Mostrando postagens com marcador veículos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador veículos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Práticas diferentes para diferentes pessoas



Pergunta – Essa Mente é vida eterna?

Monge Genshô – Sim, é isso, é eterna, mas talvez a palavra vida aqui não seja adequada, porque vida está conspurcada pela idéia de eu ter uma vida. É como normalmente essa expressão “vida eterna”, sempre foi entendida no ocidente, todas as religiões teístas do ocidente pretendem responder essa pergunta – O que acontece depois da morte? E querem dar uma boa solução para depois. Por exemplo, os adventistas do sétimo dia crêem que os justos ressuscitarão, os Testemunhas de Jeová também. Ressuscitarão e ganharão novos corpos. Os mórmons também, suas almas são permanentes. Os adventistas crêem na ressurreição do corpo e na vida eterna com um corpo. Não só alma num mundo espiritual mas o corpo com tudo que um corpo tem. Isso é um desejo de permanência. No islamismo é ir para o paraíso, morrer e ter o que o sultão tem,  muitas mulheres. Uma vida paradisíaca dentro do imaginário dos nômades da época em que o islamismo foi criado, qual era o mundo perfeito? Viver como um sultão, ter um harem. Já que estavam no deserto, um mundo com água corrente em abundância. No paraíso cristão normalmente, os justos vendo à Deus, conservando a si mesmos e tendo prêmios de acordo com sua conduta na terra. Diferentes graus de felicidade dentro do paraíso. Pelo menos na mítica discrição de Dante em A Divina Comédia. O que eu queria demonstrar é que o que as religiões teístas tentam é dar ao homem uma esperança de continuidade de seu eu particular para uma eternidade feliz, dando à ele aquilo que ele ambicionaria.

A única grande religião que retira isso é o budismo ao dizer que a alma não existe e o grande engano é sua crença num eu particular. Mas o raciocínio todo, quando se lê um texto como esse, acaba sendo bastante complexo. O ensinamento do Dharma é difícil  de ser explicado. Por isso o budismo acabou desenvolvendo diferentes estratégias. Esse tipo de ensinamento aberto, não é secreto, mas de certa maneira auto secreto, porque você não consegue transmitir facilmente. Você explica e não é entendido. E a prática também é muito difícil. O budismo acabou tendo diferentes escolas, níveis de prática para diferentes tipos de pessoas. O budismo tibetano, por exemplo, é bem abrangente nesse aspecto, porque é o budismo de um país inteiro, então precisava solucionar esse problema, então qual é a prática que se dá para um camponês analfabeto? Dou uma repetição de mantras. Pode se iluminar assim? Por que não? Você dá essa prática que está dentro do alcance desse praticante. No caso do Zen, nós estamos aqui no sesshin fazendo uma prática que no oriente é quase privativa dos monges. Porque havia profundo interesse no ocidente, os mestres que chegaram começaram a ensinar aos alunos, a prática dos monges. E os leigos todos puderam praticar.

Pergunta – (...) Seria mais ou menos assim, as diferentes escolas, as diferentes formas de compreender, vão chegar num nível desses...

Monge Genshô – Você vai encontrar isso como no exemplo que dei do budismo tibetano, quando você chega no Dzogchen. O tipo de ensinamento é igual ao Zen, mas na prática normal, no Tibete você levaria vinte anos para chegar lá, fazendo passo a passo, subindo passo a passo num caminho programado. A essência, para nós entendermos, é que as diferentes escolas budistas foram construídas pelos mestres para atender as diferentes necessidades de diferentes culturas de diferentes povos de diferentes pessoas, portanto é necessário que existam. É necessário que existam os diferentes veículos. Num pensamento mais abrangente também é necessário que existam outras religiões para atender pessoas dentro daquelas necessidades.

Fim

Palestra ministrada em retiro (sesshin). Decupada da gravação por Chudô San.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Existem muitas doenças diferentes


Túmulo de Allan Kardec

Pergunta – Tem uma história Zen que também não consegui entender. É sobre as bandeiras. Um monge diz que a bandeira treme, outro diz que é o vento que treme, então vem o mestre e diz que é a mente que treme. O senhor poderia me ajudar a entender essa história?

