Monge Genshô: O esgotamento da sua
força pessoal propicia exatamente os insights; então você está sofrendo no
zazen, não é à toa. Você não vai conseguir nada sentando na poltrona do sofá,
não vai dar certo. Nesta prática que estamos
fazendo existe um sacrifício, e esse sacrifício tem propósito, ele pode
enfraquecer você e fazer você descobrir coisas especiais dentro de si. É uma prática
séria, nós estamos imitando de uma forma mais leve a vida em um monastério, a
gente fica aqui de dois a três dias, nos monastérios o período é de 90 dias e 1
vez por mês você tem o sesshin, 1 ou 2 vezes por mês, o resto do tempo você faz
menos zazen, só 4 h por dia e aqui acaba sendo pouco se você considerar
normal; no monastério não é assim, dá em torno de 14 ou 16 zazen por dia no sesshin, e
tudo que a gente deseja no fim é ter pernas novas.
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quarta-feira, 23 de março de 2016
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
QUEM REENCARNA?
Aluno – Então existe reencarnação?
Monge Genshô – De quem? Se não existe um
eu como é que existe reencarnação? Se memórias não permanecem, como é que existe?
Reencarnação de que? O quê reencarnaria?
Reencarnação é uma palavra que não serve
para o budismo, porque ela carrega dentro de si o significado de que um eu
repete ou carrega algo para uma nova vida, ganha uma nova carne. Se nós dizemos
que não há almas, espíritos ou coisas que o valham e que as memórias locais cessam com
a falência de um sistema nervoso central, então o que há para renascer? Só há
uma coisa que resta: os impulsos, aquilo que nós chamamos de carma, o movimento
do universo. Este movimento pode produzir identidades em novos seres. Então é o
carma que produz manifestações, não são as manifestações que carregam o carma.
Essa noção é do espiritismo, há um
espírito que carrega uma mochila de carma e vai ganhando corpos novos, e daí
vem o conceito de missão, de resgatar, de ir em determinada direção, uma
evolução, um progresso permanente. Mas o budismo não tem sequer essa ideia de
progresso permanente porque tanto você pode andar para frente como para trás. É
fácil você destruir sua vida. Se você quiser você nasce em determinadas
condições, mas se você começa a fumar crack vai acabar deitado numa sarjeta se transformando
em quase um animal. Pode acontecer isso. Então, você pode andar para trás. E
também os universos são cíclicos. Para o budismo, tudo é cíclico. Nada é
permanente. Nada vai durar para sempre, nem a humanidade, nem essa terra, nem o
planeta, nem o sistema solar, nem este universo.
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Não se preocupe com a morte, se preocupe com a vida
Pergunta: Mudando um
pouquinho o foco, o Senhor falou do incômodo dos mosquitos, que temos que nos
acostumar com esse incômodo porque quando a gente morre, o incômodo é muito
maior. Até me lembrei que o George Harrison que ficou muitos anos se preparando
para morrer. Aí queria saber, o que acontece quando a gente morre e como alguém
se prepara para isso?
Monge Genshô: Bom, acho que você deve pensar na morte todos os
dias, pois isso dá bastante sentido à vida. Sua vida tem um determinado número
de anos e vai acabar em algum momento. Aliás, nós não sabemos quando acaba. O
que acontece quando a gente morre, tem uma resposta clássica de um mestre Zen:
"Eu não sei". Aí a pessoa interrogadora pergunta: "Mas como?
Você é um Mestre Zen e não sabe me dizer o que acontece depois da morte?" E
ele responde "Sim, eu sou um Mestre Zen, mas não sou um Mestre Zen
morto!".
Na realidade, você não precisa se preocupar muito com esse
assunto. Você tem que saber que tudo é impermanente, a vida é impermanente.
