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quarta-feira, 22 de março de 2017

A Mente Vazia e as Experiências Espirituais




O zazen tem um processo muito honesto. Você não se senta na frente de um terapeuta. Você não se senta na frente de um monge e o monge pergunta como está sua mente. Aí você mente para ele, não é? Porque a mente "mente", não é? Mas lá no zazen não: você se senta de frente para parede. Minta para a parede! Você vê o que aparece. Ah, esse pensamento! De novo esse pensamento! Ah, essa raiva que eu tenho, essa paixão que eu tenho, esse ódio que eu tenho, etc. É isso que está se apresentando. Se você repousar suficientemente aí então para. Quando para, você já conseguiu bastante coisa.

Corta-se o fluxo do carma do ponto de vista do pensamento. Você parou. Se você parar durante tempo suficiente, a sua percepção do mundo pode tornar-se mais pura, e isso é o que ocasiona as primeiras experiências espirituais de kenshô: você abre os olhos e as coisas são bonitas! O som lá fora é belo, qualquer som, um latido de um cão, qualquer coisa, todas as coisas são valiosas, preciosas, você as vê surgirem como coisas importantes. Então essa é uma percepção completamente diferente da percepção de quem está pensando e julgando, pois aquele que assim está não consegue ver as coisas tais como elas são. Por isso, quando uma pessoa faz um retiro e acumula muitos zazens, começam a surgir experiências.

"Ah, eu vi uma flor e ela era a flor mais perfeita que eu já vi, eu vi uma pedra e a pedra era maravilhosa, eu vi o céu....", e tudo de repente torna-se fantástico: é muito bonito! E uma grande sensação de felicidade invade a pessoa, e então surge o primeiro pensamento: "eu consegui alguma coisa!". Quando pensa "eu consegui alguma coisa", puf! Aquela sensação se esvai, porque ele conseguiu alguma coisa para ele mesmo e quer sair para mostrar, e então aquela concepção esvazia-se. 

Portanto, nós fazemos zazen para cultivar nossa capacidade de ter esse tipo de experiência descondicionada. Se nós conseguirmos acumular isso mais vezes e tivermos mais experiências dessas, elas tornam-se cada vez mais frequentes.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Nada é resolvido com a explicação



4) Monge, esse sofrimento que o Budismo enfatiza sempre,  como lidar com isso no dia a dia, onde passamos por situações  que  pensamos que não vão acabar e como conseguiremos perdoar as coisas  que nos causam sofrimento sem enrijecer o coração? Porque no Budismo, tenho a impressão de que sempre tudo a gente tem que resolver, o problema é sempre nosso, e é difícil as vezes lidar com isso porque há terceiros envolvidos o tempo inteiro.

R: Claro que tem terceiros envolvidos o tempo inteiro. Mas, a iluminação é sua. Ela não é transmissível, assim como a sabedoria não é transmissível. As pessoas dizem: “me explique”. E eu digo: como você pode explicar o gosto do sal, para uma pessoa que nunca provou o sal? A única coisa que você pode dizer é: pegue um pouco e coloque na boca. Aí se a pessoa provar dirá:  "Ah! Esse é o gosto do sal!" Está tudo resolvido. É tudo resolvido com a experiência e nada é resolvido com a explicação. Eu posso falar sobre o ZEN aqui, mas o ZEN não está aqui. É como olhar o mapa de Paris e depois dizer: “eu viajei a Paris”. Vocês acham que é lícito, é legítimo? Não há nada. Aquelas pessoas que lêem sobre o ZEN ou sobre budismo e sentam numa mesa de bar na frente de um copo de chopp e explicam para os outros sobre Koans e teorias maravilhosas, eles não sabem nada sobre o ZEN. Eles olharam o mapa e estão querendo dizer que viajaram. A única coisa realmente válida é a experiência. Por isso Buda disse: “não acredite em mim”. E é a mesma coisa que eu estou dizendo: “não acreditem em mim”. Eu posso expor raciocínios bem claros, vocês podem acompanhar, eu espero que eles abalem suas crenças.

Estava fazendo uma palestra na Universidade Federal em Florianópolis e uma mulher disse: “Mas o Senhor não acredita em nada?” Respondi: - "Mas o ZEN não é religião de acreditar, o ZEN é religião de despertar." É outra coisa. Mas não nos preocupamos com as pessoas que estão mergulhadas em ilusões. Às vezes as ilusões são tão confortáveis! Como no cartoon onde aparecem dois guichês assim: “Mentiras confortadoras”. E do outro lado: “Verdades desconfortáveis”. Todo mundo vai na mentira consoladora, não é? Porque verdade desconfortável não é pra muita gente.


(Palestra decupada da gravação por Rachel San)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Como o Dharma vê o redator de cartas anônimas?


Creio que a pergunta se refere as pessoas que, ocultas por pseudônimos ou sem assinar, despistando o lugar de onde escreve, redige com o intento de perturbar, alimentar conflitos ou acusar, ameaçar e ofender. Evidentemente ela descumpre o preceito da fala correta do nobre caminho óctuplo, que Buddha recomendou como caminho para a libertação, e também o preceito de não mentir ou falar a verdade com má intenção, as próprias falsidades implícitas no seu disfarce de identidade revelam a mente desequilibrada do redator, ele deveria examinar suas motivações internas e perceber que ao alimentar a aversão e a raiva dá alimento a dois dos três venenos mais deletérios para a mente (apego, aversão, raiva).
É difícil ajudar as pessoas dedicadas à cizânia, pois sua perturbação toma tal vulto que impregna sua mente em todos os momentos do dia, maquinando as palavras e manipulações que usará para aumentar os conflitos no mundo, normalmente seu prazer, mãos tremendo à frente de um teclado, será ver o maior mal possível ocorrer às pessoas objeto de sua aversão. A ação correta, em contraponto, é falar do carma e jamais reagir diretamente, alimentando o desequilíbrio, exortar ao bem, não fazer o mal, um erro jamais justifica outro.
O carma resultante obviamente é mau, e a recuperação deve começar pelo voto de arrependimento que leigos e monges recitam na cerimônia de Uposatta:

De todos os atos negativos alguma vez cometidos por mim,
Devido a meu apego, aversão e ignorância,
Nascidos de meu corpo, boca e mente,
Agora, de todos eu me arrependo.