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segunda-feira, 20 de abril de 2015

SHIKANTAZA - O sentar-se por sentar


Então, temos o primeiro passo quando nós estamos no sesshin, o que nós fazemos? Dhyana. Dhyana é uma palavra que se transformou em Jana, depois em Ch´an, depois em Ch´an na, na China, como Zana, Zen. Então, na realidade, a palavra Dhyana veio através do tempo se transformando até chegar na palavra Zen, que chegou aqui no ocidente como uma herança japonesa, então usamos a palavra japonesa Zen. E Za quer dizer sentado. O que nós fazemos é Zazen: meditação sentada.

Livrar-se dos pensamentos perturbadores é a primeira grande tarefa. Você senta e deixa que os pensamentos perturbadores se esvaneçam. Mas eles não se esvanecerão se você lutar com eles. Por isso, cada vez que eu dou instrução, eu digo: não julgue, não lute, não se culpe, não faça nada com os seus pensamentos. Não tente transformá-los, não faça projetos para o futuro. Não tente fazer nada no Zazen. Não tente construir um projeto de vida, não tente resolver problemas no Zazen. Não é assim que nós resolveremos os problemas. Se nós sentarmos e raciocinarmos, pensarmos e planejarmos, melhor seria que pegássemos uma folha de papel e fizéssemos isso direitinho, numa mesa. Não precisaríamos fazer sentados em Zazen.

Nós sentamos em Zazen para fazer uma coisa mais difícil do que planejar, raciocinar. Nós sentamos em Zazen para esquecer de tudo, abandonar tudo e, abandonando tudo, retornarmos para nossa natureza original. A nossa natureza original está além desses pensamentos, elaborações, identidades, nosso próprio Eu.


Sentado em Zazen, se você simplesmente deixar que tudo seja parte de você e você seja parte de tudo, você dissolverá o engano do Eu. Não precisa se preocupar pensando: vou destruir meu Eu, quando eu morrer meu Eu desaparece ou qualquer coisa assim e transformar isso numa angústia de aniquilação qualquer, porque não é necessária essa angústia de aniquilação. Você simplesmente senta e seja um com o som do mar, um com os pássaros e com as borboletas. Você se sentindo participante de tudo, você já encontrará uma grande calma e felicidade. Isso é realização de shikantaza. Apenas sente-se e seja uno com tudo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Pensar além do pensar e não pensar


Pergunta – Qual a diferença da consciência para o “eu”?

Monge Genshô – O “eu” é uma noção construída, segundo o Budismo, de percepção individual. Um “eu” separado de todo o resto. Esta estrutura que observa o mundo, o vê e se pensa separada, é o “eu”. A consciência, que não é uma palavra adequada, significa coesão de um quantum cármico, é nossa onda que continua se manifestando.

Pergunta – No Zen o “não pensar” passa a ser involuntário e inconsciente?

Monge Genshô – “Não pensar” não é uma colocação adequada. Na verdade não se trata de “não pensar”. A expressão mais antiga e que melhor se aplica é “pensar além do pensar e do não pensar”.

Você está em zazen mas está consciente do som do mar, do vento nas árvores, dos pássaros, dos seus colegas sentados à sua volta, portanto existe uma forma de pensamento nisso. O que se pede na verdade é não elaborar, não julgar, não cogitar e não atribuir. Se você ouve o mar e fica enumerando as ondas e colocando-as numa ordem dentro do seu zazen, isso deixa de ser zazen, pois você está elaborando e cogitando algo. Todo o tempo que você está cogitando dentro do zazen é um momento perdido. Seu corpo está imóvel, mas sua mente está em movimento. Quando você consegue ouvir os sons sem cogitações e julgamentos, simplesmente estando aqui, isso é samadhi e portanto é o zazen que estamos procurando. Se você conseguir um minuto disso, já grande evolução e é fundamental para criar um espaço na mente onde uma percepção realmente profunda possa se instalar. Enquanto sua percepção for pensada, julgada, raciocinada e cogitada, estará cheia de preconceitos e elaborações mentais e não estará suficientemente vazio para perceber o mundo como ele realmente é.

Por isso é difícil de entender declarações de Mestres Zen do tipo: “As coisas são como são e o mundo é como é”, pois isso só é compreensível para quem tem a experiência de samadhi. Se você coloca qualquer tipo de julgamento seu no processo do entendimento, o mundo já não é como é. Veja o exemplo que dei quando expliquei a cerimonia com Oryoki, receba toda a comida que vem e não pense em gosto ou não gosto, por quê? Gosto e não gosto é uma elaboração mental ou um condicionamento relacionado a algo de seu passado que eu coloco ou ligo ao alimento recebido. O recebimento do alimento é uma experiência pura que não precisa ter todas as elaborações que fazemos. Quando coloco as elaborações, eu modifico minha mente e modifico a experiência.

O que quero dizer é que quanto mais pensamos, julgamos e raciocinamos mais distantes estamos da experiência real que é sentado no zafu fazendo zazen, pois o que temos aqui agora são explicações teóricas que são percebidas de formas distorcidas dependendo do entendimento de cada um, que percebe ou escuta, obviamente, minhas palavras e as interpreta conforme suas próprias experiências pessoais.