Follow by Email

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Entramos na morte acompanhados pelo nosso carma


Texto "Shushogi" (continuação)
“Nascer como ser humano é algo raro; ainda mais raro é entrar em contato com o Dharma Budista. Pelas nossas virtudes do passado entretanto, fomos capazes não apenas de nascer humanos, mas também de encontrar o Budismo. Dentro do campo de nascimento e morte, então, nossa vida atual deve ser considerada a melhor e a mais excelente de todas. Não desperdicem seus preciosos corpos humanos à toa, abandonando-os aos ventos da impermanência. Não se pode confiar na impermanência. Não sabemos quando nem onde a vida transiente terminará. Nossos corpos não nos pertencem; e a vida, à mercê do tempo, continua sem parar nem por um momento. Assim que a face da juventude desaparece, não é possível encontrar nem mesmo traços dela.  Quando pensamos cuidadosamente, descobrimos que o tempo, uma vez perdido, nunca volta. Frente à impermanência, nem reis, ministros de estado, parentes, servos, mulher e filhos e jóias raras podem nos socorrer. Devemos entrar no reino da morte a sós, acompanhados apenas pelo nosso bom ou mau carma.”

Pergunta – O estado de Nirvana só é possível porque estamos no estado de Samsara?

Monge Genshô – Só vemos um e outro porque estamos perdidos. Samsara significa literalmente “perambular”. Andamos perambulando pelo mundo procurando algo agradável que nos tranquilize. O Samsara é caracterizado por pensamentos do tipo “Se eu tivesse um carro”, “se eu tivesse uma casa”, “Se ganhasse na megasena”, “Se tivesse um amor”, “Se fosse bonito”, sempre “Se”. Cada vez que se conquista algo, se deseja outra coisa.

Pergunta – O que seria necessário para se libertar dessa roda do Samsara?

Monge Genshô – O Nirvana é o estado como olhamos o fluxo e nos vemos livres do Samsara. Nós vemos o ciclo da vida com seus altos e baixos e o aceitamos. O primeiro passo é entender com clareza esse ciclo, isso não é um entendimento intelectual, mas sim um entendimento profundo, olhar para todas as coisas e pessoas e enxergar a impermanência. Essa é uma marca da existência, “Anicca”, que significa impermanente.

A segunda marca da existência é “Anatta”, nada tem um “eu” inerente. Quando falamos “a mesa”, estamos nos referindo a pedaços de madeira que arranjados dessa maneira tem a “forma” da mesa, mas ela não possui um “eu” chamado mesa. Da mesma maneira são as pessoas, pedaços de unhas, dedos, carne, sangue, pele que, juntos e arranjados desta maneira, formam um ser humano, mas lhe damos identidades e nomes. Nosso “eu” é tão sólido e real quanto o “eu” da mesa e compreender que nosso “eu” é uma construção proporcionada pelo funcionamento de nossa mente é algo muito difícil.  Tudo nos desmente, abrimos os olhos e vemos os outros.

A terceira marca da existência é “Dukkha”. Muitas vezes traduzida como sofrimento a palavra significa na verdade “cíclico” ou “insatisfatório”.  A vida é assim, cheia de altos e baixos. Dois anos atrás nasceu um neto, o coloquei no colo e estava muito feliz. Hoje está diagnosticado com leucemia. Tivemos um momento maravilhoso com seu nascimento, agora é o momento do sofrimento pela doença e se amanhã ele for curado será novamente o momento de sorrir de felicidade. A vida é e sempre será assim. Se tivermos sorte morreremos antes dos nossos filhos, porque tristeza mesmo é ver um filho morrer. Uma vez um rei perguntou para um Monge o que era felicidade e ele respondeu, “Felicidade é morrer o avô, o pai e depois o filho”.