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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Sobre Sutras e Práticas



Numa famosa palestra, um Mestre Zen faz uma pergunta e um Monge responde assim: “no Sutra tal está escrito isso”. E o Mestre, perde a paciência com ele, e diz: “não me dê as palavras de Buda, eu não gosto das palavras de Buda, me dê suas próprias palavras”.

Citar palavras dos outros é muito fácil, e palavras dos outros vemos constantemente na internet, e de modo muito fácil conseguimos achar de tudo, principalmente com a ferramenta "google" à disposição. Conseguimos pesquisar como estava escrito em determinado sutra, mas eu teria que perguntar: isso é aplicável hoje? É? É aplicável hoje ou não é? Se não é aplicável hoje, então não interessa. Interessava para aquele momento, não para agora.

No fim do Vinaya, Buda disse: “as regras podem ser alteradas, é isso que os Mestres têm que fazer”. Senão um dia vão dizer: “porque o Monge tal fazia dessa forma, todos vamos fazer”, sem que isso faça sentido. 

Você não pode perder de visa os princípios, que não podem ser movidos, então se você está causando sofrimento é errado. Se não está causando sofrimento, então está fazendo bem.

[Trecho de palestra proferida por Genshô Sensei]

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Budismo popular e budismo monástico



P: Não sei quanto ao Zen, mas em outras formas de budismo, por exemplo, se fala em demônios, inclusive com uma série de práticas para afastá-los, então existe algum ente de fora que está sendo considerado.

Monge Genshô – Isso funciona da seguinte forma: Existe um Budismo popular e um Budismo mais elevado. No Budismo Tibetano esse estágio mais elevado chama-se “Dzogchen” que é como o Zen, mas, o Zen, é o “caminho direto” tende a desprezar o lado popular, ao menos em sua teoria. O Zen dá respostas diretas descartando tudo que veio antes porque foi criado para monastérios e sua forma popular só surgiu mais tarde como uma espécie de concessão.

Como o Budismo Tibetano foi criado, com grande generosidade,  para atender às necessidades de toda uma nação, precisava criar recursos para atender aos analfabetos e ignorantes. O modo mais fácil de lidar com ignorantes é dar a eles um rosário e instruí-lo a dar voltas em torno do templo recitando mantras com o intuito de atrair boas energias, entidades benéficas e afastar os demônios. Como o povo tibetano tinha uma tradição xamânica com entidades e demônios, essa era a melhor solução. Isso é uma constante na história do Budismo - em vez de se jogar contra a cultura local, ele a adota e tenta transformá-la.

Vou dar um exemplo bem fácil de entender. Chega uma pessoa aqui na Sangha e diz que fará uma viagem de avião e está com muito medo de morrer. Como Monge , eu lhe daria um amuleto, “Jizo Bosatsu”, protetor dos viajantes e diria que a viagem dele estava protegida e nada aconteceria. Ele se agarraria ao amuleto confiante, feliz e tranquilo. Nesse caso, eu teria feito o bem que poderia ter sido feito para aquela mente. Estaria usando o mesmo que as formas de budismo que você cita fazem.

Mas, se chegasse um Monge, que se pressupõe estar num nível mais alto de compreensão, com o mesmo problema de medo, minha resposta seria outra, eu perguntaria – “de onde vem o medo”? “Isso vem da minha mente, estou criando esse medo” - poderia ser uma resposta, e então eu diria - “Mas por que você esta criando isso, de onde surge o medo? Você não está praticando sua meditação corretamente, vá sentar-se e livre-se da sua imaginação, de suas expectativas de futuro e viva o presente e assim você poderá fazer a viagem sem hesitar”. São duas maneiras completamente diferentes de tratar o mesmo problema.

