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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Carma e Futuro



Pergunta: Sobre a questão do carma. Durante nossa existência geramos diversos carmas. Essa nova manifestação vai receber carma de todo lado?

Monge Genshô: Se não houvesse uma coesão de uma onda cármica, não haveria individualidade. Portanto, existe sim uma coesão. Existe uma coesão sua, seu carma, se não fosse assim todas as pessoas seriam muito parecidas e não são.

Pergunta: Mas há outras possíveis contribuições de outras pessoas?

Monge Genshô: Você está todo tempo sendo modificado, influenciado por tudo. Essencialmente, você tem que se preocupar com a vida agora, o que você fez hoje, como enxergar o céu hoje, sentir o vento hoje, apreciar um pedaço de bolo hoje, você tem que apreciar a vida como ela é agora. Morrer, você vai morrer, isso é uma coisa que sabemos com certeza. Todos que estão aqui são mortais. Você vai terminar esse curso, vai receber informação e se diplomar em morte. Todo mundo vai se diplomar em morte, todo mundo vai saber bem direitinho como é que funciona. É inútil ficar pensando nisso agora.

Essa é uma preocupação que está ligada à continuidade do eu: todo mundo quer saber como vai ser depois, mas não se preocupa em viver o agora. É agora que você sofre, que é infeliz, que não consegue ver com clareza as coisas, que entra nos jogos, que se angustia por causa de um jogo, você fica aqui ou acolá. Será que eu preciso de emprego? Será que eu mudo de emprego? Será que serei médico ou empresário? O que será que eu serei? Caminhos são múltiplos, e a vida se mostra a cada passo. Você dá um passo, depois dá outro. Agora, se você ficar trocando de caminho, nunca vai a lugar nenhum. Isso é importante de perceber.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Não adianta rememorar o passado



(Continuação) Nas cerimônias do Zen nós nunca giramos em sentido anti-horário, porque não adianta rememorar o passado, só podemos andar em frente e tentar construir um carma diferente. Não temos como refazer o passado, como aqueles filmes de viagem no tempo que acabam gerando paradoxos terríveis. Há uma frase que diz “é fácil saber se viagem no tempo existe, se houvesse teríamos viajantes do futuro nos visitando agora”. (Continua)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Para o ano novo



Peço desculpas, mas não vou desejar bom ano novo. Não irei desejar um ano novo ruim, tampouco.
Vou ficar aqui, à espera, olhando o sol passar pelo dia e a lua surgir no horizonte para anunciar a noite.
Mais um dia irá passar, e sua passagem será o início do resto de nossas vidas.
Não irei comemorar um novo ano. Pois, de fato, o que faz um ano se tornar velho e outro ser um horizonte de desejos e anseios? A cada dia, um ano inteiro se passou e novo ano começa. Portanto, por que esperar que um dia - um mero e comum dia - seja mais significativo do que todos os outros?
Diz o meste zen Eihen Dogen: "se há uma separação da mera espessura de um fio de cabelo entre o céu e a terra, então é como o infinito abismo a separa-los". Da mesma forma, se há uma separação de um décimo de segundo, então é como o golfo da eternidade a separar o passado e o futuro.
Não, não irei separar nada! Não irei criar a ilusão de uma distância, o conflito de uma diferença entre o ontem e o amanhã.
Vou continuar. Vou assumir que ainda não realizei objetivos, mas que já conquistei muito em mim mesmo; que perdi entes queridos, mas que ainda abrigo em meu coração o mérito de possuir bons amigos e belos amores.
Vou admitir que estou envelhecendo, mas que aprendi a rir e celebrar como as crianças; que estou amadurecendo em discernimento e consciência, mas que também esqueci de confiar mais na sutil sabedoria implícita em minhas próprias ignorâncias; que acertei muito, mas que também errei bastante.
Entre o céu e a terra, se há a distância de um fio de cabelo, é como um infinito abismo de separação. Entre um ano passado e um ano futuro, se existe a divisão de um mero segundo, é como se eu jamais fosse íntegro em minha história de vida.
O tempo é o rio do Tao, e nossa vida segue una enquanto vivemos. Não se prenda ao passado; não anseie o futuro. Assuma, corajosamente, o seu AGORA. Não crie sonhos para um tempo depois. Aja, agora, sem guardar promessas vazias.
Entre o Ontem e o Amanhã, mesmo que haja a lacuna de um mero segundo, o Hoje permanece.
Celebre o Agora. E, sem ansiar por se tornar outra pessoa em um futuro vazio, seja o melhor de si mesmo neste exato momento.
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Separação, dezembro 2012 (revisado em 2014)
Monge Kōmyō

