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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Aung San Suu Kyi - condenada novamente para vergonha de Mianmar


Em uma nova demonstração de violência em um país budista em sua maioria, a ditadura militar socialista de Mianmar prende um símbolo internacional de resistência moral, abaixo texto do noticiário de Veja:

"A líder de oposição em Mianmar e Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, foi condenada a três anos de prisão e trabalhos forçados por um tribunal do país nesta terça-feira. A junta militar que governa o país, porém, reduziu a pena a 18 meses de prisão domiciliar, provavelmente temendo a reação da comunidade internacional.

Suu Kyi, de 64 anos, foi considerada culpada por ter transgredido as regras de sua prisão domiciliar. O processo da líder da oposição foi desencadeado após um cidadão norte-americano ter entrado e permanecido na sua casa durante dois dias no final de maio deste ano. Sem uma medida especial de clemência, a nova condenação a impedirá de participar nas eleições nacionais convocadas pela junta militar para 2010.

A União Europeia (UE) e a organização de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional (AI) condenaram a sentença contra Aung San Suu Kyi. A UE exigiu a libertação imediata de Suu Kyi e anunciou novas sanções contra o país asiático. "A UE pede com veemência às autoridades que a libertem imediata e incondicionalmente", diz o texto divulgado nesta terça. Já a Anistia Internacional considerou "vergonhosa" a condenação e também exigiu a libertação "imediata e sem condições". "A prisão, o julgamento e agora o veredicto não são mais que uma comédia política e judicial", afirmou a secretária-geral da AI, Irene Khan, antes de qualificar todo o processo de "vergonhoso".

Suu Kyi, premiada com o Nobel da Paz em 1991, é líder da oposição ao regime ditatorial do país, e ativista dos direitos humanos. Ela é filha de Aung San, o herói nacional da independência da Birmânia, que passou a se chamar Mianmar. Seu pai foi assassinado quando ela tinha apenas dois anos de idade. Suu Kyi teve a prisão domiciliar decretada de 1989 até meados de 1995. Depois disso, chegou a ter um breve período de "liberdade" até 2000. Neste ano, porém, ela foi novamente confinada entre as quatro paredes de sua residência por mais 19 meses. A junta militar que governa o país tem prorrogado de tempos em tempos a sua condenação.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

No Brasil, monges de Mianmar pedem sanções contra a ditadura em seu país




No Brasil, monges de Mianmar pedem sanções contra a ditadura em seu país

Religiosos reclamam a liberação de 2.000 presos políticos.
E querem oposição brasileira à venda de armas aos birmaneses.

Na foto:
Os monges Ashin Nayaka, Ashin Agga Dhamma e Ashin Kawwida, em visita ao Brasil (Foto: Paula Adamo Idoeta/G1)

O monge budista Ashin Nayaka não vê seus familiares desde 1988, quando uma Junta Militar assumiu o comando do seu país, Mianmar (ex-Birmânia) e ele refugiou-se na Índia. Não pode encontrá-los nem telefonar diretamente para eles. Muito menos voltar para sua terra natal. Nayaka se dedica, desde então, a viajar o mundo e a levantar consciência sobre a situação dos birmaneses, que vivem sob uma das mais rígidas ditaduras do mundo.

Com outros dois monges budistas, Nayaka está no Brasil desde 17 de agosto, para pedir apoio do governo brasileiro no embargo à venda de armas a Mianmar e no pedido de libertação dos 2 mil prisioneiros políticos birmaneses – entre eles, a líder oposicionista Aung San Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz em 1991, cuja prisão domiciliar foi recentemente estendida por mais um ano.

Sem isso, dizem os monges, as próximas eleições legislativas do país, agendadas para 2010, não representarão a vontade popular. “A votação não será justa ou livre e só servirá para legitimar as atrocidades do governo”, disse Ashin Nayaka ao G1. “Queremos que o Brasil se oponha a isso e defenda o Tratado de Vendas de Armas, que proibirá a venda de armamento para o governo militar”. Atualmente, os maiores fornecedores de armas para Mianmar são Rússia, China e Índia.

sábado, 31 de maio de 2008

Desespero aproxima birmaneses dos monges budistas e ameaça junta militar


31/05/2008

Reportagem do The International Herald Tribune
Em Kun Wan, Mianmar

Esta cena dificilmente ocorreria se as autoridades nela envolvidas fossem os generais que mandam em Mianmar: quando um comboio de caminhões levando suprimentos para ajuda humanitária, e liderado por monges budistas, passa pelas vilas devastadas pelo ciclone, crianças famintas e mães desabrigadas saúdam os religiosos inclinando o corpo, em um sinal de súplica e respeito.

