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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O desejo de se libertar


Pergunta – Mas tem que haver o desejo de sentar, ou não?

Monge Gensho – Muito interessante, pois começamos sempre assim, a partir da insatisfação com a vida. Essa é a história do próprio Buda. Ele vê o sofrimento, e porque se sente angustiado com isso, deixa todas as coisas e vai procurar uma solução. Mas isso não é iluminação.

Observação – Mas é um desejo.

Monge Gensho – Sim. A palavra desejo causa alguns problemas. Porque a usamos em português para uma série de significados que em sânscrito são palavras diferentes. Desejo que causa sofrimento é tanha, um desejo apegado, teimoso, adquirente. Existem outros desejos, por exemplo, ditti, que é o desejo de ter uma opinião, de defendê-la, de manifestá-la, agarrado a suas próprias opiniões. E existe o impulso de conseguir se libertar, ele é benéfico, mas quando começamos ele é aquisitivo, é materialismo espiritual. Todos praticamos assim, começamos sempre assim. Viemos a um centro do Dharma procurando adquirir algo, como uma palavra que o professor nos diga e que nos salve, procurando tranqüilidade, serenidade através da meditação. Alguma coisa sempre queremos adquirir. Isso está bem segundo o caminho do Dharma, porque a pessoa vai se sentar e começar assim, procurando por algo através desse materialismo espiritual. Mas à medida que você vai crescendo e amadurecendo no Dharma, percebe que tem que sair desse estágio e partir para um outro, no qual o aluno, ao ser perguntado pelo professor “porque você está praticando?”, ele responda: “não sei mais!”. Nesse momento foi dado um grande passo. Esse passo é maravilhoso, porque é uma libertação do materialismo espiritual de querer obter algo para si. A trajetória de Buda também é assim. Ele parte à procura de mestres de yoga, pratica duramente, faz jejum, medita, martiriza seu corpo, fica magro e sofre durante anos, sem encontrar a saída. Quando, finalmente, ele senta-se embaixo de uma árvore e diz “eu desisto” do ascetismo, depois de sete dias, se ilumina. O que faz ele então? Fica com a iluminação para si? Não, ele se levanta, sai para o mundo e durante quarenta anos ensina sem parar. Ele faz isso por compaixão. Nesse momento é que ele é Buda, até o momento anterior ao da iluminação, ele era Sidharta Shakyamuni que estava tentando se libertar do samsara, como todos nós.