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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O mito do nascimento milagroso


6) Há  outros casos de nascimentos milagrosos?

Monge Genshô: Muitos. É recorrente na história da humanidade, não é um mito cristão. Joseph Campbell analisa muito bem isto, "o homem histórico é tomado pelo mito",  vai mostrando e fazendo os paralelos. Nas histórias sobre Buda isto também apareceu e alguns mestres principalmente da nossa escola, escreveram biografias de Buda depuradas, identificando “o quê” deve ser verdade nisto ou naquilo. Que ele nasceu numa situação boa, que viveu na classe dos xátrias, que era governante e portanto tinha poder, qual era a vida dos governantes, etc.

“Aos vinte e nove anos ele partiu”. Vamos desconstruir este, que é um dos mitos de Buda: vocês lembram que quando Buda saiu do palácio ele viu um homem morto e então ele pergunta para o seu ajudante que o guiava –“o que é isto”? “Isto é um homem morto”. Então ele continua: “Todos nós vamos morrer um dia”? Ora, um homem de vinte e nove anos que teve treinamento como guerreiro e que era de uma inteligência brilhante que nós vemos nos sutras, filósofo, incrível nos debates, imbatível, raciocínio agudíssimo, sofisticado, seria, aos vinte e nove anos, um indivíduo que tinha que fazer esta pergunta?

Então esta história, de que Buda viu um morto, um velho, um doente e um monge, o que é? É uma representação mítica do fato de que Buda, aos vinte nove anos pensando na morte, na velhice, na doença e na realização espiritual, angustiou-se com tais questões e as queria resolver porque tinha um grande sofrimento espiritual e, por isto, resolve sair do palácio e seguir o caminho que ele havia visto nos olhos de um monge que tinha um rosto pacificado.

É evidente que esta história está por trás da mitologização, da representação bonita da história, só para dar um exemplo para vocês do tratamento Zen para isto.

Tem uma célebre declaração de um mestre Zen em que alguém diz para ele: “Ah, Buda nasceu e saiu caminhando e a cada passo nasciam flores, apontou para o céu e disse que entre o céu e a terra ele seria o mais honrado”. O mestre Zen olhou para quem estava contando a história e disse: “Pois se eu estivesse lá naquela hora, eu o teria matado a pauladas”. (risos)

 Aluno - Mas esta questão dele talvez ser superprotegido pelo pai... será que não houve? Será que é só mítico?

Monge Genshô: Para que serve o mito? O mito serve para enfatizar, para tornar simbólico, para magnificar o fato, para teatralizar o fato.

7) E Sidharta Gautama era o nome deste que se tornou Buda?

Monge Genshô: Você está muito correto, nós não dizemos Buda para Sidharta Gautama, Sidharta é o homem que está muito angustiado, cheio de problemas, deixa a mulher e o filho e vai embora, abandona a família, agora este é um ato de Buda? Não, este é um ato de Sidharta. Ele vai se iluminar seis anos depois e vocês querem se iluminar num sesshin (retiro) de 3 dias.