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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Além do Entendimento


A tradição tibetana tem uma história interessante. Um aluno recebeu a instrução para construir uma torre de pedras, trabalho cansativo, e ele o fez. O Mestre então mandou-o desmanchar: “desmanche a torre, pois eu não gostei”. No outro dia chamou o discípulo e disse: “faça a torre de pedras”. E esse procedimento de fazer torres de pedras e demoli-las durou oito vezes. 

O que o Mestre pretendia? Para nós pode parecer muito absurdo, mas o objetivo, evidentemente, não eram as torres; o objetivo era algo dentro do aluno.

[Trecho de palestra proferida por Meihô Genshô Sensei]

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Identidades


Pergunta – Me remetendo à uma pergunta anterior, de que quanto menos identidades tivermos menos sofrimento teremos e, com essa nossa busca por essas identidades e crescimento, como alcançar essas identidades não em um sentido literal,  mas com um outro significado?

Monge Genshô - Nós precisamos dessas identidades para transitar no mundo, então você precisa ter identidade. Veja, eu ponho as roupas de monge e venho aqui falar pra vocês com as roupas de monge, eu uso a identidade “Monge Genshô”, meu mestre me deu esse nome. Fazem 14 anos que eu tenho esse nome, mas essa identidade é uma utilidade que eu estou usando aqui. Se eu chegar em casa, tiro as roupas de Monge,  penduro no cabide e digo: “ah, eu estou lá”, não, eu não estou lá, é só um cabide. São só as roupas de monge que estão lá, aqui há um homem nu que vai tomar banho.

Então, eu chego em outro lugar e sou consultor. Aí dizem: “qual o seu nome”? Eu sou o Chalegre, consultor. O Chalegre, eventualmente usa gravata, terno, é outra identidade. Quem sou eu? Nenhum dos dois. Essas são fantasias que eu estou usando para entrar nesse baile à fantasia.

Aluno – na verdade então, o que traz essa raiva, esse sofrimento, é o apego que se tem a essas identidades?

Monge Genshô - Exato. Se você insultar o Monge Genshô, eu posso chegar em casa e dizer: “ah, fui insultado”, o monge foi insultado, posso tirar as roupas e pendurar no cabide e colocar a roupa do Chalegre e dizer: “poxa monge, foi insultado hein”? Isso seria lucidez. Se eu me identificar com a roupa e o nome, aí eu sofro. Se eu não me identificar e usá-los, aí eles são uma utilidade. É diferente. Deu pra entender melhor?

Pergunta – No zazen nós temos que pensar em quê?

Monge Genshô - Quem realmente está atento? Quem é esse que está atento? Você senta em zazen junto com todos os seres, a grande terra, os pássaros, cães, formigas, todos estão sentados junto com você, você é o centro do universo, o universo gira e você está ali, imóvel. Se é assim, você está atento a quê? Quem está atento, se você e tudo são uma coisa só? Deixe a atenção fora. Você começa com a atenção, mas tem um momento em que você tem que estar além de estar atento, além de percepção e não percepção, mas essa já é uma resposta mais difícil.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Uma transmissão além das escrituras


Pergunta – O Zen é meditação, certo? Ele é um corte, axiológico do próprio budismo. Então porque o Zen ainda é indexado ao budismo, se ele manteve a linha própria dele?  Porque ele tem fundamentações para andar sozinho. O senhor mesmo colocou que os papéis são simplesmente coisas explícitas, escritas, e o tácito, o não escrito, é a base do Zen, então porque o Zen Budismo, não é somente o Zen?

Monge Genshô - Porque o Zen, do ponto de vista do Zen, é budismo. Dogen, fundador da nossa escola no Japão disse: isso é budismo, esses são os ensinamentos de Buda.
O budismo diz que o Zen consiste na transmissão de Buda para Mahakashyapa, porque ele levantou uma flor, numa assembléia sem dizer uma palavra e Mahakashyapa sorriu, e então ele disse: “Mahakashyaka foi o único que entendeu” o verdadeiro ensinamento, a verdadeira transmissão, é uma transmissão além das escrituras.

O Zen tem muitos textos? Tem. Os professores estão sempre falando? Sim, sempre falando, e dando palestras. Eu perguntei para meu mestre, “por que falamos tanto”? E ele disse: “porque isso é tudo que nós temos”. Não temos outra maneira de transmitir, além da palavra, dos livros, mas seu último estágio tem que ser além das palavras. Então o Zen quer dizer: “nós somos o ensinamento, aquele de Buda para Mahakashyapa”.

