu”, está além desses conceitos em nossas mentes.

Muitas pessoas me perguntam se Budismo é compaixão. Posso dizer que isso seja verdade, mas só se vocês virem que não há divisão entre vocês e os outros, só assim poderão cuidar dos outros como cuidariam de vocês mesmos. Sem essa verdadeira experiência, a compaixão será apenas um entendimento intelectual, mas o Zen não é uma compreensão mental e sim é ter uma verdadeira experiência. Para alcançar esse entendimento usamos o zazen e através dele poderemos ter a verdadeira apreciação da vida. Quer vocês entendam ou não, poderão sentir a base da unidade."

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A dualidade é uma boa ferramenta



Saikawa Roshi
: - "Quando sentados em “shikantaza”, que é a técnica do zazen, qualquer coisa que surja em suas mentes vocês devem deixá-las ir da mesma forma que vieram, sem tocá-las, compará-las ou julgá-las como boas ou ruins, certas ou erradas. Não toquem em nada. Com essa técnica estamos criando em nossa mente a não dualidade.

Na vida diária temos 100% de dualismo, bom ou ruim, eu e os outros, ganho ou perda, grande ou pequeno, vida ou morte e iluminação e delusão. Em todo o tempo, nessa dualidade, estamos checando e continuando com nossos pensamentos, mas a dualidade é um excelente instrumento para resolver problemas e nos comunicarmos com outras pessoas, assim, nossa mente cria a dualidade.

Toda a ciência e filosofia estão baseadas no dualismo, por isso a dualidade é uma grande ferramenta, mas também é capaz de criar grande sofrimento para a humanidade. Se vocês vão realmente fundo dentro de vocês, conseguirão ver que nós mesmos e todo o mundo não somos duais. Se vocês realmente virem esta verdade, poderão perceber que também a verdade é não dual. A base do mundo é não dual. Vendo essa verdade vocês poderão salvar a si mesmos e ir além de bem ou mal, poderão ir além de ganho ou perda, poderão ir além de vida ou morte, poderão ir além de iluminação e delusão.

Temos a tendência de usar nossa mente e dessa forma é muito difícil de entender um ser não dual. Na vida diária esse som (bate no chão) é um objeto e eu sou sujeito. Mas esse som (bate no chão) está além de sujeito e objeto. Na vida diária nós usamos eu, meu e minha ou seu e sua, por exemplo, dizemos esse é meu corpo, minha pele, meu sangue, meu rim e meus olhos, mas se vocês forem fundo dentro de vocês mesmos, verão que isso é apenas uma expressão. Se eu dôo meu rim pra Genshô, ele passa a ser o rim de Genshô. Se Genshô der esse rim para Tokushi, esse rim passará a ser de Tokushi, então, na verdade, esse rim não é meu. Se for assim com todas as partes do meu corpo, então esse “meu” não existe. Nós pensamos “minha mente”, “minha opinião”, mas mesmo essa opinião veio dos outros e não desse corpo. Minha mente e minha opinião também não existem. Tudo bem você dizer “meu sangue” na sua vida diária, mas sob o ponto de vista absoluto, “meu sangue” não existe. Isso que chamamos meu corpo e minha mente, é vazio."

sábado, 29 de dezembro de 2012

Sentar ardentemente



Pergunta – (...) Conforme a gente vai tomando consciência de todo esse processo, vai dando uma angústia, a gente senta, medita, pratica, depois sente(...)mas como a gente consegue algo(...)?

Monge Genshô – É porque queremos andar, esse é o grande problema, temos objetivos, queremos alcançar algo, mas essa mente também é  aquisitiva, é também  apegada, ela quer obter algo para quem? Você quer obter algo espiritualmente para quem? Para você. Então dentro desse objetivo existe grande ego, é uma mente que quer adquirir mais, um objetivo espiritual. Então há que sentar em meditação, sem ambicionar obter um resultado , então o crescimento espiritual poderá vir, há que sentar ardentemente, como se sua cabeça fosse tomada pelas chamas.

Quando estamos tomados por pensamentos, temos problemas e não podemos sentar para praticar, sentimos automaticamente que a impaciência e essas coisas começam a surgir. A vantagem do praticante é ver, “estou impaciente”. Então ele enxerga que sua cabeça está em chamas e tem que sentar para fazer tudo mudar. É necessário praticar meditação todos os dias, senão é como não tomar banho, só que em vez do corpo, ficamos com a mente suja e começamos a perder as qualidades que estávamos cultivando antes, essa perda é rápida, é mais rápida do que o ganho. Embora quando retorna, o ganho seja mais rápido do que se nunca houvesse praticado.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Maya - a ilusão



Pergunta – Não devemos estar atentos aos nossos sonhos?

Monge Genshô – Um sonho lúcido. Pode acontecer. Depois de um bom sesshin, você pode voltar para casa e perceber que todas as pessoas que estão em sua vida são como sonho, que você está  num mundo onírico. Poderia estar vivendo outro sonho, mas está vivendo esse, escolheu esse. 
Mudou-se para essa cidade, casou com essa mulher, teve esse filho. Tudo é um sonho construído.

