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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O que você acredita não tem importância



Pergunta: O que fez com que o Buda visse as 500 vidas anteriores dele? O que determina isso? Há um princípio para isso?

Monge Genshô – Este assunto não interessa. O budismo não discute coisas não verificáveis. Você pode perguntar “como começou o mundo?”. Ah, não interessa. Têm várias teorias científicas para isso. Como começou o primeiro carma? Não sei. Eu sei que há carma aqui e agora, porque todas as ações tem efeitos e consequências. E é sobre isso que o budismo fala. Ele não faz especulações filosóficas que não temos capacidade de responder. Desta forma o budismo vem evitando todos os conflitos com a ciência que todas as outras religiões já tiveram. Porque o budismo não é religião de explicação, isso aí é para a ciência. O budismo é a religião do despertar, cujo interesse é saber como funciona o processo de ilusões na mente, como elas são construídas. Ah, se existe um impulso, uma consciência que resiste à morte e renasce em outro corpo. Sim, me parece bastante plausível. Mas está claro que ela não carrega um “eu”, não carrega uma personalidade. Se carregasse um “eu”, eu me lembraria de uma vida passada, e o meu eu seria o agregado das memórias da vida passada também. Mas eu não tenho memória de uma vida passada, só tenho desta. Portanto, todos os “eus” surgem agora e cessam agora. Se há continuidade, me parece evidente por uma questão de justiça. Se existe continuidade do carma, então existe continuidade de tudo o que você fez. E se eu tivesse um acesso de sabedoria superior, eu poderia rememorar vidas passadas. Mas isso é inútil aqui e agora! Completamente inútil para você. Primeiro você precisa despertar, e talvez aí isso seja útil.
Então, o budismo considera a continuidade desde impulso que irá se manifestar em novas existências, mas não ficamos discutindo isso. Até para vir se sentar e fazer meditação, isso não importa. O que você acredita não tem muita importância.

(Final das perguntas e respostas na palestra no centro de yoga em Palmas, Tocantins, decupada da gravação por Sonielson San)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os deuses "explicação"


Perguntas: De forma geral, as religiões usam alegorias para explicar a existência de praticamente todos os fenômenos. Isso ocorreu, também, no caso da invenção de um deus antropomórfico?

Monge Genshô – É, isso é natural. Porque os homens sempre inventaram religiões para dar explicações. Por exemplo, os italianos viam lá o [vulcão] Etna. Dele saía fumaça e fogo. E o que os homens conheciam que saía fumaça e fogo? A forja dos ferreiros. Então Vulcano se tornou o grande ferreiro. Vulcano estava lá embaixo [do vulcão] e o Etna não passava da “chaminé” da forja de Vulcano. Então os homens tinham um deus para isso. Exatamente igual aos gregos, que olhavam para o céu e viam passar o sol. Mas quem conduzia o Sol? Então disseram que era o deus Apolo quem conduzia o Sol, com seu carro de fogo. Nós esquecemos estas coisas, mas por exemplo os índios daqui [do Tocantins] ainda têm o deus da chuva. Daí nós temos deuses para explicar tudo o que nos não entendemos.
À medida que nós vamos entendendo algumas coisas, os deuses vão desaparecendo. Zeus lançava raios de cima do Monte Olimpo, mas quando passamos a entender mais – e sabemos que os raios são fenômenos elétricos –, nós esquecemos os deuses da eletricidade e dos raios. Alguém aqui ainda acredita nos deuses dos raios? Ninguém, porque as crenças recuam à medida que o saber aumenta. Sempre digo em minhas palestras que o zen não é a religião de acreditar. Ela é a religião de “acordar” das ilusões. E os deuses fazem parte das ilusões, pois nós os criamos para nos socorrer. Embora o budismo não possa ser considerado uma religião ateísta, e sim não-teísta. Mas isso é tema para outra questão.
Esta resposta do zen pode ser terrível quando se vai ouvir uma palestra. Tenho até certo receio de dar estas respostas tanto alguém pode se sentir abalado. Mas a visão do zen é de que não adianta rezar para Buda, ele já morreu. Quem pode resolver todos os problemas do sofrimento “está aqui dentro”. Eu posso atuar para resolver os problemas dos meus sofrimentos, e você pode resolver os problemas do seu sofrimento. Mas para resolver estes problemas, você tem que se esquecer de “meu” e “eu”. Enquanto ainda acreditar em “eu” e “meu”, você não entenderá o universo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se "eu" não volto por que me importar?