"Quando vejo essas pessoas, tenho vontade de chorar", afirma Sitagu Sayadaw, 71, um dos mais respeitados monges de Mianmar.

Na clínica improvisada de Sayadaw, nesta vila próxima a Bogalay, uma cidade no delta do Rio Irrawady situada 120 quilômetros a sudoeste de Yangun, centenas de moradores atingidos pelo ciclone Nargis chegam todos os dias buscando a assistência que não receberam da junta militar ou dos funcionários das organizações de auxílio humanitário.

Birmaneses afetados pelo ciclone recebem ajuda em Shwepoukkan, região de Yangun

Eles remam durante horas no rio de águas agitadas, ou carregam os pais doentes nas costas, caminhando pela lama, debaixo de chuva. Todos viajam quilômetros para alcançar a única fonte de ajuda que conhecem e na qual sempre podem confiar: os monges budistas.

O ciclone de 3 de maio deixou mais de 134 mil pessoas mortas ou desaparecidas e 2,4 milhões de sobreviventes que enfrentam a fome à falta de moradia. Recentemente, as pessoas que se abrigaram em mosteiros ou que se congregaram nas estradas, aguardando pela chegada de ajuda, foram novamente deslocadas, desta vez pela junta, que deseja que elas deixem de ser um embaraço para o governo e exige que retornem para as suas vilas "para a reconstrução". Na sexta-feira (30/05), autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU) disseram que os refugiados estão sendo expulsos também dos campos de desabrigados administrados pelo governo.

Mas pouca coisa restou das suas casas, e estes indivíduos encontram-se quase tão expostos aos elementos quanto os seus búfalos cobertos de lama. Enquanto isso, a ajuda externa demora a chegar, já que as agências de auxílio humanitário só obtêm gradualmente acesso à região duramente atingida do delta do Irrawady, e o governo confisca os automóveis de alguns doadores particulares birmaneses.

"Em toda a minha vida, nunca vi um hospital. Não sei onde fica a sede do governo. Não posso comprar nada no mercado, porque perdi tudo o que tinha durante o ciclone", afirma Thi Dar. "Assim sendo, apelei para o monge".

Com lágrimas nos olhos, a mulher de 45 anos junta as mãos em um sinal de respeito perante o monge que entra na clínica, enquanto conta a sua história. Os outros oito membros da sua família foram mortos pelo ciclone. Atualmente ela nutre idéias de suicídio, mas não há ninguém com quem possa conversar sobre isso. Certo dia, chegou à sua vila a notícia de que um monge tinha aberto uma clínica a uma distância de dez quilômetros rio acima. Assim, na última quinta-feira, ela acordou cedo e pegou o primeiro barco naquela direção.

Nay Lin, 36, um médico voluntário na clínica Kun Wan, uma das seis clínicas e abrigos de emergência criados por Sitagu na área do delta,
diz: "Os nossos pacientes sofrem de ferimentos infeccionados, dores abdominais e crises de vômito. Eles também necessitam de aconselhamento por causa do trauma mental, da ansiedade e da depressão.

Desde o ciclone, os birmaneses aproximaram-se ainda mais dos monges, e a alienação do povo em relação à junta aumenta. Isso não prenuncia fatos positivos para o governo, que reprimiu brutalmente milhares de monges quando estes saíram às ruas em setembro do ano passado para pedir aos generais que melhorassem as condições de vida da população.

Em todas as vilas atingidas pela tempestade fica evidente quem conquistou o coração do povo.

Alguns monges morreram na tempestade com a população. Agora, outros consolam os sobreviventes, e dividem as moradias enlameadas com eles.

Enquanto o governo era criticado por obstruir as medidas de auxílio humanitário, o mosteiro budista, o centro tradicional de autoridade moral na maioria das vilas desta região, mostrou ser a única instituição na qual o povo pode confiar para obter ajuda.

Os mosteiros no delta - aqueles que ainda estão de pé após a tempestade - encontram-se repletos de refugiados. As pessoas seguem para lá com doações ou como voluntários. Os mosteiros que antes atuavam como centros religiosos, orfanatos e asilos para os idosos, atualmente funcionam também como abrigos para os flagelados.

"O papel dos monges é mais importante do que nunca", diz Ar Sein Na, 46, um monge da vila de That Kyar, na região do delta. "Em um momento de enorme sofrimento como este, o povo não tem ninguém a quem recorrer, exceto aos monges".

Kyi Than, 38, conta que viajou 25 quilômetros de barco até o campo de desabrigados de Sitagu.

"O monge da nossa vila morreu durante a tempestade. Hoje estou muito feliz por ter a minha primeira oportunidade de falar com um monge desde a tempestade. Para nós, os monges são como pais", diz ela. "O governo quer que fiquemos de boca fechada, mas os monges nos escutam".

