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quarta-feira, 2 de abril de 2014
Tecnologia
Pergunta – Mas e se a pessoa não quiser prestar as reverências ou acender velas?
Monge Genshô – Se você acender velas para uma estátua não estará fazendo mal algum e se não quiser acender, não acenda. Mas a atitude budista mais correta é a de fazer o que as pessoas estão fazendo, então se você está junto de pessoas que esperam que você faça uma reverência e acenda velas, é isso que deve fazer, você não deve chocar, contrariar ou criar conflitos. Devemos procurar a harmonia.
Pergunta – A sociedade tecnológica está tomando conta do mundo hoje. O budismo vê esse avanço tecnológico?
Monge Genshô – A tecnologia é algo maravilhoso, mas é aética por natureza, por exemplo, uma faca pode tanto ser usada para cortar pão como para matar uma pessoa. A tecnologia é um instrumento e como tal pode ser usado para o bem e para o mal. O avanço tecnológico liberou o homem, veja bem, há duzentos anos 90% das pessoas estavam no campo produzindo comida. Quando eu nasci a sessenta anos atrás, 30% das pessoas já estavam nas grandes cidades e hoje esse quadro inverteu-se totalmente, temos 90% das pessoas nas cidades. Nos EUA menos de 3% das pessoas trabalha no campo produzindo alimentos para todo o país e ainda para exportação. A indústria ocupa por volta de 13% das pessoas, a grande maioria trabalha em serviços, é por isso que olhando para as mãos das pessoas nessa sala percebemos que ninguém tem calos ou sujeira embaixo das unhas.
Hoje em dia não se morre aos trinta anos de alguma doença desconhecida. A tecnologia melhorou nossa qualidade de vida. O bom seria que esse tempo a mais proporcionado pela tecnologia fosse ocupado com mais leituras, mais dedicação para olharmos para dentro de nós, mais estudos e para ter um nível de informação melhor. Antes da invenção da imprensa quem tinha oportunidade de ler livros? Santo Agostinho fez um comentário sobre Santo Ambrósio: “O Bispo Ambrósio é o homem mais culto do nosso tempo, imaginem que ele é capaz de ler sem mover os lábios”. Hoje, meu filho de sete anos é capaz de ler sem mover os lábios. Você pode ligar a TV para ver um documentário de qualidade, assistir uma ópera ou pode assistir um programa de baixa qualidade moral, é você quem escolhe. Toda a tecnologia é assim.
Respondendo sua pergunta, o budismo não faz julgamentos sobre tecnologia. Ainda temos tecnologia de má qualidade, por exemplo, produzimos energia queimando carvão e poluindo a atmosfera. Temos muitos estudos na área de produção de energia, mas tudo muito no início. Nossa produção de energia ainda é incipiente, não poderíamos dizer que a partir de amanhã não queimaríamos combustíveis fósseis, isso pararia o país.
segunda-feira, 31 de março de 2014
O futuro com melhor tecnologia
4) Da forma que vivemos estamos sempre insatisfeitos, somos estimulados ao consumo sempre de novos e mais modernos produtos. A essência como o senhor falou, é a satisfação, mas isso não nos levará a um comodismo?
Monge Genshô – Não, não levará. Nós estamos subestimando o que vai acontecer conosco. As pessoas que querem regredir e voltar para uma vida do machado, não sabem como era nessa época. Nenhum índio que conheça a civilização deseja voltar a sua vida tribal. As pessoas morrem com vinte e poucos anos em média e mais da metade das crianças morre antes de completar um ano. Fome e frio são situações frequentes. Nós tivemos conquistas maravilhosas com a civilização. A libertação feminina é uma destas conquistas que veio com a revolução industrial. Antes disso, rachar lenha era trabalho para homem. Antes da medicina desse século tínhamos mais homens que mulheres, pois a mortalidade de mulheres no parto era enorme. Vivemos hoje quase o dobro do que vivíamos na década de quarenta. A solução para a humanidade não é menos tecnologia, o problema é que a tecnologia que empregamos é pobre e muitas vezes burra e destruidora, mas é perfeitamente possível ter casas auto-suficientes energeticamente, não precisamos produzir tanto lixo, não precisamos lançar os dejetos no mar, não precisamos matar para comer pois, com a tecnologia disponível hoje, muitas coisas não seriam necessárias.
