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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Originação Dependente: Nagarjuna



A identidade própria de cada um é construída nesta vida. Cada um de nós constrói a sua identidade através da operação de nossas mentes. Isso explica por que perdemos as nossas identidades quando temos uma doença séria como um Alzheimer, um AVC ou uma amnésia: quando perdemos nossa memória, perdemos a noção de nós mesmos com o ser. 
Bem estabelecidos esses dois pontos, admitimos que, em princípio, o budismo está analisando que não existe um eu dentro de coisa alguma, nenhum ser tem um eu, individual, próprio, nem nenhuma coisa tem um eu individual.
Nagarjuna é o grande filósofo do budismo do século II d.C., e que se aprofunda e desenvolve mais este assunto. Ele é importantíssimo para nós, sendo chamado em alguns textos de o segundo Buda. 
Filosoficamente ele fez um trabalho imenso: é um sutil metafísico que desce sem piedade sua navalha sobre a maior parte dos conceitos mais queridos e difundidos em quaisquer ambientes filosóficos. Nenhum outro pensador, exceto talvez Platão, tenha sido tão incongruentemente rotulado. Foi rotulado de tudo: de realista, de empirista, de idealista, de crítico, de desconstrutivista, de “wittgensteiniano”, de filósofo da linguagem, de epistemólogo, de cético, de niilista, para ficar só entre os adjetivos mais disseminados.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Amamos a nossa identidade


Pergunta: O rakusu é uma versão do kesa?
Monge Genshô:
O rakusu é a miniatura do kesa. Ambos são feitos de retalhos porque a lenda é que Buda costurou retalhos para fazer o seu kesa. Há vários significados simbólicos nisso. Ele cortou os pedaços de pano que estavam sujos de pus e de sangue, lavou cuidadosamente, recortou os pedaços que eram aproveitáveis e os costurou. Tingiu de ferro e de açafrão, de acordo com a lenda, então seu manto tem a cor amarelo açafrão. Já faz 2600 anos que nós usamos o manto assim como símbolo desse primeiro kesa de Buda. Nossa ideia é que nós somos a mesma coisa, nós somos cheios de pedaços bons e ruins, se nós descartarmos os ruins e pegarmos cuidadosamente os bons podemos fazer algo bonito. Os melhores são feitos de retalhos de tecidos que foram jogados fora, que não serviram para mais nada. Fica mais difícil fazer assim, mas fica mais valioso. Na medida em que o tempo vai passando a gente vai decaindo, degenerando, então hoje um manto de um Monge no Japão feito numa loja especializada é muito bonito, sem dúvida, mas pode custar 200 mil ienes, que seria 2 mil dólares. Isso é a nossa decadência. Nós vamos saindo do ato de Buda de usar tecidos jogados no lixo para reproduzir o manto pensando em ter algo perfeito, luxuoso, com um tecido muito bom, costurado pelo melhores artesãos.

Pergunta: Fiquei pensando sobre a ideia do eu e como o desaparecimento dele nos incomoda.
Monge Genshô:
É, nós amamos muito nossa identidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O vazio



Aluno: O eterno é só o vazio mesmo?
Monge Genshô: O que é o vazio?

Aluno: Na verdade é mais fácil perguntar o que não é o vazio, o universo, nós somos todos manifestações do vazio, certo?
Monge Genshô: Não, nós não somos manifestações do vazio.

Aluno: Da forma que o vazio tomou...
Monge Genshô: O vazio não tomou uma forma, ele não é uma coisa.

Aluno: É difícil explicar.
Monge Genshô: Nós usamos o termo “vazio”, que vem de “shunya”. Esse é um erro constante, de nós transformarmos o vazio em algo. O que eu disse foi: o armário é vazio de um “eu armário”. Na realidade ele é um conjunto de agregados, quando nós dizemos “armário”, eu estou atribuindo um “eu” a ele. Neste momento, um estado, mas quando eu digo “Zuleica”, estou atribuindo a ela uma identidade, mas na realidade Zuleica é vazia de um “eu”, assim como o armário também é vazio de um eu. Todas as coisas são vazias de um “eu” inerente. Esse “eu” é só um atributo que nós damos para poder lidar com as coisas, para poder entender.

Um carro anda, funciona, ronrona, faz som, consome gasolina, não é? Sai da fábrica, nasce, morre, enferruja, é transformado. Damos até um nome pro carro, não damos? Tem gente que fica triste quando o carro estraga, mas na verdade o carro é uma soma de agregados, de peças às quais, juntas, arrumadas de determinada forma, nós chamamos de carro. Mas um carro é vazio de um "eu". Nós damos um número a ele, colocamos um chassi, registramos, damos documento pra ele, não é? A certidão do carro. Mas ele é vazio de um eu, assim como nós também somos vazios de um eu. Mas usamos um eu para andar no mundo.

