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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O consumismo infinito



Pergunta – E o coração é a intuição?

Monge Genshô – Não, falo do coração em termos de sentimentos e paixões. As paixões arrastam as pessoas e as fazem tomar decisões muitas vezes nada razoáveis. Penso que seja isso que ocorra. Mas, o que interessa do ponto de vista budista, é saber como posso ser senhor da minha mente, o que significa domar minhas próprias paixões e não colocar a razão sobre elas. Porque a razão normalmente está subordinada a um sistema de crenças e de valores que nela ficam incutidos. Estamos, na verdade, falando de como conduzir nossa vida sabendo que nós não podemos ser arrastados pelas paixões e que não podemos nos deixar levar pelos valores que nos são incutidos normalmente pela sociedade. Como é ser realmente livre? O que é realmente uma mente livre?

Aluno – Vi um vídeo sobre publicidade que é muito interessante...

Monge Genshô – . Esse vídeo em questão fala da manipulação das massas através da publicidade com o fim de criar necessidades e desejos. Um dos temas abordados é de como foi feita a publicidade para fazer com que a mulher fumasse, para que ela pudesse fumar principalmente em público, o que na época era um tabu. Dessa forma, muitas coisas foram criadas para convencer as pessoas a consumirem determinados produtos. Uma lógica da economia e funcionamento das empresas está embasada no fato de que precisamos consumir para que a economia cresça, para que haja mais empregos, mais produção, etc. É comum todos ficarem muito felizes ao vermos na imprensa a afirmação de que o país esta crescendo, mas quando acontece de não haver crescimento, é quase uma calamidade pública. Na verdade, deveríamos nos perguntar se um crescimento assim é possível para sempre. Por que está tão embutido em nossas cabeças que temos que crescer sempre? Por que a economia dos países tem que crescer sempre? Por que existem sempre mais pessoas a serem incorporadas a uma sociedade mais afluente? Existem países onde a população é muito pobre, não come o suficiente, então sim, mas onde já se chegou a afluência uma progressão geométrica leva onde? Ao esgotamento dos recursos de um mundo finito.

Em um planeta muito limitado, nos tornamos muito numerosos, muito mais do que o planeta suporta, e temos uma lógica de crescimento econômico infinito, pensamos que é sem fim. Um exemplo típico é o da China, que adotou a civilização do automóvel; basta fazermos alguns cálculos para sabermos que lá não pode haver dois carros por família como é, por exemplo, o padrão nos EUA. Não é possível, não haverá onde os carros circulem. Chega um momento limite naquilo que podemos fazer ou consumir. A indústria convence as pessoas a comprar alimentos de uma determinada forma, a consumir cada vez mais alimentos, e sempre mais calóricos. De repente, todos começaram a ficar gordos,  identificamos isso como doença. Para amenizar a situação, agora temos uma epidemia de operações para redução de estômago. Isso tudo é muito ilógico. Se olharmos fotografias de mil novecentos e trinta para trás, os brasileiros eram todos magros. O que aconteceu, como mudamos tanto? O consumo de arroz e feijão no ano passado diminuiu no Brasil, estamos comendo mais, mas não é arroz com feijão, uma combinação quase perfeita; o que aumentou foi o consumo de bolacha, cerveja e salgadinhos.