Com mais tecnologia podemos consumir de forma diferente, mas precisamos de educação e conhecimento, porém, a humanidade está à beira de passar por uma situação que é a extinção do trabalho. Mais algumas décadas e a maior parte do trabalho será feito por máquinas com inteligência artificial e muitas das profissões que conhecemos terão se extinguido. Nesse momento, os homens terão que olhar para si mesmos e perguntar qual o sentido da vida. Já vivemos situação parecida na época dos escravos na qual uma pequena parcela da população, cerca de 10%, era cidadão, isso aconteceu em Atenas. Cada cidadão ateniense tinha nove escravos e ele não precisava fazer nada. Como resultado, a Grécia produziu filosofia.
Teremos que descobrir novas coisas para fazer, pois toda nossa educação irá mudar totalmente. As religiões sofrerão enorme crise, pois iremos perguntar se um cérebro eletrônico que é capaz de pensar e atinge auto consciência, tem alma ou não, está vivo ou morto e quem ele é. O budismo tem a resposta para isso, mas as religiões com almas não. As pessoas estão sendo invadidas por tecnologias cada vez mais sofisticadas sem que elas mesmas decidam como será seu mundo. Outras pessoas estão decidindo por elas, algumas poucas pessoas estão decidindo por todas as outras. Não vejo como isso poderá mudar, pois se você pergunta para uma pessoa ela olha para o passado, como na idade do ouro, mas estão enganadas sobre isso. A humanidade sempre olhou para o passado pensando ver uma idade dourada, isso sempre aconteceu, em todas as eras. Talvez esse seja o momento de olhar para o futuro e o budismo está preparado para isso, pois ele não busca ilusões e sim lucidez e clareza. Não desejamos santos ou pessoas iludidas, queremos homens e mulheres despertos, lúcidos e com clareza mental. Isso pode mudar o mundo.
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Sempre queremos o fantástico
Pergunta – O que o budismo pensa sobre o desenvolvimento? Por exemplo, hoje em dia nos surpreendemos com o que as civilizações antigas faziam com tão poucos recursos tecnológicos. Nós regredimos em alguns aspectos?
Monge Genshô – Nós sempre queremos acreditar em coisas fantásticas. Em alguns aspectos as civilizações antigas realmente desenvolveram coisas interessantes, como por exemplo, o calendário Maia que é mais bem calculado e exato do que o calendário astronômico desenvolvido na Europa.
No entanto, eles não conheciam a roda nem o aço. O que descobrimos nas escavações são artefatos extraordinários feitos com tecnologia muito pobre ou limitados, o que exigia enorme trabalho e esforço. Só encontramos materiais feitos de ferro de 1200 a.C. pra cá, porque o ferro necessita de grandes temperaturas para ser extraído, forjá-lo é uma técnica muito difícil e trabalhosa de ser empregada para se conseguir uma resistência maior de ferro, que é fraco em estado puro. Ao ser misturado ao carbono ele começa adquirir resistência, torna-se aço e se tornava caríssimo, antes do século XIX ele tinha o preço de uma jóia.
Foi a partir deste século, com Henry Bessemer, que foi criado um método de purificação do ferro onde era tirado todo o carbono e depois recolocado na medida certa, dando origem à um ferro fundido que pôde ser moldado, fazendo-se navios de aço, trilhos de trem e pontes. Nenhuma civilização anterior fez algo parecido com o aço. Temos uma tendência a querer algo extraordinário e isso acontece também no meio religioso. Meu trabalho como professor do Zen é destruir isso, pois muitas pessoas vêm para o Zen esperando coisas espetaculares e extraordinárias. Embora os mitos criem facilmente o extraordinário, não precisamos fazer isso para que o budismo dê os seus resultados, não precisamos dizer que os monges têm poderes extraordinários e fazem milagres.