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Aqui, neste momento


2) Dentro do que o Senhor está falando, o mais importante então seria estar no presente, independentemente de onde você esteja?

Monge Genshô: Considere que você pode estar em zazen (meditação sentada) e não estar fazendo zazen coisa nenhuma. Pode sentar e ficar lá o tempo todo pensando e elaborando um monte de coisas. Você não fez zazen. Porque zazen é ficar aqui, neste momento. Se você senta em zazen e consegue ficar alguns minutos realmente aqui, já é uma grande coisa. Se você consegue ficar 40% do tempo do zazen realmente em samadhi (concentração sem julgamentos), isso é ótimo, porque é muito difícil.

Ninguém precisa me contar aqui que na realidade ficou sentado fazendo coisa que não era zazen. Eu sei. Eu sei que é assim. Então o mais importante realmente é conseguir acessar este agora, estar realmente aqui.

3) Eu me percebi ultimamente, talvez, dentro de uma armadilha. Durante a prática fui relaxando e percebi minha mente muito inquieta e eu me questionei, porque quando eu tenho uma prática mais regular eu realmente me sinto mais acomodada, então eu vi um certo jogo dentro de mim.

Monge Genshô: Nem os mestres mais adiantados param de sentar. Ninguém para de sentar, você continua fazendo isso porque estabiliza a sua prática. E nada estabiliza mais a prática que um sesshin (retiro) de verdade. Porque não é como um zazenkai (dia de zazen). A gente acorda as 4 da manhã, às 4:20 estamos sentados e aí começa: zazen, kinhin, zazen. Café da manhã, cerimônia. Samu, trabalho. Acabou volta, zazen, kinhin, zazen. Palestra, zazen, kinhin, zazen. E assim vai indo. De tarde a mesma coisa, até as 22 hs. Quando você vê, fez em um dia 16 zazens de 40m.

Aí a mente muda muito. Porque você acumula prática. Fazemos até 7 dias seguidos. Zazen todo dia, sem parar. Tem até um monastério no Japão, Antaiji, que é famoso porque não faz mais nada nos retiros, zazen sem parar, só 6 horas de sono por noite.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Mantendo o foco


(continuação)
Monge Kômyô: Uma memória do passado, ou um planejamento, ou uma expectativa do futuro, isso nós podemos prender algo e pensar e focar naquilo. Podemos pensar num momento que nós vivemos no passado e ficar presos nisso. Podemos projetar alguma coisa que nós queremos no futuro e ficarmos presos nisso. Esse é o problema de se deixar levar pelo passado ou pelo futuro. Quando a nossa mente faz isso, perdemos o estabelecimento da concentração e da clareza. E estamos agora perdidos em lembranças do passado, anseios pelo futuro. Durante o zazen, é muito comum. Estamos lá e aí começa a sentir algum incômodo, alguma dor... Quase sempre, grande parte das pessoas pensa assim: “Pô, esse sininho não vai tocar logo? Cadê, cadê? Acabou o tempo não?” Quando isso se manifesta em nossas mentes, não se sintam culpados. Isso é natural. Mas observem. É um sinal de que a mente de vocês já se desconcentrou. Vocês já não estão mais no agora. No agora, não tem sininho ou não sininho. Não tem fim de tempo ou início de tempo do zazen. Só tem o agora. Agora. Agora. Agora. Quando nós perdemos esse foco, os nossos fardos, os nossos condicionamentos entram pra dominar. E aí a prática se torna muito mais difícil.

