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terça-feira, 3 de março de 2015

A gradativa iluminação



Há um texto que vocês podem ler no site www.daissen.org.br , chamado "Os dez passos do boi". É bastante difícil. Estava tentando ler ontem e eu mesmo estava lendo e pensando "puxa, difícil explicar isso aqui". Ele está dividido em dez etapas, sendo que o boi é uma metáfora para mente. Na primeira etapa, o aluno está procurando o boi. Só viu seus rastros. Vai indo assim um, dois, três, quatro, cinco. No quarto grau já existe iluminação. Já existe uma iluminação naquela pessoa, só que ela não passou para seus atos. Tem uma compreensão interna. Ela viu o boi, mas não o domina. Tem etapa em que se consegue conduzir o boi por uma argola pelo nariz. Tem passo em que ela subiu no boi. E tem ponto em que o boi desapareceu. Não existe mais o boi. E tem o décimo, em que com uma garrafa de vinho nas costas, camisa aberta ao peito, a pessoa entra na praça do mercado, bebe o vinho com outros e junto aos homens vulgares, fala vulgaridades. Mas aos seus passos, árvores secas florescem. Esse é o Bodhisatva. Ele saiu da montanha.(continua)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Bodhisattvas e a outra margem



Pergunta – Um monge é um bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge.  O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e quarenta anos, os monges zen passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é quem faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o bodhisattva, é?

Monge Genshô – O bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto houver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A disciplina da plena atenção



 (Final da palestra do Ven. Dhammadipa no DaissenJi em Florianópolis)
A seguir temos a importância da plena atenção. Buddha ensina que apenas teremos sucesso na prática se praticarmos quatro posturas. Praticar nas quatro posturas significa praticar enquanto sentado, enquanto em pé, enquanto andando e enquanto deitado. O sutra explica que a única forma de obter claridade é praticar com devoção e ininterruptamente. Esta é a prática da plena atenção. Caso consiga praticar a plena atenção nas quatro posturas ininterruptamente, estará plenamente Iluminado. Devemos praticar nessa direção enquanto estivermos conscientes. Caso permaneça neste tipo de plena atenção, está vivendo no Brahmaloka – no paraíso – mesmo estando aqui.

Temos agora a última e curta parte, abordando a sabedoria. Então, ao praticar neste sentido, você deverá “ditthiñca anupaggamma”, deverá abandonar todas as visões. Você deve ser sīlavā, deve ser disciplinado. Como abandonar todas as visões? E como ser verdadeiramente disciplinado? Ambas as virtudes serão atingidas quando compreendermos a originação dependente com intimidade. Tudo que existe, existe em relação a algo. Existir em relação a algo significa ser impermanente. A impermanência apenas existe onde há vazio, pois se algo permanece na sua experiência é, então, imutável. De acordo com o budismo, devemos entender a impermanência a fim de compreender o que está além da impermanência. Tudo muda por não ter uma natureza própria. Apenas pode mudar por conter o vazio. Se algo possui natureza própria, não é capaz de mudar. Logo, a única coisa que possui natureza própria é o vazio em si. É por isso que o Sutra do Coração ensina que a forma, os sentimentos, os cinco agregados são de fato o vazio, não diferentes do vazio em si. Caso consiga ver isso, você é “dassanena sampanno”, aquele com o darśana, a visão direta. Com isso, “kāmesu vinaya gedham”, você estará livre de todos os apegos e não mais retornará ao samsara.

Você deve compreender que este sutra foi proferido a 500 bhikkhus determinados a tornar-se aharants. Caso deseje seguir o caminho do boddhisatva, deve entender claramente o estado de existência de um aharant. Devido a sua compaixão, o boddhisatva não se torna um aharant. Este é o caminho do boddhisatva.
(Traduzido na palestra por Hakudô San e decupado posteriormente da gravação)

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Minimizar o sofrimento que causamos ao viver


Pergunta – Usando o exemplo que o senhor deu sobre alguém entrar aqui com a intenção de matar alguém ou todos. Eu venho por trás dele e o mato antes, como fica meu carma?

Monge Genshô – São dois eventos diferentes, no primeiro você salvou a vida de todos e no outro você matou alguém. A família dele vai odiar você e há nisso uma retribuição cármica.  Mas por outro lado há o bom carma pelo fato de teres salvado muitas vidas. Essa é uma historia clássica no Zen, a do Boddhisatva que matou um homem para salvar quinhentas vidas. Ele assume o carma ruim para beneficiar quinhentas pessoas.

Pergunta – Ela também poderia atrair um carma pela omissão, não é?

Monge Genshô – Sim. Na verdade é uma situação sem saída. Se faz algo como matar o homem, produz um carma, se não faz nada e as pessoas morrem, produz outro carma. Você deve escolher. Mas não existe a escolha de viver sem problemas. Assim é a vida, você não conseguirá evitar todo o sofrimento. Nos tempos de Buddha os Jainistas, faziam oposição ao budismo e o desejo deles era evitar todo o tipo de sofrimento. Alguns chegam a não usar roupas, pois para isso tem que plantar algodão e com isso matar insetos, logo, eles andam vestidos de vento, não usam roupas. Quando caminhavam varriam o chão à sua frente para não pisar em nenhum ser vivo e coavam a água com o mesmo objetivo, que toda e qualquer forma de vida fosse salva do sofrimento. É impossível evitar todo o sofrimento, veja nosso corpo, por exemplo, ele está constantemente matando vidas microscópicas para que você possa estar bem de saúde. Se você tentar levar sua vida a esse extremo, não poderá continuar vivo, pois viver implica em causar sofrimento. O que podemos fazer é minimizar o sofrimento que causamos pelo simples fato de existirmos.

Pergunta – No meu modo de entender o Zen, é como se ele fosse na veia, direto. Já estive em outras escolas, e lá existem vários tipos de meditação. O senhor poderia explicar melhor essa diferença entre as escolas?