O Budismo tem esses aspectos, mas o Zen foi criado como treinamento monástico e surgiu na China no século VII como um treinamento muito lúcido e claro, destinado a Monges. Já havia o Budismo há pelo menos quinhentos anos na China quando o Zen chegou. Isso que estamos presenciando aqui, leigos ouvindo ensinamentos dados a Monges, é uma invenção ocidental. Esses ensinamentos são muitas vezes desconfortáveis, muitas pessoas não querem ouvir isso. Outro dia li uma carta onde uma pessoa se dizia desconfortável e arrasado sem ter onde se agarrar pelo fato de ter ouvido meus ensinamentos. É assim mesmo, eu sou um professor do Zen e não um professor de Budismo devocional para falar sobre deuses, demônios e espíritos. Se for para alguém se agarrar em uma divindade protetora, porque irá sair do Cristianismo devocional? Se a crença desta pessoa funciona para ela, não há porque procurar por algo diferente e de outra cultura. Não vejo motivo para uma pessoa largar sua tradição devocional e ir atrás de outra. Se o que ela acredita está bom para ela, deve ficar com suas crenças. O único motivo para você ir atrás do Zen é se você não se sente confortável com crenças. Se você precisa de uma crença para se agarrar seu lugar não é aqui.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Dharma em muitos lugares



Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Existem muitas doenças diferentes


Túmulo de Allan Kardec

Pergunta – Tem uma história Zen que também não consegui entender. É sobre as bandeiras. Um monge diz que a bandeira treme, outro diz que é o vento que treme, então vem o mestre e diz que é a mente que treme. O senhor poderia me ajudar a entender essa história?

Monge Genshô –. Essa história consta no sutra da Plataforma de Hui Neng. Quando eles olham para a bandeira, os monges estão discutindo uma perspectiva, uma opinião. Um diz que é o vento que se move, o outro diz que é a bandeira. Hui Neng diz: “Não, é a mente que se move”. Ou seja, é a mente de vocês que se move e interpreta coisas tão simples. Uma mente iluminada não pensaria sobre o assunto, veria apenas a beleza da bandeira tremulando, mais nada.

Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação? Poderíamos dizer, por exemplo, que o cristianismo melhore com as práticas Zen ou vice-versa?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

As muitas práticas


Monge Fukuda, está saindo do Templo Busshinji e indo residir nos EUA, fará o sesshin desta semana em Florianópolis como visitante.

Pergunta – No zen budismo, além da meditação, existe outra prática que a gente possa fazer para manter o equilíbrio?
Monge Gensho – Muitas. Mas a meditação é a principal, pois ela cria estabilidade e um conhecimento de sua mente. Então, você pode retornar a essa mente do zazen quando o mundo criar movimento. No zazen, se você estiver realmente, como um espelho, refletindo todas as coisas, sem fazer quaisquer considerações, sem passado ou visitas ao futuro, você não está produzindo carma. O zazen corta o carma. Se você conseguir, em algum momento de sua vida, através de plena atenção, da prática das ações, da prática do caminho óctuplo, que são as oito práticas ensinadas por Buda - ação correta, fala correta, meio de vida correto etc., se você fizer essas práticas, elas extinguirão seu fogo. Haverá, em primeiro lugar, mais calma e serenidade, o que, depois, poderá conduzir você cada vez mais profundamente, até um grande esclarecimento. Quando você vir sua verdadeira natureza, quando vir, com clareza, a vacuidade de todas as coisas, quando enxergar o vazio de seu próprio eu, você não poderá mais ser ofendido. Se você vir tudo isso, ainda sentirá compaixão por todos os seres, porque todos os seres se percebem como “um”. Sendo assim, você será incapaz de fazer coisas que causem sofrimento, e isso se chama mente de Bodhicitta. Se você criar esse tipo de mente e fizer esse tipo de prática, vindo a alcançar um grande esclarecimento, chamaremos esse esclarecimento de iluminação, e essa iluminação é o fim de toda dor. Se você extinguir as energias cármicas que movem você, seu redemoinho cessará e você não será obrigado a voltar, a menos, evidentemente, que queira. Mas só existe um motivo para querer, que é a própria mente de Bodhicitta, compaixão pelo pesadelo dos outros seres, o desejo de acordá-los. Por isso, a palavra buda vem da raiz bud, “desperto”, e Buda significa “aquele que acordou”. Se você acordar, acordará do sonho e desejará acordar do sonho os outros que gemem e sofrem.

Trecho de palestra do M. Genshô 'publicada hoje no site Daissen http://www.daissen.org.br/hp/index.php?id=0&s=textos&txt_id=123