Mas, toda energia do universo, todo o movimento do universo tem continuidade
sempre. Porque energia não desaparece, isso é a primeira lei da termodinâmica,
da conservação da energia. A energia continua, por isso há continuidade e por
isso há continuidade de vida também. Mas isso não quer dizer que tem um
"eu" passando dessa vida para outra vida. Seu "eu" é uma
construção temporária do agora. E ele vai desaparecer. É que nós amamos demais
esse "eu", nós o construímos todo tempo. O de hoje é diferente do de
amanhã. Se você quiser ter uma boa morte, cultive um bom carma.
Carma quer dizer ação. Se você tem ações que produzem bons frutos,
isso retornará para você de forma maravilhosa. Se você fizer tudo isso, todo
tempo sem se preocupar, isso também vai acontecer depois. Então não precisa se
preocupar muito com isso, até porque você vai saber. Todos vão saber o que
acontece depois da morte. Todos. Sem exceção. Então, como todos temos um tempo
para nos formarmos e recebermos esse diploma, não precisamos nos preocupar muito com o
assunto.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Como foi sua vida anterior
Aluno: Mas se não a continuidade para que me esforçar?
Monge Genshô: O que disse que não continua?
Aluno: O eu
Monge Genshô: Perfeito. Disse que o eu não continua, mas não disse que não há continuidade. Você olha para o mar e vê uma onda, se movimentando no mar. Se você botar uma rolha aqui, quando a onda passar, onde está a rolha? Ela estará no mesmo lugar. Só sobe e desce. O que passou no mar foi uma onda de energia. A água não se deslocou, só subiu e desceu. A mesma coisa acontece quando estou falando. Vibro o ar aqui, mas minha voz não tem nada que saiu concretamente daqui e foi até aos ouvidos de vocês. Vibro moléculas de ar que vibram outras, outras, outras e essas ondas sonoras chegam aos seus ouvidos. Eu não mandei nada. Só mandei movimento. O que sobrevive? O movimento, não a identidade. O que estou dizendo então, na verdade, é que existe continuidade de vidas. Posso dizer que você teve outras vidas passadas. Mas o seu eu não passou de uma vida para a outra. Porque, você já percebeu aqui, já concordou que o eu é uma construção baseada em memórias. Então o eu dessa vida é diferente do eu anterior. Mas você é continuidade de movimento anterior como essa onda é continuidade da onda que estava logo atrás. É visível, mas não é uma entidade de matéria e sim um movimento. Como chamamos isso? Chamamos de carma.
O que nasce? Carma. Não é um eu que carrega carma. Para o budismo, o carma faz surgir identidades. Por isso posso dizer para uma pessoa daqui como vai ser sua vida futura. Alguém quer saber como foi sua vida passada?
Aluno: Sim
Monge Genshô: Igual a de agora, pois o carma é o mesmo. É a mesma vida. Era o mesmo carma, mesmo tamanho de onda, mesma intensidade, mesma velocidade, mesmas características. É a mesma onda passada! Para que mude a sua vida tem que mudar o seu carma. Tem que mudar as energias que constituem a sua onda. E como mudamos as energias que constituem nossas ondas? Mudando as nossas ações, pensamentos, palavras, ações. Se você mudar, muda o carma. E aí a vida muda. Não precisa ser a próxima, essa mesma vida muda. A gente pega uma pessoa que começa a praticar budismo e não precisa virar monge, a vida muda. Você vai vendo a vida mudando, mudam os interesses, muda o lugar que a pessoa se sente bem, muda o assunto que a pessoa fala, mudam os sonhos. Vai mudando o carma.
Carma significa ação. E tem uma outra palavra importante na questão do carma que é vipaka. Vipaka significa fruto. Então carma vipaka significa fruto da ação. Normalmente quando as pessoas dizem “meu carma” estão se referindo aos frutos do carma, a carma vipaka.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Além dos apegos está a liberdade
1) O senhor falou em células, a diferença entre uma célula e outra se dá somente no nível energético?