Enfrentando o mais mortífero desastre natural na história recente do país, os monges mais antigos organizaram as suas próprias campanhas de auxílio.

Todos os dias, os comboios deles passam pelas estradas do delta. Uma figura proeminente nesta iniciativa é Sitagu, cujo nome, ao ser proferido por aqui, gera invariavelmente palavras de reverência ou um sinal de "positivo" com o polegar.

"A meditação é incapaz de remover este desastre. Agora o apoio material é muito importante", diz Sitagu. "Atualmente, no nosso país, não existe um equilíbrio entre o apoio material e o espiritual".

Caminhões carregados de arroz, feijão, cebola, roupas, lonas e utensílios de cozinha, doados por pessoas de todo o país, chegam ao Centro Missionário Budista Internacional de Sitagu, em Yangun, no início de cada manhã. Todos os dias, pouco após o nascer do dia, um comboio de caminhões ou uma barca no Rio Yangun segue para o delta, levando suprimentos e voluntários.

Entre os aldeões daqui, Sitagu parece ter tanta autoridade quanto o papa entre os católicos. Quando ele senta-se em um banco de madeira na sua sede de operações de campo, as pessoas fazem fila para demonstrar respeito. Os aldeões vêm para apresentar listas das suas necessidades mais urgentes. Os monges das vilas vizinhas pedem ajuda para consertar os seus templos. As famílias ricas de certas aldeias ajoelham-se diante dele e doam maços de dinheiro.

No entanto, assim como outros monges experientes, ele precisa manter um equilíbrio cuidadoso. Ele conta com a autoridade moral para falar em nome do povo sofredor, mas precisa também proteger os seus programas e hospitais que fornecem assistência médica gratuita aos destituídos, em um país cujo governo reprova tais iniciativas particulares.

Mas, em uma tarde recente, ao falar no seu abrigo, enquanto uma chuva provocada pelas monções batia contra o telhado, Sitagu parecia estar frustrado com o governo. "Não consigo enxergar um líder político verdadeiro no meu país. A 'via birmanesa para a democracia' pregada pelo general Than Shwe?", questiona ele, referindo-se ao líder máximo da junta militar. "O que é isso?"

Ele defende o levante dos monges de setembro do ano passado, afirmando que o fracasso do governo em proporcionar "estabilidade material" ao povo prejudicou a capacidade dos monges de fornecer "estabilidade espiritual".

Entre os monges entrevistados na região do delta e em Yangun não havia nenhum sinal de protestos organizados iminentes.

Mesmo assim, um monge de 40 anos no campo de refugiados de Sitagu diz que "os monges estão bastante furiosos" com a recente medida do governo no sentido de expulsar os refugiados dos mosteiros, das cabanas à beira das estradas e de outros abrigos temporários, ainda que a mídia estatal esteja repleta de artigos que falam sobre os esforços do governo para ajudar os desabrigados. "O governo não quer mostrar a verdade".

Um jovem monge no mosteiro do distrito de Chaukhtatgyi Paya, em Yangun, prevê que haverá problemas pela frente. "Vocês verão certas coisas voltarem a ocorrer, porque todo mundo está com raiva e desempregado", adverte o monge, que conta que participou da "revolução de açafrão", e que traz uma grande cicatriz sobre o olho direito, provocada pelo espancamento que lhe foi aplicado por um soldado.

Um monge do Estado de Mon, no sul de Mianmar, e que está visitando o delta para constatar os danos e providenciar remessas de suprimentos,
diz: "Para o governo, estas pessoas não passam de animais mortos nos campos".

O confronto efervescente entre os dois pilares atuais da vida em Mianmar - as forças armadas e o clero budista - é evidente nas vilas após a passagem do ciclone.

Pouco após a tempestade, um monge de Myo Thit, uma vila a 30 quilômetros de Yangun, caminhou pelas redondezas com um megafone convidando as vítimas a se abrigarem no seu mosteiro, e pedindo às pessoas que fizessem doações. Os moradores da vila contam que o monge teve que parar, depois que um líder local ligado ao governo ameaçou confiscar o megafone.

A interdependência entre os monges e o povo é muito antiga. Os monges recebem esmolas - comida, remédios, roupas, dinheiro para comprar livros - dos leigos. Em troca, oferecem conforto espiritual. Nas vilas destituídas de escolas do governo, uma educação monástica é freqüentemente a única disponível para as crianças.

"Existe uma relação de reciprocidade entre os monges e o povo", explica Desmond Chou, um estudioso de religiões comparadas, que nasceu em Mianmar, mas que mora em Nova Déli, na Índia. "Se há um incêndio em uma vila de Mianmar, geralmente são os monges, e não os bombeiros, que chegam primeiro ao local para salvar as pessoas".