Monge Genshô – Existem diferentes métodos porque existem pessoas diferentes com diferentes necessidades. Para algumas pessoas o Budismo Tibetano é melhor. Isso é tão claro e evidente que quando você entra numa Sangha Tibetana e entra numa Sangha Zen, consegue perceber a diferença pela expressão facial das pessoas, o sistema de treinamento as vai alterando. Isso é para tudo, não só para os Tibetanos ou Zen Budistas, serve para evangélicos, católicos ou protestantes. O Zen é chamado Caminho Direto e não é uma prática destinada à todos. Foi concebida como uma prática monástica e para os poucos que desejavam se retirar para montanhas e treinar com mestres extremamente exigentes. Um grande mestre, Bodhidharma, deixava os pretendentes a alunos esperando no lado de fora de sua caverna, na neve, e não os recebia. Só recebeu Taiso Eka, porque este cortou seu braço. É natural que sejamos poucos.
(Final da palestra, decupada da gravação por Chudô San em 2013)

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Guerras e disputas


 (continuação)
Dogen Zenji, fundador da nossa escola, 750 anos atrás, disse que “estudar o zen é estudar a si mesmo, estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo, esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por todas as coisas”. Esta é a essência do ensinamento zen budista, que automaticamente leva à construção de uma cultura de paz. Como não haveria paz se esquecêssemos de nós mesmo? Imaginem agora lá, naquele conflito entre israelenses e palestinos. Se eles amanhã esquecessem aonde nasceram, que raça têm, que cultura têm, que religião têm, eles olhariam uns para os outros e diriam: - “Olhos, nariz, boca, orelhas... braços como os meus. Oh, irmão!”. São brigas de adultos com idéias de crianças, com a noção de “eu sou separado”, “esta terra é minha”, “o outro é diferente de mim”, “ele é meu inimigo”. Se fossem capazes de esquecerem-se de si mesmos, tudo estaria resolvido. Então todo o conflito ali não está criado só com base na disputa de terras. Quando nós dizemos que vamos resolver o conflito fazendo tratados sobre fronteiras, trata-se de uma solução que não têm sustentação. Porque dentro das cabeças continua a noção de que “eu sou separado”, e depois das fronteiras surgem as disputas por territórios.

Enquanto na Europa cada país pensava e se via separado dos demais, houve terríveis guerras. No século XX houve uma mortandade horrorosa na Europa com as duas grandes guerras mundiais, tudo porque as pessoas acreditavam numa coisa chamada de “fronteiras”. – “Eu sou diferente do outro que está lá! E eu tenho medo dele!”. Uns tinham medo dos outros, e alguém tinha que atacar primeiro, de forma “preventiva”. Essa é bem a origem da 1ª. Guerra Mundial. – “Eu tenho que atacar o outro primeiro, porque ele está se armando. Então também estou me armando”. Mas do outro lado o pensamento é o mesmo. Foi daí que surgiu uma enorme catástrofe. Quando, no entanto, a região pensou – apenas parcialmente – em usar a mesma moeda e em abrir as fronteiras para a livre circulação de mercadorias e de pessoas, acabou completamente a perspectiva de um conflito. Hoje em dia é inimaginável que França e Alemanha, que se despedaçaram duas vezes no século XX, ou seja, há apenas 70 anos atrás, começassem uma guerra. Isso ocorreu porque os conflitos e as fronteiras foram diligentemente dissolvidos. Mas ali do lado, na parte oriental do continente, na Ucrânia, alguém pode pensar: - “Esta terra é minha, eu sou pró-Rússia”. Ou: - “Eu sou pró-Ucrânia. Eu falo uma língua, o outro fala outra língua”. Quando eles pensam assim, pronto! Está instalado o conflito! Se pelo menos não houvesse “meu e minha”, não haveria conflito...

Isto vale para todas as relações humanas. A cultura da guerra nasce do conceito de dualidade, nasce do conceito de que “eu sou separado, o outro não sou eu”. A cultura budista vem dizer que o dualismo é pura ilusão, todo “eu” é ilusão e, portanto, “meu, minha” também são ilusões. Assim, diferenças e distâncias entre os seres não passam de processos ilusórios. Por isso que os Votos do Bodhisatva são quatro: “os seres são inumeráveis, e faço voto de libertá-los todos; as delusões (ignorâncias, paixões, emoções) são inexauríveis, e faço voto de extingui-las todas; os portais do dharma são incontáveis, eu faço voto de atravessá-los todos [se eu meramente entender o portal do dharma sobre o eu, meu, minha, sobre a divisão e a separação, quantas coisas já estariam resolvidas?]; o caminho de Buda, o caminho do despertar, é infinito, e eu faço voto de percorrê-lo até o fim”. Estes são os Votos do Bodhisatva. E o bodhisatva é o ideal que o ser humano tem que seguir, na visão do budismo mahayana. (continua)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Votos do bodhisattva


Pergunta: Quem é que quer?

Monge Genshô: Todos, no início. Queremos, nós. Todos vêm praticar de forma egoísta e auto-centrada, ninguém veio aqui porque quer salvar todos os seres. Não é assim. Os praticantes sempre vêm procurar alguma coisa para si, essa é a prática inicial. E por isso, toda a prática do Caminho Óctuplo está voltada para o indivíduo. Você tem que fazer o esforço correto, tem que ter um meio de vida correto, tem que ter uma fala correta. São todos você. É você, você, e você. É você que tem que trabalhar. É você que está separado dos outros. Então, o estágio de abandonar a si mesmo, seu próprio eu, é um estágio muito, muito adiantando, e nós não o encontramos nos iniciantes não, seria raríssimo.

Eu costumo explicar que há três fases: A “fase da virtude”, e que não é diferente na maioria das religiões, trabalham-se as virtudes pessoais. E elas são semelhantes no Budismo, no Cristianismo, no Islamismo, são todas semelhantes - persistência, tolerância, paciência, energia, disciplina, são todas semelhantes. O segundo estágio é o estágio de “prática do Bodhisattva”, de que você faz os votos, no final do dia. Mas quem é assim? Quem é? Já é difícil a gente ver alguém cumprir o Caminho Óctuplo! São dezesseis votos de leigo que nós fazemos, por exemplo, “nunca julgar os outros”, que eu acho um dos mais difíceis, porque está todo mundo sempre julgando. “Não se eleve”, “não procure os defeitos nos outros”. Isso é muito complicado, porque você está vivendo no mundo da dualidade, e tem que julgar.