Saikawa Roshi – Mesmo as pedras têm diferença de energia. Tudo é diferente, nada existe da mesma forma.
2) Até onde vai nosso esforço, não só na busca da iluminação, mas mesmo para se manter sentado, onde é o limite?
Roshi – Sim, limites existem. Nós estamos navegando em causa e efeito como a correnteza de um rio, em momentos ele é rápido em outros é lento. Um rio forte pode destruir muitas coisas pela frente. Naturalmente se existem diferentes níveis de energia, existem diferentes níveis de limites, é da natureza da vida.
3) O conhecimento tem vários estágios. Primeiro não sabemos que não sabemos. Depois, sabemos que não sabemos. Quando a gente sabe muito, até esquece, pois faz tudo automaticamente. De onde vêm esses insights súbitos que temos? Por exemplo, saber ou conhecer algo que nunca havíamos visto antes?
Roshi – Isso também vem da correnteza de causa e efeito. Quando se reunirem as condições para o insight, ele acontecerá.
4) Voltando ao exemplo do café. O café que trouxe sensações boas por estar relacionado com coisas boas, ou o contrário? Como isso repercute no futuro? Por exemplo, em vinte anos se eu sentir o cheiro do café isso me trará boas ou más recordações? Como lidar com situações tão distintas para evitar o sofrimento?
Roshi – Isso é sobre o sofrimento ou sobre o café? Você sabe a resposta não é? Apenas observe, sem comparações, sem considerações, sem julgamentos. Memórias trazem muitos apegos, muitas energias associadas às coisas trazidas pela memória. Se você livrar-se dos apegos obtém a liberdade.
** Comentário do tradutor, Monge Genshô – existe uma historinha Zen, uma anedota, o aluno pergunta para o mestre: “Mestre, como posso ser livre?”, e o mestre responde: “Quem te prendeu”?
Sob ponto de vista relativo, minha opinião, minhas idéias e meu corpo existem. O senso de eu, meu e minha do ponto de vista de Buda são projeções do eu, é o eu quem agrega essas coisas. Todas essas coisas são criadas condicionalmente. Meu carro, minha casa, minha esposa, minhas filhas, todas essas coisas existem cem por cento no mundo relativo. Mas nada disso você pode segurar porque do outro lado é como se fosse um espelho, as coisas aparecem e somem e o espelho não diz nada, nada julga. Nós usamos simbolicamente a palavra espelho, mas o espelho também não existe independentemente, também é uma construção, tudo isso realmente existe, mas se você cortar a raiz do conceito, tudo bem. Qual a raiz dos problemas, das coisas ou sentimentos? Se você encontra a raiz e corta, passa a não mais se importar se perder as coisas, perder um amor, ou até mesmo um sentimento de sofrimento não o agride mais. A raiz é o apego, o meu, o minha.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
É extraordinário mas não é nada extraordinário
Aluno: Faz pouco tempo que estou praticando, mas tenho uma sensação e gostaria de saber se isso é verdadeiro. É uma questão de energia. Sinto que com a prática, principalmente aqui na sangha, está despertando uma energia em mim, um tipo de calor nas mãos. É verdadeiro isso, a prática permite o despertar desta energia?
Monge Genshô - A prática produz coisas extraordinárias, mas nenhuma é extraordinária. São consequências naturais da prática e não as olhamos como coisas excepcionais e sim como naturais. Sentar em zazen, por exemplo, produz calor. Se você pesquisar na internet irá ver monges praticando sentados em locais com muita neve, temperaturas abaixo de zero e eles no lado de fora do Zendo com suas cabeças descobertas, sem luvas ou meias. Algumas pessoas podem pensar que isto seja milagroso ou extraordinário, mas não é, é simplesmente o resultado normal de uma prática de longo tempo. Eu próprio já experimentei e não achei nenhum tipo de tortura. Em um lugar onde as pessoas sentam para praticar, quando você chega, logo sente essa energia a que você se referiu.
