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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A mente que se prende


(continuação)
Monge Kômyô:  Quando nós somos capazes de superar o impulso egoísta, nós vamos ser capazes de enxergar o que nós consideramos nosso inimigo e ter compaixão por ele. Enxergar aquelas coisas que nós não gostamos, compreender essas coisas. Nós temos o direito de ter critérios, podemos gostar de certas coisas e não gostarmos de outras, mas mesmo ao se ter um critério, não é necessário que você crie apegos e aversões. Isso é uma sutileza, mas nós podemos exercitar isso.
O exercício vem através da Quarta Nobre Verdade, o caminho do meio, o caminho óctuplo – agir, viver, com profunda atenção, profunda paciência para aprender para compreender, para reconhecer, descobrir as origens e, no que diz respeito às outras coisas e às outras pessoas, ter o dom de se colocar no lugar do outro, de conseguir enxergar a ignorância do outro, aquela pessoa que nos fez sofrer. Aquela pessoa que nos magoou, essa pessoa sofre muito, ela é profundamente ignorante, nós temos a nossa ignorância, ela tem a dela. Certamente foi a profunda ignorância dela que fez com que ela agisse ou deixasse de agir de certa forma, e nos fizesse sofrer.
Compaixão significa você compreender a natureza daquela pessoa que te fez sofrer. Compreender. Não é condescender. A pessoa pode ter feito um grande mal, ela pode por exemplo ter batido em você, ela pode ter matado, dado um tiro em você, uma coisa horrível e agora você perdeu um olho por causa disso. Ainda assim, é possível fazer surgir a mente Bodichitta, é possível ter compaixão por essa pessoa, ainda que reconheça, que ela cometeu um ato de grave violência.
Eu temo que talvez eu não esteja conseguindo explicar corretamente este contexto, porque é uma experiência muito intensa, muito delicada, de equilíbrio no exercício de compreensão dos aspectos cruéis e não saudáveis que existem e a compreensão profunda dos mecanismos que levam a essas crueldades e injustiças, ódios, etc.
Todos nós aqui somos praticantes, cada um de vocês assumiu uma responsabilidade de prática. E ao praticante é necessário aprender a trabalhar a si mesmo para evitar cada vez mais se deixar intoxicar pelos aspectos não saudáveis da natureza da mente. A mente quando se perde na distorção egóica, age com uma identificação mesmo que ilusória, muito intensa. Faz parte do mecanismo distorcido da mente, se prender a coisas, mesmo que ela não precise se prender.
O grande ensinamento de Buda, é que nossa mente é livre, nós não estamos presos a nada e a ninguém. “Em essência”, ninguém, nem nada, nos faz mal. A ideia de que alguém ou alguma coisa nos faça mal, é uma ilusão. É uma aparência. Uma mágica. Nós experimentamos essa mágica como se ela fosse muito concreta, às vezes vira uma dor física, mas é a sua mente construindo aquela dor. O mundo continua o mesmo, nós é que estamos em conflito com o mundo. A mente fica presa.
Existe uma historia Zen de um homem que gostaria de praticar o Zen, estava muito interessado, procurou ler algumas coisas, e finalmente ouviu falar em um grande Mestre, um grande professor do Zen, e foi até o local onde havia a prática e bateu na porta. Abriu um velhinho comum, um monge Zen e o rapaz disse que gostaria de praticar, que procurou se preparar lendo muito sobre a prática, e que queria que o monge o introduzisse. O velhinho olhou pra ele e disse: “você quer praticar o Zen? Então ok. Vá para casa e pratique apenas uma coisa: não pense em macacos. Volte amanhã”. O homem foi embora, agradeceu. Duas horas depois ele volta, bate à porta, desesperado: “Monge, eu não consigo deixar de pensar em macacos!”
É assim a mente, o objeto que a mente se prende, ele em si, não tem relação direta com a mente, mas existe um estímulo, algo que desencadeia uma mente condicionada, uma relação de envolvimento ilusório com a ideia, e ai a mente começa a criar todo um universo de ilusão em torno daquilo.
Apesar desse impulso egoísta ser muito arraigado em função dos nossos condicionamentos, ainda assim existem aspectos na nossa vida, na nossa existência pessoal que favorecem a superação de qualquer apego. A resposta para a superação de apegos ou aversões se encontra nos vários aspectos belos da vida, que não tem a ver com os macacos. Está na capacidade de compreender que, ao haver uma experiência, nós nunca estamos realmente presos a ela, nós somos sempre livres. Fazer o zazen não é um problema. Caminhar lá fora e praticar respiração também não é um problema. As mosquinhas em torno da gente também não é um problema. Perder pessoas que nós amamos não é u problema. Lidar com problemas em nossa vida, em si, não é um problema. O problema é o desafio, o que nós entendemos de “problemas” nas nossas vidas são, na ótica da prática contemplativa, desafios. Como vamos lidar com esses desafios?
O trabalho ou o esforço para libertar a mente tem uma dinâmica particular, de cada um de vocês e cada um de nós lida a seu tempo e da melhor forma possível. Mas o caminho para a superação do egoísmo está no favorecimento da mente compassiva, no favorecimento de nossa capacidade, nem que seja aos pouquinhos, de começar a compreender melhor o sofrimento ou a ignorância daquele outro, daquela outra coisa, do objeto que aparentemente nos faz sofrer tanto. Compreender a natureza do objeto, o copo é o copo, o copo não sou eu. Se eu esperava beber água pura no copo mas bebi algo amargo, que me desagradou, não é culpa do copo. É uma circunstância. É um acontecimento, é um desafio. E o desafio é saber lidar com a circunstância e não se perder nela. Eu esperava água pura, mas bebi líquido amargo. Vou tentar praticar, para tentar encontrar meios de não ficar com raiva do copo ou do próprio líquido amargo porque ele não atendeu as minhas expectativas e, quem sabe, conseguir água pura em outro lugar. (Final)