No trabalho você tem que julgar. Os professores no Zen têm que julgar: “tal aluno pode fazer isso, tal aluno não pode... tal tem tal defeito”. Você tem que julgar, faz parte da própria vida. Aí você vai para os votos do Bodhisattva, no primeiro voto  dizemos: “Os seres são inumeráveis, eu faço votos de libertá-los todos.” Está todo mundo realmente interessado em salvar todos os seres?  Os criminosos, os nazistas da 2ª Guerra Mundial? Vocês vão até os infernos para dar-lhes a mão e tirá-los de lá? “Josef Mengele, venha cá, meu amigo, vou tirar você desse sofrimento infernal, vou ensinar o Dharma pra você.”

Segundo voto do Bodhisattva: “As paixões são inextinguíveis, eu faço votos de extingui-las todas”. Nós realmente estamos prontos pra extinguir cada pequena paixão que surge? Cada uma? Cada raiva, cada impaciência, cada inveja, cada ciúme, cada coisa? Cada afeto desmesurado, selecionado? Você realmente é capaz de amar todos os seres como você ama seu filho? É isso?

O terceiro voto: “Os portais do Dharma são incontáveis, a sabedoria é imensurável, mas eu faço o voto de aprendê-lo todo.” Quer dizer, eu vou aprender tudo sobre o Dharma. Tudo, tudo, tudo. Eu não vou deixar nada de fora. Vou atravessar todos os portais da sabedoria.

E o quarto e último: “O caminho de Buda é infinito, eu faço voto de percorrê-lo até o fim.” Infinito, e mesmo assim eu vou percorrer até o fim. Não acaba, e eu vou continuar, sem fim.

Quando eu estava  no monastério, eu tinha a sensação assim: “Isso aqui não acaba! Não acaba nunca”. Todos os dias a mesma coisa. Levanta de manhã cedo, quatro horas da manhã. Vai para o zendô e senta e continua... sesshin de noventa dias. Isso não acaba nunca. Como eu tenho que tomar um remédio para pressão, então contei noventa dias, noventa comprimidos, botei num lugar lá, e cada vez que eu tomava um de manhã, diminuía um dia. E eu olhava aquela pilha e não acabava nunca...

Aí pensamos, o caminho de Buda, é infinito. Infinito! Então seria uma pilha sem fim, sem fim... E eu teria que tomar, na esperança de chegar a um fim que não existe. Nós fazemos isso. São os votos do Bodhisattva. Então esse é o segundo estágio do caminho, e ainda tem um “eu”. Porque sou eu que prometo. Eu vou lá no inferno, resgatar todos os seres, eu vou estudar, eu vou seguir um caminho sem fim, eu vou extinguir todas as minhas paixões que não acabam mais, que não tem fim. São paixões sem fim e vou extinguir todas elas. Você faz o segundo estágio e ainda está cheio de erros.

Aí, o terceiro estágio, da não dualidade. Extinguiu o eu, realmente. Eu e todos os seres somos um. Percebeu, sentiu, viveu a unidade completamente. Então essas perguntas “ainda tem um eu, que está olhando ou que está querendo”. Mas claro que tem, porque quem é de nós que passou todo o primeiro estágio e passou todo o segundo? Esse que eu descrevi agora, que são os votos do Bodhisattva. Ouçam os votos do Bodhisattva no final do dia. Não basta repetir “os seres são inumeráveis, faço voto de libertá-los todos.” Só repetir não é nada. Você tem que pensar o que significa esse voto. Porque são votos paradoxais, uma vez que eles, por sua própria natureza, são impossíveis, e não se faz votos impossíveis. Esse é o voto do Bodhisattva – fazer votos impossíveis.

Então, como pergunta retórica, essas questões sobre “quem é esse eu que está fazendo isso”, têm sentido, realmente. Mas como pergunta na prática diária do praticante, vamos reconhecer, nós somos “eus” muito bem construídos e sólidos. Se a gente for bem honesto, basta perguntar: quem importa mais para você, seu filho ou uma criança que está passando fome lá na África? Não me responda que você se importa muito com as crianças que estão lá na África, porque você dá comida só para o seu filho. A criança lá na África está passando fome e você só pergunta: “mas por quê que eles fizeram tantos filhos”? Não é? É o que você pergunta. Não é assim?

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Santidade e iluminação


                                                      (Quadro de Eduardo Salinas)

Pergunta – Um monge é um Bodhisattva?

Monge Genshô – Não exatamente, ele faz votos e tenta ser. Em muitas tradições existe uma distinção entre professor e monge. Na tradição Tibetana, por exemplo, Lama é professor e não necessariamente um monge. O professor não precisa fazer os votos de monge. Nas escolas japonesas, há mais de cento e cinquenta anos, os monges passaram a se casar, talvez por isso fique mais difícil distinguir o monge do professor nessas escolas. A maioria dos monges não é professor.

Em um monastério por exemplo, admitem-se muitas pessoas, porém, uma pode haver uma pessoa com grande vocação monástica, que pode trabalhar por exemplo, recolhendo lenha, mas que pode não ter o conhecimento necessário para ser um professor. Acontece às vezes de uma pessoa ter sido monge por um período, depois larga o manto, mas continua estudando e torna-se professor. O monge é que faz os votos e encontra-se dentro de uma carreira sacerdotal.

Pergunta – E o Bodhisattva, é?

Monge Genshô – O Bodhisatva em uma tradução literal significa “ser iluminado (que gerou uma mente de compaixão)”. Satva significa ser, e Bodhi iluminação ( decorrentemente compassivo). Alguém que se dedica a libertar os outros. Pode ser qualquer pessoa, não necessariamente um monge.

Pergunta – Mas, quando no budismo se fala de alguém que ajuda os outros a atravessar a margem da ignorância, ele faz isso de forma consciente. Isso faz com que ele seja igual a quem ele ajuda?

Monge Genshô – Ele faz o voto de não ficar na margem da sabedoria enquanto tiver pessoas no lado da ignorância. Ele se sacrifica pelos outros.

Pergunta – Isso não significa um ser iluminado, ele apenas fez o voto de ajudar outros seres?