Aluno – Não estou nem pensando em algo sobrenatural, é apenas uma energia boa.
Monge Genshô – Não existe nada sobrenatural. Isso é simplesmente natural. Em uma casa onde todos brigam, onde há xingamentos e palavrões, onde as pessoas atiram coisas umas nas outras, quando você entra, logo sente a atmosfera pesada e o clima ruim, por outro lado em um local de prática como o nosso, rapidamente se cria essa outra sensação que você percebeu. Mas isso não é só no Zen, quando viajo gosto muito de entrar em igrejas, elas também podem ser lugares agradáveis e com este tipo de energia, afinal de contas, as pessoas entram nas igrejas para orar. Por isso temos que evitar colocar nossos pés onde os sentimentos mais baixos surgem, por exemplo, no carnaval vamos para nosso retiro em uma reserva florestal onde só se ouvem pássaros e cachoeiras, mas há outras pessoas que festejam com drogas, procuram relacionamentos fugazes com pessoas que nunca mais verão e ficam todas as noites acordadas ouvindo sons altíssimos. Quando nosso retiro acaba todos estamos felizes e nos abraçamos emocionados, enquanto eles estão de ressaca e com sentimento de vazio, por isso o nome é “quarta-feira de cinzas”, a festa acabou e todos estão meio que doentes. Quando você vê o cenário de pós-carnaval percebe sujeira, pessoas feridas em razão das brigas que sempre acontecem e a gente se pergunta: o que realmente ficou de bom?
Vi uma reportagem sobre o carnaval do Rio de Janeiro onde as pessoas reclamavam do cheiro de urina, do lixo, da violência e também de coisas que haviam sido quebradas, isso foi o que sobrou do carnaval e é completamente diferente da nossa prática.
5) O senhor falou sobre o sentimento de raiva e de colocar outro sentimento em cima para substituir e não deixar que a raiva surja, como é isso?
Monge Genshô – Imagine alguém insultando você. Sua reação pode ser de raiva, mas se você o olhar com compaixão pelo fato de ele estar tomado de sentimentos ruins, você não irá reagir da mesma forma. Se você olhar para a pessoa que o agride e o vir como uma criança ignorante que não sabe o que faz, não sentirá raiva e sim compaixão pela ignorância. Às vezes é muito difícil e se você não consegue controlar, é melhor se afastar. Se você não controla, ficar em silêncio e ir embora é a melhor solução.
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sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Estava escrito
Pergunta: A pessoa deseja mudar seu destino através de sua vontade, mas às vezes a gente ouve falar que nascemos com um destino e assim será até morrer. A simples vontade é suficiente para mudar isso? Não falo só da iluminação, mas de tudo. Como fazer para que essa vontade modifique verdadeiramente sua situação?
Monge Genshô - Primeiro temos que compreender que destino não existe. Essa coisa de que “está escrito e assim será”, não existe. É frequente ouvir as pessoas dizerem quando alguém morre, que quando chega a hora não tem jeito ou então “foi Deus quem quis”, todas essas idéias são profundamente erradas. Se algo estivesse escrito e houvesse destino, não haveria responsabilidade alguma por parte das pessoas. Por exemplo, um criminoso poria a culpa no destino pelo seu crime e diria não ser possível evitar o ato cometido, pois já estava escrito. Não haveria culpa. Por outro lado também não haveria o mérito, por exemplo, alguém que faça algo muito bom, também estava escrito que ele faria isso, mérito zero. Não existiria nada de bom ou ruim, seríamos como autômatos seguindo uma peça já escrita por alguém, na verdade escrita muito mal, não é verdade? Pois este mundo está cheio de sofrimentos.
