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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mudando Comportamentos



No Zen nos colocamos de determinada maneira, sempre falamos com os outros de forma respeitosa. Na sangha nós tratamos os outros sempre de Senhor, Senhora, nós não olhamos para as pessoas e dizemos “tu aí”, e também na sangha nós não fazemos brincadeiras “zoando” ou ridicularizando os outros. Se temos dúvida sobre o que dizer, nós fechamos a boca porque é muito melhor ficar de boca fechada do que dizer tolices só pra encher o tempo. Então nosso comportamento na sangha é assim e tentamos leva-lo para nossa vida diária.

A educação no Zen é muito diferente daquilo que nós estamos acostumados na vida. No entanto eu me atreveria a dizer que se as pessoas começassem a se comportar dessa forma, muitos problemas seriam evitados. Talvez a sociedade que foi mais influenciada pelo Zen tenha sido a sociedade japonesa, porque durante alguns séculos os imperadores, os shoguns, foram  budistas e a sociedade foi de certa maneira forçada a ter uma determinada educação de responsabilidade social e de comportamento respeitosa.

Eu sempre fico muito bem impressionado quando recebo um monge com educação em um mosteiro Zen porque você recebe aquela visita em casa e invariavelmente, ao acabar a refeição, todo o mundo vai para a cozinha para limpar tudo, ajudar, etc. E quando a visita sai, está tudo arrumado, dobrado, o quarto está limpo porque eles se preocupam em limpar tudo. Então é o hóspede perfeito. Um monge budista, quando a gente o recebe em casa, nunca senta na sala para ver televisão, nunca faz isso, ele age de uma maneira exagerada até, ele vai para o seu quarto e abre um livro para ler, estudar, ou senta para meditar.  Acontece que, com esse respeito, há muito menos atritos.

Então quando levantamos do zendô afofamos as almofadas cuidadosamente, alinhadas e com a faixa branca voltada para o centro, porque quando nós chegamos estava arrumado, então nós temos que deixar arrumado. E quando fazemos cerimônia, tudo o que estamos recitando tem um sentido.
Hoje nós recitamos 16 preceitos, que são os que tomam as pessoas que fazem o rakusu. Prestem atenção nos preceitos. Eu me comprometo a evitar o mal, fazer o bem, a salvar todos os seres sencientes, a evitar causar sofrimento, matar, a evitar ficar com qualquer coisa que não me foi dada espontaneamente. Não é  estritamente “não roubar”. É não ficar com alguma coisa que não me tenha sido dada espontaneamente. No Japão, se alguém perde uma coisa, a gente não recolhe, nem num templo Zen. Se alguma coisa foi perdida, deixada num lugar, esquecida, a gente deixa lá naquele lugar, porque o dono vai voltar para procurar, não precisa guardar porque ninguém vai roubar. Então muitos detalhes de educação podem ser criados, as coisas vão ficar imaculadamente limpas se todo mundo usar e limpar, se houver um respeito contínuo com os outros. Nós temos que pensar sempre no trabalho que nós damos na vida para os outros. Isso é a educação do zen.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Desenvolver a solidariedade



Aluno – Eu sei, só quis colocar uma questão minha, uma dificuldade que tenho. Meu projeto é ir tirando a carne, é uma coisa minha...

Monge Gensho - Muitos budistas se dirigem para isso por um sentimento de compaixão ou por responsabilidade planetária, porque setenta por cento do desmatamento é para virar área de pasto. Se a humanidade não comesse carne, sobrava comida amanhã, porque a maior parte dos grãos cultivados vira ração para o gado. Existem os extremos. Existem animais que comem 9 quilos de grãos para a produção de um quilo de carne. Por isso a carne é tão cara. Então, como existe esta tradição nos mosteiros, muitos budistas têm essa tendência de ter uma responsabilidade social sendo vegetariano. Mas o budismo jamais defendeu essa posição como um item necessário, sempre se focou na mente, “um pragmatismo dialético de métodos psicológicos”, como disse Edward Conze. É isso que o budismo é, um método de libertação pessoal, mas não com regras desse tipo com relação ao mundo. Isso tem que ser desenvolvido internamente...

Aluno –  Eu vejo por mim, pois no meu caminho de apenas dois anos no budismo, já vejo a necessidade de mudar meus hábitos alimentares, mas não pela saúde física, e sim pela compaixão. Eu tenho sonhado com bichos, tenho acordado com um sentimento de compaixão, pois nos sonhos eu sou sempre muito amiga dos animais. Então está sendo quase inevitável...

Monge Gensho – Agora, isso é uma mudança cármica, né? Na realidade é uma mudança de carma, a pessoa vai mudando. Em muitos aspectos você pode ser impactado por isso,  nós só estamos aqui nesse tipo de mundo, nos manifestando como seres humanos, porque somos criaturas de desejo, de apegos e profundamente egoístas. Nós somos assim. A solidariedade e a compaixão pelo outro é algo que a gente desenvolve, e se você desenvolver muito terá dificuldade de voltar para esse mundo; como existem muitos mundos, quem sabe você renasce numa terra pura onde a prática seja mais fácil? Essa é uma forma que existe dentro do budismo – “a terra pura”. A terra pura é um lugar onde a bondade é mais freqüente. Renascer num lugar assim não me parece ser um mau objetivo; é um bom objetivo.

Fim
Palestra de Monge Gênsho decupada da gravação por Monge Chudô.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mapa da nova sede em Florianópolis


Mapa da nova sede, agora com 3 banheiros, zendô, templo, biblioteca e loja, quarto de monges e vestiário, cozinha, copa, depósito de materiais, lavanderia, estacionamento para carros gratuito a 5o m, ar condicionado. Próximo ao centro.