Monge Genshô – Um Bodhisattva tem pelo menos um grau de iluminação. Quando nos referimos a Buda, falamos de uma iluminação completa. Um determinado grau de iluminação não é algo tão difícil de ser alcançado e significa que a pessoa atingiu uma grande compreensão, lucidez e clareza da mente. Mas isso é apenas o primeiro passo.

Pergunta – Esses poderiam ser os homens santos?

Monge Genshô – Não necessariamente, pois santidade não significa iluminação. Você pode ser muito puro, virtuoso, não ferir ninguém, ajudar as pessoas e ser um santo, porém, não ter nenhuma clareza. Ainda está preso a uma grande ilusão e espera obter algum tipo de recompensa, por exemplo, espera que com seus atos esteja agradando algum tipo de divindade com o fim de obter um lugar em alguma espécie de paraíso. Como está preso numa situação de fé, ainda não é lucidez.

O Zen não pretende formar santos, existe até um ditado que diz que “a santidade cheira mal”. Um Bodhisatva não tenta ser santo, ele quer ajudar os outros seres que sofrem. 

Pergunta – O isolamento, como o do eremita ou em monastérios, não seriam então ato de Bodhisattvas?

Monge Genshô – Retirar-se do mundo torna as coisas mais fáceis e é comum uma pergunta entre esse tipo de praticantes que é: “Será que ainda tenho os desejos e apegos”? Como ele está afastado do mundo não existe a oportunidade destes sentimentos surgirem.

Pergunta – Quando fazemos retiro, o ambiente que estamos vivendo faz surgir um sentimento de pureza muito grande que não permite que surja esse tipo de sentimentos, digamos, mundanos.

Monge Genshô – Exatamente, como não existe inclusive a comunicação em razão do voto de silêncio, tudo vai desaparecendo, o desejo sexual, a gula, os atritos, mas isso é um mundo criado para o retiro, é uma vida artificial.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Resgatar o último nos infernos

(continuação de palestra)
 Sobre inferno e paraíso as pessoas dizem: “se eu me comportar bem, vou para o paraíso, se eu for um santo, vou para um mundo maravilhoso”. Ontem um rapaz me perguntou isso na internet: “se a gente cumpre as regras, numa religião que promete o paraíso, para onde eu vou?” Eu respondi: “Para o paraíso”. Mas o paraíso acaba, o paraíso é a paixão. Ele começa, tem mérito para isso, mas os méritos se esgotam, porque o paraíso também é impermanente. Então na realidade, procurar por mérito atingir o paraíso, significa ignorar todos os outros seres. Então eu sou santo, vou para o paraíso, vocês pecadores, fiquem aí, vão para o inferno, condenados, e encho a boca para condenar todos os outros, que não fazem parte da minha solução que é perfeita, a única que promete o paraíso.

Estes tempos, duas senhoras bateram na minha porta e tentaram me explicar que elas tinham uma salvação, um paraíso, e eu não queria ofendê-las, e elas disseram que só 144.000 escolhidos iriam para o paraíso, os outros todos estariam condenados e que eu teria a chance de fazer parte desses 144.000 escolhidos. Aí eu desisti e disse assim: “Minhas senhoras, vejam, eu sou budista e para um budista, na realidade, eu não quero fazer parte dos 144.000 e ver todos os outros no inferno. O objetivo de um budista é salvar todas as pessoas que estão no inferno”.

Então, o voto do Bodhisattva é: “Mesmo que os seres sejam inumeráveis, eu faço o voto de libertá-los todos”. Significa: EU não vou me libertar, enquanto houver uma só pessoa no inferno, porque eu vou lá dar a mão paro último o mais abjeto, mais terrível, mais cruel dos criminosos, porque eu quero salvar o último dos homens que estiver nos infernos, porque eu não posso usufruir do paraíso enquanto houver um homem no inferno. Esta é a ótica budista. É claro que elas desistiram de mim.

Mas, na realidade meu sentimento é compassivo. Como alguém pode achar que estará feliz, sendo do grupo dos privilegiados? É como os brasileiros que não se sentem felizes por estarem comendo e em suas casas enquanto outras pessoas estão na rua  sem casa ou passando fome. Você não pode ser feliz com isso. Você  pode ser feliz na Noruega, onde o país dividiu o dinheiro do petróleo entre todos os habitantes, de forma que cada habitante na Noruega hoje tem um patrimônio equivalente a um milhão de dólares, aí dá pra ser feliz, porque você não se sente injusto em sentar na mesa e comer, porque todos os outros estão comendo. Não é verdade?

Eu então diria que todos os sistemas no mundo funcionariam muito bem se os homens fossem diferentes. Não importa qual fosse o sistema. Se fosse o sistema comunista, em que todos dividem tudo entre todos, em todos os países onde isso foi feito todo mundo relaxou no trabalho, porque afinal de contas os outros estão trabalhando, e os países empobreceram e quebraram, se os homens fossem diferentes, eles se esforçariam também, e é por isso que não funciona. Mas o sistema comunista funciona muito bem dentro de um mosteiro budista, pois todos dividem tudo e continuam se esforçando e ninguém é proibido de sair. Então não é o sistema em si que é errado, são os homens. É como o sistema capitalista também, que pode ser maravilhoso se todos pensarem em todos. Acabamos de dar o exemplo da Noruega, eles pensaram em dividir as riquezas de seu país, porque é de todo um povo, não de um pequeno grupo, não de um grupo que se aproveita e que enriquece sozinho. Então as diferenças estão dentro dos homens.  (continua)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Uma xícara de café



7) O que exatamente faz um Bodhisattva, como é sua vida?

Monge Genshô- Temos o Sutra de Vimalakirti que fala que os bodhisattvas são comerciantes, generais, soldados, imperadores, ou seja, qualquer pessoa que aja com mente compassiva. “Satva” quer dizer “Ser” e “Bodhi” “Mente Compassiva”. bodhisatva é aquele ser de mente compassiva que age no mundo para diminuir o sofrimento. Um bodhisattva pode viver uma vida inteira para um único ato. Há uma história de que gosto muito que se chama “Um café em Istambul”. Um bodhisattva nasceu, estudou, fez faculdade e tornou-se garçom de um Café em Istambul. Um dia um homem entra no café e dirigindo-se ao balcão e pede uma xícara. O nosso garçom então prepara o café, leva para ele e o olha profundamente nos olhos. Naquele momento o homem olhando nos olhos do bodhisattva percebe toda sua profundidade, o que lhe desperta um grande e bom sentimento que será transformador de sua vida. O olhar bondoso do garçom. O homem vai embora e o bodhisattva depois de alguns anos morre. Toda sua existência foi para dar aquele olhar.