Pergunta – O senhor antes disse que morremos sozinhos, que não existem indivíduos e que o “eu” é uma ilusão, são os carmas que formam as identidades. Quando alguém morre o que acontece com essa identidade? Do que adianta uma pessoa desejar ser melhor se depois ela volta, como uma gota, para o oceano e não será ela quem sofrerá as consequências de seus atos? Como no caso dos espíritas...

Monge Genshô – Veja bem, cada pessoa que nasce, na crença espírita, tem um “eu” novo. Ele herda as consequências de um espírito anterior mas em um corpo novo e nesse processo ele não se lembra de nada. Quem carrega as consequências é um novo ser...

Pergunta – Mas no budismo existe esse ser?

Monge Genshô –  No budismo há a continuidade do carma, mas o “eu” está perdido, pois ele depende de memória. O que constitui a noção de um “eu” é a memoria, tanto que se você sofre um acidente, fica com amnésia e se lhe pergunto quem é você, sua resposta será: “não sei”. Ignorando a questão da crença em espíritos ou coisas assim, não vejo tanta diferença. Mesmo que no espiritismo você diga que existe um espírito que carregou o carma, o “eu” de cada vida é diferente. O grande problema deste tipo de crença é, por exemplo, como li outro dia, a pessoa dizer que na vida passada foi “Rei Ricardo Coração de Leão”. Isso é muito interessante, as pessoas sempre foram reis, rainhas, grandes líderes, grandes guerreiros, não existem escravos, ladrões, prostitutas. O budismo não se dedica a dar explicações sobre o que acontece, para nós o que é óbvio é que não existe efeito sem causa. Tudo que existe hoje tem uma causa pregressa, logo, de certa maneira você é responsável pela sua vida atual, pois tudo que você carrega, suas características foram construídas. Quando você morrer, tudo que acontecerá depois virá do que você fez nesta vida.

Pergunta – E o que acontece com esse “eu” que morre?

Monge Genshô – Não sei, ainda estou vivo. O budismo não se dedica a dar esse tipo de explicação. Se formos especular, encontraremos muitas teorias. Por exemplo, no budismo Tibetano há o “Livro Tibetano dos Mortos” onde há uma descrição detalhada do processo pós morte, também há algo assim no budismo japonês. Mas isso tudo não é verificável e o budismo não discute coisas não verificáveis. Para nós o que basta é que todas os efeitos têm causa e o que você faz agora tem efeito no futuro. Sua outra pergunta, “Por que alguém deve fazer algo de bom se depois ele mesmo não continua?”. Veja bem, uma pessoa vai dirigindo o carro por uma cidade e joga lixo pela janela. Ela faz isso pela razão de que não voltará para a cidade, está apenas de passagem e não se importa. É como se para fazer boas coisas fosse necessário boas recompensas, pagamento de prêmios e reconhecimento. Então essa pergunta não se sustenta, você precisa de bons atos para gerar bom carma mesmo que não seja para você e sim para o mundo e para os que vem depois.

A arte do bonsai representa isso, você cultiva uma árvore e ela pode viver trezentos ou quatrocentos anos. Se formos ter a mesma perspectiva de sua pergunta, para quê cultivaríamos um bonsai do qual nunca veremos o resultado? O objetivo é fazer algo belo mesmo que eu nunca vá ver o final. O Pau Brasil é uma árvore da qual se fazem arcos de violino, violoncelos e contrabaixos. É a melhor madeira para isso. Mas o Pau Brasil está quase extinto e existem projetos de reflorestamento, mas então você vai chegar para o produtor e perguntar porquê ele está plantando Pau Brasil, que demora décadas para crescer, se não verá a árvore chegar ao ponto de ser cortada para virar arcos de instrumentos musicais? Como agora não existe Pau Brasil, os arcos estão sendo feitos de alumínio ou fibra de carbono, isso é trágico e acontece porque todo tempo as pessoas pensaram que não valia a pena, pois não veriam o resultado. Isso acontece em várias áreas do planeta, alguns peixes estão extintos, pois o oceano tem uma capacidade limitada de auto reposição e deveria ser permitida a pesca de uma quantidade determinada sob pena de extinguir várias espécies para o futuro.

Pergunta – Mas aquele viajante que disse que não voltará para cidade, não o fará nesta vida, mas em outra sofrerá as consequências de seus atos.