Então, todas essas formas são vazias de um eu. Isso é que é o vazio. Então o vazio são as próprias formas e as formas são todas vazias. De que? De um “EU”. Assim, o vazio não é uma coisa, nada brota de uma coisa chamada vazio. Vazio não é a descrição de uma divindade ou coisa assim. Aliás, no budismo, como nós sabemos, não existem divindades. Vocês podem achar textos que dizem “os deuses”, mas os deuses o que são? Manifestações cármicas de um nível melhor, mas também decaem e morrem. Alguns são tão poderosos, sábios etc e tal, tão orgulhosos, que acreditam que criaram o mundo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O eu a ilusão básica



(Continuação)   Monge Genshô:  Bud significa acordar (das ilusões). Mas as pessoas estão todo o tempo se apoiando em ilusão. Qual a ilusão mais poderosa? A ilusão que atrapalha todo mundo? Eu. Esta poderosa ilusão, chamada “eu”, é arrasadora. Porque ela tem dados de realidade poderosos. Todos estão sentados aqui agora, abrem os olhos e vêem os outros. Registram a impressão – eu estou vendo os outros. Então eu enxergo, eu recebo uma informação, eu sou um centro de informações, processo, penso, tenho formações mentais e todo esse conjunto de formações mentais propiciados por minhas experiências sensoriais me diz que eu sou o observador, o registrador. E quando alguém diz - este eu aqui é construído, uma ilusão, você não consegue acreditar nisso. Porém, se eu disser assim, você acredita profundamente na sua existência pessoal, no seu eu.

Monge Genshô: Quem está aqui pela primeira vez? Você, quem é você?
Aluna: Quem está aqui agora.
Monge Genshô: Quem está aqui agora, mas, quem exatamente?
Aluna: Lívia.
Monge Genshô: Mas Lívia não é você, é o nome que seus pais lhe deram. Lívia não serve. Quem é você, além dos nomes que seus pais lhe deram?
Aluna: Eu sou o resultado do que aconteceu em minha vida.
Monge Genshô: E você registrou esse resultado onde?
Aluna: Na minha cabeça.
Monge Genshô: Então você é o resultado das suas memórias, certo? Inclusive até aquele de que seus pais lhe deram tal nome, não é isto?
Aluna: Sim.
Monge Genshô: Mas, se você perder sua memória hoje e acordar amanhã de manhã numa cama de hospital com amnésia, nós iremos visitar você e dizer - nós sabemos quem você é, você é Lívia. E você dirá - não me lembro. Você não tem mais memória, certo? Mas todo o resto está aí, então perguntaria de novo: quem é você? Não vai saber, pois você é essencialmente construída com memórias acumuladas, com registros de experiências. Mas de suas memórias você já não se esqueceu de grande parte? Então essa construção, vamos dizer assim, é um pouco aleatória, seletiva, não é? Poderia até ser outra. Só escolher outras memórias e seria outra pessoa. Então, seria possível, se fôssemos capazes de interferir no seu cérebro, selecionar memórias que você quer lembrar e outras que não quer lembrar e construir outra pessoa. Então, quem é você, se você é só isso? Alguém que está sentado aqui pode contestar isso? Você é alguma coisa além de suas memórias?

Vocês conhecem quem tem nascido de novo e mantido memória da vida anterior com tal inteireza que pode dizer - eu sou aquele?  Às vezes a gente vê registro de pessoas com memórias parciais, mas é um flash. Se fosse memória integral, seria como manter o seu eu de uma vida para outra. Vamos dizer assim, se o eu é construído com memória o tempo todo, este eu aqui é o mesmo de hoje para amanhã? O que você acha? É o mesmo? Mas a memória não mudou? Se vai mudando as memórias, mudando, mudou muito. Seria o mesmo eu?

Aluno: Acho que contém.

