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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Mantendo o foco


(continuação)
Monge Kômyô: Uma memória do passado, ou um planejamento, ou uma expectativa do futuro, isso nós podemos prender algo e pensar e focar naquilo. Podemos pensar num momento que nós vivemos no passado e ficar presos nisso. Podemos projetar alguma coisa que nós queremos no futuro e ficarmos presos nisso. Esse é o problema de se deixar levar pelo passado ou pelo futuro. Quando a nossa mente faz isso, perdemos o estabelecimento da concentração e da clareza. E estamos agora perdidos em lembranças do passado, anseios pelo futuro. Durante o zazen, é muito comum. Estamos lá e aí começa a sentir algum incômodo, alguma dor... Quase sempre, grande parte das pessoas pensa assim: “Pô, esse sininho não vai tocar logo? Cadê, cadê? Acabou o tempo não?” Quando isso se manifesta em nossas mentes, não se sintam culpados. Isso é natural. Mas observem. É um sinal de que a mente de vocês já se desconcentrou. Vocês já não estão mais no agora. No agora, não tem sininho ou não sininho. Não tem fim de tempo ou início de tempo do zazen. Só tem o agora. Agora. Agora. Agora. Quando nós perdemos esse foco, os nossos fardos, os nossos condicionamentos entram pra dominar. E aí a prática se torna muito mais difícil.

 Em relação ao kinhin, (meditação andando)    é uma coisa muito comum... Durante o kinhin, muitas pessoas tendem a achar que o conceito fundamental do kinhin em um espaço fechado... significa muito lento ao caminhar. Mas não é isso. O ritmo do kinhin é o ritmo da nossa respiração. Porque também o kinhin é zazen. Também estamos praticando o agora. Então no kinhin, nós estamos lá na postura... inspiramos, damos um passo. Expiramos, jogamos o peso do corpo. Inspiramos, damos o outro passo. Expiramos, soltamos o peso do corpo. Colocamos o corpo para frente, para manter o equilíbrio. E assim nós continuamos. Não é necessário ser muito lento e passar várias respirações em um passo. Na verdade, o kinhin ideal seria uma respiração, um passo. À medida que nós nos concentramos na respiração e no passo, o nosso caminho se torna naturalmente tranqüilo. Não lento. É tranqüilo. Ao fazer o kinhin, é preciso mostrar à nossa mente condicionada que nós não temos que chegar a lugar nenhum. Ninguém tem que ficar ansioso para chegar a algum lugar. Mas também não é para ficar parado, com medo de andar. Mais uma vez é o caminho do meio.

 Quando você dá o primeiro passo, você pensa “eu cheguei”. Quando você completa o segundo passo, o próximo passo, você pensa “eu estou em casa”. E assim você vai. Eu cheguei, eu estou em casa. A idéia é colocar a mente focada que a cada passo nós já chegamos. Não há nenhum lugar para se chegar, não há nenhuma meta. A cada passo, nós já chegamos onde nós temos que estar.  Durante o trabalho meditativo em si, seja no zazen sentado, no kinhin, seja durante todas as outras nossas atividades, a atenção, a observação dos nossos gestos, nossos pensamentos, nossos sentimentos é o foco. E aí nós entramos em outros aspectos do sesshin que também são zazen. (continua)