Monge Genshô – Exato. Porém o correto seria não fazer isso mesmo que eu não voltasse para este mundo. Não por causa das consequências que eu sofrerei, pois eu e os outros somos a mesma coisa.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Possível mas raríssimo


Pergunta: Como o Budismo vê a relação mente e cérebro?  Por um lado poderíamos pensar que a mente é um reflexo do cérebro, o que poderia sugerir que somos escravos do que nos acontece. Talvez através da meditação poderíamos alterar o estado do cérebro e automaticamente a mente. Por outro lado o funcionamento do cérebro permite o uso da linguagem e é como se a mente tivesse vida própria.

Monge Genshô – Em primeiro lugar, essa colocação, “como o Budismo explica...?”. O Budismo não se dedica a dar explicações. Esse problema das explicações é com a ciência. O que a ciência faz é procurar descrições e explicações que se aproximem da realidade observada. Caracteristicamente, e por isso, a ciência é o que é, essas explicações podem ser declaradas erradas e substituídas por outras melhores e isso pode acontecer sem parar. Ou seja, não existe nenhuma afirmação em termos de ciência que possamos chamar de "verdadeira". De outro lado, o Budismo não declara nenhuma verdade. Ele usa um método para libertação e usa raciocínios para você enxergar as coisas, ou seja, tudo é demonstrável e não depende de fé. Todos os raciocínios que fiz sobre a vacuidade inerente aos “eus”, dando o exemplo da casa e do copo, não passam de raciocínio demonstrável. Qualquer um pode chegar à mesma conclusão. Isso é o Dharma em si. O Dharma de Buda não é uma exclusividade de Buda, ele está presente e pode ser redescoberto. Por isso, quando recitamos os nomes dos Budas, recitamos seis nomes de Budas míticos antes de Shakyamuni Buda. Eles não existiram, são Budas míticos. O primeiro Buda histórico foi Shakyamuni Buda. Mas então porque recitamos seus nomes? Para que todos entendam que surgem Budas e, qualquer um, pensando, meditando e despertando, pode chegar ao Dharma. Vamos dizer que a cada era surge um Buda, ou seja é possível mas é raríssimo.

O Budismo também não é dono do Dharma, nem detém uma verdade exclusiva, nem o Zen. É apenas um método e um método apropriado para algumas pessoas, outras não. Sobre a pergunta sobre mente e cérebro, eles estão ligados, assim como mente e corpo estão ligados. Não separamos isso. Se você interferir no seu corpo, sua mente se alterará, se você comer mal seu cérebro e sua mente serão atingidos, se você come muito, fica sonolento. Se tomar uma substância alucinógena, seu cérebro será perturbado e poderá ter alucinações confundindo isso com realidade ou iluminação, o que não é nem uma coisa nem outra. Estamos procurando clareza e não obscurecimento, não fantasia. Já temos fantasias demais. Para quê tomar qualquer substância que altere a consciência?  É absolutamente vetado para o praticante Budista tomar substâncias que alterem a consciência, é um grave erro que não levará a lugar algum. Só pode levar a mais confusão e já somos confusos o suficiente.
(continua)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ensinamento é útil mas não é o zen



P: Qual o papel da arte no pensamento Budista?

Monge Genshô – A arte é uma expressão humana. As artes foram e ainda são muito influenciadas pelo Zen. As artes marciais, artes plásticas e tantas outras sofreram forte influência do Zen. No Japão isso é muito marcante no Ikebana, nas artes marciais etc. todos fortemente influenciados pelo Zen. Muitas dessas artes foram introduzidas por mestres Budistas como meio hábil para ensinar o Zen usando a estética, usando algo palpável.

O Zen é muito influente principalmente nas artes chinesas e japonesas. Existe uma grande procura por espontaneidade. A arte dessa camiseta, por exemplo, é facilmente identificável, um homem sentado meditando frente à lua. Esse tipo de arte é feita num único traço onde não existe espaço para correções, tem que ser uma pincelada perfeita. A arte Zen é assim, espontânea e minimalista, tentando mostrar uma mente se expressando em um momento único, sem correções e disfarces.

P: Isso é como o sumi-ê. Quando fiz um curso de sumi-ê a professora disse que não pode haver correções, os traços devem ser únicos e firmes. Então perguntei como fazer para não cometer erros? Ela disse: treinando.

Monge Genshô – Exatamente, treinar até conseguir expressar sem correções. É como uma palestra sobre Zen como essa, ela não foi preparada, não existem perguntas elaboradas e ensaiadas para que as respostas saiam certas. As respostas devem sair naturalmente. Ou está pronto ou não está.

