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terça-feira, 28 de maio de 2013
Nada é resolvido com a explicação
4) Monge, esse sofrimento que o Budismo enfatiza sempre, como lidar com isso no dia a dia, onde passamos por situações que pensamos que não vão acabar e como conseguiremos perdoar as coisas que nos causam sofrimento sem enrijecer o coração? Porque no Budismo, tenho a impressão de que sempre tudo a gente tem que resolver, o problema é sempre nosso, e é difícil as vezes lidar com isso porque há terceiros envolvidos o tempo inteiro.
R: Claro que tem terceiros envolvidos o tempo inteiro. Mas, a iluminação é sua. Ela não é transmissível, assim como a sabedoria não é transmissível. As pessoas dizem: “me explique”. E eu digo: como você pode explicar o gosto do sal, para uma pessoa que nunca provou o sal? A única coisa que você pode dizer é: pegue um pouco e coloque na boca. Aí se a pessoa provar dirá: "Ah! Esse é o gosto do sal!" Está tudo resolvido. É tudo resolvido com a experiência e nada é resolvido com a explicação. Eu posso falar sobre o ZEN aqui, mas o ZEN não está aqui. É como olhar o mapa de Paris e depois dizer: “eu viajei a Paris”. Vocês acham que é lícito, é legítimo? Não há nada. Aquelas pessoas que lêem sobre o ZEN ou sobre budismo e sentam numa mesa de bar na frente de um copo de chopp e explicam para os outros sobre Koans e teorias maravilhosas, eles não sabem nada sobre o ZEN. Eles olharam o mapa e estão querendo dizer que viajaram. A única coisa realmente válida é a experiência. Por isso Buda disse: “não acredite em mim”. E é a mesma coisa que eu estou dizendo: “não acreditem em mim”. Eu posso expor raciocínios bem claros, vocês podem acompanhar, eu espero que eles abalem suas crenças.
Estava fazendo uma palestra na Universidade Federal em Florianópolis e uma mulher disse: “Mas o Senhor não acredita em nada?” Respondi: - "Mas o ZEN não é religião de acreditar, o ZEN é religião de despertar." É outra coisa. Mas não nos preocupamos com as pessoas que estão mergulhadas em ilusões. Às vezes as ilusões são tão confortáveis! Como no cartoon onde aparecem dois guichês assim: “Mentiras confortadoras”. E do outro lado: “Verdades desconfortáveis”. Todo mundo vai na mentira consoladora, não é? Porque verdade desconfortável não é pra muita gente.
(Palestra decupada da gravação por Rachel San)
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Basta ouvir ensinamentos?
Aluno – No vocabulário Zen, existe a palavra samadhi, que significa concentração. Existe algum foco especial no budismo a respeito da meditação/concentração, ou é apenas uma coincidência?
Monge Genshô – Não, não é coincidência. O Zen budismo se vê como budismo contemplativo, ele enfatiza, e a diferença entre os budismos, é essa, a ênfase. A escola Theravada enfatiza o estudo dos sutras. O budismo Zen enfatiza a prática da meditação, sempre digo que essa prática no Zen deve ser feita em quantidades industriais, mas a mesma coisa acontece na prática do Theravada, pois existe grande similaridade nessa ênfase.
Embora se diga frequentemente no zen, que as escrituras e os textos são o dedo que aponta para a lua, mas que não são a lua, são mapas para que se possa seguir um caminho. Não são o caminho. São indicações, você tem que trilhar o caminho por seus próprios pés para chegar lá. Não basta ler ou ouvir ensinamentos. Costuma-se dizer no Zen que enquanto nele se falar, ele não estará presente. Quando estávamos calados experimentando a prática da meditação, o Zen estava presente. Agora é só conversa a respeito.
A palavra chan vem do sânscrito dhyanna que significa meditação, então, o budismo Zen significa o budismo que enfatiza a prática da meditação. Na verdade, no Zen, embora diga-se frequentemente, como acabei de dizer, que os ensinamentos são apenas o mapa, dificilmente você encontrará tantos textos quanto existem sobre o Zen, e os professores estão sempre escrevendo. Aqui, por exemplo, tem um gravador para documentar a palestra. Por quê? Porque acabarão virando texto. Na realidade, existe estudo no Zen e Dogen ZenJi diz que o estudo dos sutras é a base do caminho. Não se chega à outra margem sem saber, e mesmo que Hui Neng seja declarado um patriarca analfabeto, leia seu o texto e você verá quantas citações nele há; ele parece um erudito. Mesmo que ele guardasse de memória por não saber ler, ele ouvia, guardava, sabia citar e raciocinar. Sem esse instrumento não vamos longe.
A ênfase do Zen é mais do tipo, “não me diga as palavras de Buda, me diga as suas”. É a verdade que você está praticando, e essa é a verdade do Zen, e não as indicações ou os textos. Como você está vivendo, como está sua mente agora, essa é a verdade. Mas existem três portas de acesso: emoção, estudo e ação. São três portas de acesso para o caminho. As pessoas são diferentes, existem pessoas que naturalmente estão preparadas para o caminho intelectual, outras para o caminho da emoção e outras para o caminho da ação. Cada uma deve praticar com a escola mais adequada para o seu coração, para o seu sentimento, devendo praticar naquele lugar com o qual ela sinta que tem conexão. Por isso, é tão importante escolher o seu mestre e sua escola. Nesse sentido, recomendo a vocês o texto de um famoso escritor, o professor Ricardo Sasaki, intitulado A que Escola pertenço. (um toque de humor, o Prof. Sasaki era o anfitrião nesta palestra ministrada em sua Sangha Theravada em BH)
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