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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Extraordinário é não precisar de algo extraordinário

Nosso poder extraordinário é não precisar de poderes extraordinários. O mito de que um homem se transforma em Deus, ou desce à Terra como um Deus, não é um mito Cristão. É muito anterior ao Cristianismo. Quando surge o Cristianismo, um homem, Jesus, incorpora um mito e este se transforma num mito Cristão. Mas ele já existia na Índia com Krishna ou na Grécia com Hércules e os filhos dos deuses. São arquétipos humanos e existiam em toda a história da humanidade. Tentaram fazer o mesmo com Buda e existem de fato escolas Budistas que divinizam Buda e o que acontece é que existem dois Budas, o Buda homem e o Buda transcendente. Para eles, o Buda homem é uma manifestação do Buda transcendente. Para o Zen não é assim. Por isso sempre digo que Buda morreu de diarreia, para que todos percebam que somos homens iguais Buda. Isso significa qualquer um de nós pode despertar como Buda.

Esse ensinamento é muito mais difícil de ser compreendido e muito mais maravilhoso do que quaisquer milagres. Em cem anos estarei morto e muito provavelmente muitos de meus alunos diretos também, mas os alunos destes, talvez digam que ouviram falar que o Sensei Genshô podia andar sobre as águas. Temos a tendência de querer tornar sobrenatural tudo que nos toca emocionalmente. Não existem passados maravilhosos e com o tempo degeneramos. Os homens nunca viveram tanto e nunca fomos tão poderosos, o que acontece é que a humanidade sempre foi insensata.

A história humana é a história da insensatez. O que acontece no nosso século é que a tecnologia que cresceu rapidamente nos últimos cem anos nos deu poderes desproporcionais em relação à nossa evolução mental. Antes os homens eram insensatos mas usavam machados; agora têm moto serra. Então as florestas são destruídas. Mas se você conseguir mudar sua mente e conseguir colocar um pouco de consciência nos governantes, usando apenas esse exemplo isolado, podemos mudar muita coisa. Vejam o Japão, tem mais florestas, proporcionalmente, que o Brasil. Tem 70% de seu território coberto por florestas, isso porque um imperador a 400 anos atrás ordenou que não se cortassem mais florestas. 

O que temos que fazer é mudar nossas mentes para conservar esse mundo precioso. Como diz o Budismo, tudo começa dentro das pessoas, por isso trabalhamos duramente para mudar nossas mentes, não olhem para fora.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sempre queremos o fantástico


Pergunta – O que o budismo pensa sobre o desenvolvimento? Por exemplo, hoje em dia nos surpreendemos com o que as civilizações antigas faziam com tão poucos recursos tecnológicos. Nós regredimos em alguns aspectos?

Monge Genshô – Nós sempre queremos acreditar em coisas fantásticas. Em alguns aspectos as civilizações antigas realmente desenvolveram coisas interessantes, como por exemplo, o calendário Maia que é mais bem calculado e exato do que o calendário astronômico desenvolvido na Europa.

No entanto, eles não conheciam a roda nem o aço. O que descobrimos nas escavações são artefatos extraordinários feitos com tecnologia muito pobre ou limitados, o que exigia enorme trabalho e esforço. Só encontramos materiais feitos de ferro de 1200 a.C. pra cá, porque o ferro necessita de grandes temperaturas para ser extraído, forjá-lo é uma técnica muito difícil e trabalhosa de ser empregada para se conseguir uma resistência maior de ferro, que é fraco em estado puro. Ao ser misturado ao carbono ele começa adquirir  resistência, torna-se  aço e se tornava caríssimo, antes do  século XIX ele tinha o preço de uma jóia.

Foi a partir deste século, com Henry Bessemer, que foi criado um método de purificação do ferro onde era tirado todo o carbono e depois recolocado na medida certa, dando origem à um ferro fundido que pôde ser moldado, fazendo-se navios de aço, trilhos de trem e pontes. Nenhuma civilização anterior fez algo parecido com o aço. Temos uma tendência a querer algo extraordinário e isso acontece também no meio religioso. Meu trabalho como professor do Zen é destruir isso, pois muitas pessoas vêm para o Zen esperando coisas espetaculares e extraordinárias. Embora os mitos criem facilmente o extraordinário, não precisamos fazer isso para que o budismo dê os seus resultados, não precisamos dizer que os monges têm poderes extraordinários e fazem milagres.

Nosso poder extraordinário é não precisar de poderes extraordinários. O mito de que um homem que se transforma em Deus, ou desce à Terra como um Deus, não é um mito Cristão. É muito anterior ao Cristianismo. Quando surge o Cristianismo, um homem, Jesus, incorpora um mito e este se transforma num mito Cristão. Mas ele já existia na Índia com Krishna ou na Grécia com Hércules e os filhos dos deuses. São arquétipos humanos e existiam em toda a história da humanidade. Tentaram fazer o mesmo com Buda e existem de fato tendências budistas que divinizam Buda. Por isto sempre digo que Buda morreu de diarréia, para que todos percebam que somos homens iguais a Buda. Isso significa que qualquer um de nós pode despertar como Buda.