P: Mas existem métodos, como hoje fizemos zazen...

Monge Genshô – Exato, o Budismo em sua essência é um método. Cada escola tem o seu. O Zen enfatiza o método do sentar em silêncio, logo, o método predominante do Zen é o zazen, a meditação sentada e silenciosa. Se você tirar o zazen, deixa de ser Zen. Muitas pessoas pensam que sabem muito sobre o Zen porque leram muito livros, mas não sabem nada. Isso é como alguém que diz que sabe piano. Quando perguntado se toca ele responde, “Não, mas já li muitas partituras e biografias dos compositores”. O Zen é assim, você senta e faz o Zen, a explicação é interessante, mas não é o Zen.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Explicação não é budismo, é ciência


P: Fico me perguntando: qual a explicação que o Budismo dá para o surgimento do ser humano de forma tão “perfeita”, pois no cristianismo existe a figura de uma “cabeça pensante” que fez tudo isso. Como aconteceu essa evolução no Budismo? Qual a explicação?

Monge Genshô:  Em primeiro lugar o Budismo não se dedica a dar explicações. Segundo lugar, a ciência hoje, tem explicações bastante boas. E, pessoalmente, eu acho que a evolução das espécies está muito bem comprovada historicamente. Como  acontece? Através do tempo. As pessoas dizem assim: “Ah, mas eu não vejo evolução acontecer”. Como você não vê? Estamos criando novas raças de cachorros todos os dias. Temos animais e plantas que sem o homem nem sobreviveriam. O trigo atual se você deixar sozinho ele desaparece porque a semente não cai, porque escolhemos selecionar sementes que não caem porque são melhores pra colher. E assim por diante. E assim também com os seres humanos. A nossa “matriz” é toda africana. Nossos antepassados de 200 mil anos atrás, você olharia e diria: não, não é um ser humano.

Em algum momento, nós começamos a parecer humanos, mas, se você recua no passado, não é tanto tempo. 200, 300 mil anos atrás, ocorreu o surgimento da espécie do homosapiens. Então, houve evolução lenta, e nós dizemos que nosso corpo é magnífico, perfeito, etc, mas, é não olhar bem pro corpo. Ele funciona muito mal, espinha fraca para andar em pé, pelos corporais diminuindo porque não são mais necessários, calvície, 5% das pessoas tendo episódios alucinatórios na vida etc...

Pergunta: não, mas não foi este o contexto do “ser humano perfeito”, e sim, que em algum momento, pra termos chegado nessa evolução, temos que ter sido no mínimo uma ameba, e alguém tem que ter criado isso ou isso veio de “poeira das estrelas”?

Monge Genshô:  Não, mas isso não é budismo, ok? Tem um experimento famoso dos anos 60, quando alguém colocou num vaso substancias que ele deduziu que eram presentes na terra inicialmente. Metano, carbono,  outras substâncias. Colocou num vaso e com  faíscas elétricas,   essa experiência foi repetida muitas vezes em outros lugares. Essas substâncias químicas, depois de algumas horas, começam a  formar na parede do vaso uma película marrom. Essa película marrom é constituída de aminoácidos, os prercurssores da proteína. A experiência é a “sopa primordial”, bem conhecida. Então, o que quero dizer é o seguinte: ao que parece, dado o tempo e determinadas condições, você juntando elementos corretos, a vida começa a surgir expontâneamente.  E a vida vai fazendo experiências assim, de existência. Mutações, surgimentos, cada vez mais complexos. Nós vemos os surgimentos agora, vírus novos surgem a todo instante. Esse processo continua na vida. Você levando este processo a 2 bilhões e meio de anos que é um tempo inimaginável pra nós, surgem indivíduos suficientemente complexos. Cada vez mais complexos. E vão mudando. Nós estamos mudando. Os testes de Q.I. mostram que, do início do Século XX pra cá, há uma mudança de 20 pontos. Aquelas pessoas que eram consideradas normais em 1920, hoje são consideradas lentas, têm Q.I. 80. As pessoas que eram consideradas de inteligência superior, com 120 pontos, hoje são consideradas normais. Interessante isso. Nós viemos mudando rapidamente.