O que existe nas pessoas é carma, mas o que é carma? Carma são as energias de hábito e o acúmulo das consequências dos nossos atos pregressos, ou seja, aquilo que causamos. Eu tendo a agir em uma determinada situação de acordo com meu carma. Uma pessoa que seja muito brigona e que nada possa ser dito que ela já começa a se exaltar, o que é isso, destino? Não, é carma. Ela tem esse impulso e acredita que essa seja a maneira de resolver seus problemas, é possível mudar? Essa é tua pergunta. Claro, basta que mude sua mente. É fácil mudar a mente? Não, para mudar a mente precisa um treinamento, por exemplo, meditação. Para que praticamos meditação? Para perceber o que surge em nossa mente. Por isso não desperdicem todo o sofrimento de ficar sentados durante quarenta minutos de frente para a parede. Percebam o que surge em suas mentes, isso que surge é o retrato de seus condicionamentos mentais. Querem mudar suas vidas? Mudem suas mentes. Mudando suas mentes, seus sentimentos e ações mudarão, até mesmo o mundo muda, pois interpretamos o mundo de acordo com nossa mente. Como no exemplo do ciúme, porque uma pessoa sente ciúme e sofre? Por um condicionamento mental, porque dentro de sua mente existe a crença num “eu”, existe a crença de posse e desejos. É muito trabalhoso e difícil, mas toda mente pode ser mudada. Se alguém transformar totalmente sua mente e passar a ter sentimentos de alegria, compaixão, paciência e equanimidade, será um Buda. Terá condições e comportamento de um Buda.
A primeira idéia então, é que destino não existe, tudo é causa e consequência. Tudo tem um motivo ou uma causa anterior. Vocês estão bebendo chá porque alguém colocou água no fogo e fez chá, chás não surgem do nada. Na minha vida aconteceram grandes sofrimentos, mas quando olho para trás não enxergo culpados, eu fiz por onde me meter em situações das quais surgiram aqueles sofrimentos. Ninguém, além de mim, tem culpa. Temos que ter vontade de mudar nossas vidas e somos capazes de fazê-lo. Esse é o ensinamento do budismo, não existem Deuses lá fora ajudando os homens, se houvesse um Deus ajudando os homens na Terra seria necessário pedir? Se ele fosse um onipotente e se fosse bom, não haveria miséria ou sofrimento. Então mesmo que exista um Deus uma coisa é certa: ele não interfere no mundo. Só quem pode mudar nossas vidas somos nós mesmos. O budismo está baseado nesse tipo de raciocínios e não em crenças.
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segunda-feira, 13 de maio de 2013
É o carma que manifesta identidades
Quando você morre, você tem uma mente, com marcas. É isto que renasce. É isso que vai se manifestar no universo. Por quê? Porque as energias do universo, toda a energia do universo, ela não cessa. Ela não desaparece. È a 1ª lei da termodinâmica. Lei da conservação da energia. Esta continua, ela só se transforma. A energia daquilo que você fez, continua. As marcas que você tem, os impulsos da sua mente, continuam. E essa coerência, esse quantum de energia, essa onda cármica que em ultima análise nós somos, com suas marcas, energias de hábito etc, e que no conjunto diz-se “carma”, simplificando, pra não dizer tudo isso, esse conjunto todo vai se manifestar em um “ser”.
Quando um ser qualquer nasce, ele é herdeiro de uma onda cármica. Quando ele é herdeiro de uma onda cármica, que já vai nascer naquela família, naquela situação, naquela família, naquele país, porque tem carma para isso, está atraído por aquela manifestação, por aquela genética, ambiente etc, a pessoa nasce num lugar para onde seu carma naturalmente vai. Você está aqui numa aula sobre o Dharma porque tem carma para isso, se sentiu atraída por isso. Outros estão fazendo outra coisa. Quem sabe há um churrasco? Com bastante caipirinha etc? E assim por diante. As pessoas estão procurando aquilo porque se sentem atraídas. Elas vão atrás disso, tem carma para tanto.