Monge Genshô –. Essa história consta no sutra da Plataforma de Hui Neng. Quando eles olham para a bandeira, os monges estão discutindo uma perspectiva, uma opinião. Um diz que é o vento que se move, o outro diz que é a bandeira. Hui Neng diz: “Não, é a mente que se move”. Ou seja, é a mente de vocês que se move e interpreta coisas tão simples. Uma mente iluminada não pensaria sobre o assunto, veria apenas a beleza da bandeira tremulando, mais nada.

Pergunta – Existem hoje muitas práticas que visam misturar ou agregar práticas budistas com, por exemplo, práticas cristãs. Temos, aí, entre outros, Thomas Merton. No entanto, são filosofias diferentes, com objetivos diferentes e ideologias diferentes. Na sua opinião, nessa intersecção de filosofias e teologias diferentes, pode haver inter-relação? Poderíamos dizer, por exemplo, que o cristianismo melhore com as práticas Zen ou vice-versa?

Monge Genshô – As crenças em si não são muito importantes. O que é importante sob o ponto de vista budista é se existe liberação. A prática de meditação está renascendo no ocidente através das mãos de John Main, Laurence Freeman entre outros. A prática da contemplação não é ignorada no cristianismo. Ela existiu fortemente dentro do cristianismo em seus primórdios, mas, de certa maneira, foi esquecida. Existe um renascimento das práticas de meditação, em especial, dentro do Cristianismo católico, porque ali há uma vertente monástica maravilhosa que começa com São Bento, o fundador de Monte Cassino, e que se aprofundou muito. Quando você lê os escritos de grandes místicos cristãos como Santa Tereza D’Ávila, São João da Cruz ou Mestre Eckhart, você verá, nesses escritos, um cristianismo com Dharma. O importante é dizermos que Dharma, lei, sabedoria, não é propriedade do budismo. O Dharma existe e pode ser acessado por diferentes caminhos. Não muito tempo atrás, assisti um filme, Uma amizade sem fronteiras, com Omar Sharif no papel de um professor Sufi. Nesse filme, as intervenções dele, as coisas que ele diz, são como frases de um mestre Zen. Esse assunto não é novidade. Em livros como Filosofia Perene, Aldous Huxley mostrou as similaridades entre o Budismo, os Sufis, os Hassídicos judeus e o misticismo Cristão. Thomas Merton escreveu sobre o assunto em livros como Místicos e Mestres Zen. Ele era um frade trapista, católico, brilhante. O Dharma está presente, é fácil de ver isso. O budismo tem uma vantagem posicional, pois não se vê como um caminho único, não se coloca como proprietário de uma verdade particular, ou como o único caminho para a salvação. Na verdade, nem usa esta palavra no sentido de “salvar os condenados”, porque não crê que os homens estejam condenados. Assim, para o budismo não há a necessidade de converter pessoas, como, por exemplo, um mestre sufi a tornar-se Zen Budista; isso não faz sentido para o Zen. Ele já está vivendo o Dharma, o budismo é apenas um método, um caminho, e ele inclui uma coisa de que normalmente não se fala num caminho religioso, pois o budismo aponta uma porta de saída para o budismo ao contar a história do veículo para atravessar o rio. Nós falamos em atravessar o rio para atingir a outra margem. Lá, na outra margem, está a sabedoria. No final do sutra do coração, cantamos, “todos juntos para a outra margem, a iluminação, salve”. Então, o budismo vê-se como um barco para atravessar um rio, existem muitos barcos e jangadas, mas o budismo diz, “Você atravessou o rio, mas não vai sair carregando o barco nas costas, deixe o barco e vá embora”. O budismo é um método para a libertação e não precisa ser carregado depois. Se for um bom método, podemos ensiná-lo às pessoas para quem o método seja adequado. Mas existem outras pessoas para quem, talvez, um outro seja melhor. E é bom que existam muitos remédios, porque existem muitos doentes com doenças diferentes.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Hinayana, Mahayana


