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terça-feira, 11 de novembro de 2014

As portas da percepção


(continuação)
Monge Kômyô:  O egoísmo é a atitude que nós tomamos, pensando apenas em nosso benefício, não preocupados com mais nada, com mais ninguém. E fazemos isso porque a ação que nós estamos fazendo é interpretada pelo nosso eu como parte dele mesmo. Por exemplo, estamos nos alimentando, e temos digamos, uma comida que é para todos, ai vem uma pessoa e pega a metade do bolo para ela, por exemplo, e vai embora. Ela quer metade do bolo, ela não se importa com os outros, nem se vai ter bolo para as outras pessoas. Ela quer favorecer a ela mesma primeiro.

Percebam que a atuação egoísta, frequentemente,  ocorre sem que nos percebamos, por isso é egoísmo. Se nos tivéssemos consciência que somos egoístas, não seriamos egoístas, o egoísmo é uma distorção.  Eu costumo dar a imagem de que, nós temos uma janela de percepção, vocês agora todos nesse momento, têm o campo de percepção de vocês. É o campo visual, auditivo, campo de cheiros, odores, paladar e tato. Esse complexo de campos, ao “ayatanas”, as portas de percepção, estão atuando neste momento, vocês estão captando o ambiente com isso. Costumo dar a ideia de que esse campo de percepção é como se fosse um vidro de uma janela, e o que esta sendo captado é uma paisagem que estamos vendo, mas esta janela não está limpa, está suja, em algumas partes, em alguns pontos do nosso campo de percepção há mais sujeira que em outros.

A pessoa do nosso lado também olha por uma janela, a mesma janela, é um vidro, e o vidro também é sujo do lado dela. E nos dois olhamos uma paisagem, e pode ocorrer que eu olhando para aquela paisagem, em meio à sujeira, eu consiga enxergar uma árvore, lá no meio do campo, na paisagem, e eu chego para a pessoa do meu lado e digo: “olha que árvore interessante, bonita”. Só que no ângulo de visão e de percepção daquela pessoa, o campo de sujeira e anuviamento da percepção é outra, e justamente onde ela poderia ver a árvore, ela não a vê, porque tem uma grande mancha de sujeira ali. Mas ela consegue enxergar uma rocha, que no meu ângulo de visão eu não vejo, porque esta sujo, e ela diz: “Que árvore? Não tem árvore nenhuma ali! Tem uma rocha, muito forte e sólida”. E eu olho para ela e digo: “Que rocha? Não tem rocha nenhuma ali, você está louca, tem uma árvore”. E aí entra o conflito.

Uma mente percebe e capta de uma forma, outra mente percebe e capta de outra forma, e quando não há uma integração, surge o conflito. Da mesma forma, internamente conosco, diante de situações e objetos de percepção, nós podemos enxergar esse objeto claramente ou não enxergar esse objeto de todo, e quando isso ocorre, a frustração, o ciúme, o medo, o ódio, a incompreensão, se manifestam.
Num retiro, nós trabalhamos a plena atenção e procuramos atuar com profundo cuidado e observação daquilo que nós fazemos. Estamos focados em nós mesmos, na nossa prática, mas como falei no primeiro dia, estamos unidos. Então em tudo que fazemos, fazemos para trabalhar a nossa atenção profunda e clara, mas sempre procurando estar atento ao fato de que existem outros que estão também praticando. Num retiro nos tentamos minar cada um dentro da sua possibilidade, o profundo domínio do egoísmo em nossas mentes.

Nas nossas vidas, as situações que nos frustram, que nos causam sofrimento, que são difíceis, elas assim são, porque nós estamos lidando com elas,  de forma excessivamente egoísta. Entendam que, a descrição do fenômeno egoísta no contexto budista, não é acusatória, o objetivo é despertar nas mentes, a compreensão mais clara de nós mesmos. (continua)