Mostrando postagens com marcador julgar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador julgar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Votos do bodhisattva


Pergunta: Quem é que quer?

Monge Genshô: Todos, no início. Queremos, nós. Todos vêm praticar de forma egoísta e auto-centrada, ninguém veio aqui porque quer salvar todos os seres. Não é assim. Os praticantes sempre vêm procurar alguma coisa para si, essa é a prática inicial. E por isso, toda a prática do Caminho Óctuplo está voltada para o indivíduo. Você tem que fazer o esforço correto, tem que ter um meio de vida correto, tem que ter uma fala correta. São todos você. É você, você, e você. É você que tem que trabalhar. É você que está separado dos outros. Então, o estágio de abandonar a si mesmo, seu próprio eu, é um estágio muito, muito adiantando, e nós não o encontramos nos iniciantes não, seria raríssimo.

Eu costumo explicar que há três fases: A “fase da virtude”, e que não é diferente na maioria das religiões, trabalham-se as virtudes pessoais. E elas são semelhantes no Budismo, no Cristianismo, no Islamismo, são todas semelhantes - persistência, tolerância, paciência, energia, disciplina, são todas semelhantes. O segundo estágio é o estágio de “prática do Bodhisattva”, de que você faz os votos, no final do dia. Mas quem é assim? Quem é? Já é difícil a gente ver alguém cumprir o Caminho Óctuplo! São dezesseis votos de leigo que nós fazemos, por exemplo, “nunca julgar os outros”, que eu acho um dos mais difíceis, porque está todo mundo sempre julgando. “Não se eleve”, “não procure os defeitos nos outros”. Isso é muito complicado, porque você está vivendo no mundo da dualidade, e tem que julgar.

No trabalho você tem que julgar. Os professores no Zen têm que julgar: “tal aluno pode fazer isso, tal aluno não pode... tal tem tal defeito”. Você tem que julgar, faz parte da própria vida. Aí você vai para os votos do Bodhisattva, no primeiro voto  dizemos: “Os seres são inumeráveis, eu faço votos de libertá-los todos.” Está todo mundo realmente interessado em salvar todos os seres?  Os criminosos, os nazistas da 2ª Guerra Mundial? Vocês vão até os infernos para dar-lhes a mão e tirá-los de lá? “Josef Mengele, venha cá, meu amigo, vou tirar você desse sofrimento infernal, vou ensinar o Dharma pra você.”

Segundo voto do Bodhisattva: “As paixões são inextinguíveis, eu faço votos de extingui-las todas”. Nós realmente estamos prontos pra extinguir cada pequena paixão que surge? Cada uma? Cada raiva, cada impaciência, cada inveja, cada ciúme, cada coisa? Cada afeto desmesurado, selecionado? Você realmente é capaz de amar todos os seres como você ama seu filho? É isso?

O terceiro voto: “Os portais do Dharma são incontáveis, a sabedoria é imensurável, mas eu faço o voto de aprendê-lo todo.” Quer dizer, eu vou aprender tudo sobre o Dharma. Tudo, tudo, tudo. Eu não vou deixar nada de fora. Vou atravessar todos os portais da sabedoria.

E o quarto e último: “O caminho de Buda é infinito, eu faço voto de percorrê-lo até o fim.” Infinito, e mesmo assim eu vou percorrer até o fim. Não acaba, e eu vou continuar, sem fim.

Quando eu estava  no monastério, eu tinha a sensação assim: “Isso aqui não acaba! Não acaba nunca”. Todos os dias a mesma coisa. Levanta de manhã cedo, quatro horas da manhã. Vai para o zendô e senta e continua... sesshin de noventa dias. Isso não acaba nunca. Como eu tenho que tomar um remédio para pressão, então contei noventa dias, noventa comprimidos, botei num lugar lá, e cada vez que eu tomava um de manhã, diminuía um dia. E eu olhava aquela pilha e não acabava nunca...

Aí pensamos, o caminho de Buda, é infinito. Infinito! Então seria uma pilha sem fim, sem fim... E eu teria que tomar, na esperança de chegar a um fim que não existe. Nós fazemos isso. São os votos do Bodhisattva. Então esse é o segundo estágio do caminho, e ainda tem um “eu”. Porque sou eu que prometo. Eu vou lá no inferno, resgatar todos os seres, eu vou estudar, eu vou seguir um caminho sem fim, eu vou extinguir todas as minhas paixões que não acabam mais, que não tem fim. São paixões sem fim e vou extinguir todas elas. Você faz o segundo estágio e ainda está cheio de erros.

