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terça-feira, 19 de junho de 2018

A modificação das heranças culturais



Pergunta: O senhor se referiu a nossa mitologia e a diferença de comportamento dos brasileiros em relação aos japoneses, isto quer dizer que não há como mudar nossa conduta ?

Monge Genshô: De modo algum, tudo é sempre alterável, vivemos e somos herdeiros de uma cultura sempre em mutação, o Japão, que em alguns pontos é admirável em outros não o é, temos folclore diverso mas no Japão também há seres trapaceiros nos mitos, o que ocorreu é que nas ilhas nipônicas, cheias de corrupção, assaltantes e ronins criminosos, nos idos de 1600, houve uma mudança e o comportamento geral se alterou.
Da mesma forma isto pode suceder no Brasil, a esperteza pode ser substituída pela dignidade e honra. Como apontei é o investimento nas mentes e na educação que pode modificar nossa atual situação que nos faz ter representantes políticos que envergonham a nação. Não é um destino inelutável, os japoneses como seres humanos não são diversos dos brasileiros, ocorre que imersos em uma cultura que se reciclou e foi profundamente influenciada por princípios budistas, criaram um país diferente e educam diversamente. Nós podemos fazer a mesma coisa, basta mudar as mentes, não somos escravos dos mitos, assim como eles foram modificando seus mitos mais antigos e incorporaram e deixaram crescer as noções dos bodisatvas, de consideração e compaixão com os outros, podemos fazer o mesmo.

quinta-feira, 12 de março de 2015

A hostilidade do mundo



Aluno – O mundo em que a gente vive se mostra muito hostil, contra toda a prática que o zen ensina. Quero saber como agir em relação a isso.

Monge Genshô – A cada momento você vai precisar decidir. Ele parece hostil mas não necessariamente é hostil. Ele pode ser um mundo que tem medo, em que cada pessoa pode estar tentando se proteger. E como você está agindo?

Sinceramente, o mundo não me parece hostil. Estou sempre viajando e chegando em diferentes lugares, e é normal encontrar pessoas afáveis, que ajudam, colaboradoras, e até um mundo de confiança. Na quinta-feira à noite eu estava no aeroporto de Guarulhos e a Avianca tinha um vôo pra cá, e eu fiz o ticket de embarque e quando estava no portão chamaram os passageiros e disseram o 'voo foi cancelado, a aeronave estragou, passem de novo no check in e nós vamos colocar vocês num hotel'. Eu fui lá,  disseram que pegaria um ônibus e iria para um hotel no centro de São Paulo.  Enquanto esperávamos o ônibus, foi uma oportunidade de fazer amizade com dois rapazes que trabalhavam numa empresa de segurança eletrônica e aí um deles veio sentado comigo, conversando.

Quando chegamos no hotel não tínhamos nenhum papel, a companhia não deu nenhum nada, nem disse algo a respeito, simplesmente ficaram com os nossos tickets e disseram para pegar o ônibus, e nós fomos lá  pegamos o ônibus, sem dar nenhuma passagem. Eu só disse que era um passageiro da Avianca e o motorista do ônibus nos admitiu e levou até o hotel. Quando chegamos não tínhamos nenhum comprovante, só dissemos que éramos os passageiros da Avianca, dezenas de pessoas, e eles pegaram simplesmente o nome e a assinatura na ficha de entrada, para ser rápido, e fomos recebendo quartos e havia um jantar disponível no restaurante, e foi só ir lá e dizer que éramos passageiros, até fizeram gentilmente um prato diferente para mim porque eu não queria carne.

Aí me hospedei, saí de manhã, ninguém pediu nada, fiz o check out, pegamos um táxi para o aeroporto, o motorista  não pediu nenhum papel nem dinheiro nem nada e nos levou ao aeroporto, e embarquei num voo da Gol. Na Gol, sem papel da Avianca,  me deram um ticket de embarque e fui para o avião e entrei. Como não reclamei dos atrasos, de ter dormido só 4 horas, a vida foi bem agradável, e durante a janta fiz mais duas amizades com outras duas pessoas que estavam sentadas. Será que o mundo é hostil? Tudo foi feito na confiança, todo o tempo, ninguém pediu nenhum papel. Nós estávamos em São Paulo e ninguém presumiu que alguém poderia fazer alguma trapaça ou ser um vigarista, ou ter entrado no hotel naquela hora e dito que era um passageiro da Avianca,  ninguém nunca verificou nada, tudo funcionou assim. Será que o mundo é hostil?