Surgiram muitas escolas, dos mais variados tipos, elas têm sentido? Tem, porque as pessoas são diferentes. Há pessoas devocionais, há pessoas estudiosas, há pessoas que querem se remeter ao significado das palavras originais, todas essas escolas têm suas virtudes. O Zen também tem suas virtudes ao querer voltar à prática original de Buda - Buda sentou em zazen, então nós vamos sentar em zazen. Se Buda sentou nessa postura, então vamos sentar nessa postura, porque nós vamos imitar Buda. Essa é a essência do Zen. Mas ela serve para todo mundo? Não, não serve para todo mundo. As escolas budistas são necessárias porque as pessoas são diferentes. As outras religiões também são necessárias, porque as pessoas são diferentes. Existem pessoas que precisam trilhar aquele outro caminho, e por isso essa diversidade não é pobreza, é riqueza.

Por que o Zen precisaria seguir o seu caminho? Afinal de contas cada mestre segue o seu, os alunos seguem o mestre que querem! Então  existem múltiplos caminhos.

Pergunta – Ontem na palestra o senhor deu ensinamentos sobre carma, sobre as escolhas, e se o senhor respondeu com a questão da sabedoria. Eu entendo que quanto mais sabedoria você buscar, mais clareza e menos sofrimento. Mas, e o medo?  Pois se estamos aqui, temos a preocupação de mudarmos a nós mesmos,  e às vezes a pessoa pode ficar o perturbada em tentar fazer sempre o melhor,  encontrar escolhas mais corretas, há esse medo do medo?

Monge Genshô - Não há que ser perfeito. Não tente. Seja o que você é, um homem comete erros, um homem se engana, na verdade, nós ao tentarmos seguir algum modelo ficaremos infelizes. Nós temos que fazer a nossa prática de sempre esquecer o passado. O erro do passado é sempre esquecido, agora vou fazer assim, melhor, porque produz menos sofrimento, mais felicidade para mim e para os outros seres.

Eu só estou andando, e a vida se mostra a cada passo. Não tente caminhar e ser perfeito. Não tente ser santo, tente ser só um Bodhisattva, um Bodhisattva tem outra visão do mundo. Nagarjuna foi assassinado, ele era um grande Mestre do século I ou II DC. Os seus discípulos o encontraram esfaqueado, e perguntaram a ele: “quem fez isso”? E ele disse: “eu mesmo”. E os alunos disseram que sabiam que não fora ele que se esfaqueou, que dissesse quem havia feito aquilo, e ele disse: “isso é resultado do meu carma passado, de alguma maneira no meu passado eu criei condições para que isso acontecesse. Então fui eu mesmo que fiz isso, agora, se eu disser que uma pessoa fez isso comigo aqui e agora, um assassino, vocês o odiarão e o perseguirão, e esse ciclo não terá fim”. E morreu sem revelar. Ninguém sabe quem matou Nagarjuna. Ninguém foi perseguido, não houve nenhuma vingança. Essa é a visão do Bodhisattva.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Pensar além do pensar e não pensar


Pergunta – Qual a diferença da consciência para o “eu”?

Monge Genshô – O “eu” é uma noção construída, segundo o Budismo, de percepção individual. Um “eu” separado de todo o resto. Esta estrutura que observa o mundo, o vê e se pensa separada, é o “eu”. A consciência, que não é uma palavra adequada, significa coesão de um quantum cármico, é nossa onda que continua se manifestando.

Pergunta – No Zen o “não pensar” passa a ser involuntário e inconsciente?

Monge Genshô – “Não pensar” não é uma colocação adequada. Na verdade não se trata de “não pensar”. A expressão mais antiga e que melhor se aplica é “pensar além do pensar e do não pensar”.

Você está em zazen mas está consciente do som do mar, do vento nas árvores, dos pássaros, dos seus colegas sentados à sua volta, portanto existe uma forma de pensamento nisso. O que se pede na verdade é não elaborar, não julgar, não cogitar e não atribuir. Se você ouve o mar e fica enumerando as ondas e colocando-as numa ordem dentro do seu zazen, isso deixa de ser zazen, pois você está elaborando e cogitando algo. Todo o tempo que você está cogitando dentro do zazen é um momento perdido. Seu corpo está imóvel, mas sua mente está em movimento. Quando você consegue ouvir os sons sem cogitações e julgamentos, simplesmente estando aqui, isso é samadhi e portanto é o zazen que estamos procurando. Se você conseguir um minuto disso, já grande evolução e é fundamental para criar um espaço na mente onde uma percepção realmente profunda possa se instalar. Enquanto sua percepção for pensada, julgada, raciocinada e cogitada, estará cheia de preconceitos e elaborações mentais e não estará suficientemente vazio para perceber o mundo como ele realmente é.