Aí, o terceiro estágio, da não dualidade. Extinguiu o eu, realmente. Eu e todos os seres somos um. Percebeu, sentiu, viveu a unidade completamente. Então essas perguntas “ainda tem um eu, que está olhando ou que está querendo”. Mas claro que tem, porque quem é de nós que passou todo o primeiro estágio e passou todo o segundo? Esse que eu descrevi agora, que são os votos do Bodhisattva. Ouçam os votos do Bodhisattva no final do dia. Não basta repetir “os seres são inumeráveis, faço voto de libertá-los todos.” Só repetir não é nada. Você tem que pensar o que significa esse voto. Porque são votos paradoxais, uma vez que eles, por sua própria natureza, são impossíveis, e não se faz votos impossíveis. Esse é o voto do Bodhisattva – fazer votos impossíveis.

Então, como pergunta retórica, essas questões sobre “quem é esse eu que está fazendo isso”, têm sentido, realmente. Mas como pergunta na prática diária do praticante, vamos reconhecer, nós somos “eus” muito bem construídos e sólidos. Se a gente for bem honesto, basta perguntar: quem importa mais para você, seu filho ou uma criança que está passando fome lá na África? Não me responda que você se importa muito com as crianças que estão lá na África, porque você dá comida só para o seu filho. A criança lá na África está passando fome e você só pergunta: “mas por quê que eles fizeram tantos filhos”? Não é? É o que você pergunta. Não é assim?

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Pensar além do pensar e não pensar


Pergunta – Qual a diferença da consciência para o “eu”?

Monge Genshô – O “eu” é uma noção construída, segundo o Budismo, de percepção individual. Um “eu” separado de todo o resto. Esta estrutura que observa o mundo, o vê e se pensa separada, é o “eu”. A consciência, que não é uma palavra adequada, significa coesão de um quantum cármico, é nossa onda que continua se manifestando.

Pergunta – No Zen o “não pensar” passa a ser involuntário e inconsciente?

Monge Genshô – “Não pensar” não é uma colocação adequada. Na verdade não se trata de “não pensar”. A expressão mais antiga e que melhor se aplica é “pensar além do pensar e do não pensar”.

Você está em zazen mas está consciente do som do mar, do vento nas árvores, dos pássaros, dos seus colegas sentados à sua volta, portanto existe uma forma de pensamento nisso. O que se pede na verdade é não elaborar, não julgar, não cogitar e não atribuir. Se você ouve o mar e fica enumerando as ondas e colocando-as numa ordem dentro do seu zazen, isso deixa de ser zazen, pois você está elaborando e cogitando algo. Todo o tempo que você está cogitando dentro do zazen é um momento perdido. Seu corpo está imóvel, mas sua mente está em movimento. Quando você consegue ouvir os sons sem cogitações e julgamentos, simplesmente estando aqui, isso é samadhi e portanto é o zazen que estamos procurando. Se você conseguir um minuto disso, já grande evolução e é fundamental para criar um espaço na mente onde uma percepção realmente profunda possa se instalar. Enquanto sua percepção for pensada, julgada, raciocinada e cogitada, estará cheia de preconceitos e elaborações mentais e não estará suficientemente vazio para perceber o mundo como ele realmente é.

Por isso é difícil de entender declarações de Mestres Zen do tipo: “As coisas são como são e o mundo é como é”, pois isso só é compreensível para quem tem a experiência de samadhi. Se você coloca qualquer tipo de julgamento seu no processo do entendimento, o mundo já não é como é. Veja o exemplo que dei quando expliquei a cerimonia com Oryoki, receba toda a comida que vem e não pense em gosto ou não gosto, por quê? Gosto e não gosto é uma elaboração mental ou um condicionamento relacionado a algo de seu passado que eu coloco ou ligo ao alimento recebido. O recebimento do alimento é uma experiência pura que não precisa ter todas as elaborações que fazemos. Quando coloco as elaborações, eu modifico minha mente e modifico a experiência.

O que quero dizer é que quanto mais pensamos, julgamos e raciocinamos mais distantes estamos da experiência real que é sentado no zafu fazendo zazen, pois o que temos aqui agora são explicações teóricas que são percebidas de formas distorcidas dependendo do entendimento de cada um, que percebe ou escuta, obviamente, minhas palavras e as interpreta conforme suas próprias experiências pessoais.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Além do pensar e do não pensar



Quando nós nos sentamos para meditar estamos tentando ficar aqui agora sem interpretações, por isso as instruções são: não julguem, não pensem, bom ou ruim, certo ou errado, sobre nada que lhe ocorra, simplesmente volte para aqui e agora e perceba as coisas além do pensar e do não pensar. Sinta que você está aqui agora, se você der um salto você então verá como as coisas realmente são, e não tem nada a ver com uma descrição. Nada poderá ser descrito, nada poderá ser dito à respeito porque se nós a descrevermos a estaremos diminuindo porque de novo estaremos traduzindo para palavras aquela coisa que é indescritível. Então um conhecimento perfeito é possível, mas ele só pode vir de dentro e não pode vir de fora através das informações e das interpretações de nossos orgãos sensoriais e seus aparatos mentais. Isto é o que eu queria dizer sobre talidade.