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quinta-feira, 12 de abril de 2012

INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ DE ANENCÉFALOS


Um enorme debate sobre o tema da interrupção da gravidez de crianças anencéfalas se estabeleceu e deve ter seu fim legal no dia de hoje. Vêzes sem conta se atribuiu à posições religiosas a oposição a esta intervenção que visa poupar mães de grandes sofrimentos físicos e morais. Como sempre se pensa que a visão religiosa é únicamente a de origem judaico-cristã. Não se perguntou, ou divulgou, qual poderia ser a visão budista à respeito. Como monge budista expresso aqui minha apreciação e ponho-me à disposição para defendê-la no forum que surgir baseado nas teses antigas do budismo.

O primeiro erro é julgar que a vida é o foco único do pensamento ético budista, embora a vida deva ser protegida, o sofrimento dos seres vem em primeiro lugar. Não faz sentido manter uma gravidez de um feto que não tem cérebro e vai falecer logo após o nascimento. Forçar uma mãe a sofrer toda uma gravidez sabendo que tem um ser sem o órgão mais importante do corpo apenas por um princípio legal , não passa de crueldade, a interrupção da gravidez libera a mãe de registrar o nascimento e o óbito de uma criança no dia de seu nascimento, além da angústia de meses para ela e a família.

O budismo não tem posições fechadas sobre nada, princípios legais que se sobreponham à compaixão, assim sendo, assumo a responsabilidade e todo o carma resultante, em recomendar e apoiar a interrupção da gravidez de um feto inviável que está tecnicamente morto, sobrevivendo apenas pela sua ligação ao corpo materno. E declaro esta como uma posição religiosa perfeitamente defensável dentro dos princípios compassivos do budismo.


Monge Genshô

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A compaixão ilumina a questão do aborto


Kanzeon é a representação da compaixão no budismo, não por acaso tomou a forma feminina na China e Japão. Yokoji, inverno de 2010.

A discussão sobre o tema do aborto, adotou um viés legalista, pior ainda, eleitoreiro, com candidatos mudando de opinião ao sabor das pesquisas, pessoas flexíveis, para quem o poder vale qualquer venda de suas convicções.
Quer-se saber se o aborto é um crime ou não, quer-se definir se o estado deve ou não preocupar-se com as centenas de mortes de mulheres vítimas de complicações ou se devem ser socorridas sem ameaças legais, e elas são simplesmente 1 000 000 a cada ano nesta nação.
Existe uma outra forma de olhar as questões humanas que não é a meramente legal, esta pode levar, como aconteceu recentemente, a obrigar uma mulher com um feto sem cérebro, condenado à morte automática após o nascimento, a arrostar toda a gravidez sabendo o que a esperava na sala de parto, porque a lei a proibiu de interromper a gravidez, já que o aborto era “ilegal”, posto que esta eventualidade não estava prevista nas exceções dos legisladores.
O olhar que pode alterar tudo é o de ver os eventos, não da maneira engessada de um texto legal, mas através da consideração do sofrimento que envolve os participantes, o olhar que o budismo propõe.
Se olharmos através desta ótica veremos que lei alguma poderá abranger todas as nuances do que ocorre com a humanidade, e que os casos apresentados precisam de um intérprete flexível com um olhar para o sofrimento. Visto assim, um juiz, com as melhores informações, poderia decidir se o caso acima era, não um crime, mas uma intervenção destinada a diminuir o sofrimento da mãe e de toda a família que circundava uma tragédia, já de per si intensa. Este intérprete não poderia tardar em seu julgamento, sua decisão é urgentíssima e não se presta ao lento trâmite a que estamos acostumados em nosso judiciário, um rito veloz precisa ser criado.
Quanto a grossa maioria dos abortos, usados como método anticoncepcional tardio, basta olhar de novo pela ótica do sofrimento maior, melhor o acesso livre a anticoncepção que a pílula abortiva, melhor a pílula do dia seguinte que um aborto cirúrgico, melhor o apoio a um nascimento do que o remorso de uma vida inteira com uma voz ao fundo da consciência se perguntando, “como seria o filho que não deixei nascer”?
Para o budismo a questão deve ser: "Qual a maneira de agir que provoca menor sofrimento a todos os envolvidos, todos inclui o ser que deseja nascer, e abrange o tempo infinitamente longo das consequências"

Monge Genshô