Esse é o ato e a vida de um bodhisattva. Eu ouvi a história de um homem que foi conversar com uma prisioneira. Todos a tratavam com grande desprezo. Este homem preparou então dois cafés e foi conversar com ela. Ele era carcereiro. Ao receber o café, a prisioneira começou a chorar e disse: “Espere um pouco”, ela foi então ao canto de sua cela e trouxe os cacos de uma xícara que ela havia quebrado e com os quais iria cortar os pulsos. Uma simples xícara de café ou um olhar podem mudar uma vida. São exatamente o conteúdo do ato de um bodhisattva.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A escolha de uma vida


(continuação)Às vezes alguém vem e me diz que sua vida mudou, o sofrimento diminuiu, está enxergando a vida com mais clareza, e essa pessoa me agradece. Nesse momento eu sinto que minha vida tem significado. Acredito que foi isso que Buda sentiu, sua vida teve significado, mudou a história de países inteiros durante milhares de anos, mudou muitas e muitas vidas. Nós podemos escolher ter vidas medíocres, podemos escolher ter vidas simples, fazer pouco e não se comprometer muito. Quando fazemos votos em uma instituição e costuramos nosso Rakusu, nós criamos a instituição, pois ela não é sagrada, as roupas não são sagradas, os votos não são sagrados, somos nós que os transformamos em sagrados.

A estátua de Buda é de gesso, nós que colocamos flores, oferecemos incenso, acendemos velas, fazemos reverências e transformamos essas idéias em algo maravilhoso, caso contrário, isso não representaria nada. Um manto só é um manto porque o colocamos em lugares elevados, o tratamos com cuidado e olhamos para ele com reverência. Isso é um método, tudo que estamos falando, os ensinamentos, os compromissos, os votos, fazemos para nós mesmos, para mudar a nós mesmos e talvez mudarmos o mundo. Por isso fazemos. Com nossas reverências, transformamos Buda em Buda, somos nós que fazemos esse mundo diferente.

Qual o sentido das cerimônias, das prostrações e dos rituais que fazemos? É um método para criar entre nós uma energia que muda tudo. Acredito que ninguém passa por um sesshin sem ter algum efeito, primeiro porque ele vem procurando algo, segundo porque o sesshin está cheio de regras e rituais detalhadamente elaborados para criar atenção, para limpar a mente, nos mostrar a fotografia de quem realmente somos e talvez nos mostrar nossa covardia. Por que se Buda tivesse dito - “Não, é muito trabalho”, e tivesse ficado em qualquer lugar, talvez perto de seu palácio, perto de sua família, reivindicasse sua herança, afinal de contas seu pai era muito rico, se tivesse feito isso, teria tido uma vida confortável, não teria enfrentado problemas e até rebeliões dentro de sua Sangha e até mesmo tentativas de assassinato, teria sido somente mais um covarde medíocre na história da Índia.

Estamos aqui porque ele não fez isso. Cada um de nós pode fazer uma escolha. “Que tipo de vida eu posso ter? Sigo o fluxo normal, ou tento me mudar e mudar outras vidas, para que o mundo seja mais parecido com aquilo com que idealizo”? Essa foi a lição de Buda, ele foi um Bodhisattva, porque ele se levantou e foi ensinar. Caso contrário, ele seria só um iluminado. Ao se levantar ele manifestou sua compaixão. Por isso quando costuramos nosso Rakusu fazemos os Votos do Bodhisatva.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Nem eu nem outro


Pergunta – Como ter uma compreensão clara de coisas boas, por exemplo, de compaixão e generosidade? O Senhor estava falando que não existe um “eu” para sentir raiva, mas então quem é o “eu”’ que realiza atos de compaixão e generosidade?

Monge Genshô – O Bodhisattva tem compaixão, mas para ser totalmente iluminado não pode enxergar os outros seres. Não pode haver eu aqui e você aí, de quem eu me compadeço. A visão de um “eu” separado está dentro da segunda Roda do Dharma.

A primeira Roda é a da Virtude, onde existem regras, não faça o mal, pratique o bem etc.

A segunda é a Roda da “Mente de Bodhichita” onde o ser tem compaixão, mas ainda vê o outro.

Na terceira Roda existe a não dualidade, ou seja, entre mim e você não existe diferença, a compaixão já não se aplica.

Sob o ponto de vista teórico sua pergunta faz muito sentido e deveria ser respondida no âmbito da não dualidade, mas não conheço algum praticante Budista que pratique perfeitamente a compaixão, conheço muitos que tentam praticar a virtude, a palavra correta, a mente correta e os pensamentos corretos. Pessoas que mesmo tentando se comportar melhor, ainda têm uma profunda noção de si mesmos e têm pena dos outros, o que é diferente de compaixão. Compaixão é não dualidade, é você realmente se colocar no lugar do outro, sentir a dor do outro, ser o outro, não existem outros seres, você e o outro são a mesma coisa a ponto de você nem sentir compaixão, pois não existem outros por quem se compadecer. É paradoxal para uma mente não dual matar outros seres para comer seus pedaços, por exemplo. Conheço apenas praticantes no estágio da virtude com raríssimas exceções. 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Enganadoramente simples


O Dharma é enganadoramente simples, é colocar os chinelos, é sentar-se. Na realidade as instruções para o zazen também são enganadoramente simples, entrar na sala, procurar uma almofada, sentar-se, não mover-se e acalmar o corpo para acalmar a mente. Ficar imóvel durante o zazen é importantíssimo, pois uma mente agitada é um corpo agitado. Usamos o corpo como uma âncora para acalmar a mente. Fazer zazen é, portanto, simplesmente sentar e existir, ser uno com todas as coisas, ouvir os sons sem julga-los, não fazer cogitações ou viagens para passado ou futuro. Todas essas parecem ser instruções bem simples, mas somente aqueles que sentam para experimentar é que descobrem o quão difícil é essa simplicidade.