 Em relação ao kinhin, (meditação andando)    é uma coisa muito comum... Durante o kinhin, muitas pessoas tendem a achar que o conceito fundamental do kinhin em um espaço fechado... significa muito lento ao caminhar. Mas não é isso. O ritmo do kinhin é o ritmo da nossa respiração. Porque também o kinhin é zazen. Também estamos praticando o agora. Então no kinhin, nós estamos lá na postura... inspiramos, damos um passo. Expiramos, jogamos o peso do corpo. Inspiramos, damos o outro passo. Expiramos, soltamos o peso do corpo. Colocamos o corpo para frente, para manter o equilíbrio. E assim nós continuamos. Não é necessário ser muito lento e passar várias respirações em um passo. Na verdade, o kinhin ideal seria uma respiração, um passo. À medida que nós nos concentramos na respiração e no passo, o nosso caminho se torna naturalmente tranqüilo. Não lento. É tranqüilo. Ao fazer o kinhin, é preciso mostrar à nossa mente condicionada que nós não temos que chegar a lugar nenhum. Ninguém tem que ficar ansioso para chegar a algum lugar. Mas também não é para ficar parado, com medo de andar. Mais uma vez é o caminho do meio.

 Quando você dá o primeiro passo, você pensa “eu cheguei”. Quando você completa o segundo passo, o próximo passo, você pensa “eu estou em casa”. E assim você vai. Eu cheguei, eu estou em casa. A idéia é colocar a mente focada que a cada passo nós já chegamos. Não há nenhum lugar para se chegar, não há nenhuma meta. A cada passo, nós já chegamos onde nós temos que estar.  Durante o trabalho meditativo em si, seja no zazen sentado, no kinhin, seja durante todas as outras nossas atividades, a atenção, a observação dos nossos gestos, nossos pensamentos, nossos sentimentos é o foco. E aí nós entramos em outros aspectos do sesshin que também são zazen. (continua)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