Monge Genshô: Ah, contém. Então aquele eu vai conter um fragmento do novo eu. Onde é que quero chegar - o eu de hoje não é o eu de ontem. Se você não se lembra da vida passada, qual foi o eu que sobreviveu de uma vida para a outra?
Aluna: A essência.
Monge Genshô: E o que é essa essência?
Aluna: O que eu sou.
Monge Genshô: O que você é não era constituído por suas memórias? Mas se não tem memória nenhuma, o que sobrou?
Aluna: A minha essência.
Monge Genshô: Mas qual é a sua essência? O que é você além de suas memórias?
Aluna: Não sei dizer.
Monge Genshô: Ninguém saberia dizer pois seu eu é essencialmente constituído por suas memórias. Por isso aquela que acorda sem memória  responde - "não faço a menor ideia".  (continua)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A função do eu



Monge Kômyô:  O que é o EU? O “eu” é um composto, sob a ótica budista. Esse composto pode ser subdividido em 5 fenômenos, 5 aspectos que juntos vão compor uma identidade pessoal. Pensamentos, percepções emocionais, formações mentais, consciência, todas essas reunidas em uma forma, um corpo. A bem da verdade, o fenômeno é um binômio mente – corpo. Mas a mente nos ensinos de Buda é, digamos assim, subdividida em 4(quatro) principais fenômenos.
A identidade pessoal é um construto, no que diz respeito à nossa vida. O eu é necessário, não é supérfluo. No samsara o composto está numa personalidade, na sua funcionabilidade, o eu tem a sua função também, como tudo na existência. O fato dele ser um artifício, não significa que no plano psicológico, psicoemocional, o eu não tenha uma função.
A problemática do eu é que ele era um guardião que se tornou guarda. Era um protetor que se tornou um ditador.  Às vezes dizem que nós temos que aniquilar o eu nós temos que acabar com o eu e isso não é muito correto! O eu como construto, é o próprio fenômeno da existência traduzido nesse artifício chamado eu, e ele possui camadas. Na experiência contemplativa há um momento em que nós podemos entrar em contato quando conseguimos derrubar as camadas superficiais e condicionadas do nosso eu. Entramos em contato com o que se chama “o verdadeiro eu”, sendo que na linguagem ZEN é chamado de “não-eu”. O termo para nossa mente, mente mais cartesiana, mais racional, parece um termo negativo,  “não-eu”, e aí pode-se imaginar,  claro, naturalmente, que se tem que acabar com o eu. Mas o não-eu é uma definição para um estado de percepção profunda em que os artifícios não saudáveis do eu condicionado, são superados. Daí que o “não-eu” é uma experiência de integração com o todo. ( continua )

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Papéis sofredores


Pergunta: E quando não tem mais jeito de ajudar uma pessoa? Quando o nível de depressão dela é tão grande, que faz até medo ela se suicidar... Os amigos trabalham o tempo inteiro  mas a pessoa não reage...

Monge Genshô – Esta é uma questão muito comum, que sempre é levantada. Por exemplo, uma pessoa perdeu um filho único, e daí toda a família quer ajudar, e fica todo mundo em volta. Então, quem ela é? Ela é a mãe sofredora que perdeu o filho. E se ela abandonar isto, cadê a identidade dela? Ela não sabe, mas precisa ser a mãe sofredora que perdeu um filho para ser importante. Em algum momento alguém precisa chegar e dizer: -“ Chega!”. A vida, o tempo inteiro, se apresenta na frente. Há uma vida e mais outras vidas para viver, você não precisa acabar-se porque perdeu um filho. Minha avó materna perdeu 20 filhos. Ela teve 23 filhos, sobraram três e ela continuou vivendo. Ela era uma avó muito interessante para mim, muito amorosa com o neto. A minha mãe perdeu quatro filhos. E no fim da vida ela dizia “como eu sou feliz, como eu sou feliz”. Sim, muito feliz. Não é necessariamente porque aconteceu algo em sua vida que você está acabado, porque ainda há muita coisa, ainda há muitas vidas para se viver. Agora se você ficar agarrado na fantasia, no papel de sofredor e de vítima, pode ser que este papel seja tudo que sobrou para você, e a atenção dos seus amigos seja preciosa. Imagine, e se abandonar este papel? Será que os amigos vão correr atrás, vão tentar consolar?  Quem sabe vocês estão ajudando tanto esta pessoa, que ela não pode mais escapar deste papel?

Pergunta: Voltando à questão das identidades, como tratar disso com as crianças pequenas?

Monge Genshô – Então, como eu já falei nós precisamos de identidades para transitar no mundo. Então dê a elas identidade. Iluminação é outra coisa que vem depois, mas como ser humano você não vai poder viver sem identidade.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O eu necessário


Pergunta: Quando o senhor diz que somos iguais, e que devemos esquecer-nos de nós mesmos. Vem-me à mente que a busca do autoconhecimento já não é mais tão importante nesta jornada [espiritual]. É isso?

