Mostrando postagens com marcador determinismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador determinismo. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Entre trapaceiros e eremitas
(continuação)
Pergunta – E essa pessoa que se suicida, como fica o carma?
Monge Genshô - É uma má ideia. Do ponto de vista zen budista, o suicídio não é uma boa solução, porque você simplesmente congela o momento presente e projeta este carma para o futuro, com alguns agravantes. Você agiu em seu beneficio, “escapou” do problema, jogou grandes sofrimentos em cima de sua família, você cria uma série de outras circunstancias, mas dentro da cultura japonesa podemos falar que, quando alguém se mata, resgata sua família, porque dentro da cultura existe este aspecto. Você cometeu um crime, toda sua família está profundamente envergonhada e quando você se suicida, a sua família está liberta do olho social. O olho dos outros perdoa a família porque você se matou portanto há algo diferente aí.
Mas isso é um aspecto cultural. Eu estava falando com um grande amigo que é psicanalista e estávamos comentando o fato de que nossos heróis culturais são trapaceiros, Pedro Malazarte, Macunaíma, Saci Pererê, são todos enganadores, então aquele que mente bem no Brasil, é aplaudido, as pessoas até votam nele depois. Enquanto que no Japão é o contrário, se você fizer alguma coisa errada, sua vida acabou. Não só a sua, mas o seu filho será o “filho de um trapaceiro”. Então quando você se mata você resgata seu filho. É um carma um pouco melhor, porque este suicídio tem um olho compassivo com outras pessoas, mas o suicídio que é para que eu escape dessa situação, sozinho, esse suicídio é uma má ideia cármica.
Você vai continuar e ainda vai continuar com o impulso de solucionar coisas desta forma, porque não é a melhor solução.
Pergunta – Esta teoria cármica, ela não é muito determinista?
Determinismo seria uma doutrina que diz que existem condições que tornam tudo algo determinado e inescapável. O carma não é assim qualquer pessoa pode mudar seu carma. Você tem determinado carma e começa a fazer uma coisa de outra forma, seu carma está mudando. Eu era um executivo, um diretor de empresas, e agia como executivo, ainda trabalho para me sustentar como consultor, no mundo corporativo e eu entendo o mundo corporativo, ele tem uma lógica, mas no momento em que eu me tornei monge, comecei a pensar em outras coisas, o meu carma mudou.
Eu escrevi um livro a este respeito, “O Pico da Montanha é Onde Estão os Meus Pés”, e ele serve para as pessoas que trabalham. Numa orelha eu coloquei o monge, na outra, eu coloquei o executivo. Eu sou realmente um executivo e sou realmente um monge zen. Neste livro eu tento mostrar que você pode trazer a realidade da vida espiritual, para a vida do trabalho, para a vida diária. Algumas vezes as pessoas me perguntam: “O senhor é monge, é muito fácil sua vida, para o senhor é tudo fácil, abandonou tudo”, e não é verdade. Mesmo porque eu não ganho dinheiro como monge para sobreviver, eu ganho dinheiro como consultor. O trabalho de monge é um trabalho que eu dou, é outra ótica.
Então, é possível você transformar sua vida levando a vida espiritual para a vida normal, e se isso não fosse possível, o budismo seria falho. Se ele só funcionasse para eremitas nas montanhas, ele seria inútil. No Zen nós temos muitas piadas a este respeito, como o do eremita que meditou 20 anos e desceu da montanha e chegou na aldeia, dizendo que estava iluminado, que havia se libertado de todas as paixões. Então ele foi ao mercado e alguém pisou no seu pé e ele ficou furioso, gritou com o homem, e então se deu conta, de que a prática espiritual dele só funcionava lá na montanha. Porque prática espiritual verdadeira é aqui, aqui e agora é que é difícil.
(continua)
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Destino e livre arbítrio
Pergunta: Quanto é destino, quanto livre arbítrio?
Monge Gensho – De destino nada e de livre arbítrio é muito pouco. Essa história toda demonstra mais ou menos isso. Você está numa corrente de carma, é como se estivesse num rio arrastado pela corrente. Essa corrente é muito forte e você não consegue voltar a subir o rio novamente, não consegue ir para a margem; às vezes, acontece de surgir um remanso e você até poderia se deslocar para a margem e sair do rio. Há, como essas, poucas ocasiões em que isso é possível. Normalmente todos ficam na torrente e vão sendo arrastados por seu próprio carma sem conseguir escapar. Existem momentos em que você pode fazer escolhas que mudam sua vida, digamos que o rio se divida em determinado ponto, e que com um pouco de esforço você pode ir para um dos lados. É comum surgir o pensamento, “ah, se tivesse escolhido o outro caminho...” Aquele momento teria mudado a vida inteira. Mas normalmente você está no fluxo da própria vida e não consegue facilmente sair dele, você fez uma filha há alguns anos, não é? Agora ela teve um filho; você consegue escapar de ser avô? Mesmo que você quisesse, mesmo que tentasse, pensando, “não, não vou prestar atenção, não vou me ligar a esse neto, não colocarei nenhuma paixão nessa relação e irei morar no Butão”, ainda assim, você seria o avô. Você até poderia fazer isso, mas eu aposto que não faria.