Esse ensinamento é muito mais difícil de ser compreendido e muito mais maravilhoso do que quaisquer milagres. Em cem anos estarei morto e muito provavelmente muitos de meus alunos diretos também, mas os alunos destes, talvez digam que ouviram falar que o Sensei Genshô podia ler pensamentos. Temos a tendência de querer tornar sobrenatural tudo que nos toca emocionalmente. Não existem passados maravilhosos e com o tempo degeneramos. Os homens nunca viveram tanto e nunca fomos tão poderosos, o que acontece é que a humanidade sempre foi insensata.

A história humana é a história da insensatez. O que acontece no nosso século é que a tecnologia que cresceu rapidamente nos últimos cem anos nos deu poderes desproporcionais em relação à nossa evolução mental. Antes os homens eram insensatos mas usavam machados; agora têm moto serra. Então as florestas são destruídas. Mas se você conseguir mudar sua mente e conseguir colocar um pouco de consciência nos governantes, usando apenas esse exemplo isolado, podemos mudar muita coisa. Vejam o Japão, tem mais florestas, proporcionalmente, que o Brasil. Tem 70% de seu território coberto por florestas, isso porque um imperador ordenou que não se cortassem mais florestas. O que temos que fazer é mudar nossas mentes para conservar esse mundo precioso. Como diz o budismo, tudo começa dentro das pessoas, por isso trabalhamos duramente para mudar nossas mentes, não olhem para fora.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Nosso poder extraordinário é não precisar de poderes extraordinários



Pergunta – O que o Budismo pensa sobre o desenvolvimento? Por exemplo, hoje em dia nos surpreendemos com o que as civilizações antigas faziam com tão poucos recursos tecnológicos. Nós regredimos ?

Monge Genshô – Nós sempre queremos acreditar em coisas fantásticas. Em alguns aspectos as civilizações antigas realmente desenvolveram coisas interessantes, como por exemplo, o calendário Maia que é mais bem calculado e exato do que o calendário astronômico desenvolvido na Europa.

No entanto, eles não conheciam a roda nem o aço. O que descobrimos nas escavações são artefatos extraordinários feitos com tecnologia muito pobre ou limitados, o que exigia enorme trabalho e esforço. Só encontramos materiais feitos de ferro de 1200 a.C. pra cá, porque o ferro necessita de grandes temperaturas para ser forjado, uma técnica muito difícil de ser empregada para se conseguir uma resistência maior de ferro. Ao ser misturado ao carbono ele começa adquirir a resistência do aço e se tornava caríssimo, no início do século XIX ele tinha o preço de uma joia, porque sabíamos fazer o aço através de um longo trabalho manual de dobra e purificação mas não industrialmente.

Foi a partir deste século, com Henry Bessemer, (1856) que foi criado um método de purificação do ferro onde era tirado todo o carbono e depois recolocado na medida certa, dando origem à um ferro fundido que pôde ser moldado, fazendo-se navios de aço, trilhos de trem e pontes. Nenhuma civilização anterior fez algo parecido com o aço industrial. Temos uma tendência a querer algo extraordinário e isso acontece também no meio religioso. Meu trabalho como professor do Zen é destruir isso, pois muitas pessoas vêm para o Zen esperando coisas espetaculares e extraordinárias. Embora os mitos criem facilmente o extraordinário, não precisamos fazer isso para que o Budismo dê os seus resultados, não precisamos dizer que os Monges têm poderes extraordinários e fazem milagres.

Nosso poder extraordinário é não precisar de poderes extraordinários. O mito de que um homem se transforma em Deus, ou desce à Terra como um Deus, não é um mito Cristão. É muito anterior ao Cristianismo. Quando surge o Cristianismo, um homem, Jesus, incorpora um mito e este se transforma num mito Cristão. Mas ele já existia na Índia com Krishna ou na Grécia com Hércules e os filhos dos deuses. São arquétipos humanos e existiam em toda a história da humanidade. Tentaram fazer o mesmo com Buda e existem de fato escolas Budistas que divinizam Buda e o que acontece é que aí  existem dois Budas, o Buda homem e o Buda transcendente. Para eles, o Buda homem é uma manifestação do Buda transcendente. É bonito mas para nossa linhagem não é assim. Por isso sempre digo que Buda morreu de diarreia, para que todos percebam que somos homens iguais Buda. Isso significa qualquer um de nós pode despertar como Buda.