Monge Genshô – O autoconhecimento é importante sim. A dificuldade aqui é que já estou apontando o fim do caminho, mas existe um caminho para andar, e enquanto você percorre este caminho, você só poderá o fazer com a ajuda deste seu “eu”. A gente diz: - “Esqueça seu eu!”. Mas como você pode esquecer seu “eu”, se você não usar este “eu” para agir neste mundo? Então, até que você chegue a esta dissolução, você só pode caminhar consigo mesma, com seu “eu”. Isto é um conflito, não é? Uma grande dificuldade. Mas todos começam uma prática espiritual procurando alguma coisa para si mesmos, e portanto existe uma mente aquisitiva, afinal “para quem você procura?”. – “Ah, eu procuro para mim!”. Não é esta a resposta? Quando eu venho sentar para fazer meditação, ou venho fazer ioga... quem vem? – “Eu venho!”. Para quem você quer esta libertação? – “Para mim”. Mas você só vai se libertar quando esquecer o “mim”. Mas você precisa deste “mim” para vir fazer a prática, não é? Estou adquirindo a estabilidade, este é o primeiro passo. Esta condição, no entanto, ainda denota uma condição de aprisionamento, como acontece com alguns santos, cheios de virtudes, mas que muitas vezes ainda têm uma postura baseada numa mente aquisitiva.
Na prática do zen é diferente. Um dos meus primeiros professores se encontrou com um homem que estava passando por um grande drama pessoal. Sentaram-se à mesa, e o homem disse: - “Mestre, eu estou passando por um problema muito grande. Eu vou me embebedar! É algo sem solução...”. E o mestre falou: - “Então eu vou me embebedar junto com você!”. Este é um mestre zen! Porque se tem um sofrimento ali insolúvel, e tudo o que você vê que pode fazer é se embebedar, eu me embebedo junto com você, porque eu sofro junto com você. Se não tem solução, eu sofro junto com você.
Algumas vezes as pessoas me perguntam: - “Mas monge, vem alguém e me conta um sofrimento cheio de ego... ‘ah, aconteceu isso, acabou, fui abandonado e etc.’... a pessoa chora, se esperneia. O que o senhor diz numa circunstância destas? O senhor diz pra ela que é ilusão?”. Eu não vou dizer que dor de cotovelo tem “meu” e “minha”, tem o ego envolvido. Não, eu vou chorar junto com a pessoa. O que mais posso fazer? Mas eu sei que daqui a mais um tempo passa, e passa com todos. Já passou comigo, passa para vocês também, não é? (risos).

Pergunta: Mestre, voltando a esta questão da ausência do “eu”, imagino que isso gera um grande conflito na mente da pessoa. Pois nós só nos percebemos, quando também percebemos que o “outro” existe, numa espécie de contraste. Ou seja, porque o outro é diferente é que “eu me percebo como eu”...

Monge Genshô – Este é um verdadeiro koan, não é? Porque nós estamos acostumados a pensar que o mundo só se organiza a partir de uma personalidade estruturada através de um “eu”. A nossa própria psicologia age assim. Quando você vai até um terapeuta, ele faz o quê? Vamos estruturar esta personalidade para ela ser resiliente, resistente ao mundo, para se levantar da crise e enxergar bem o “eu” e o “outro”. A abordagem do budismo é completamente diversa, mas nós não dizemos que vamos aniquilar o “eu”, não é isso, pois você precisa deste “eu” para transitar no mundo. Mas este “eu” é uma mera construção. Vocês foram apresentados para mim agora: - “Ah, este é o monge Genshô”. Monge é uma construção, Genshô é um nome que foi dado durante uma ordenação por um mestre, eu não escolhi. Assim como o nome que minha mãe me deu. Esta roupa é uma fantasia que está sendo usada há séculos, milênios, dentro do zen. Tudo isto são construções. E elas [as construções] são úteis para fazer esta palestra aqui e agora. Se eu entrasse sem roupa, se não tivesse título nem nada, quem me ouviria? Perguntariam “quem é você?”. E eu diria “não sei, não tenho uma boa ideia sobre isso” [risos]. Isso teria credibilidade? Não, não teria! Então na realidade vocês me ouvem, também, por causa desta construção. Mas eu sei que estes paramentos todos são uma construídos, e que quando eu chego ao hotel e penduro a roupa no cabide, o monge Genshô não está pendurado no cabide. E daí eu posso usar outras personalidades. Quando eu sou consultor e entro numa empresa, me indagam: - “Sr. Chalegre, o que o senhor pensa disso?”. Aí eu digo “penso isso, isso e isso!”. Cheio de opinião e certeza. É outra vida, é outro “eu”.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Quem é este que está assim?


Pergunta – Nos textos do site, em vários deles há uma questão que o senhor coloca, por exemplo, se eu tenho alguma manifestação psicológica de raiva, de medo, o senhor aconselha a gente a fazer a pergunta: “Quem é este que está com raiva?” O senhor poderia esclarecer, porque pra mim é confusa essa questão. A minha dúvida na verdade é “quem é esse que está com raiva”?