Da mesma forma quando estamos vivendo, nossos gestos e ações devem ser controlados. Se houver atenção ao que fazemos não derrubaremos coisas. Se em tudo que fizermos houver a presença de todo nosso ser, corpo e mente, nossos gestos tornar-se-ão calmos e precisos. O mesmo deverá ocorrer com nossas palavras. Ao tomarmos cuidado com as palavras elas não ofenderão ou causarão desarmonia e desavenças. Tudo isso é uma questão de prestar atenção e é razoavelmente simples. O mais difícil é não permitir que nossa mente se agite com pensamentos e sentimentos e não permitir que os acontecimentos externos nos mobilizem, fazendo com que falemos ou ajamos de forma incorreta, não permitir que nossa mente seja tocada pelo vento.

Em muitos textos o vento é a analogia preferida para descrever as paixões, pois ele empurra as folhas de um lado para o outro e se deixarmos que os sentimentos ajam, ficaremos como as folhas, batendo de um lado para o outro arrastados pelos sentimentos e pelas paixões. Esse é um dos votos do Bodhisattva, “As paixões são inexauríveis, faço o voto de extinguí-las todas”.

Os ventos são as paixões e nossas vidas são abundantes em ventos e tempestades. Extinguindo as paixões poderemos repousar, mas isso não significa que com isso perderemos nossa capacidade de nos emocionarmos, sentirmos e partilharmos os sentimentos dos outros seres.

Fazendo com que nossas mentes parem, nos tornaremos boas antenas receptoras do que acontece à nossa volta entendendo e sentindo o que os outros sentem. A marca daqueles que conseguem silenciar suas próprias paixões é compreender as paixões dos outros, pois há dentro de todos os mesmos impulsos e nós os conhecemos e, por sermos humanos, nada do que é humano nos é estranho.
É importante sermos capazes de nos mantermos sensíveis ao mesmo tempo em que somos capazes de extinguir nossas paixões. Esse é o significado do segundo voto do Bodhisattva.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Uma ambição e um obstáculo



Às vezes as pessoas se perguntam, “qual o sentido da vida?” elas querem respostas para perguntas como, “por que estou aqui?”, “para onde vou?”, “de onde eu vim?”, são perguntas centradas no “eu”. “De onde eu vim?” pressupõe que existia um eu antes que me desse conta. “O que estou fazendo aqui?” tem que haver um propósito para minha existência, um propósito dado por algo superior. “Para onde eu vou?” meu “eu” tem que continuar para sempre, desejo a estabilidade do “eu”, mas nem o “eu” é estável, ele também está em contínua mudança e, como Buda explicou, é tudo uma ilusão, o “eu” é uma construção.

Mas, isso tudo não quer dizer que não vivamos as consequências dos nossos atos, sim vivemos, porque na verdade não somos um “eu”, somos um carma se manifestando e o fruto dessa manifestação, um ser, ele é que diz “eu sou”. Então o “eu” é produto de uma operação mental, só isso, e por isso ele é construído e ilusório. Se temos tal fluxo que vai mudando tudo e mesmo esse “eu” não é sólido, mas carma, tudo o que provocamos, fazemos e tentamos, produz movimento e esse movimento continua gerando novos “eus”, por isso existe renascimento, porque geramos carma.

Se queremos nascer melhor, termos vidas melhores, então basta mudar o carma, mas se queremos escapar desse ciclo precisamos ambicionar mais alto, precisamos ambicionar uma iluminação completa, aí sim, a iluminação completa nos tiraria do ciclo. Mas isso é um trabalho de longo prazo, e veremos que a própria ambição é um obstáculo pois é a ambição de um eu. Quando Buda se iluminou, lembrou-se de quinhentas vidas. Quinhentas manifestações com “eus” diferentes do seu carma, quinhentas vidas como Bodhisatva antes de ser Buda. Por isso não se admirem que quando a gente senta é tão difícil, porque para pararmos essa energia que nos move e podermos ser como Buda precisamos de um longo trabalho, e aí eu lhes pergunto, em que ponto vocês estão dessas vidas? Já são Bodhisatvas?

O que é um Bodhisatva? Alguém que se manifesta nesse mundo porque quer, porque sente compaixão pelos outros seres, então tem que ter uma vida de Bodhisatva. Quando costuramos o Rakusu e fazemos os votos, esses votos chamam-se “Votos de Bodhisatva”.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Kanzeon, Kwan Yn, Kannon



Qual a ligação de Kanzeon com Avalokitesvara? É o mesmo Bodhisattva. Ele é representado como um homem, no Budismo tibetano. E na China, Kwan Yn, e no Japão, Kanzeon ou Kannon.

Então, Kanzeon, é o Bodhisattva que representa a virtude de compaixão de Buda, é a representação visual ou corporificada da compaixão. Kanzeon sabe que ela não "existe".

BODHI quer dizer “MENTE ILUMINADA”.
SATTVA quer dizer “SER”.

Quando Kanzeon, Boddhisattva, que é um ser de mente iluminada viu claramente os 5 agregados, “praticado em profunda sabedoria, completa, claramente observou: o vazio dos 5 agregados”.
Quais são os 5 agregados? Contato, sensação, percepção, formações mentais, consciência. São aqueles que acabam formando a mente. É o conjunto corpo/mente, que dá as informações contato, sensação, percepção, formações mentais, consciência, e que geram a consciência de si mesmo.

Aí ele viu “O VAZIO” de todos os agregados. Os agregados são em si mesmos vazios. Nenhum deles tem um “eu”. Mas os 5 agregados juntos produzem um “eu”, e o “eu” é o quê? Um produto da operação da mente. Porque sua mente funciona, ela produz um efeito, uma noção, de um “eu”. Aí ele viu o vazio dos 5 agregados claramente e assim se libertou de todas as tristezas e sofrimentos.

Quando ele viu que os agregados eram todos vazios e assim ele viu aquilo que surge dos agregados, ou seja, o “eu próprio”, ele se libertou de todas as tristezas e sofrimentos, de todos os sonhos, agonia e dor.
Ele libertou-se de tudo isso, porque quando vê esse vazio, surpreende-se ao perceber que não existe substancia que gere sofrimento. Todo sofrimento que eu penso que eu tenho, na realidade é produto da minha noção de “eu”.