É sempre o agora


 (continuação)
 Monge Kômyô:   Como diz o mestre Thich Nhat Hanh do zen vietnamita, fala alguma coisa que não quer falar, mas acaba falando. Faz alguma coisa que não quer fazer, mas acaba fazendo. O exercício não é apenas se prender ou recriminar o outro, mas tentar enxergar o que nós podemos fazer ou deixar de fazer para que, no futuro, isso ou não se repita mais, ou se torne mais... menos intenso. Eu reluto aqui em falar assim porque certas aprendizagens e descobertas, certas transformações e curas ocorrem em camadas. A coisa tinha uma intensidade. Através da prática diminuiu essa intensidade um pouco. Ainda ocorre, mas com pouco menos intensidade. Com o tempo e com o esforço, vai diminuindo. Aquela energia, aquela relação não saudável vai se curando. Um retiro é um primeiro passo para que nós possamos estabelecer a mente de forma que, aos poucos, saibamos encontrar meios hábeis para lidar com nossos problemas. Os problemas não vão acabar. Não há no Zen nenhum tipo de afirmação assim: pratique o Zen por três meses e seus problemas se acabam. Não existe isso. Na vida sempre existem problemas. A questão não está no problema, mas na mente. Como nós vamos entender, como nós vamos lidar com o problema. Por pior que seja. Tudo é uma questão de como nós estabelecemos a nossa mente diante dos acontecimentos, das realidades que se manifestam em nossas vidas. Daí, o ensino de Buda ser muito direto em certos pontos. Não finja que não sofre. Procure observar até mesmo para poder descobrir se você realmente está sofrendo ou se você imagina que está sofrendo. “Meu trabalho é horrível. É uma agonia. É o pior lugar do mundo”. Pode ser que seja realmente um lugar difícil, tenso. Mas é bem provável que grande parte desse aspecto ruim do seu trabalho se manifeste na sua mente. Você não consiga enxergar meios para qualificar melhor o ambiente em que você vive, trabalha. É possível.
Buda também ensinou que, usando termos modernos, sempre existe uma saída. Pode não ser uma saída que a nossa expectativa queira, mas sempre existe uma saída. É claro que na vida existem circunstâncias intensas, às vezes até perigosas. Mas, de novo, o ensinamento é ter a mente tranqüila para poder lidar o melhor possível com essas situações. Durante a prática do zazen, eu sei que para muitos a postura é ruim, é uma luta. Como falei ontem, nós precisamos encontrar um caminho do meio, um meio termo. Nós não devemos nos exigir de maneira cruel. Mas não podemos permitir que a nossa mente condicionada, o nosso eu arranje uma desculpa para não tentar se esforçar na prática. Aquelas pessoas, eu repito, que se sentirem com uma dificuldade física muito grande, entrem em contato, que tentaremos ver uma cadeira para melhorar a prática. Aos outros que conseguem manter a postura, mas que, com a continuidade do zazen pode ficar mais difícil, tentem estabelecer o melhor possível a atenção à respiração como forma de sustentar o esforço. A respiração é muito importante no zazen. Ela não só é uma âncora, é um sustentáculo, é um apoio para que nós possamos lidar com os desafios físicos, emocionais, psicológicos de você sentar para meditar. A respiração também é a forma de fazer com que nossa mente se mantenha no agora. Todo o ensinamento zen se estabelece no agora. O porquê que a respiração é tão importante para isso... Como eu ensino lá em Niterói, a respiração é o grande elemento para levar a mente ao momento presente, porque nós não respiramos no futuro. Nós não respiramos no passado. Nós só respiramos no presente. Vocês agora estão respirando e à medida que vocês expiram e inspiram, o fenômeno só se manifesta agora. O interessante é que: o que é o agora? É um constante vir a ser. Aonde está o agora? Como a gente pega o agora? Não se pega o agora. Aí está a grande dinâmica da experiência contemplativa. A mente que se mantém no agora é uma mente que se mantém flexível e una com a dinâmica das coisas que acontecem. Porque tudo que está se manifestando nesse momento se manifesta num fluxo de agora. Não são agoras. É sempre o agora.      (continua)

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que você acredita não tem importância



Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?

Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.

(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um criador e o agora


Pergunta – Eu vi um vídeo de uma palestra sua juntamente com um grupo espírita em que o Senhor dizia que o budismo é uma religião sem Deus, o senhor poderia esclarecer isso?

Monge Genshô – O budismo não fala em deuses, mas tão pouco se dedica a negar sua existência, apenas não pensa que seja útil ficar se referindo a coisas não verificáveis. A idéia de um deus criador é completamente absurda para o budismo. O deus criador tem três grandes atributos, veja bem, isso é uma discussão e visão minha para responder sua pergunta, pois o budismo não se dá a esse trabalho.

Um deus criador é onisciente, onipotente e infinitamente bom. Se ele é onipotente poderia ter feito um mundo perfeito e bem feito. Não fez. Algumas pessoas poderão dizer: “mas há o livre arbítrio”. Mas veja bem, se eu colocar um cachorro, uma criança ou um macaco dentro de uma loja de cristais eu não sei o que irá acontecer? Então ele coloca um homem e uma mulher num local e avisa que daquele fruto é absolutamente proibido comer. Ele sabia o que iria acontecer, pois ele é onisciente, conhece passado, presente e futuro. Agora, ele fez algo sabendo qual seria o resultado, pois é onipresente e onisciente, então provavelmente não seja infinitamente bom. No caso deste Deus criador esses atributos são paradoxais, de modo que esse deus criador é uma contradição que filosoficamente é inaceitável. 