Monge Genshô - Pois é. Quem é este que está com raiva? Se eu pensar “quem sou eu”, eu vou ver que meu “eu” é uma construção, eu construí o meu “eu”.

Para entender melhor, imagine que vocês perderam toda a memória e estão deitados numa cama de hospital, depois de um acidente, e não sabem mais quem são as pessoas, sua família, coisa nenhuma. Aí alguém chega e diz: “Você é fulano. Lembra disso? Lembra daquilo?” Não, não lembra nada. Aí mostramos fotografia, etc, e tentamos reconstruir uma memória, para a pessoa ter uma noção de quem ela é, porque essa noção toda, é uma construção que você fez. É você que acreditou durante a sua vida que você é seu nome, sua personalidade, isso e aquilo. Mas quando você fica com raiva, como é que é? Alguém vem e insulta você. Quem fica com raiva? Minha construção. Ela é que está abalada em seus fundamentos.

Eu sempre me vi como honesto, alguém vem e me chama de desonesto, fico bravo, porque ele está abalando os fundamentos do meu “eu”, e meu eu é precioso pra mim. Eu preciso dele para transitar no mundo. Eu não estou dizendo que está errado você ficar irritado, está muito certo na verdade, porque você precisa desse eu honesto para funcionar no mundo. Se todo mundo começar a dizer que você é desonesto, seu “eu” de funcionamento no mundo está muito abalado, ou deveria.

Então, a identidade que você assumiu, é a identidade que pode ser abalada, quem é que você defende? A construção. Então, recomendo você a perguntar: “quem é que se ofende”? É como alguém que diz assim: “Ah, corintiano é isso”. E você é corintiano. Você fica ofendido porque? Quem fica ofendido? O corintiano dentro de você, porque você assumiu que é corintiano. Se você não tivesse assumido essa identidade, não haveria essa ofensa. Então a pergunta “quem é que se ofende, quem é que tem raiva, quem é que tem ódio”, ela tem muito sentido não tem? Porque quem se ofende é uma construção mental, essa construção mental foi você quem fez, esse “quem” é construído, não é real.

Por isso quando alguém se ilumina fica difícil ofender. Fica difícil até matar, como o Mestre Zen que estava sentado, a cidade foi invadida e veio um general com a espada suja de sangue e o Mestre Zen nem se abalou, continuou lá no templo sentado meditando. O general entrou na sala e disse: “você não vê que eu posso matá-lo em um instante”?  E o Mestre disse: “E você não vê que eu posso morrer em um instante”? Eu posso morrer. Não estou agarrado à vida, não tem problema, então me matar ou não me matar não faz diferença. Então se você quer o medo, não vai vê-lo.

Porque a identidade e o amor à vida, àquele evento daquele instante é irrelevante. Eu posso morrer aqui nesse instante, vai acontecer a qualquer momento.
(perguntas em palestra pública em Goiânia, decupadas da gravação por Rachel San)

quinta-feira, 6 de março de 2014

Iluminação é despertar de um sonho


Kodo Sawaki Roshi disse que “o pior vício do ser humano é o desejo de fama”. Poder, coisas que nem são materiais, mas pelas quais os homens estão dispostos a fazer tudo. Para conservar o poder ditadores podem jogar fora o dinheiro que acumularam ou roubaram de seus povos, matar pessoas, mandar bombardear, fazer qualquer coisa. Esse desejo de poder e fama é um desejo terrível. Às vezes nos perdemos com desejos de coisas e ficamos infelizes atrás de uma casa nova, um carro qualquer coisa. Esse “estar perdido” é frequente quando olhamos as crianças pequenas que ainda não aprenderam a esperar, se você disser – Não, agora não, chocolate agora não, depois do almoço, daqui a vinte minutos, depois que você comer, eu lhe dou essa barra de chocolate – então eles começam a chorar desesperados, muito infelizes pois eles querem o chocolate agora, não conseguem esperar um instante. Isso é uma falta de clareza da percepção de como o tempo transcorre.

Mas nós adultos também nos perdemos, não vemos a vida com clareza porque não percebemos que a morte ilumina a vida. Se nós colocássemos as coisas numa perspectiva de que vou morrer em uma semana – O que é relevante agora, o que eu realmente faria, o que seria importante? – Aí as coisas ganhariam um significado diferente. Nós vemos que pessoas que passam por experiências mais radicais de vida, ou o anúncio de uma doença grave, podem passar a ver a vida com mais clareza depois, porque ela se esvazia das coisas minúsculas, das coisas que não tinham importância. Quando as pessoas estão no leito de morte perdoam todo mundo, é freqüente estar lá e não ter mais importância a briga que eu tive com meu irmão por causa de um terreno ou de uma herança, não tem mais importância, porque o que eu quero morrendo, é me reconciliar com meu irmão. É comum ouvir um médico dizer que ele vê no leito de morte as pessoas se importarem com isso, com as reconciliações e não mais com as coisas, porque eles não levarão as coisas, é claro que haverão aqueles que estão morrendo e pensarão que vão levar e ficam desesperados de como fazer para levar as suas coisas.