 A ilusão é muito interessante. Havia um monge que meditava isolado. Encontrou uma divindade e lhe perguntou: “O que é Maya?” A divindade lhe disse: “entre neste  lago”. Ele entrou, e foi andando até que a água lhe cobriu o rosto, então ele virou-se e começou a sair da água. Enquanto saía, ele olhava para si e se percebeu uma mulher lindíssima. Nesse momento, passou uma caravana nela havia um príncipe que se apaixonou imediatamente por aquela mulher saída como do nada.
 Pegou-a pela mão e levou-a consigo. Foram para o reino do príncipe e casaram-se, para a felicidade de todo o povo. Ela teve filhos, estava encantada com a vida. Palácio, vestes, amor. Mas aconteceu uma guerra e seus filhos foram lutar. De repente, toda a vida maravilhosa se transformou: seu reino havia perdido a batalha, os corpos de seu marido e filhos vinham carregados, todos seus sonhos estavam destruídos. 
Os corpos de seus filhos amados, do seu marido, entre lamentações, foram jogados em uma fogueira onde ela, não suportando a dor da perda, enlouquecida, jogou-se. Enquanto o fogo consumia seu corpo, ela caiu e sentiu-se dentro de uma água fria. Então, andando, saiu do lago, olhou para si e viu-se um eremita, um pobre monge. A divindade lhe disse: “isso é Maya, a ilusão!”. 

Enquanto vocês estavam sendo conduzidos pela história, puderam mergulhar nela. E sonharam junto. Mas todo o sofrimento era um sonho ilusório. Nada aconteceu, ele nunca foi uma mulher linda, nunca se casou, nunca teve filhos, não houve guerras nem mortes. Assim é a ilusão, assim são as nossas vidas. Vocês estão sonhando agora e não conseguem acordar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sem remoer


(continuação)
Cuidadosamente olhamos à nossa volta, encontramos mestres escondidos , mestres para nos ensinar paciência, tolerância, não os enxergamos, os vemos sem ver, pode ser que tenhamos encontrado um Bodisatva à nossa frente e não o tenhamos reconhecido, porque nossos olhos não estavam preparados para ver. Meng Min da última parte da dinastia Han ficou em Taiyuan em uma de suas viagens. Uma vez, enquanto carregava um balde, este caiu no chão, mas ele seguiu adiante, sem se voltar. Guo Linzong testemunhou isto e lhe perguntou o significado, Meng Min replicou: - "O balde já estava quebrado, de que adiantava eu me voltar?" Linzong o considerava incomum por causa disso e o encorajou a estudar. 
Esta história revela a pura e instantânea compreensão dos fatos: ele andava, o balde quebrou, ele nem se voltou, continuou andando. Olhem e rememorem suas próprias vidas. Quantas vezes perdemos algo, mas, voltamos para trás, voltamos para a memória daquilo que perdemos, lamentamos, sofremos, reconsideramos, por que fazemos isto? Porque estamos profundamente agarrados as coisas, e o extraordinário neste caso é que ele não se voltou nenhum instante, simplesmente continuou andando. Se fossemos capazes de estarmos tão desapegados que quando algo assim sucede, pudéssemos continuar andando, sem voltar atrás e remoer aquilo que perdemos, aquilo que se quebrou, então estaríamos profundamente livres.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

De quem perdeu um filho




Eles não morrem

Não, as pessoas não morrem.
Os olhos fechados, o riso mudo, o peito inerte não existem.
Se você fechar os olhos e aguçar os sentidos vai ver o brilho nos olhos, o som do riso e da voz, sentir o calor da pele.
Feche os olhos, pegue a chave da sensibilidade e abra a porta da memória. Está tudo ali. Aninhadas e silenciosas, 
as memórias são aves pacientes à espera de um gesto para a revoada.
Feito o convite, sobem em bandos. Ressuscitam lembranças, revivem caminhos, abrem sorrisos, liberam lágrimas. 
Trazem, em suas asas eternas, lembranças pesadas como rochas e diáfanos sonhos encasulados em frágeis e inconclusos desejos. 
Essas realidades não são percebidas e armazenadas por todos da mesma forma. Para alguns, vão se materializando aos poucos em duras lições de muitas despedidas. Último sorriso da mãe, a voz do pai, o gesto do avô, a alegria do irmão. Essas lembranças de imorredoura névoa eterna que se fundem no bronze da memória. E ali permanecem, compondo a rede de nossa vida, tramas de alegrias e tristezas que herdamos desses queridos personagens.
Dizer que morreram é negar nossa própria capacidade de revê-los.
Meu filho partiu há anos, mas o revejo sempre que o quero perto de mim. Na idade que desejo, com o sorriso que escolho, com gestos e atitudes que satisfazem - mesmo que por instantes - a imensa saudade que trago comigo.
Ele está vivo dentro de mim e só morrerá quando eu me for também.
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(Ivo é meu amigo há 50 anos, e perdeu um filho já adulto, o mais velho deles, é um escritor extraordinário como podem ver acima. É editor do jornal Vida Integral há décadas.)