Assim é também quando você nasce. Você é atraído para um determinado ambiente porque você morreu com a mente afinada com aquele meio. Aí você nasce lá. Por isso não é a genética que veio antes. É o carma. É por isso que com semelhante genética, irmãos são diferentes.
Então o carma vindo, manifesta um ser. E este ser começa a pensar, dar-se conta, os pais dão um nome. Aí eles dizem que seu nome é esse. Um dia, na infância, você pula de “nenê quer isso” para “”fulana” quer. E a medida que chega este momento, você vai criando uma noção cada vez mais sólida de um EU. Você estrutura seu ego e suas preferências, etc, vai tomando escolhas, mas essas escolhas vêm marcadas por uma coisa anterior, de preferências que você tem, de marcas cármicas que você tem e que você não sabe de onde são. Por quê essa pessoa gosta disso? Por quê que ela pensa assim? Ela tem uma herança cármica. Então é o CARMA que renasce, que manifesta um ser. Durante algum tempo na primeira infância vemos lembranças fugazes que de alguma forma vieram impressas com o carma de vidas anteriores.
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sexta-feira, 12 de abril de 2013
Energias de hábito
Pergunta – Mas então eu poderia falar que a sabedoria seria uma forma de manipular o ego, pois mesmo após a iluminação ainda possuo um eu.
Monge Genshô – Sim, é claro, você o usa. Você precisa de seu “eu”, não é que ele seja ruim ou bom, ele é necessário, você precisa dele para transitar no mundo. O que você não pode fazer é confundir-se com seu “eu”. Você não é seu “eu”. O “eu” é uma fantasia que você veste para viver no mundo. Quando você tira a fantasia, pendura num cabide olha para ela e diz, “Ali estou “eu”?”, isso está errado. Vivemos pensando que temos identidades e fantasias. Usamos fantasias diariamente, bancário, advogado, monge, policial, capitalista, comunista etc., todas são fantasias que podem inclusive ser trocadas. Todas as coisas que formam o “eu” são como fantasias.
Pergunta – Então por que ou como se caracteriza uma experiência de kenshô onde essa natureza se manifesta...
Monge Genshô – Não, ela não se manifesta, você a vê. Ela está aqui, você só não a vê porque está com óculos coloridos de sua fantasia, sua fantasia inclui óculos coloridos que fazem com que você veja o mundo com aquela cor. Se em sua fantasia você vê os outros como inimigos é porque você usa óculos que torna os outros seus inimigos.
Pergunta – O que leva uma pessoa a ficar presa numa determinada fantasia?
Monge Genshô – Marcas cármicas. Energias de hábito. Você começa usar uma fantasia e ela cria energia de hábito, essa energia faz com que você volte sempre para a mesma fantasia. Quanto mais você repete, mais forte fica e mais difícil de sair daquela posição. Isso acontece tanto para o mal quanto para o bem. Quando você se torna monge começa a vestir a fantasia de monge, incorpora esse papel e começa a comportar-se como monge, quanto mais você acentua esse comportamento, mais ele o marca. O mal também é assim, se você começar a viver uma vida com maldade, ela também irá marcando você. Eu vi uma vez o testemunho de um assassino onde ele dizia, “Ah, a primeira pessoa que a gente mata sente sede, ansiedade. A segunda pessoa a reação muda um pouco, depois da oitava ou nona, não se sente mais nada”. Todos vocês são assim. Se você está habituado a sentar-se à mesa e colocar um bife sangrento no prato e corta-lo e comer, você em momento algum pensa no boi que sofreu, foi morto e arrancado um pedaço para que você pudesse comer. Você nem pensa sobre isso. Você não se dá conta que está envolvido num processo de sofrimento.