Esse assunto é extensamente discutido no livro de um Jesuíta que abandonou a fé, Tomás Antônio da Fonseca, “Doze Provas da Inexistência de Deus”. Ele se refere a este Deus, com um plano, um ser pensante, com uma intenção e que fez algo. Essa idéia desse tipo de deus é completamente estranha para o budismo. Mas se pensarmos como uma inteligência que perpassa todo o universo, não interferente, não criador e sem planos, então é uma idéia admissível e não contraditaria o budismo. O budismo não chega a ser ateu, não se dedica a negação, mas é “não teísta”, ou seja, não fala sobre deuses. Falar em um deus criador é diminuí-lo em razão das contradições, pois lhe damos responsabilidades que mostram que obviamente algo não deu certo. Não adianta colocar a culpa no homem e no livre arbítrio, isso é uma tentativa de jogar no homem a culpa de algo que o antecede. Nós somos imperfeitos, mas quem nos fez dessa forma?  Mas o budismo não perde tempo com isso, o que preocupa o budismo é a mente, o sofrimento e o agora.

Pergunta – Essa nossa criação para o bem e para o mal tem a ver com passado e futuro?

Monge Genshô – Não, essa questão de passado e futuro faz parte de nossas imaginações sobre coisas que nós mesmos criamos, são falsidades. O passado sobre o qual pensamos é uma construção e não aconteceu exatamente como pensamos. Um bom exemplo disso é esse exato momento. Se amanhã alguém perguntar sobre o que foi dito na palestra, teremos vários relatos diferentes e a medida que o tempo passa a memória também será alterada. O futuro é imaginação. Não adianta ficarmos pensando em como resolver hoje os problemas de amanhã. Os problemas de amanhã só serão resolvidos amanhã. Faz sentido imaginar o futuro frente à um tabuleiro de xadrez, posso pensar na probabilidade das quatro jogadas seguintes e calcular suas conseqüências, mas esse é um jogo de informação perfeita e muito simples se comparado com a vida.

A vida está sempre cheia de “cisnes negros”. Cisne negro é um evento que ninguém previu. Em 1986 estava na Alemanha e perguntei para um amigo sobre o muro de Berlim e se ele nunca iria ser derrubado. Sua resposta foi que não, isso sempre fora assim e nunca iria mudar. Três anos depois o muro foi demolido. Três meses atrás quem imaginaria que o povo brasileiro sairia às ruas para fazer reivindicações? Esses eventos são chamados “cisnes negros” porque em geral os cisnes são brancos, mas de repente aparece um cisne negro. Então, o futuro é imprevisível, mas sentamos para meditar e ficamos fantasiando sobre o futuro. O Zen sempre fala sobre isso, temos algo com o que lidar que é extremamente importante - o agora. Omar Kayyãm dizia, “dois dias me são particularmente indiferentes, o ontem e o amanhã”. É isso que o Zen ensina, olhe para o agora, é isso que você está perdendo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Saber estar aqui



Pergunta – Não há uma contradição quando o senhor diz para vivermos no agora, mas sem pensar na questão de causa e consequência, já que essa consequência será no futuro, mas não tenho que viver o agora, como é isso?

Monge Genshô – Não. Viva o agora, perceba o agora, mas saiba que você é responsável por tudo no futuro, da mesma forma que tudo que acontece com você agora é consequência de um passado. A proposta não é não pensar nas consequências, viver o agora implica em “saber estar aqui”, é como beber chá. Provavelmente quase ninguém hoje bebeu chá. Beber o chá é segurar a xícara, sentir seu calor, sentir o aroma do chá, colocar o chá na boca, sentir o sabor e engolir e, mesmo depois de engolido, senti-lo descer pela garganta, isso é beber o chá e exige grande presença, sem presença você não bebe o chá verdadeiramente, apenas executou um ato automático e é assim que a maioria das pessoas vive hoje em dia, ligadas no automático e por essa razão não vivem, apenas passam pelo mundo como uma espécie de zumbi.

