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terça-feira, 3 de junho de 2014

Repetições sem fim



 (continuação da palestra)
Nós temos que substituir as crenças por experiências. Então o budismo é experiencial. Por isso o Zen faz o que nós vamos fazer amanhã, primeiro você senta nesta almofada de frente para a parede e descobre QUEM é você. Descubra o fundamento da sua existência. Onde você estava antes dos seus pais terem nascido? Quem eu sou realmente, além desse nome e forma? Quem eu sou além de Joana, Pedro, Jairo? Quem eu sou? Se eu puder saber quem eu sou, então posso engolir o universo. Mas enquanto eu estiver acreditando na minha individualidade, no meu “eu” como uma coisa sólida, eu estou muito perdido, porque eu tenho mais uma construção, mais uma ilusão, criada pelo funcionamento da minha mente. Eu “sou” aquilo que eu acredito, aquilo que meu pai me disse. Minha mãe me deu o nome de José, então sou José. Quem é você? José. Não, José é um rótulo. Eu quero saber quem é você, além desse nome. Eu sou isso que você está vendo, é verdade? E se eu retirar esse braço, será menos você, ou você continua aí? Não, eu continuo aí. Então você não é seu corpo, porque eu tirei o braço e você continua. Você nem diminuiu...quem é você fora do seu corpo, fora do seu nome, fora de tudo o que as pessoas acreditam que são? Eu sou advogado, doutor, operário, consultor, qualquer coisa, quem é você além dos atributos? Quem é você de verdade? Essa é a pergunta que tem que ser respondida.

À medida que nós vamos andando na vida nós vamos criando carma. Nós já somos produtos de carma, porque nós não estaríamos aqui se não houvesse um efeito anterior. Existe algum efeito sem causa? Não. Qualquer efeito que exista, tem uma causa. Se vocês estão sentados aqui, existe uma causa pregressa. Então, de onde veio essa personalidade, esse apego, esse desejo, essa tendência, essas coisas que vocês sentem desde a infância? Foram criadas aleatoriamente, ou por acaso são efeitos do passado? A lógica diz: são efeitos do passado. Então há continuidade nas existências. A essa continuidade na existência, vamos chamar CARMA.

A onda cármica, ela não carrega nome, identidade, não tem passaporte, não tem sobrenome, não sabe quem é, no entanto se manifesta aqui e nasce, e aí mamãe dá um nome, e você vai descobrindo aos poucos, olhando pra dentro de você, “eu sou assim, eu tenho tendência pra isso, eu tenho tendência para aquilo. Você é uma grande cozinheira, não é? Mas de onde veio este talento? Não foi sempre assim, desde pequena? De onde veio? Surgiu assim? E quando você senta uma criança talentosa num instrumento musical,  você olha o prodígio e diz: “Como pode? Como é possível isso?” Você acha que aconteceu ali como um milagre, ou que tem uma causa pregressa? Como Mozart podia compor musicas aos 5 anos de idade? Como? Então é evidente para nós que existe continuidade de manifestação cármica, e vocês são continuidade de carma muito velho, senão não seriam seres humanos, seriam seres mais primitivos.

Agora, vocês vão continuar repetindo sempre as mesmas experiências? Porque é isso que nós fazemos na vida. Nós repetimos experiências sem fim. As pessoas fazem uma coisa, depois repetem o mesmo erro de novo, depois de novo. É ou não é? Nós não somos assim, seres apaixonados? Nos apaixonamos  uma vez, aí acaba aquele amor e a gente sofre. Aí o que fazemos? Nos apaixonamos de novo.  O monge ouve muito essas coisas, porque senta alguém na frente e diz: “Estou sofrendo muito”... Às vezes o sofrimento é tão grande que eu choro junto. Porque eu sinto que dói, porque também já aconteceu comigo. Mas eu sei uma coisa com certeza: é só a gente esperar 2 anos. E a mesma pessoa vem e eu digo: “E aí, e aquele relacionamento?” E ela responde: “Ah, ainda bem que eu me livrei daquela coisa horrorosa, só foi problema aquilo para mim, mas agora estou com uma pessoa...” Até o próximo desastre. Porque nós somos assim, nós somos repetidores de experiências, porquê? Porque não mudamos o nosso carma, aí repetimos.
(continua)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Tudo dentro da mente


Pergunta – Tenho uma amiga, estávamos conversando e a tartaruga dela tinha morrido porque um ovo ficou preso - coisa muito comum, segundo o veterinário - de acontecer com tartarugas. E ela me perguntou o que o budismo dizia sobre isso, por que isso aconteceu. Minha resposta foi de que isso é carma, é apenas uma condição natural das tartarugas, elas põem ovos e estão suscetíveis a terem ovos entalados e morrerem. Mas para ela isso era apenas um bug da natureza. 

Monge Genshô –  A natureza tem bugs mesmo, ela não é perfeita e porquê seria? Mas essas são leis da seleção natural. Carma é só ação e consequência, isso pode ser bom ou ruim. Temos marcas boas que nos levam para coisas boas e marcas ruins que nos carregam para coisas negativas. Se não fôssemos pessoas com coisas boas e ruins não estaríamos aqui. A natureza não foi “criada” do ponto de vista budista, por isso ela tem imperfeições mesmo.

Pergunta – O Senhor falou das construções tanto para o bem quanto para o mal, isso me soa como se fosse uma carta de baralho que a gente escolhe ou como um programa de computador que a gente programa o que quer. Mas do jeito que o senhor fala parece que é mesmo como uma carta de baralho, os caminhos estão aí e é só escolher...

