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segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Pensar além do pensar e não pensar
Pergunta – Qual a diferença da consciência para o “eu”?
Monge Genshô – O “eu” é uma noção construída, segundo o Budismo, de percepção individual. Um “eu” separado de todo o resto. Esta estrutura que observa o mundo, o vê e se pensa separada, é o “eu”. A consciência, que não é uma palavra adequada, significa coesão de um quantum cármico, é nossa onda que continua se manifestando.
Pergunta – No Zen o “não pensar” passa a ser involuntário e inconsciente?
Monge Genshô – “Não pensar” não é uma colocação adequada. Na verdade não se trata de “não pensar”. A expressão mais antiga e que melhor se aplica é “pensar além do pensar e do não pensar”.
Você está em zazen mas está consciente do som do mar, do vento nas árvores, dos pássaros, dos seus colegas sentados à sua volta, portanto existe uma forma de pensamento nisso. O que se pede na verdade é não elaborar, não julgar, não cogitar e não atribuir. Se você ouve o mar e fica enumerando as ondas e colocando-as numa ordem dentro do seu zazen, isso deixa de ser zazen, pois você está elaborando e cogitando algo. Todo o tempo que você está cogitando dentro do zazen é um momento perdido. Seu corpo está imóvel, mas sua mente está em movimento. Quando você consegue ouvir os sons sem cogitações e julgamentos, simplesmente estando aqui, isso é samadhi e portanto é o zazen que estamos procurando. Se você conseguir um minuto disso, já grande evolução e é fundamental para criar um espaço na mente onde uma percepção realmente profunda possa se instalar. Enquanto sua percepção for pensada, julgada, raciocinada e cogitada, estará cheia de preconceitos e elaborações mentais e não estará suficientemente vazio para perceber o mundo como ele realmente é.
Por isso é difícil de entender declarações de Mestres Zen do tipo: “As coisas são como são e o mundo é como é”, pois isso só é compreensível para quem tem a experiência de samadhi. Se você coloca qualquer tipo de julgamento seu no processo do entendimento, o mundo já não é como é. Veja o exemplo que dei quando expliquei a cerimonia com Oryoki, receba toda a comida que vem e não pense em gosto ou não gosto, por quê? Gosto e não gosto é uma elaboração mental ou um condicionamento relacionado a algo de seu passado que eu coloco ou ligo ao alimento recebido. O recebimento do alimento é uma experiência pura que não precisa ter todas as elaborações que fazemos. Quando coloco as elaborações, eu modifico minha mente e modifico a experiência.
O que quero dizer é que quanto mais pensamos, julgamos e raciocinamos mais distantes estamos da experiência real que é sentado no zafu fazendo zazen, pois o que temos aqui agora são explicações teóricas que são percebidas de formas distorcidas dependendo do entendimento de cada um, que percebe ou escuta, obviamente, minhas palavras e as interpreta conforme suas próprias experiências pessoais.
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
Analogias tem limites
P: Podemos ficar levando questões para o zazen?
Monge Genshô: Você pode, mas não raciocinar no zazen. Você tem uma questão, você faz zazen. Ela continua lá, rodando inconscientemente, não com sua mente racional. Aí, você vai resolver num estalo, de repente achará a resposta. Mas não é através de raciocínio. Os problemas são resolvidos não por pensar, mas por não pensar. Os problemas normalmente são ligados à emoção, não à razão. As verdadeiras grandes questões, são ligadas à emoção. Assim só podem ser resolvidos com a intuição.
A percepção dessas coisas eu posso explicar, mas se explicar resolvesse, não teria sentido o “vazio é forma e forma é vazio”. As analogias tem limites, elas tem obstáculos, chega um momento que elas não funcionam mais. Você vai sofisticando a pergunta e a analogia não ajuda mais.
Porque ainda, a água é uma “coisa” e daí na analogia a água é uma coisa e o vazio seria como a água e aí eu “reifiquei” o vazio, exatamente o que eu disse que não se podia fazer. Porque no vazio não existe um substrato que sustenta todos os outros ou que é a origem dos fenômenos. Não é assim. O vazio não é isso. Por isso a analogia tem um limite claro. Só serve até determinado ponto. E depois deste ponto é uma dificuldade se a pessoa ficar agarrada na analogia.
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