Esse ensinamento é muito mais difícil de ser compreendido e muito mais maravilhoso do que quaisquer milagres. Em cem anos estarei morto e muito provavelmente muitos de meus alunos diretos também, mas os alunos destes, talvez digam que ouviram falar que o Sensei Genshô podia andar sobre as águas. Temos a tendência de querer tornar sobrenatural tudo que nos toca emocionalmente. Não existem passados maravilhosos e com o tempo degeneramos. Os homens nunca viveram tanto e nunca fomos tão poderosos, o que acontece é que a humanidade sempre foi insensata.

A história humana é a história da insensatez. O que acontece no nosso século é que a tecnologia que cresceu rapidamente nos últimos cem anos nos deu poderes desproporcionais em relação à nossa evolução mental. Antes os homens eram insensatos mas usavam machados; agora têm moto serra. Então as florestas são destruídas. Mas se você conseguir mudar sua mente e conseguir colocar um pouco de consciência nos governantes, usando apenas esse exemplo isolado, podemos mudar muita coisa. Vejam o Japão, tem mais florestas, proporcionalmente, que o Brasil. Tem 70% de seu território coberto por florestas, isso porque um imperador  ordenou que não se cortassem mais florestas. O que temos que fazer é mudar nossas mentes para conservar esse mundo precioso. Como diz o Budismo, tudo começa dentro das pessoas, por isso trabalhamos duramente para mudar nossas mentes, não olhem para fora.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

É extraordinário mas não é nada extraordinário


Aluno:  Faz pouco tempo que estou praticando, mas tenho uma sensação e gostaria de saber se isso é verdadeiro. É uma questão de energia. Sinto que com a prática, principalmente aqui na sangha, está despertando uma energia em mim, um tipo de calor nas mãos. É verdadeiro isso, a prática permite o despertar desta energia?

Monge Genshô - A prática produz coisas extraordinárias, mas nenhuma é extraordinária. São consequências naturais da prática e não as olhamos como coisas excepcionais e sim como naturais. Sentar em zazen, por exemplo, produz calor. Se você pesquisar na internet irá ver monges praticando sentados em locais com muita neve, temperaturas abaixo de zero e eles no lado de fora do Zendo com suas cabeças descobertas, sem luvas ou meias. Algumas pessoas podem pensar que isto seja milagroso ou extraordinário, mas não é, é simplesmente o resultado normal de uma prática de longo tempo. Eu próprio já experimentei e não achei nenhum tipo de tortura. Em um lugar onde as pessoas sentam para praticar, quando você chega, logo sente essa energia a que você se referiu.

Aluno – Não estou nem pensando em algo sobrenatural, é apenas uma energia boa.

Monge Genshô – Não existe nada sobrenatural. Isso é simplesmente natural. Em uma casa onde todos brigam, onde há xingamentos e palavrões, onde as pessoas atiram coisas umas nas outras, quando você entra, logo sente a atmosfera pesada e o clima ruim, por outro lado em um local de prática como o nosso, rapidamente se cria essa outra sensação que você percebeu. Mas isso não é só no Zen, quando viajo gosto muito de entrar em igrejas, elas também podem ser lugares agradáveis e com este tipo de energia, afinal de contas, as pessoas entram nas igrejas para orar. Por isso temos que evitar colocar nossos pés onde os sentimentos mais baixos surgem, por exemplo, no carnaval vamos para nosso retiro em uma reserva florestal onde só se ouvem pássaros e cachoeiras, mas há outras pessoas que festejam com drogas, procuram relacionamentos fugazes com pessoas que nunca mais verão e ficam todas as noites acordadas ouvindo sons altíssimos. Quando nosso retiro acaba todos estamos felizes e nos abraçamos emocionados, enquanto eles estão de ressaca e com sentimento de vazio, por isso o nome é “quarta-feira de cinzas”, a festa acabou e todos estão meio que doentes. Quando você vê o cenário de pós-carnaval percebe sujeira, pessoas feridas em razão das brigas que sempre acontecem e a gente se pergunta: o que realmente ficou de bom?

Vi uma reportagem sobre o carnaval do Rio de Janeiro onde as pessoas reclamavam do cheiro de urina, do lixo, da violência e também de coisas que haviam sido quebradas, isso foi o que sobrou do carnaval e é completamente diferente da nossa prática.

5) O senhor falou sobre o sentimento de raiva e de colocar outro sentimento em cima para substituir e não deixar que a raiva surja, como é isso?

Monge Genshô – Imagine alguém insultando você. Sua reação pode ser de raiva, mas se você o olhar com compaixão pelo fato de ele estar tomado de sentimentos ruins, você não irá reagir da mesma forma. Se você olhar para a pessoa que o agride e o vir como uma criança ignorante que não sabe o que faz, não sentirá raiva e sim compaixão pela ignorância. Às vezes é muito difícil e se você não consegue controlar, é melhor se afastar. Se você não controla, ficar em silêncio e ir embora é a melhor solução.