Eu posso contabilizar aí 4 amigos que trocaram cartões, um já me escreveu um e-mail. Depende de como nós olhamos. Talvez seja hostil, talvez não. Talvez funcione tão baseado em confiança que nós não chegamos a perceber. Na verdade, se 10% das pessoas fossem trapaceiros ou vigaristas o mundo não poderia funcionar. O mundo funciona porque a gente diz coisas e somos acreditados. Não é assim? Depende dos nossos olhos. Há alguma hostilidade no mundo, sim, há. Há criminosos no mundo, há pessoas insensatas, sem dúvida. Mas está longe de ser a maioria.( Continua)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Entre trapaceiros e eremitas


(continuação)
Pergunta – E essa pessoa que se suicida, como fica o carma?

Monge Genshô - É uma má ideia. Do ponto de vista zen budista, o suicídio não é uma boa solução, porque você simplesmente congela o momento presente e projeta este carma para o futuro, com alguns agravantes. Você agiu em seu beneficio, “escapou” do problema, jogou grandes sofrimentos em cima de sua família, você cria uma série de outras circunstancias, mas dentro da cultura japonesa podemos falar que, quando alguém se mata, resgata sua família, porque dentro da cultura existe este aspecto. Você cometeu um crime, toda sua família está profundamente envergonhada e quando você se suicida, a sua família está liberta do olho social. O olho dos outros perdoa a família porque você se matou portanto há algo diferente aí.

 Mas isso é um aspecto cultural. Eu estava falando com um grande amigo que é psicanalista e  estávamos comentando o fato de que nossos heróis culturais são trapaceiros, Pedro Malazarte, Macunaíma, Saci Pererê, são todos enganadores, então aquele que mente bem no Brasil, é aplaudido, as pessoas até votam nele depois. Enquanto que no Japão é o contrário, se você fizer alguma coisa errada, sua vida acabou. Não só a sua, mas o seu filho será o “filho de um trapaceiro”. Então quando você se mata você resgata seu filho. É um carma um pouco melhor, porque este suicídio tem um olho compassivo com outras pessoas, mas o suicídio que é para que eu escape dessa situação, sozinho, esse suicídio é uma má ideia cármica.

Você vai continuar e ainda vai continuar com o impulso de solucionar coisas desta forma, porque não é a melhor solução.

Pergunta – Esta teoria cármica, ela não é muito determinista?

Determinismo seria uma doutrina que diz que existem condições que tornam tudo algo determinado e inescapável. O carma não é assim qualquer pessoa pode mudar seu carma. Você tem determinado carma e começa a fazer uma coisa de outra forma, seu carma está mudando. Eu era um executivo, um diretor de empresas, e agia como executivo, ainda trabalho para me sustentar como consultor, no mundo corporativo e eu entendo o mundo corporativo, ele tem uma lógica, mas no momento em que eu me tornei monge,   comecei a pensar em outras coisas, o meu carma mudou.

Eu escrevi um livro a este respeito, “O Pico da Montanha é Onde Estão os Meus Pés”, e ele serve para as pessoas que trabalham. Numa orelha eu coloquei o monge, na outra, eu coloquei o executivo. Eu sou realmente um executivo e sou realmente um monge zen. Neste livro eu tento mostrar que você pode trazer a realidade da vida espiritual, para a vida do trabalho, para a vida diária. Algumas vezes as pessoas me perguntam: “O senhor é monge, é muito fácil sua vida, para o  senhor é tudo fácil, abandonou tudo”, e não é verdade. Mesmo porque eu não ganho dinheiro como monge para sobreviver, eu ganho dinheiro como consultor. O trabalho de monge é um trabalho que eu dou, é outra ótica.

Então, é possível você transformar sua vida levando a vida espiritual para a vida normal, e se isso não fosse possível, o budismo seria falho. Se ele só funcionasse para eremitas nas montanhas, ele seria inútil. No Zen nós temos muitas piadas a este respeito, como o do eremita que meditou 20 anos e desceu da montanha e chegou na aldeia, dizendo que estava iluminado, que havia se libertado de todas as paixões. Então ele foi ao mercado e alguém pisou no seu pé e ele ficou furioso, gritou com o homem, e então se deu conta, de que a prática espiritual dele só funcionava  lá na montanha.  Porque prática espiritual verdadeira é aqui, aqui e agora é que é difícil.
(continua)