Cortesia de: Ana Lúcia

terça-feira, 20 de maio de 2008

O relato da tragédia de Mianmar - Insensíveis os ditadores da "Via Birmanesa para o socialismo"

Um rio com milhares de corpos: o relato da tragédia de Mianmar
Milhares de corpos estão flutuando no delta do Rio Irrawaddy, em Mianmar, mas a junta
Elas desejam transportar para a cidade 70 toneladas de arroz, feijão e água potável engarrafada. As funcionárias da organização foram instruídas a avaliar a situação e fazer os preparativos necessários para a operação de ajuda humanitária planejada. Infelizmente, as duas não foram muito longe. Elas solicitaram uma reunião com as autoridades locais, mas o pedido foi negado.

As funcionárias visitaram campos de refugiados nos quais milhares de pessoas que perderam as suas moradias devido ao ciclone estão em uma situação precária, sofrendo de diarréia, e incapazes de fazer qualquer coisas por si próprias. Elas constataram como os representantes da junta militar vêm até esses campos para contar os vivos (mas não os mortos, que não são mais úteis para o governo).

Soldados entregaram aos sobreviventes cédulas de votação para o referendo constitucional do país. O referendo, que foi adiado na região do delta devido ao ciclone, deverá ser realizado aqui em 24 de maio -apesar de a imprensa controlada pelo governo já ter anunciado o resultado da eleição, que foi realizada na maior parte do país em 10 de maio, conforme originalmente planejado. O governo alegou que 99% dos eleitores votaram, e que 92% do eleitorado birmanês votou a favor da junta.

Elas observaram como folhas de zinco foram distribuídas para famílias de boa situação financeira, para que pudessem consertar os telhados das suas casas de pedra localizadas nas ruas principais, que só foram ligeiramente danificadas pela tempestade. Desta forma tudo terá uma aparência bonita e arrumada quando quer que os generais passarem por essas ruas nas suas limusines pretas.

As funcionárias viram também como os campos foram montados com tendas feitas de folhas de plástico azuis. Mas ninguém está vivendo nessas tendas. Elas serão ocupadas por apoiadores do regime pouco antes de os generais fazerem uma visita, acompanhados da televisão estatal e de repórteres do jornal "Nova Luz de Mianmar", controlado pela junta. Isso é para provar ao povo de Mianmar e do mundo que os generais mantém a situação no delta sob controle.

"Isso teve início com um desastre natural", diz a mulher mais baixa, lutando para conter as lágrimas e controlar a raiva. "Agora a situação diz respeito apenas à política. O que a junta está fazendo aqui é algo tão repugnante que é difícil acreditar".

As mulheres estão sentadas à margem da estrada de concreto próxima a Bogalay porque o desespero fez com que tentassem uma tática diferente.
Em um esforço derradeiro, elas tentam contrabandear os suprimentos de auxílio humanitário para a cidade devastada. Elas fizeram com que o arroz, o feijão e a água fossem acondicionados em caminhões da Cruz Vermelha Birmanesa. Assim os caminhões teriam permissão para entrar na zona de exclusão, já que pertencem a uma organização de auxílio birmanesa.

Mas até o momento nenhum caminhão chegou. De fato, parece que ninguém está vindo para Bogalay. As mulheres temem que o estratagema possa ter sido descoberto. Elas acham que os militares podem ter parado os caminhões em algum ponto do percurso e que os motoristas podem estar impedidos de seguir viagem.

Bogalay fica no delta do Irrawaddy, cerca de cem quilômetros a sudoeste de Rangoon, no meio de arrozais verdejantes. Esta foi a área mais violentamente atingida pelo ciclone Nargis, que abateu-se sobre a região nas primeiras horas da madrugada do sábado, 3 de maio. Ventos de até 230 quilômetros por hora passaram pela região do delta e criaram grandes ondas que subiram o rio. Uma delas atingiu Bogalay, derrubando coqueiros sobre milharais e jogando embarcações contra moradias. Os casebres da população foram simplesmente varridos do mapa.

Há um silêncio sinistro em Bogalay. Não se ouve o som de motosserras, escavadeiras ou tratores. O exército birmanês tem cinco helicópteros, mas durante o dia inteiro nós não vimos nem um deles. Não se ouve sequer pássaros trinando. Os sobreviventes dizem que depois da tempestade os pássaros silenciaram.