Quando eu tenho uma perda e sofro pela perda, é porque aquela perda é de uma coisa que eu agreguei a mim mesmo como preciosa, a um “mim” que em ultima análise é a minha noção de “eu”.

Se eu não possuo nada, porque tudo é vazio, então não tenho perdas. Se conseguir ver o vazio completo, não tem porquê ficar triste. Porque É o vazio de todas as coisas se manifestando. Todos nós somos seres de sonhos. Em ultima analise se você vir claramente, você se livra de todo sofrimento. Se você vir parcialmente, você se livra parcialmente do sofrimento. Pra se livrar completamente, tem que ver com absoluta clareza.

{Com a prática Budista, o que acontece na realidade, é um aumento da sensibilidade. A pessoa torna-se na realidade, mais emotiva. Porque ela começa a ver a dor dos outros. Mesmo que a dor que você veja no outro seja uma construção e  falsa. Você não tem mais a “sua” dor em si, mas você sabe como é a dor do outro, percebe. Eu sei que a dor no fundo é um sonho. Você sabe que o sofrimento é verdadeiro, mas onírico. O sofrimento não é falso, é real mesmo que sonhado.}.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O budismo tem uma porta de saída



O Sutra do Coração da Sabedoria começa com “Maka Hannya Haramita Shingyo”.
“MAKA” é grande e “SHIN” é coração, ou mente. Shin quer dizer as duas coisas, coração ou mente.
Na realidade, o significado de coração, não é bem coração, mas sim essência.
E nesse sentido queremos dizer não o “O Sutra do Coração”, mas “Sutra da Essência dos Sutras Prajna Paramita”.
PRAJNA é “sabedoria”.
PARAMITA é “a outra margem”.
“Sabedoria da outra margem”.
Existe uma coleção de Sutras chamada “Os Sutras Prajna Paramita”. São mais ou menos 600 volumes.
O Sutra do Coração da Sabedoria é um resumo da essência de toda a coleção dos sutras Prajna Paramitas, que não estão traduzidos. Mas eles são uma colação importantíssima de ensinamentos, de estudo do inicio do movimento Mahayana.
A idéia de Paramita - a outra margem, é que existe um rio, o rio da ignorância, nós estamos numa margem e tomamos um veículo pra atravessar o rio e chegar na outra margem que é a margem da sabedoria.
Então são sutras da outra margem, a margem da sabedoria, pra quem atravessa esse rio da ignorância.
É por isso que aquilo que se usa pra atravessar o rio chama-se “yanas”, que são veículos. “Mahayana o grande veículo”, “Hinayana o pequeno veiculo”, “Vajrayana, o veículo do raio”, etc. Yana é portanto o veículo para atravessar o rio e chegar na outra margem.
Quando você atravessa o rio de uma margem a outra, na outra margem você não sai carregando o veículo.
Este é o significado do TÍTULO do sutra, portanto, para entendermos.

O que Buda explicou é: se você atravessa o rio com um veículo, não tem sentido sair carregando o barco nas costas depois que chegou do outro lado. Por isso os veículos existem pra ser abandonados, o Budismo inclusive. Não são coisas pra serem carregadas pra sempre. O Budismo tem uma porta de saída. A imagem do Bodhisattva é: “ele chegou até outra margem”. Aí ele olha e vê todo mundo na margem de cá. Aí ele se apieda, se compadece, e volta pra cá pra carregar pessoas através do treino da mente.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Quem chora as ondas que morrem na praia?



Pergunta – O significa a cerimônia que a gente fez hoje?

Monge Genshô – As cerimônias são meios hábeis. Se for de nosso desejo podemos inventar um cerimônia. Mas nesse caso especifico, esses textos têm por volta de dois mil anos, não são de nenhuma língua falada atualmente, mas tem significado. O primeiro, Maka Hannya Shingyo, significa Sutra do Coração da Sabedoria, sua frase principal é “Vazio é forma, forma é vazio, vazio nada mais é do que forma, forma nada mais é do que vazio”. Após isso ele começa uma espécie de desconstrução, não existe sensação, não existe percepção, não existe concepção, não existem formações mentais e consciência. Vendo então o vazio de todos os agregados o Bodisatva desperta e livra-se de toda a agonia e sofrimento. Esse vazio não significa que não há nada, não é niilismo, não se trata de uma declaração de que tudo é nada. É simplesmente a declaração de que todas as coisas são vazias de um “eu”, nenhuma coisa tem um “eu” inerente, um “eu” próprio, nenhuma coisa existe por si mesma, isso que eu quis dizer quando falei que o guardanapo não possui um “eu”, ele é só um agregado de coisas, tudo é assim, a xícara em sua mão é também assim, alias ela só surge como xícara porque você a olha e a vê como xícara, então, tudo é coemergente com o observador, o universo também é coemergente com o observador. Se você conseguisse trocar seus olhos pelos olhos de Buda veria tudo completamente diferente. Há uma analogia que sempre uso e que penso ser muito apropriada, é das ondas do mar, as ondas são formas surgindo sobre o mar, cada onda parece ter um individualidade, mas não passa de energia na água, não é a água que se move, é a energia que dá forma as ondas e na areia as ondas quebram e morrem. Mas não vemos ninguém na areia lamentando a morte das ondas, não existe tristeza por ver as ondas quebrarem na praia. As pessoas olham para o mar e dizem, Que lindo! Por quê? Porque vêem o mar.