Nosso poder extraordinário é não precisar de poderes extraordinários. O mito de que um homem que se transforma em Deus, ou desce à Terra como um Deus, não é um mito Cristão. É muito anterior ao Cristianismo. Quando surge o Cristianismo, um homem, Jesus, incorpora um mito e este se transforma num mito Cristão. Mas ele já existia na Índia com Krishna ou na Grécia com Hércules e os filhos dos deuses. São arquétipos humanos e existiam em toda a história da humanidade. Tentaram fazer o mesmo com Buda e existem de fato tendências budistas que divinizam Buda. Por isto sempre digo que Buda morreu de diarréia, para que todos percebam que somos homens iguais a Buda. Isso significa que qualquer um de nós pode despertar como Buda.
Esse ensinamento é muito mais difícil de ser compreendido e muito mais maravilhoso do que quaisquer milagres. Em cem anos estarei morto e muito provavelmente muitos de meus alunos diretos também, mas os alunos destes, talvez digam que ouviram falar que o Sensei Genshô podia ler pensamentos. Temos a tendência de querer tornar sobrenatural tudo que nos toca emocionalmente. Não existem passados maravilhosos e com o tempo degeneramos. Os homens nunca viveram tanto e nunca fomos tão poderosos, o que acontece é que a humanidade sempre foi insensata.
A história humana é a história da insensatez. O que acontece no nosso século é que a tecnologia que cresceu rapidamente nos últimos cem anos nos deu poderes desproporcionais em relação à nossa evolução mental. Antes os homens eram insensatos mas usavam machados; agora têm moto serra. Então as florestas são destruídas. Mas se você conseguir mudar sua mente e conseguir colocar um pouco de consciência nos governantes, usando apenas esse exemplo isolado, podemos mudar muita coisa. Vejam o Japão, tem mais florestas, proporcionalmente, que o Brasil. Tem 70% de seu território coberto por florestas, isso porque um imperador ordenou que não se cortassem mais florestas. O que temos que fazer é mudar nossas mentes para conservar esse mundo precioso. Como diz o budismo, tudo começa dentro das pessoas, por isso trabalhamos duramente para mudar nossas mentes, não olhem para fora.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Budismo e ideologia

P: Os budistas seguem alguma ideologia? O budismo deve se engajar em lutas políticas?
R: Aconteceram muitas vezes ligações com o poder político, mas invariavelmente redundaram em decadência do Dharma. Concordo que os budistas, como indivíduos, devem tentar ser ativos, mas o Budismo como religião não o deve ser.
Um fato que marcou a história japonesa foi o que sucedeu com o Rinzai, que se tornou ligado ao império e a corte. Um mestre Rinzai, de dentro da carruagem imperial, apontou a seu discípulo em direção os monges camponeses da Soto, trabalhando no campo:
- Veja, em algumas gerações eles terão crescido e
nosso poder e orgulho se esvairá.
Aquela humildade tinha mais força que as ligações políticas que o Rinzai havia estabelecido, a predição se confirmou. Mais tarde a riqueza, a hereditariedade e conforto dos monges Soto se tornou motivo, por sua vez, para seu enfraquecimento.
Concordo com você que os budistas devem se esforçar para diminuir o sofrimento e, naturalmente, usarão as doutrinas e ideologias que acreditarem válidas. Infelizmente nenhuma delas, até hoje, sobreviveu muito tempo. As diferentes utopias vão tropeçando pela história.
Assim devem agir civilmente como pensam certo, um marxista crendo na centralização das decisões, outro liberal acreditando na liberdade mais ampla possível, o socialista crendo na intervenção estatal, e assim por diante. O que não se deve fazer é misturar o Dharma com as doutrinas políticas, usando este para atacar a globalização e a tecnologia, ou opostamente preconizar um mundo unificado e conectado.
Em qualquer hipótese, a associação fará do Dharma instrumento político de propaganda, o que diminui sua universalidade e a isenção de suas propostas.
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