Li um conto uma vez de um homem que era muito rico e pediu para ser jogado no mar, então ele mesmo preparou seu caixão. Ninguém sabia o que ele havia feito da sua fortuna. E no conto eles decifram o que ele fez. Pegou todo seu dinheiro e comprou e platina, que é mais caro que ouro, e fez seu caixão de platina. Sem que ninguém soubesse do que era feito o caixão ele foi jogado ao mar com todo seu dinheiro. Isso pode acontecer. Mas isso conduz a um renascimento com o mesmo tipo de angústia, mas sem a platina. Vai ter que acumular e procurar de novo e pode repetir isso mil vidas sem nunca se libertar. Então o que é acordar? O que é iluminação? A iluminação é despertar de um sonho. Nós estamos mergulhados em um sonho, o sonho de nossa identidade. Eu acho que sou eu, eu estou me importando com as coisas do “eu” aqui e agora. Não estou enxergando a unidade de todas as coisas, a interconexão, o fato de que todas as coisas e eu somos um e, como não enxergo isso, então estou sonhando e esse sonho do “eu” que tanto amamos, da nossa identidade pessoal, é nossa perdição. Por isso que quando Buda se ilumina ele diz para o vulto dele mesmo “tu não me enganas mais!” porque quem nos engana somos nós.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se "eu" não volto por que me importar?


Pergunta – O senhor antes disse que morremos sozinhos, que não existem indivíduos e que o “eu” é uma ilusão, são os carmas que formam as identidades. Quando alguém morre o que acontece com essa identidade? Do que adianta uma pessoa desejar ser melhor se depois ela volta, como uma gota, para o oceano e não será ela quem sofrerá as consequências de seus atos? Como no caso dos espíritas...

Monge Genshô – Veja bem, cada pessoa que nasce, na crença espírita, tem um “eu” novo. Ele herda as consequências de um espírito anterior mas em um corpo novo e nesse processo ele não se lembra de nada. Quem carrega as consequências é um novo ser...

Pergunta – Mas no budismo existe esse ser?

Monge Genshô –  No budismo há a continuidade do carma, mas o “eu” está perdido, pois ele depende de memória. O que constitui a noção de um “eu” é a memoria, tanto que se você sofre um acidente, fica com amnésia e se lhe pergunto quem é você, sua resposta será: “não sei”. Ignorando a questão da crença em espíritos ou coisas assim, não vejo tanta diferença. Mesmo que no espiritismo você diga que existe um espírito que carregou o carma, o “eu” de cada vida é diferente. O grande problema deste tipo de crença é, por exemplo, como li outro dia, a pessoa dizer que na vida passada foi “Rei Ricardo Coração de Leão”. Isso é muito interessante, as pessoas sempre foram reis, rainhas, grandes líderes, grandes guerreiros, não existem escravos, ladrões, prostitutas. O budismo não se dedica a dar explicações sobre o que acontece, para nós o que é óbvio é que não existe efeito sem causa. Tudo que existe hoje tem uma causa pregressa, logo, de certa maneira você é responsável pela sua vida atual, pois tudo que você carrega, suas características foram construídas. Quando você morrer, tudo que acontecerá depois virá do que você fez nesta vida.

Pergunta – E o que acontece com esse “eu” que morre?

Monge Genshô – Não sei, ainda estou vivo. O budismo não se dedica a dar esse tipo de explicação. Se formos especular, encontraremos muitas teorias. Por exemplo, no budismo Tibetano há o “Livro Tibetano dos Mortos” onde há uma descrição detalhada do processo pós morte, também há algo assim no budismo japonês. Mas isso tudo não é verificável e o budismo não discute coisas não verificáveis. Para nós o que basta é que todas os efeitos têm causa e o que você faz agora tem efeito no futuro. Sua outra pergunta, “Por que alguém deve fazer algo de bom se depois ele mesmo não continua?”. Veja bem, uma pessoa vai dirigindo o carro por uma cidade e joga lixo pela janela. Ela faz isso pela razão de que não voltará para a cidade, está apenas de passagem e não se importa. É como se para fazer boas coisas fosse necessário boas recompensas, pagamento de prêmios e reconhecimento. Então essa pergunta não se sustenta, você precisa de bons atos para gerar bom carma mesmo que não seja para você e sim para o mundo e para os que vem depois.