Observem as pessoas nas ruas, são sonâmbulos e alguns até falam sozinhos. Sequer sentem o chão abaixo de seus pés nem escutam os pássaros, não estão vivos realmente. Muitas pessoas logo ao chegar em casa ligam a televisão, elas precisam de algum tipo de ruído. Eu tenho esse tipo de experiência a todo o momento. Quando pego um taxi, por exemplo, o motorista está sempre com o rádio ligado, mas ele deseja conversar com você, se eu peço que desligue o rádio, em poucos minutos ele automaticamente liga novamente, não pode ficar sem o ruído de fundo.

As pessoas usam a desculpa da distração ou da diversão, mas na realidade é não viver o agora, é viver alguma embriaguez. Nos mosteiros Zen é o oposto, não tem música, televisão ou celular para se distrair ou divertir. Se você pega um instrumento para trabalhar deve estar totalmente presente na sua obrigação daquele momento. Por quê o zazen é de frente para a parede? Para diminuir até o último grau, qualquer distração ou diversão. Imobilizamos o corpo com o objetivo de parar a mente, fazê-la ficar ali naquele momento.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Naquilo que é "meu" estará meu sofrimento



O Zen é uma escola muito antiga e que não mudou o seu propósito e declara que a iluminação é possível nessa vida, agora mesmo, só depende de seu empenho. Por isso o treinamento Zen é duro e desconfortável, seu principal instrumento é o zazen, a meditação sentada. Enquanto formos movidos pelos ventos das paixões, orgulhos e vaidades, desejo de aparecer, de ser melhor que os outros e desejo de destaque dentro da Comunidade não conseguiremos despertar. Esses são motivos suficientes para fazer com que nosso ego cresça e nos perturbe. Se nos esforçarmos muito, mas dentro desse esforço existir um sentimento egóico, esse é suficiente para servir de pedra de tropeço. Por isso a harmonia é tão valorizada. Esse é o caminho do Zen.

Pergunta – O apego se remete a todos os sentidos da vida?

Monge Genshô – Sim. Em tudo que você colocar seu coração lá estará seu sofrimento. Não vivemos aqui impunemente. Com nossos corpos nós amamos e temos filhos, dessa relação surge um apego muito forte e difícil para o ser humano se desligar. Mas quando olhamos a nossa volta podemos perceber uma grande quantidade de sofrimento causada por outro tipo de apego. O apego a coisas materiais, apego a fama, a honra e apego ao desejo de agregar ao seu “eu” coisas, dando origem então, a palavras como “meu” e “minha”. Nesse “meu” é que vai estar seu sofrimento. Porque esses objetos de posse nos quais depositamos nosso afeto e amor material, serão as coisas pelas quais sofreremos. O amor verdadeiro que você tem por um filho, por exemplo, não aprisiona, não deve ser apegado. Você pode incentivar seu filho a fazer um estudo no exterior mesmo sabendo que quando ele embarcar no avião você entrará no seu quarto e irá chorar.

Pode ser também que o filho não se torne aquilo que desejávamos, nossas expectativas com relação a isso é que são a fonte de nosso sofrimento. O mundo está cheio de sofrimento, em tudo que colocarmos nossos olhos e dissermos “meu”, haverá fonte de sofrimento. Mesmo no caso de um amor verdadeiro como de mãe para filho, se dissermos “meu filho”, será fonte de sofrimento. Isso acontece porque as coisas não são estáveis, estão sempre mudando, dessa forma nada é seguro, nada é para sempre, tudo irá desaparecer, inclusive nós mesmos. Olhamos no espelho e nos admiramos, nos achamos bonitos e jovens, mas isso também é temporário, ficaremos velhos e tanto a juventude quanto a beleza passarão. Se nós pensarmos “meu” corpo, ele também será fonte de sofrimento.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Além do pensar e do não pensar