Cerca de 200 mil pessoas moram nesta cidade portuária e nas cercas de 500 vilas que ficam em volta dela. A maioria dos moradores é composta de agricultores que cultivam arroz, e que moram em choupanas cobertas com folhas de palmeiras às margens do Irrawaddy e dos milhares de seus afluentes menores no delta. Quase todas as choupanas foram destruídas pela tempestade. Incontáveis corpos flutuam no rio. Dezenas de milhares de seres humanos morreram aqui. O número total de mortos pode chegar a 130 mil. "Por que deveríamos retirá-los do rio?", questiona um sobrevivente. "Mal somos capazes de ajudar a nós mesmos".

Faz mais de duas semanas que Bogalay praticamente não recebe remessa alguma de suprimentos de ajuda. O grau de cinismo demonstrado pelos generais da junta é criminoso. Os sobreviventes têm consciência de que a mídia internacional faz reportagens diárias sobre eles, de que milhões de dólares e toneladas de suprimentos foram doados e de que grande parte desse auxílio já chegou a Mianmar. Mas até o momento eles não receberam qualquer assistência financeira, suprimentos médicos ou sequer arroz para comer.

Mas não são apenas os suprimentos de outros países que estão proibidos em Bogalay; os estrangeiros também estão. A junta colocou soldados de prontidão em postos policiais construídos às pressas. Eles montam guarda em pontes e em entroncamentos de estradas que conduzem ao delta, e inspecionam cada veículo que passa, gritando: "Naingchartar?" ("Estrangeiros a bordo?"). Todos que não forem birmaneses ou que não apresentarem uma permissão oficial são obrigados a sair do veículo.

Nós chegamos à cidade pouco depois do pôr do sol. Tivemos que fazer três tentativas até conseguirmos chegar aqui. No início do dia fomos parados por soldados que anotaram os números dos nossos passaportes, ainda que não conseguissem lê-los (e o fato de segurarem os passaportes de cabeça para baixo provavelmente não ajudou). Eles ordenaram ao nosso motorista que desse meia-volta e retornasse a Rangoon.

Nós vagamos por estradas de cascalho durante horas a fio, vendo apenas arrozais e pessoas esmolando à beira da estrada. Procuramos nos esconder na traseira do táxi no qual viajamos. Os nossos ajudantes birmaneses colocavam casacos e cobertores sobre nós todas as vezes em que surgia um posto policial.

"Precisamos de um telhado sobre as nossas cabeças"
Em Bogalay, fomos acolhidos por um médico que mora em uma rua simples. São 20h e a sala de tratamento está lotada de pacientes. Uma mulher usando um sarong rasgado entra às pressas. Ela é de uma da vilas ao longo do Irrawaddy que foram totalmente destruídas. A mulher viajou quatro horas de barco até chegar aqui. Ela carrega uma criança nos braços. É o seu neto. A filha, cujo bebê ela tenta salvar, e oito outros membros da família foram mortos pela tempestade. Faz uma semana que o neto dela tem febre e diarréia. A criança vomita e começa a chorar.

O médico fala com uma voz alma e reconfortante. Não há muito que ele possa fazer -o seu armário de remédios dá a impressão de ter sido saqueado. Caso uma epidemia de desinteria ou tifo irrompesse de fato aqui, ele não poderia fazer nada, a não ser fugir.

O médico nos leva até um jovem monge de cabeça raspada que usa óculos de estilo antiquado. Ele não pergunta nada e nos recebe com um sorriso gentil. O monge usa um robe vermelho-escuro, e, no mosteiro, está sentado em uma cadeira parecida com um trono. Nos bons tempos os fiéis vêm até aqui, ajoelham-se em frente a ele três vezes, e lhe oferecem esmolas e comida como forma de melhorar o karma. Essas pessoas acreditam que, quanto mais doarem, mais fácil será a próxima vida. E caso aconteça algum desastre, elas crêem que isto se deve a algo que fizeram em uma vida anterior.

À noite, quando todos estão dormindo, o monge coloca um rádio transistorizado junto ao ouvido e escuta a "BBC" e a "Free Asia".
Essas estações foram proibidas pelo regime militar, mas mesmo assim quase todos as ouvem em Mianmar. Bogalay é freqüentemente mencionada nesta noite em particular.

Antes da aurora o monge caminha conosco pelas redondezas. Uma escola próxima ao mosteiro foi transformada em um campo para acolher 1.400 pessoas que ficaram desabrigadas pela tempestade. As pessoas usaram mesas e cadeiras para fazer camas. Elas agacham-se em poças enlameadas de água no refeitório da escola. A água da chuva pinga sem parar do telhado de zinco. Crianças jazem em poças de água escuras e mulheres preparam sopas ralas em fogueiras. Lenha é a única coisa que não está em falta por aqui.

Aonde quer que o monge vá, as pessoas aglomeram-se à sua volta. Elas o convidam para entrar em suas casas destroçadas e fazem chá para ele. Ele as conforma sem falar muito. Ele simplesmente as apóia com a sua presença.