A arte do bonsai representa isso, você cultiva uma árvore e ela pode viver trezentos ou quatrocentos anos. Se formos ter a mesma perspectiva de sua pergunta, para quê cultivaríamos um bonsai do qual nunca veremos o resultado? O objetivo é fazer algo belo mesmo que eu nunca vá ver o final. O Pau Brasil é uma árvore da qual se fazem arcos de violino, violoncelos e contrabaixos. É a melhor madeira para isso. Mas o Pau Brasil está quase extinto e existem projetos de reflorestamento, mas então você vai chegar para o produtor e perguntar porquê ele está plantando Pau Brasil, que demora décadas para crescer, se não verá a árvore chegar ao ponto de ser cortada para virar arcos de instrumentos musicais? Como agora não existe Pau Brasil, os arcos estão sendo feitos de alumínio ou fibra de carbono, isso é trágico e acontece porque todo tempo as pessoas pensaram que não valia a pena, pois não veriam o resultado. Isso acontece em várias áreas do planeta, alguns peixes estão extintos, pois o oceano tem uma capacidade limitada de auto reposição e deveria ser permitida a pesca de uma quantidade determinada sob pena de extinguir várias espécies para o futuro.

Pergunta – Mas aquele viajante que disse que não voltará para cidade, não o fará nesta vida, mas em outra sofrerá as consequências de seus atos.

Monge Genshô – Exato. Porém o correto seria não fazer isso mesmo que eu não voltasse para este mundo. Não por causa das consequências que eu sofrerei, pois eu e os outros somos a mesma coisa.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Use o sistema mas não se confunda com ele


Pergunta – Então é muita perda de tempo ter raiva, pois tudo faz parte do sistema, faz parte de uma ilusão.

Monge Genshô – Exato e se você puder abandonar tudo está livre. Mas mesmo assim nunca se estará totalmente livre, veja, a pessoa se torna Monge e os seus alunos esperam algo de você. Então é outro tipo de sistema, mas ainda é um sistema, pois você tem obrigações, tem que cumprir com cronogramas de retiros, sangha e etc.

Pergunta – Mas o sistema é necessário para a sobrevivência de todas as pessoas, pois se todos resolvem burlar o sistema, a sociedade para e do que as pessoas viveriam?

Monge Genshô – Exato, mas onde está a grande questão? Eu tenho um nome, mas tenho que entender que ele apenas serve para que eu transite nesse sistema, é só uma fantasia, não uma realidade. Você possui um numero de CPF que lhe é útil para que você consiga uma série de coisas, mas deve entender que esse número não é você, é apenas uma fantasia criada dentro de uma instituição. Se você tiver a consciência clara de que é uma fantasia, poderá perdê-lo sem desejar se matar. A pessoa que se mata porque perdeu o crédito acreditou que ela fosse a fantasia, o nome ou o número. A pessoa pode usar o sistema e seus rótulos como algo útil, desde que não se confunda com eles. É como usar uma roupa, você não pode pensar que você é a roupa. Essa compreensão é muito importante.

Pergunta – Eu fico pensando nessa pessoa e se ela fez algo para que isso acontecesse realmente ou se foram as circunstâncias que o colocaram nessa situação. O problema de ser o caloteiro é quando a própria pessoa cria as condições de ser chamado de tal.

Monge Genshô – Essa é outra situação. Isso é usar de artifícios dentro do sistema para levar vantagens. Mas de qualquer forma esta pessoa também está presa ao sistema. O que eu quero é fazer com que vocês olhem para o sistema e seus rótulos como instrumentos para transitar no mundo, mas não se confundam com eles. Você não é o “eu”, pois nada tem um “eu” inerente, todos os “eus” são construídos e tudo que estamos falando sobre sistema faz parte das atribuições criadas pelo sistema. É funcional? Sim, mas é uma ilusão, não é a realidade e por isso não tem sentido, por qualquer coisa que aconteça dentro desse sistema, você se matar. A grande lição disso tudo é a existência de uma liberdade fundamental da qual você pode usufruir. Você pode usufruir de todo o sistema desde que não perca sua lucidez. O sistema é útil, mas não é a essência da vida. O dinheiro é útil? Sim, mas não somos o dinheiro.