Quando nós nos sentamos para meditar estamos tentando ficar aqui agora sem interpretações, por isso as instruções são: não julguem, não pensem, bom ou ruim, certo ou errado, sobre nada que lhe ocorra, simplesmente volte para aqui e agora e perceba as coisas além do pensar e do não pensar. Sinta que você está aqui agora, se você der um salto você então verá como as coisas realmente são, e não tem nada a ver com uma descrição. Nada poderá ser descrito, nada poderá ser dito à respeito porque se nós a descrevermos a estaremos diminuindo porque de novo estaremos traduzindo para palavras aquela coisa que é indescritível. Então um conhecimento perfeito é possível, mas ele só pode vir de dentro e não pode vir de fora através das informações e das interpretações de nossos orgãos sensoriais e seus aparatos mentais. Isto é o que eu queria dizer sobre talidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O lugar de descanso


JOKO: Sim. Não podemos nos aborrecer, a menos que nossa mente nos tenha removido do presente e levado para pensamentos irreais. Sempre que estamos contrariados estamos literalmente "de fora": deixamos algo de fora. Somos como um peixe fora d'água. Quando estamos no presente, plenamente conscientes, não conseguimos ter uma idéia do tipo: "Oh, essa vida é tão difícil. Tão sem sentido!". Se fazemos isso, deixamos
alguma coisa de fora. Só isso! Um bom aluno reconhece quando se distanciou e retorna à vivência imediata. Às vezes apenas balançamos a cabeça e restabelecemos a base de nossa vida, os alicerces da vivência. Desses alicerces brotam pensamentos, ações e uma criatividade perfeitamente adequados. Tudo isso nasce desse espaço da vivência, em que o sentidos simplesmente se encontram abertos.
Quando estava com dezesseis, dezessete anos eu gostava de tocar os corais de Bach no piano. Um que me agradava em especial era chamado "Em Teus Braços Eu Me Descanso". A tradução prossegue assim: "Os inimigos que me atacariam não conseguem encontrar-me aqui".
Embora seja da tradição cristã, em geral dualista, esse coral trata do estar presente e desperto. Existe um lugar de repouso em nossas vidas, um lugar onde devemos estar para podermos funcionar bem. Esse lugar de descanso - os braços de Deus, se quiserem chamá-lo assim - é simplesmente aqui e agora: ver, ouvir, tocar, sentir odores e sabores, sentir a vida como ela é.
Podemos até acrescentar "pensar" a essa lista, se entendemos o pensar como apenas o funcionamento natural e não como as reflexões do ego que se baseiam em medo e apego. Apenas pensar, no sentido funcional, inclui o pensamento abstrato, o
pensamento criativo, ou planejar o que temos para fazer hoje. Com excessiva freqüência, porém, acrescentamos pensamentos não funcionais, baseados no ego, que nos levam às dificuldades e nos retiram dos braços de Deus.»
Charlotte Joko Beck

sábado, 22 de agosto de 2009

Mas o que é esta Plena Atenção, este “estar no Aqui e Agora”?


Mas o que é esta Plena Atenção, este “estar no Aqui e Agora”?

A cultura Ocidental tornou-se muito “informal”. Conseqüentemente, muitos praticantes se rebelam contra o rigor da “forma” no Zen. Mas no fundo o que significa “informal”? Acaba significando “in-forme”, ou seja, “sem forma”, “caótico”. Aqueles praticantes condicionados na “informalidade” se assustam quando tentam praticar as formas do Zen, pois talvez nunca cultivaram tamanho “auto-controle” nas suas atividades. Talvez achem tudo isso “pura chatice”. E quando ouvem um professor falar da importância de fazer as coisas com “naturalidade” e “espontaneidade”, acreditam que o seu jeito de fazer as coisas já é a “naturalidade” e a “espontaneidade” do Zen. Mas esta “informalidade”, na verdade, é um certo desleixo. Ou seja, não entenderam a “espontaneidade Zen”.