Marcadores:
budismo,
carma,
corrente,
destino,
determinismo,
escapar,
livre arbítrio,
mudança,
vida,
zen
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Mudando os sonhos e a mente
P. Esta questão karmica que foi colocada, podemos considerar como uma lei, mas não necessariamente poderia ser assim, esta é uma questão que me preocupa...
R. O budismo não se preocupa porque o karma é simplesmente um funcionamento universal, assim você caminha sobre as suas ações, você vai construindo a sua vida, construindo o seu caráter, as coisas que vão acontecendo, tudo o que acontece tem algum motivo. Nós estamos nesse mundo, alguém me fez uma pergunta: uma criança é atropelada por quê? Ela nasceu nesse mundo que é assim, ela tem karma para nascer nesse mundo onde coisas assim acontecem, embora doloroso ao longo de incontáveis vidas esse atropelamento não é nada, é no conjunto que nós poderíamos olhar o significado de como aquilo está indo, mas a gente não pode dizer que há um determinismo ou um destino, não é isto, nós podemos ir mudando nossas vidas à medida que nós vamos andando, primeiro a gente muda as ações, depois nós mudamos nossas palavras, mas continuamos pensando, um dia se nós praticarmos bem o pensamento não surge e aí nossos sonhos mudam, em vez de ter sonhos conflituosos nós temos sonhos dhármicos, se vocês querem saber como está a sua mente lá no fundo, olhem os seus sonhos, os sonhos também são kármicos, são manifestações da mente que nós alimentamos, pensem muitas coisas de lutas e vingança e você lutará nos seus sonhos, pense muitas vezes eu devia ter dito isso e você vai dizer nos seus sonhos aquelas coisas que você engoliu, tenha medos e você terá pesadelos com os seus medos, com seus receios, cultive sentimentos de compaixão e amorosos e você perdoará e abraçará as pessoas nos seus sonhos...
Os sonhos são alimentados pelos nossos pensamentos, pelo nosso inconsciente trabalhando, nós somos bons nas nossas mentes de acordo com os conteúdos que nós colocamos e expressamos, quando nós treinamos estes conteúdos nossa mente se comporta de acordo, às vezes as pessoas não entendem como é ruim dizer palavrões, mas é, uma prática de mantras ao contrário, em vez de dizer uma coisa bonita, desejo paz, amor, felicidades você diz quero que você sofra, quero que você vá para o inferno, ou referências a coisas sujas e desagradáveis, etc ...ou insulta a mãe dele e assim por diante e no fim se você se habitua a usar estas palavras, você as usa na sua vida comum como mantras, a cada momento, teve que dar uma freada no carro – palavrão, e depois você acha ruim que a sua mente seja daquele jeito, que haja tanto problema e insatisfação, infelicidade, agressão dentro da sua mente, mas se você treina aquilo todo o dia, você faz o contrário de um monge católico cada vez que encontra o outro – louvado seja nosso senhor Jesus Cristo, - para sempre seja louvado - mesmo que seja automático – para sempre seja louvado. Eu vi este hábito na Baviera as pessoas se encontram e dizem uma frase religiosa a que o outro responde, assim é o cumprimento, isso é muito bom, é construção de uma mente, nós vemos no Budismo Tibetano que usa muito mantra, repetindo milhões de vezes, repetindo o mantra, aquela frase...o que vai acontecer com o tempo?
É a mesma coisa conosco, vejam aqueles ghatas (versos) que a gente repete quando vai no banheiro: que todos os seres.. é muito difícil colocar toda a força ali, mas você está repetindo ao lavar as mãos: que todos os seres desenvolvam mãos hábeis e sutis para desenvolver o Dharma, você quer reforçar, imagine todos os seres, imagine mãos hábeis e sutis, fazendo estas práticas nós vamos mudando, então é bom cortar da nossa vida todas as coisas que conduzem para baixo e cultivar as que condizem para cultivar o bem, comemos para praticar o bem, para evitar o mal, para seguir o caminho do Buddha, claro, é prática do pequeno caminho, claro! É dualista, tem bem e tem mal, mas para o nosso nível está muito bom, está bom demais...
Assinar:
Postagens (Atom)