As vidas dos seres são como as ondas, mas mergulhados em nossos sonhos não enxergamos a vida, enxergamos as ondas, então, se um amigo morre, choramos sua morte. Por que não enxergamos o mar, enxergamos a onda. Parcialmente sabemos, quando olhamos o mar temos os olhos de Buda e o vemos como mar, não nos importamos com a morte das ondas na areia. Quando olhamos uma floresta não choramos pelos troncos apodrecidos e pelas folhas que caem, até achamos bonito as folhas amarelas no outono caindo, mas todas estão morrendo. Para os olhos de Buda as vidas e mortes da humanidade são lindas, porque é um olhar desperto sobre o que é a vida. O nosso olhar sobre a vida dos homens, seus nascimentos e mortes é tão enganado como o olhar de alguém que chorasse cada folha que cai e não percebesse que na primavera todas as folhas nascem novamente verdes e lindas. Não há problema, todas as folhas que caem viram húmus e é assim que as florestas se formam e sobrevivem.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O barqueiro



Pergunta: Outro dia me perguntaram como eu vim parar no budismo, como tinha acontecido. Daí eu respondi que na época eu passava por umas inquietações, estava buscando algumas respostas, mas, refletindo bastante, não consegui encontrar uma resposta. Honestamente, eu não sei.

Monge Gensho: Existe uma questão de reconhecimento. Eu nasci em uma família em que o pai já era vegetariano, um místico, tinha muitos princípios em sua mente, mas não conhecia o budismo. Quando eu era pequeno eu me sentia atraído por religião. Então, uma amiga da minha mãe deu a ela um livro: “Meu Filho será Padre”. E ela era muito católica e me viu rezando na hora da Ave Maria. Minha mãe deve ter pensado: “Meu filho será padre”. E quando estava com vinte e três anos, passei algum tempo frequentando um mosteiro Beneditino na Bahia e o abade me convidou para ser monge, experimentar a vida monástica. Quando cheguei ao vinte e seis, eu vi um monge zen. Naquele instante comecei um grupo de zazen. E desde então, foi um sobe e desce na prática, pára, não tem professor, não tem sangha, não havia livros. Só fui costurar meu rakusu em 1992 e daí é que a prática se tornou mais constante. O que fez grande diferença foi ter montado um grupo, sentar, ler, praticar. Se formos olhar para o passado, acredito que tinha uma marca kármica para nascer naquela família. O principal, agora, é cultivar profundamente suas marcas kármicas para estar em melhores condições na próxima vez. Se possível, acumular kensho e, se possível, obter o satori nessa vida e ficar livre pra poder ir para a cidade com mãos auxiliadoras.

Observação: O que é um bodhisatva?

Monge Gesnho: Sim, a definição de bodhisatva é “aquele que obtendo a iluminação, renuncia a sua condição de Budha para continuar voltando e ajudando as pessoas a alcançar a iluminação”. É a imagem do barqueiro. Ele fica levando pessoas de uma margem para outra, de uma margem para a outra da sabedoria. Ele pode ir embora se quiser, abandonar o barco. Mas prefere sempre voltar à margem das pessoas que sofrem. E irá retornar sempre, até a ultima. Por isso o voto do bodhisatva. “Seres são inumeráveis, faço o voto de libertá-los, todos”.

Fim

( Texto de palestra sobre "Os dez passos do Boi" decupado da gravação por Ápio San e revisado por Eleonora San)

No Dharma

Genshô

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sem remoer


(continuação)
Cuidadosamente olhamos à nossa volta, encontramos mestres escondidos , mestres para nos ensinar paciência, tolerância, não os enxergamos, os vemos sem ver, pode ser que tenhamos encontrado um Bodisatva à nossa frente e não o tenhamos reconhecido, porque nossos olhos não estavam preparados para ver. Meng Min da última parte da dinastia Han ficou em Taiyuan em uma de suas viagens. Uma vez, enquanto carregava um balde, este caiu no chão, mas ele seguiu adiante, sem se voltar. Guo Linzong testemunhou isto e lhe perguntou o significado, Meng Min replicou: - "O balde já estava quebrado, de que adiantava eu me voltar?" Linzong o considerava incomum por causa disso e o encorajou a estudar. 
Esta história revela a pura e instantânea compreensão dos fatos: ele andava, o balde quebrou, ele nem se voltou, continuou andando. Olhem e rememorem suas próprias vidas. Quantas vezes perdemos algo, mas, voltamos para trás, voltamos para a memória daquilo que perdemos, lamentamos, sofremos, reconsideramos, por que fazemos isto? Porque estamos profundamente agarrados as coisas, e o extraordinário neste caso é que ele não se voltou nenhum instante, simplesmente continuou andando. Se fossemos capazes de estarmos tão desapegados que quando algo assim sucede, pudéssemos continuar andando, sem voltar atrás e remoer aquilo que perdemos, aquilo que se quebrou, então estaríamos profundamente livres.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Paramita - A outra margem



Pergunta: O lado de cá da margem é o samsara?
Resposta: O assunto que nós estávamos era a margem e tudo isto começou porque eu falei a margem de cá é a margem do samsara,dos aprisionamentos, das coisas mudando e nós querendo nos agarrar a alguma coisa sólida, fixa, como uma pessoa que compra um carro e fica muito nervosa com o primeiro risco no carro. Isto é muito real.
Você pega a barca do Zen, atravessa o rio e chega na outra margem e lá naquela margem é a margem da liberdade. Completamente livre. E livre até do budismo porque o budismo é uma barca para atravessar o rio. Você atravessa e deixa a barca, quem sabe outra pessoa precise usar. E você continua, a outra margem é paramita. A outra margem, a margem da sabedoria, Prajna Paramita, por isto nós recitamos assim. (Monge Genshô)

Agora ele (Taizan Maezume Roshi) diz aqui, você já está naquela margem, você já partiu, já atingiu. Já realizou. Já alcançou de modo que  Maha Prajna Paramita significa que a sabedoria se revelou agora  não apenas como você mas como toda a vida e nós a estamos vivendo e nós somos vividos por ela Isto é o que significa Maha Prajna Paramita e isto que o bodisatva Avalokitesvara faz. Na verdade você atravessa o rio e chega na outra margem quando verdadeiramente entende. Atravessou para a outra margem, está livre. Se você conseguir olhar no espelho de manhã ao fazer a barba, as mulheres ao pentear o cabelo, e olhar no espelho e ver as rugas, que maravilhoso, todos os dias quando me acordo e olho no espelho  vejo o trabalho da morte. Se você olhar e alegrar-se pelo seu rosto que está enrugando, envelhecendo, se você sentir alegria de uma libertação, então você neste ponto está chegando na outra margem. Todo o treinamento que nós fazemos aqui  tem foco em libertar-se.