Essas energias de hábito podem ser mudadas. Como? Repetindo atos bons, evitando os maus, isso vai por si só mudando os hábitos, os hábitos me marcam, a marca me muda e é essa mudança que levo comigo. Mesmo após minha morte o carma que provoquei no universo continua e quando outra vida se manifestar levará consigo esses sentimentos, apegos e desejos. Para tornar-se monge precisa marca cármica, vocês estão aqui porque tem marca cármica, para ouvir o Dharma precisa ter marca cármica.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Determinação (daifunshi)

Hakuun Yasutani Roshi
É uma dúvida que não nos deixa descansar. É como se soubéssemos perfeitamente bem que somos milionários e no entanto inexplicavelmente nos encontrássemos em extrema miséria sem um centavo nos bolsos. Uma forte dúvida, por isso existe proporcionalmente à fé firme.
Surge deste sentimento de dúvida o terceiro elemento universal, uma forte determinação (daifunshi) que brota naturalmente. É uma irresistível determinação de dissipar essa dúvida com toda a capacidade de nossa energia e força de vontade.(TEXTO) É, são vocês, esta dúvida e sofrimento, e com grande determinação vem ao sesshim e sentam. Esta força, esta determinação vem daquela fé, mas todo tempo tem dúvida, mas vocês acreditam que dá para resolver e por isto sentam e tentam.(COMENTÁRIO) Acreditando, no âmago de nosso ser, na verdade do ensinamento do Buddha de que somos todos dotados de uma mente-bodhi imaculada, tomamos a resolução de descobrir e experimentar a realidade desta mente por nós mesmos.(TEXTO) Vocês mesmos resolvem por si mesmos sentar e achar a verdade sem confiar que vão receber esta verdade do outro porque o monge aqui ensinando não transmite isto, ele só dá dicas e cada um tem que trilhar o caminho sozinho. Não adianta acreditar no monge, na realidade nós temos que achar a solução por nós mesmos dentro da nossa mente, construir esta mente, acordar sozinhos, no máximo o que o monge faz é bater com o kyosaku...(COMENTÁRIOS)
Há poucos dias, uma pessoa que havia compreendido muito mal o estado da mente exigido por estes três elementos essenciais, perguntou-me: “Acreditar que somos Buddha é algo mais que aceitar o fato de que o mundo, assim como é, perfeito, tal como o salgueiro é verde e o cravo vermelho?” O sofisma aí é evidente. Se não perguntamos porque a ambição e o conflito existem, por que o homem ordinário age como qualquer outra coisa, menos como Buddha, nenhuma determinação brota em nós para resolvermos a óbvia contradição entre o que acreditamos como matéria de fé e o que nos parece ser justamente o contrário, e nosso zazen (se não confiamos nisto) é por isso desprovido de sua principal fonte de energia.(TEXTO) E concluindo: com fé de que é possível trilhar o caminho de Buddha, sentamos com a dúvida de vermos um mundo como nós vemos, um mundo de samsara, então acreditamos que existe o nirvana e que o engano é nosso, tentando resolver o nosso engano é que praticamos para tentar resolver a nossa mente e acordar e o elemento para isso que pode solucionar o nosso dilema é uma firme determinação de praticar sem concessões, sem aceitar nada de sobrenatural, nada de supersticioso, nada de milagroso, nada de divino, acreditando que tudo já está aqui, agora, completo.
(Comentários sobre texto de Yasutani Roshi)
quinta-feira, 6 de março de 2008
Os Seis Paramitas

Os Seis Paramitas para a Prática ( Rokudo )
1. Danna (Fuse), a generosidade: oferecer sem nenhuma forma de compensação.
2. Sila (Jikai), os preceitos: é a forma de viver de maneira correta.
3. Kshanti (Ninniku), a paciência: é o esforço vindo da fé na prática.
4. Virya (Shojin), a energia: esta surge através da vontade.
5. Dhyana (Zenjo), a meditação: através da prática do zazen acalmamos a mente e deixamos surgir a realidade.
6. Prajna (Chie), a sabedoria: realizamos dentro de nós o julgamento correto das coisas existentes.
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