Por isso é difícil de entender declarações de Mestres Zen do tipo: “As coisas são como são e o mundo é como é”, pois isso só é compreensível para quem tem a experiência de samadhi. Se você coloca qualquer tipo de julgamento seu no processo do entendimento, o mundo já não é como é. Veja o exemplo que dei quando expliquei a cerimonia com Oryoki, receba toda a comida que vem e não pense em gosto ou não gosto, por quê? Gosto e não gosto é uma elaboração mental ou um condicionamento relacionado a algo de seu passado que eu coloco ou ligo ao alimento recebido. O recebimento do alimento é uma experiência pura que não precisa ter todas as elaborações que fazemos. Quando coloco as elaborações, eu modifico minha mente e modifico a experiência.

O que quero dizer é que quanto mais pensamos, julgamos e raciocinamos mais distantes estamos da experiência real que é sentado no zafu fazendo zazen, pois o que temos aqui agora são explicações teóricas que são percebidas de formas distorcidas dependendo do entendimento de cada um, que percebe ou escuta, obviamente, minhas palavras e as interpreta conforme suas próprias experiências pessoais.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Muito além da santidade


1) O que é o Dharma?

Monge Genshô – O Dharma é a lei, a sabedoria. A sabedoria em si, não o conhecimento. Nós dizemos que existem os “Portais do Dharma”. Você os abre como se fossem portas e os atravessa e, através desse ato, de atravessar um portal, você descobre um novo mundo de compreensão. Mas os Portais do Dharma são incontáveis e cada vez que abrimos um, há outro na nossa frente para ser aberto, então de insight em insight, de despertar em despertar, nós caminhamos em direção a um despertar mais amplo.

2) Quais são os sinais desse despertar, como a pessoa pode perceber que está despertando?

Monge Genshô – Todas as pessoas têm pequenos momentos de despertar. Um dia você abre uma janela numa manhã, o dia está brilhante, glorioso. Você sente um perfume no ar, você não lembra nada de ontem e nem de amanhã, só mergulhado naquele pequeno momento você se sente maravilhada e uma grande sensação de felicidade lhe invade – “Ah, maravilhoso, tudo maravilhoso” – Um segundo depois você lembra que tem que tomar café, tem que lavar o rosto ou tem que fazer qualquer outra coisa e aquele momento se esvai.

Despertar é ter uma experiência muito mais profunda do que essa, mas da mesma natureza. Não é nada fantástico ou sobrenatural, é simplesmente assim. Kensho é como chamamos a experiência mística mais profunda. Você a tem e ela pode durar não alguns segundos, mas horas. Mas também você cai de volta na vida. Aqueles que fazem retiros ou sesshin e praticam meditação muitas horas seguidas, ficam muito sensíveis e várias dessas experiências um pouco maiores podem acontecer. Talvez experiências não de cinco segundos, mas de trinta segundos. À medida que acumulamos experiências como essas, nós podemos caminhar para um estado que se chama Satori.

Satori é o despertar. Imaginem estar permanentemente assim, ou pelo menos ter a habilidade de a qualquer momento chamar essa percepção agora e pronto, está ali, então você é dono do despertar. Essa é a diferença entre o Kensho e o Satori. Kenshô você tem quando menos espera, Satori pertence a você. Então aquele que despertou, ele tem a oportunidade de experimentar isso muito mais vezes. Mas mesmo no despertar existem diferentes estágios. As descrições variam de quatro a dez estágios cada vez mais profundos.

O primeiro e mais básico é quando você realmente sabe, nenhuma pergunta é estranha, você sabe. O último é diferente do primeiro porque no primeiro, você sabe as respostas, mas na sua vida você é freqüentemente arrastado pelas suas paixões e não aparece em todos seus atos e todas suas palavras, porque você, apesar de haver despertado, não incorporou tudo aquilo. O último estágio é quando cada ato e palavra sua são iluminadas. É um estado muito difícil, mas se atingido, é um estado perfeito muito além da santidade. O Zen não procura fazer santos, mas “despertos”.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Para além da curva da estrada


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

(Alberto Caeiro)
Poema de Fernando Pessoa, sob pseudônimo, que expressa muito bem a atitude de aceitação sem expectativas, preconizada para a atitude do praticante zen budista.
Cortesia de Zendô Virtual.