Mostrando postagens com marcador judeus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador judeus. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Quem é esse que não consegue se calar?
Também aconteceu uma vez de um primo de Buda pensar que ele era melhor que Buda, mais certo que Buda. Como ele tinha uma opinião melhor, ele pensava que a Sangha não estava bem gerida, que os monges eram relaxados, queria regras mais duras para os monges, por exemplo, os monges comiam pela manhã e ao meio dia e ele dizia - Para quê? Basta comer uma vez só! – E este homem, chamado Devadhata, de tanto criticar, de tanto acusar Buda de excessivamente tolerante, criou um problema e seiscentos monges concordaram com ele, as regras deveriam sim, ser mais duras e que Devadhata deveria ser o líder. Então deixaram Buda e foram com Devadhata. Depois de algum tempo, após tudo dar errado, Devadhata ficou como símbolo do discípulo que pensa ser maior que o mestre e quer que a coisa seja feita de forma melhor, mais rígidamente. A lenda diz que a terra se abre e o engole. É muito provável que ele tenha sumido, desistido. E Shariputra, aquele personagem do Sutra do Coração, é que foi até o local onde estavam os monges e mostrou à eles que estavam errados.
O ensinamento de Buda é o “Caminho do Meio”, da moderação e não o caminho do radicalismo. Mas dentro disso, na essência, o que havia em Devadhata era a inveja. O que ele queria na realidade era derrubar o líder.
No caso dos evangelhos Cristãos, Judas queria que Cristo assumisse seu papel de líder de uma revolta contra os romanos. Que era o que as antigas profecias de Isaias, diziam: que chegaria um messias e que libertaria o povo do jugo dos estrangeiros. Era isso que eles imaginavam, que ele lideraria uma revolta e seria vitorioso. Outros líderes acabaram levando o povo judeu a uma revolta contra os romanos. Em 70 D.C. essa revolta se realizou e o imperador mandou suas tropas, que derrotaram os rebeldes judeus definitivamente. E já cansado de tantas revoltas dos judeus, ele decidiu que eles não ficariam mais juntos e ordenou que os judeus se espalhassem no império a isso chama-se diáspora, para enfraquecê-los, dividiu-os. Cada um num canto do império. Não podiam ficar mais juntos e nem ser uma nação. Situação que só mudou, quase mil e novecentos anos depois em 1948, quando novamente foi fundado um estado judeu, que não tem paz, pois foi fundado num lugar que já estava há quase 1900 anos sendo habitado também por outros povos, os palestinos. Então cada um defende seu direito histórico – Essa terra é minha! – são incapazes de se juntar e viver em paz e tolerar um ao outro, então criaram uma cultura de ódio.
No fim, nós podemos ver que isso tudo está baseado em egos, em “eus”, porque cada um assumiu uma identidade. Se eles perdessem a memória hoje e ninguém mais lembrasse quem é, olhassem uns para os outros e vissem seres humanos, que são da mesma raça, que são idênticos, todo conflito cessaria. Ninguém veria a necessidade de dar tiro no outro, nem de fronteiras nem nada assim, porque afinal de contas, seriam apenas seres humanos sem memórias. Então, isso ocorre porque foram condicionados a acreditar – eu sou diferente, eu, eu, eu – e, porque tem “eus” , tem conflito.
E essa é a grande lição de Buda quando diz – “Você não me enganará mais” - e ele então estende a mão, toca na terra e diz: “Tomo a terra como testemunha, você não me enganará mais”. Então o tema da palestra de hoje é: “Nós devemos olhar para dentro de nós mesmos” e a cada vez nos perguntarmos - Quem é esse que se irrita, quem é esse que perde a paciência, quem é esse que pensa que tem razão, quem é esse que tem opiniões, quem é esse que não consegue se calar? - Esse que vocês podem identificar, é nosso maior inimigo.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Existem muitas doenças diferentes
Túmulo de Allan Kardec
Pergunta – Tem uma história Zen que também não consegui entender. É sobre as bandeiras. Um monge diz que a bandeira treme, outro diz que é o vento que treme, então vem o mestre e diz que é a mente que treme. O senhor poderia me ajudar a entender essa história?
Monge Genshô –. Essa história consta no sutra da Plataforma de Hui Neng. Quando eles olham para a bandeira, os monges estão discutindo uma perspectiva, uma opinião. Um diz que é o vento que se move, o outro diz que é a bandeira. Hui Neng diz: “Não, é a mente que se move”. Ou seja, é a mente de vocês que se move e interpreta coisas tão simples. Uma mente iluminada não pensaria sobre o assunto, veria apenas a beleza da bandeira tremulando, mais nada.
Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação? Poderíamos dizer, por exemplo, que o cristianismo melhore com as práticas Zen ou vice-versa?
Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.
Marcadores:
Aldous Huxley,
budismo,
condenação,
cristianismo,
Dharma,
Hassídicos,
judeus,
libertação,
meditação,
método,
práticas,
salvação,
São Bento,
Sufis,
Thomas Merton,
veículos,
zen
Assinar:
Postagens (Atom)