terça-feira, 12 de março de 2013

Unificar eu e objeto



(texto)” Vossa compreensão espiritual da coisa será de um espelho refletor de algo, como a lua se reflete na superfície da água, posto que o espelho e a coisa refletida, ou a água e a lua, seguem sendo duas entidades que conservam cada uma sua própria identidade. Na unificação espiritual de vocês e de uma coisa, ao contrário, se um dos dois se manifesta, o outro desaparece totalmente fundido no primeiro, o que quer dizer que na situação que aqui se trata o eu desaparece completamente e somente se manifesta o objeto. Então disciplinar-se no caminho de Buda não significa mais que disciplinar-se ante o próprio ser, disciplinar-se frente ao próprio ser, por sua vez, significa somente esquecer, esquecer o próprio ser significa unicamente ser iluminado pelas coisas exteriores e ser iluminado pelas coisas exteriores não é outra coisa que apagar as diferenças entre vosso chamado ego e os chamados egos das outras coisas.”

(comentário) Eu sei que o texto é bem difícil, mas no sesshin os textos podem ser mais complexos.

Pergunta – Isso pode vir somente para a espécie humana? Ou pode vir também para animais?

Monge Genshô – O reino animal tem uma característica de obscuridade. Da qual muitos seres humanos ainda partilham em grande parte. Então faltando clareza mental não é possível sentir isso. Então pela sua própria natureza um animal esta centrado em si, na sua própria experiência, reagindo e focado em si. Então essa obscuridade impede o passo da realização espiritual, essa é uma característica humana. Em termos biológicos existem algumas teorias que dizem que uma colméia de abelhas ou um formigueiro não são vários seres, eles formam um ser único dividido em diferentes funções. Existe uma unicidade extremamente grande, que nós no sesshin (retiro) tentamos alcançar de alguma forma. Tentamos entender e aceitar completamente sem protestar, sem reclamar.

quinta-feira, 7 de março de 2013

O mundo total do ser



Vamos Analisar um texto de Toshihiro Izutsu, que é um mestre da Escola Rinzai. (texto)”Se analisarmos a experiência Zen, quer dizer, a realização pessoal do estado de iluminação, em termos de relação entre exterior e interior, nos deparamos com duas realidades teóricas. O interior se converte em exterior ou, a exteriorização do mundo interior e exterior se converte em interior ou, interiorização do mundo exterior. Trazemos o exterior para dentro de nós ou projetamos a nós no mundo exterior. No primeiro caso que se refere a expressão tão corrente, de que o homem se converte no objeto, se realiza rapidamente a experiência do próprio eu, perdendo sua identidade existencial e fundindo-se inteiramente no objeto exterior com o qual se identifica. O ser humano se converte em flor, o homem se converte em bambu. Essa experiência não se fundamenta, no entanto, como uma experiência autênticamente Zen, senão, quando o ser humano chega a perceber em sua própria consciência espiritual que essa flor, ou esse bambu, com os quais se identificou, contem o mundo total do ser.”

(comentário)Por exemplo, nós estamos aqui e agora e temos essas tijoletas da sala e percebermos que nós somos parte desse piso não é muito fácil, que nós somos parte disso, que ele é manifestação da vacuidade e nós também somos manifestação da vacuidade, mas é a verdade dos fenômenos, de que os fenômenos são manifestação na vacuidade. Nos somos em essência, feitos da mesma substância que as tijoletas desta sala. E se olharmos em termos físicos ou químicos, acharemos grandes semelhanças, somos feitos das mesmas substancias químicas, mas é muito mais que isso, pois as substâncias químicas são, elas mesmas, manifestações na vacuidade. E isso é o nosso eu que tanto prezamos, que tanto apreciamos e queremos que seja permanente, em torno do qual, quando estamos sentados, giram as nossas fantasias de vaidades, de orgulho, as nossas mágoas, ambições, todas são operações mentais que geram a existência desse eu, nada sólido, tudo fantasia. E estamos aqui sentados, observando a nossa mente, percebendo nosso corpo, percebendo que realmente é fantasia. Nós temos a experiência de que é uma fantasia nossa. Nesse estado o eu se estende até os últimos limites do universo, quer dizer, já não é um eu com uma identidade independente, já não é um sujeito frente à um mundo objetivo. Então, se alguém consegue identificar todas as coisas em volta como o mundo total do ser e de que ele faz parte disso, o seu eu não é mais uma identidade independente e abarca o universo inteiro. Então não é mais uma pessoinha olhando o universo, mas sim todo o universo, todo o mundo fenomênico e é, em essência, a própria vacuidade. Se usássemos a terminologia de Deus, diríamos que o homem tornou-se a própria divindade ou morreu para si mesmo e assim, morrendo para si mesmo, pode conhecer a Deus.
( Não usamos a palavra deus no zen porque está contaminada da idéia de pessoalidade, de algo separado, por isso "mundo total do ser")