O monge nos leva até o porto. Aqui, também, casas desabaram, telhados foram arrancados e paredes desmoronaram. A barca de Rangoon está atracada em um píer no qual chegou dois dias atrás com produtos "Made in Myanmar". Ajudantes carregam água engarrafada da barca, bem como alguns sacos de arroz e frutas. Os soldados montam guarda no cais, com metralhadoras dependuradas nos ombros, observando atentamente cada movimento. Esta é a cara da junta. "Primeiro eles estocam os mantimentos", diz o monge. "Depois, avaliam cuidadosamente o que distribuirão e a quem. Esse processo pode demorar dias. De qualquer forma, não haverá o suficiente para todo mundo".

O monge fala com o dono de um depósito de barcos, que consegue alguma gasolina e nos ajuda a entrar em um barco de metal enferrujado. O monge agacha-se, segura-se à borda da embarcação e olha para a água amarronzada. De vez em quando ele aponta para a margem, ao enxergar mais um corpo, mas na maioria das vezes não diz nada. Esta é a primeira vez desde a tempestade que ele olha a cidade a partir do rio. Aquilo que ele vê faz com fique em silêncio.

Os corpos estão inchados, com a pele amarela coberta de pústulas negras.
Cada onda leva-os para mais perto da margem. Alguns encontram-se emaranhados nos juncos. Uma perna amputada desponta entre as raízes de uma árvore. Os sobreviventes caminham pela margem, segurando panos sobre o nariz na tentativa de se protegerem do odor adocicado nauseabundo exalado pelos corpos putrefatos. Apenas alguns metros adiante algumas pessoas pescam, lavam as roupas e cozinham as suas últimas reservas de arroz em latas de zinco.

Tha Mynt está em uma pequena ilha feita de terra aluvial. A sua vila consistia de 80 casebres de bambu. Agora só cinco estão de pé. A metade das 400 pessoas que moravam aqui morreu. Tha Mynt está de pé na beira d'água. Ele está descalço e usa uma camiseta rasgada. Vizinhos sentam-se nos caibros do seu casebre, ajudando-o a cobrir de novo o telhado, usando para isso pequenas lascas de madeira em vez de pregos. Eles queimam destroços das cabanas destruídas e arroz estragado pela enchente.

Tha Mynt nos diz que, na noite em que a tempestade atingiu a área, ele não fazia a menor idéia do que estava por acontecer. Não houve nenhum aviso. Não há energia elétrica nas aldeias, e, freqüentemente, também não existe nenhum aparelho de rádio. Quando o vento começou a soprar e a chuva a cair, ele abrigaram-se nas choupanas. Quando estas começaram a desabar, eles pularam no rio, com água pelo pescoço, e agarraram-se a troncos de coqueiros. As mulheres amarraram os seus bebês nas costas com roupas. Mas a tempestade rasgou as roupas, fazendo com que os bebês se soltassem.

Tha Mynt conta que na manhã seguinte eles sentaram-se na margem do rio, paralisados pelo choque e a exaustão. Os seus bens, as suas imagens do Buda, o dinheiro que ganharam com a colheita do arroz e que mantinham em caixas de metal no altar do Buda, tudo foi carregado pela inundação.
Eles mandaram as suas mulheres e os seus filhos para a cidade, para ficarem com parentes, e a seguir jogaram no rio os corpos dos moradores mortos e dos búfalos afogados para que fossem levados pela correnteza.
Não havia mais nada que pudessem fazer.

O que acontecerá agora? Tha Mynt dá de ombros. "Primeiramente, precisamos de um telhado sobre as nossas cabeças e de alguma coisa para comer", diz ele. "Depois, veremos o que vamos fazer". Por que ele não está chorando? Por que não expressa desespero e nem reclama? Por que não está furioso? O monge diz que o povo daqui vê a borrasca como um destino, um sinal de mau karma. Mas eles também culpam a junta militar.

Eles vêem a tempestade como uma punição pelo fato de o exército ter espancado brutalmente e matado monges em setembro passado, quando eles protestaram contra o regime. Mas, no final, como sempre, quem arca com a maior parte do sofrimento é a população em geral.

O monge ordena que o barco continue subindo o rio. Ele quer ter uma imagem da dimensão do horror. Mas agora ele não emite uma só palavra.
O capitão do barco é um garoto de apenas 16 anos. Ele usa um boné de beisebol com a foto de Che Guevara e tem um cigarro atrás de cada orelha. O adolescente diz que mais acima há um numero ainda maior de corpos boiando na água -são tantos que é difícil passar por eles de barco.

Inicialmente os sobreviventes remaram até lá em canoas, procurando por familiares desaparecidos. Agora o odor de corpos podres é tão insuportável que deixa as pessoas nauseadas e incapazes de identificar os mortos.