Na verdade a humanidade vem mudando tanto que por ex,  as cesarianas,( nós estamos no limite da capacidade da mulher deixar passar na pélvis uma cabeça do feto). Se você deixa livremente, há uma mortalidade por enquanto discreta mas que seria proibitiva com um crânio maior. Porque a cabeça foi crescendo e está num ponto quase limite para o parto normal.

E isto é evolução chegando nos seus limites possíveis. O corpo feminino já foi sacrificado no seu funcionamento para privilegiar a reprodução, problemas que o homem não tem. Caso da articulação de ninar, nas pernas, ao correr, as mulheres as jogam para fora por causa da largura do quadril.

Então tem um monte de coisas a serem consideradas a este respeito mas eu posso te dizer, que ao que parece, a vida surge expontaneamente e vai caminhando em direção a uma maior complexidade. O Budismo surge porque há sofrimento. Aí surge a descoberta do Dharma. O que o Budismo é pra mim ou o que Buda foi pra mim, foi um grande gênio. Porque ele teve a coragem de quebrar TODOS os paradigmas e dizer: eu não sei, não acreditem em mim, vou ensinar não baseado em fé, etc, e ensinou baseado em raciocínios, nessa maneira de pensar. Me sinto muito bem dentro do Budismo porque posso dizer assim: “eu não sinto conflito com a ciência, que é o que eu sentia todo o tempo quando estive em outras religiões”. Um conflito tremendo com a ciência. E isso o Budismo não tem. Ao contrário, a ciência está cada dia mais se aproximando do budismo. Cada coisa que acontece dizem: “ah, mas o Budismo já dizia isso no passado”. Aconteceu com a física quântica, psicologia etc.

Mas isso não é Budismo, é ciência. E espero que seja útil este pensamento racional, porque nós Budistas não precisamos entrar em conflito com a ciência e dizer: “ah isso é dogma, é crença”, e é assim porque é, ou é mistério”. Mistério não nos interessa. O que a gente não sabe dizemos: não sei. O budismo não se dedica a dar respostas sobre assuntos não verificáveis.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Nada é resolvido com a explicação



4) Monge, esse sofrimento que o Budismo enfatiza sempre,  como lidar com isso no dia a dia, onde passamos por situações  que  pensamos que não vão acabar e como conseguiremos perdoar as coisas  que nos causam sofrimento sem enrijecer o coração? Porque no Budismo, tenho a impressão de que sempre tudo a gente tem que resolver, o problema é sempre nosso, e é difícil as vezes lidar com isso porque há terceiros envolvidos o tempo inteiro.

R: Claro que tem terceiros envolvidos o tempo inteiro. Mas, a iluminação é sua. Ela não é transmissível, assim como a sabedoria não é transmissível. As pessoas dizem: “me explique”. E eu digo: como você pode explicar o gosto do sal, para uma pessoa que nunca provou o sal? A única coisa que você pode dizer é: pegue um pouco e coloque na boca. Aí se a pessoa provar dirá:  "Ah! Esse é o gosto do sal!" Está tudo resolvido. É tudo resolvido com a experiência e nada é resolvido com a explicação. Eu posso falar sobre o ZEN aqui, mas o ZEN não está aqui. É como olhar o mapa de Paris e depois dizer: “eu viajei a Paris”. Vocês acham que é lícito, é legítimo? Não há nada. Aquelas pessoas que lêem sobre o ZEN ou sobre budismo e sentam numa mesa de bar na frente de um copo de chopp e explicam para os outros sobre Koans e teorias maravilhosas, eles não sabem nada sobre o ZEN. Eles olharam o mapa e estão querendo dizer que viajaram. A única coisa realmente válida é a experiência. Por isso Buda disse: “não acredite em mim”. E é a mesma coisa que eu estou dizendo: “não acreditem em mim”. Eu posso expor raciocínios bem claros, vocês podem acompanhar, eu espero que eles abalem suas crenças.

Estava fazendo uma palestra na Universidade Federal em Florianópolis e uma mulher disse: “Mas o Senhor não acredita em nada?” Respondi: - "Mas o ZEN não é religião de acreditar, o ZEN é religião de despertar." É outra coisa. Mas não nos preocupamos com as pessoas que estão mergulhadas em ilusões. Às vezes as ilusões são tão confortáveis! Como no cartoon onde aparecem dois guichês assim: “Mentiras confortadoras”. E do outro lado: “Verdades desconfortáveis”. Todo mundo vai na mentira consoladora, não é? Porque verdade desconfortável não é pra muita gente.


(Palestra decupada da gravação por Rachel San)