"Pelo que sei através de mais de 50 anos de estudos de budismo, não existe nenhum termo alternativo para designar o Mahayana, a não ser, talvez, a expressão Bodhisattva-yana )Veículo dos Bodhisattvas) e a expressão Ekayana (Veículo Uno) que, entretanto, não são exatamente sinônimos de Mahayana, possuem um sentido ligeiramente diferente.Volto a isso mais adiante.
Quanto a questão do Hinayana/Theravada, a questão é bem mais complexa do que parece à primeira vista. Vejamos:

1.Realmente o termo Hinayana tem um sentido um tanto pejorativo e deve ser evitado.

2.Entretanto, Hinayana não é exatamente sinônimo de Theravada. A expressão Hinayana abrange, além do Theravada, uma série de escolas há muitos séculos desaparecidas, como Sarvastivada, Sautrantika e outras.

3.O que foi chamado de Hinayana é, na verdade, uma síntese de dois caminhos ou Veículos, o Veículo dos Pratyeka-buddhas (os que se iluminam sozinhos) e o Veículo dos Sravakas ou Auditores, isto é, os discípulos que se iluminam ouvindo as palavras do Buda. A esses dois Veículos se contrapõe um Terceiro Veículo, o dos Bodhisattvas, isto é, o caminho daqueles que por sua Sabedoria poderiam ingressar no Nirvana, mas que por sua Compaixão adiam indefinidamente esse ingresso para se dedicarem à salvação de todos os seres viventes. O Caminho dos Bodhisattvas é o alicerce do Mahayana, mas este último, evidentemente, é muito mais do que isso, pois compreende as Escolas filosóficas do Vazio e da Consciência e outros elementos. Já o Ekayana ou Veículo Uno, exposto no Sutra do Lótus da Lei Excelente (Saddharmapundarika, Hokkekyô) é uma síntese que engloba e transcende os três Veículos supracitados.

4.Uma solução para evitar o termo Hinayana seria, talvez, denominar os dois primeiros Veículos de Veículos Menores. Outra solução seria explicitar os nomes desse dois Veículos, sem adjetivá-los: Veículo dos Autoiluminados, Veículo dos Auditores.

5.Insisto ainda em lembrar que é historicamente errado considerar o Theravada uma forma arcaica de Budismo anterior ao Mahayana. Ainda que o Theravada conserve uma série de textos que remontam à fase mais antiga do Budismo, ele foi evoluindo através dos séculos e muitos dos textos hoje englobados no Cânone Pali são posteriores aos textos Mahayana mais antigos.

Como vê, a História do Budismo é bem mais complicada do que possa parecer à primeira vista.

Gasshô,

Shaku Riman"
(e mail do Prof. Ricardo M Gonçalves em resposta a indagação de um praticante)

domingo, 26 de setembro de 2010

O Dharma são os veículos?


Foto do almoço do zazenkai de sábado passado, mais fotos aqui.
R: Não, o Dharma não são seus veículos (escolas), porem se não fossem estes, o próprio budismo como teria sido preservado e transmitido? E mais ainda, todos que vejo optarem por serem livres do caminho passam o tempo trocando trilhas na encosta da montanha, ou param a relembrar passagens que já viram em um momento e cessam a subida, ou mesmo tentam criar sua própria senda misturando ensinamentos, mas ela é cheia de obstáculos novos, às vezes termina em ravinas e se mostra errada, e param desacorçoados. Por que será assim?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A preciosidade dos veículos


Monges dirigem-se ao Sodô em Yokoji.

O Dharma não são seus veículos (tradições,escolas,linhagens) porem se não fossem estes o próprio budismo como teria sido preservado e transmitido? E mais ainda, todos que vejo optarem por serem livres no caminho passam o tempo trocando trilhas na encosta da montanha, ou param a relembrar passagens que já viram em um momento e cessam a subida, ou mesmo tentam criar sua própria senda mas ela é cheia de obstáculos novos, às vezes termina em ravinas e se mostra errada, e param desacorçoados.