O jovem capitão diz que cadáveres geralmente não têm nenhum significado para os budistas. Mas até mesmo ele acha a imagem perturbadora.

"Se ninguém ajudar essas pessoas, nós, birmaneses, teremos que ajudá-las"
O capitão pára em um moinho de arroz. O moleiro e a sua família só sobreviveram ao ciclone porque naquela noite refugiaram-se na área de depósito de arroz. Eles sentaram-se no topo de uma pilha de sacas de arroz, aglomerados, tremendo de frio e medo, recitando orações budistas a noite toda. Depois que a tempestade acabou e o sol voltou a surgir -o céu estava azul nos primeiros dias após o ciclone- a filha do moleiro deu a luz a uma criança. O bebê nasceu muito prematuro, mas está saudável, pelo menos por ora.

O monge indica que deseja partir. Ele nos mostra uma trilha sinuosa que leva a uma ponte localizada nos arredores da cidade. Ele abre o seu guarda-chuva, que é vermelho-escuro como o seu robe, sorri para nós e desaparece no lusco-fusco.

Alguns quilômetros fora da cidade, as duas mulheres birmanesas ainda estão aguardando os caminhões carregados de arroz e outros suprimentos.
À noite elas retornarão a Rangoon, extremamente frustradas por não terem conseguido cumprir a missão da qual foram incumbidas.

No caminho de volta, os dois birmaneses que nos acompanharam de Rangoon a Bogalay começam a fazer ligações nos seus telefones celulares. O que eles viram os deixou chocados. Agora eles querem fazer alguma coisa, superar a sensação de impotência.

Eles telefonam para pessoas que têm dinheiro e influência -monges proeminentes, empresários chineses e russos que estão nos principais hotéis internacionais. Eles passam horas pedindo doações em dinheiro, roupas e alimentos. Enquanto estávamos no barco eles tiraram fotografias dos corpos, usando o zoom de suas câmeras para obter imagens em close-up. Não foi algo fácil, mas eles sabiam que precisariam de fotografias para mostrar a possíveis doadores. "Caso contrário eles não acreditarão em nós e não nos darão nada", disseram. No dia seguinte eles querem alugar um caminhão e seguir para Bogalay. "Se ninguém mais ajudar essas pessoas, nós, birmaneses, teremos que ajudá-las".

Podemos ver o Pagode Shwedagon, uma estrutura famosa de Rangoon, com o seu brilho dourado à distância. O dano causado pela tempestade ao telhado foi consertado rapidamente, e à noite ele está novamente iluminado por holofotes amarelos. Pode-se ver funcionários de organizações de auxílio humanitário usando botas pesadas e calças de trabalho sentados e de pé nos saguões dos hotéis. Eles aguardam pelo início de uma missão que provavelmente jamais ocorrerá. Esses indivíduos não podem fazer nada antes que a junta lhes conceda autorização.

Diplomatas ocidentais e delegações da Organização das Nações Unidas
(ONU) apresentam planos para missões e preparam-se para reuniões em Naypyidaw, cidade que foi declarada a nova capital administrativa do país. Eles ainda não desistiram.

O general Than Shwe, o líder da junta, continua passando a maior parte do tempo em reclusão em Naypyidaw. O general é um homem supersticioso que não confia em ninguém, a não ser no seu astrólogo. Ele optou por se isolar do seu povo e do resto do mundo na bizarra nova capital.

Existe pouquíssima informação sobre a vida dele, mas um vídeo de dez minutos do casamento suntuoso da sua filha pode ser visto no YouTube. É um espetáculo decadente, mostrando a filha dele com o cabelo cheio de diamantes e usando um vestido de casamento feito mais fina seda. Vê-se também um bolo de casamento de cinco andares e muita champanha que foi servida aos convidados. Em meio a todo esse esplendor, pode-se ver o ditador empanturrando-se sem nenhuma manifestação de alegria, enquanto lá fora o seu povo passa fome.

Naypyidaw fica 350 quilômetros ao norte de Rangoon, no meio da selva. É como se a cidade estivesse em um outro planeta.

Tradução: UOL
fonte:http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2008/05/20/ult2682u798.jhtm

quarta-feira, 2 de abril de 2008

De onde vem a tradição de engajamento dos budistas?

De onde vem a tradição de engajamento dos budistas?

Matthew Weiner*
Em Nova York


Os ocidentais tendem a pensar no budismo como uma religião passiva, focada na meditação silenciosa e no crescimento espiritual pessoal. A imagem de Buda sentado com um sorriso resume-a.