Mas também temos muitos “perfeccionistas” em nossa cultura. E como eles sofrem, inicialmente, com a nossa prática! Não entendem o que significa a verdadeira “Plena Atenção”. Confundem o rigor do Zen com a sua atenção aos detalhes, com a pressão e auto-cobrança quase obsessivos do perfecionismo que viveram no passado. Quando estes alunos fazem suas atividades sem estar verdadeiramente no Aqui e Agora, tendem a cair em suas auto-cobranças obsessivas, e sofrem muito. Talvez, querendo escapar do sofrimento, mas sem perceber a verdadeira causa, reclamam que o Zen é exigente demais, afirmando que "não precisava ser tudo tão certinho"… A verdade é que não estão entendendo a prática de olhar para os seus condicionamentos se manifestando e voltar à respiração, como treinam fazer com os pensamentos no Zazen.

Já os professores, às vezes, parecem bastante estranhos, aparentemente se contradizendo, uma hora pedindo “naturalidade e espontaneidade” e logo em seguida pedindo “precisão”, corrigindo vários detalhes. Pedem que façam as coisas “corretamente” e logo em seguida falam coisas como “Não tenha medo de errar! Se vai errar, por favor, erre com tudo!”.

Estão vendo os seus alunos indo de um extremo ao outro: tentando “não errar”, caem no perfecionismo; tentando agir “naturalmente”, caem no “desleixo”. Dualidade pura.

Falando paradoxalmente, aparentemente se contradizendo, os professores estão convidando os alunos a descobrirem a Plena Atenção, uma terceira postura na vida que permite uma precisão e atenção a detalhes que é natural e espontânea – algo bem diferente dos dois extremos do desleixo informal e do perfecionismo obsessivo da mente condicionada. Estão convidando os alunos a virem para o Aqui e Agora, plenamente conscientes de si mesmos, dos outros, do ambiente, das circunstâncias e de suas ações. Estão convidando-os a descobrir o “Zen na Ação”, a levar para as atividades diárias aquele mesmo estado de paz e tranqüilidade que é vivenciado no Zazen. Estão convidando-os a libertarem-se dos seus condicionamentos, manifestando a “mente iluminada”.

Este é o método do Zen.

Extrato de trecho de
Monja Isshin, a íntegra pode ser lida aqui

terça-feira, 10 de março de 2009

Presente aqui e agora


Às vezes se pensa que o zen é desligar-se do mundo, dos sentimentos, para isto uma boa história zen:

Um mestre zen ia, com discípulos, por uma pequena cidade, numa casa de subúrbio, um velório, as pessoas choravam um morto, ele entrou na casa, abraçou-se com as pessoas e chorou copiosamente. Uma hora depois ele saiu, o rosto inchado, e os alunos espantados:

- O senhor conhecia esta pessoa? Era seu amigo?

- Não..

- Então porque se emocionou tanto? Por que entrou lá?

- Ah! ... Eles estavam muito tristes...e eu me entristeci com eles...

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Aqui e agora

Dosho Saikawa Roshi:
"Quando dizemos o Buddha, o Dharma e a Sangha, estes três tesouros, isso parece na nossa mente alguma coisa distante, um lugar muito alto. Mas isto é realmente aqui e agora. Não é um lugar distante porque tudo o que nós temos é apenas este momento. Este momento nunca vai voltar novamente nesta eternidade deste inteiro universo. Cada momento é apenas um momento. Não pode ser comparado com qualquer outro. Os seres humanos tem tido muito progresso, muito. Assim nós temos uma maneira de comparar com ontem, com o ano passado, podemos pensar sobre o passado, pensar sobre o futuro e comparar um com o outro e esta nossa cultura de progresso, este progresso que vem aqui e agora. Então a atividade mental é muito boa também para os seres humanos e por causa disso nós esquecemos que tudo o que nós temos é este aqui agora. Não pode ser comparado com nenhum outro momento. Assim este momento é o da mais alta iluminação. Por que é iluminação? Porque a cada momento nós somos um com todo o universo."