Monge Genshô – No início é assim. É como ter uma cor preferida ou time de futebol. No começo é mesmo como uma carta de baralho, você simplesmente escolhe. Você lembra quando escolheu o seu time preferido? Normalmente tem os amigos ou parentes que gostam de um time, você sente o clima e faz sua escolha, que no início é muito fraca, pouco convicta. Mas com o tempo essa escolha vai se solidificando até chegar o momento em você irá brigar com outra pessoa por ela torcer por um time diferente do seu. Essa construção que no começo era quase nada, se solidificou a ponto de causar sofrimento e dor. O mesmo acontece com os relacionamentos amorosos, o que começou com um olhar torna-se algo forte na medida em que vamos nos envolvendo, conhecendo a família e os amigos, mas assim como o futebol e as cores, os relacionamentos amorosos também estão somente dentro de nossa mente e por eles vamos viver momentos de grande felicidade e alegria, assim como momentos de grande tristeza, sofrimento e dor. Se fôssemos capazes de escolher nada, não teríamos nenhum tipo de construção, nenhum tipo de ligação. Veja a história da humanidade, é toda construída desta forma, quanta guerra e sofrimento por causa de uma bandeira ou uma fronteira. China, Japão e Taiwan estão envolvidos num conflito por um amontoado de pedras no meio do oceano onde não mora ninguém.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

É extraordinário mas não é nada extraordinário


Aluno:  Faz pouco tempo que estou praticando, mas tenho uma sensação e gostaria de saber se isso é verdadeiro. É uma questão de energia. Sinto que com a prática, principalmente aqui na sangha, está despertando uma energia em mim, um tipo de calor nas mãos. É verdadeiro isso, a prática permite o despertar desta energia?

Monge Genshô - A prática produz coisas extraordinárias, mas nenhuma é extraordinária. São consequências naturais da prática e não as olhamos como coisas excepcionais e sim como naturais. Sentar em zazen, por exemplo, produz calor. Se você pesquisar na internet irá ver monges praticando sentados em locais com muita neve, temperaturas abaixo de zero e eles no lado de fora do Zendo com suas cabeças descobertas, sem luvas ou meias. Algumas pessoas podem pensar que isto seja milagroso ou extraordinário, mas não é, é simplesmente o resultado normal de uma prática de longo tempo. Eu próprio já experimentei e não achei nenhum tipo de tortura. Em um lugar onde as pessoas sentam para praticar, quando você chega, logo sente essa energia a que você se referiu.

Aluno – Não estou nem pensando em algo sobrenatural, é apenas uma energia boa.

Monge Genshô – Não existe nada sobrenatural. Isso é simplesmente natural. Em uma casa onde todos brigam, onde há xingamentos e palavrões, onde as pessoas atiram coisas umas nas outras, quando você entra, logo sente a atmosfera pesada e o clima ruim, por outro lado em um local de prática como o nosso, rapidamente se cria essa outra sensação que você percebeu. Mas isso não é só no Zen, quando viajo gosto muito de entrar em igrejas, elas também podem ser lugares agradáveis e com este tipo de energia, afinal de contas, as pessoas entram nas igrejas para orar. Por isso temos que evitar colocar nossos pés onde os sentimentos mais baixos surgem, por exemplo, no carnaval vamos para nosso retiro em uma reserva florestal onde só se ouvem pássaros e cachoeiras, mas há outras pessoas que festejam com drogas, procuram relacionamentos fugazes com pessoas que nunca mais verão e ficam todas as noites acordadas ouvindo sons altíssimos. Quando nosso retiro acaba todos estamos felizes e nos abraçamos emocionados, enquanto eles estão de ressaca e com sentimento de vazio, por isso o nome é “quarta-feira de cinzas”, a festa acabou e todos estão meio que doentes. Quando você vê o cenário de pós-carnaval percebe sujeira, pessoas feridas em razão das brigas que sempre acontecem e a gente se pergunta: o que realmente ficou de bom?

Vi uma reportagem sobre o carnaval do Rio de Janeiro onde as pessoas reclamavam do cheiro de urina, do lixo, da violência e também de coisas que haviam sido quebradas, isso foi o que sobrou do carnaval e é completamente diferente da nossa prática.

5) O senhor falou sobre o sentimento de raiva e de colocar outro sentimento em cima para substituir e não deixar que a raiva surja, como é isso?

Monge Genshô – Imagine alguém insultando você. Sua reação pode ser de raiva, mas se você o olhar com compaixão pelo fato de ele estar tomado de sentimentos ruins, você não irá reagir da mesma forma. Se você olhar para a pessoa que o agride e o vir como uma criança ignorante que não sabe o que faz, não sentirá raiva e sim compaixão pela ignorância. Às vezes é muito difícil e se você não consegue controlar, é melhor se afastar. Se você não controla, ficar em silêncio e ir embora é a melhor solução.

sábado, 20 de junho de 2009

Perambulação


P: Quero mudar minha vida, trabalhar em outro lugar fazendo algo diferente, parece que o que faço não dá certo em relacionamentos e profissionalmente, como devo agir?

R: O segredo da vida não é procurar fazer o que se gosta, mas sim achar como gostar do que se faz, saber seguir o fluxo da vida, quando lutamos contra a corrente natural tudo fica muito difícil, é como se as engrenagens estivessem emperradas. Perambular, procurando a felicidade, é justamente o significado da palavra Samsara (perambulação). Por exemplo, não podemos forçar o amor, nem alimentar pretensões demasiadas em um relacionamento, se fazemos isto afogamos o outro com nossas demandas.
Quanto a vida profissional, não se pode trocar de trabalho enquanto não se tem uma outra coisa segura, só se pode pular de um barco para outro, se pulamos e saímos nadando as coisas pioram ainda mais.