Então, apesar de o Ocidente estar familiarizado com conflitos e ativismo em outras religiões, a "revolução açafrão" em Mianmar e a "revolta em alta altitude" no Tibete surpreenderam muitos.

De fato, há uma tradição saudável de ativismo budista. Freqüentemente chamada de "budismo engajado", expressão cunhada pelo monge zen budista vietnamita Thich Nhant Hanh, ela estimula uma crítica budista das estruturas governamentais e econômicas, além de esforços para aliviar o sofrimento social.



No Sri Lanka, o movimento Sarvodaya atua em mais de 1.000 aldeias em programas para dar poder aos pobres. Maha Ghosanand, monge budista cambojano reverenciado, liderou milhares de pessoas em passeatas pacíficas pelos "campos de morte", buscando reconciliação com o Khmer Vermelho. O próprio Nhant Hanh pediu que o Norte e o Sul do Vietnã parassem o derramamento de sangue.

Na Tailândia, o "monge da floresta" Prachak "ordenou" as árvores da floresta, embrulhando-
as com vestes de monges para salvá-las das madeireiras. O movimento Tzu-Chi do Taiwan tem milhares de voluntários que respondem a desastres naturais ou provocados pelo homem.

O reverendo Nagaki, da Igreja Budista de Nova York, faz uma missa anual pelo aniversário de Hiroshima. Depois de 11 de setembro, ele lembrou o uso dos campos de internação americanos na Segunda Guerra Mundial e pediu a todos os budistas que ajudassem os cidadãos muçulmanos. Nagaki gosta de mostrar uma imagem de Buda em pé.

Ele diz que o budismo envolve ter uma mente tranqüila, mas isso não quer dizer ficar apenas sentado.

Ativistas budistas citam as escrituras para argumentar que estão simplesmente seguindo o que Buda ensinou. Em uma delas, Buda confronta um assassino que está em vias de matar sua mãe; em outra, ele pára uma guerra entre duas tribos.

O terceiro exemplo é a idéia do Bodhisattwa: um ser que trabalha incansavelmente para salvar outros seres do sofrimento.

Uma fonte do engano ocidental em relação ao budismo é nosso fascínio com a meditação. Apesar de a meditação ser crítica ao budismo, como a prece é para o cristianismo, o judaísmo, e o islamismo, ela não exclui a ação, como a prece tampouco.

De fato, o foco do budismo na meditação enfatiza um estado da mente que pode levar a um tipo particular de ativismo -a meditação andando e a resistência não violenta- como demonstrado por Maha Ghosadanda no Camboja ou pelos monges em Mianmar.

Os enganos continuam com a expressão "monge budista". "Monge" é um termo cristão para ascetas religiosos que geralmente praticam sua fé em isolamento. A palavra vem do grego "monos", "sozinho".

No entanto, "bikkhu", o termo budista para monge, é traduzido literalmente como "mendigo".

Os "bikkhus" devem ensinar e guiar a comunidade laica e mendigar por seu alimento. Desde sua introdução na prática budista, o "bikkhus" tiveram um relacionamento profundamente recíproco com o mundo laico -inclusive o governo- como professores e modelos espirituais. Eles sempre foram ativos no mundo.

Outra noção que não se sustenta em uma análise da história é que todos os budistas ativos são pacifistas; de fato, há aqueles que argumentam que nunca houve uma guerra budista. Mas há também exemplos tristes na história, de participação budista na opressão do governo e violência.

Ainda assim, é pelo ativismo pacífico que os monges budistas são conhecidos e mais respeitados. Que eles tenham se oposto à injustiça em Mianmar e no Tibete não deve ser uma surpresa. Que eles não responderam a violência com violência deve ser elogiado.

*Matthew Weiner é diretor de programas do Centro Inter-religioso de Nova York.

Tradução: Deborah Weinberg

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Perseguições em Mianmar

Junta de Mianmar processa líderes de protestos

A junta militar que controla Mianmar decidiu reforçar a perseguição aos dissidentes que defendem reformas democráticas no país. Nesta terça-feira, fontes ouvidas pela agência de notícias Reuters informaram que dez opositores do regime serão processados pela participação nas manifestações contra a junta. Um dos alvos do governo é Min Ko Naing (na foto, à direita), um dos organizadores dos protestos. Eles podem receber penas de até sete anos de prisão. Curiosamente, os dez dissidentes deverão ser processados por causa do envolvimento em um grande levante organizado em 1988, e não pelos protestos de agosto de 2007. Eles foram detidos na onda recente de manifestações, mas por enquanto não serão acusados formalmente por esse papel. De acordo com a Anistia Internacional, 700 dissidentes políticos foram detidos depois dos protestos do ano passado. A ditadura militar de Mianmar já dura quase 46 anos.

(Veja on-line)