Pergunta – Uma coisa em que eu penso muito é sobre o consumo da carne. Não é mais somente uma coisa de propaganda. Antes eu pensava que era um hábito de família. Mas se formos observar a pirâmide alimentar dos nutricionistas, a base é carne e derivados de animais. Se for ao médico, ele lhe dirá para comer carne. Meu pai, por exemplo, ficou anos sem comer carne, então teve um problema de saúde, e o médico o assustou tanto, que ele voltou a comer carne. Existe algo além da mídia, é algo da ciência equivocada mesmo.

Monge Gensho – O que existe é um sistema de crenças, e ele irá variar. Por exemplo, nós sabemos que nos mosteiros Zen budistas, desde o tempo da China - ou seja, há mil e quatrocentos anos - se desenvolveu uma cozinha vegetariana, porque não se podia matar e na China a mendicância era proibida. O resultado final dessa cultura é que no Japão, por exemplo, o consumo de carne é uma coisa recente, tem apenas cento e poucos anos. Antes disso, comer carne era uma coisa absurda. Comiam bastante peixe, mas jamais carne de caça ou de bois e porcos. O resultado disso foi a longevidade; a tradição nos mosteiros Zen é de longevidade com lucidez, e dificilmente você vê alguém gordo, pois ali comem muitos vegetais e grãos.

Aluno - Parece que todo o modelo de consumo leva para a carne, não existe um financiamento de pesquisa contra o consumo de carne.

Monge Gensho – Existem outras correntes que questionam isso, já temos literatura a esse respeito. O máximo que posso oferecer é meu exemplo pessoal: não como carne há mais de sessenta anos, meu pai era vegetariano, fui criado numa casa onde até o cachorro era vegetariano, pois naquela época não se dava ração e ele comia o resto da nossa comida. E lembro que quando viajávamos e deixávamos o cachorro com minha avó, quando voltávamos, ele estava gordo. O cachorro pode viver sem carne, mas é essencialmente carnívoro. Sua arcada dentária é completamente diferente da nossa, por exemplo, que é semelhante à dos macacos frugívoros, ou seja, que comem frutas. Não temos dentadura típica de um animal carnívoro; nossa mandíbula é diferente também, tem movimentos laterais que os carnívoros não tem. Mas o budismo não está focado nessa questão.

Aluno – Eu sei, só quis colocar uma questão minha, uma dificuldade que tenho. Meu projeto é ir tirando a carne, é uma coisa minha...

Monge Gensho - Muitos budistas se dirigem para isso por um sentimento de compaixão ou por responsabilidade planetária, porque setenta por cento do desmatamento é para virar área de pasto. Se a humanidade não comesse carne, sobrava comida amanhã, porque a maior parte dos grãos cultivados vira ração para o gado. Existem os extremos. Existem animais que comem vinte e seis quilos de grãos para a produção de um quilo de carne. Por isso a carne é tão cara. Então, como existe esta tradição nos mosteiros, muitos budistas têm essa tendência de ter uma responsabilidade social sendo vegetariano. Mas o budismo jamais defendeu essa posição como um item necessário, sempre se focou na mente, “um pragmatismo dialético de métodos psicológicos”, como disse Edward Conze. É isso que o budismo é, um método de libertação pessoal, mas não com regras desse tipo com relação ao mundo. Isso tem que ser desenvolvido internamente...

Aluno – Desenvolvido e evitado, né? Eu vejo por mim, pois no meu caminho de apenas dois anos no budismo, já vejo a necessidade de mudar meus hábitos alimentares, mas não pela saúde física, e sim pela compaixão. Eu tenho sonhado com bichos, tenho acordado com um sentimento de compaixão por bichos, pois nos sonhos eu sou sempre muito amiga dos animais. Então está sendo quase inevitável...

Monge Gensho – Agora, isso é uma mudança cármica, não é? Na realidade é uma mudança de carma, a pessoa vai mudando. Mas isso tem muitos aspectos na vida, em muitos aspectos você pode ser impactado por isso, mas nós só estamos aqui nesse tipo de mundo, nos manifestando como seres humanos, porque somos criaturas de desejo, de apegos e profundamente egoístas. Nós somos assim. A solidariedade e a compaixão pelo outro é algo que a gente desenvolve, e se você desenvolver muito terá dificuldade de voltar para esse mundo; como existem muitos mundos, quem sabe você renasce numa terra pura onde a prática seja mais fácil? Essa é uma escola que existe dentro do budismo – “a terra pura”. A terra pura é um lugar onde a bondade é mais freqüente. Renascer num lugar assim não me parece ser um mau objetivo; é um bom objetivo.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Palestra na SVB em Brasília


A Sociedade Vegetariana Brasileira, unidade de Brasília, promoveu uma palestra no Jardim Botânico, sobre Zen Budismo e suas tradições alimentares, em especial a cozinha vegetariana nos mosteiros. A Monja Noviça da Comunidade do Guará, Sodô San, esteve presente, e fomos presenteados com Bonsais, na foto todos ao lado de uma estátua de S. Francisco na entrada do Jardim.
Mais fotos de Amanda podem ser vistas aqui

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O modo de vida


Praticantes de Florianópolis na cozinha durante o Hanamatsuri de 2011

Vamos agora então ao quinto passo que é o modo de vida correto. O modo de vida correto, no entendimento de Buda, é uma maneira de viver e de sobreviver, que evita o sofrimento.
Naquele tempo Buda recomendou aos monges uma vida absolutamente desligada do mundo,
eu diria a vocês que ele tinha plena razão. Eu mesmo, tendo que trabalhar, agir como
consultor de empresas, gerir o restaurante, sou testemunha de que esse tipo de vida causa perturbações e preocupações, tudo isso tira algo da paz. É muito mais difícil ter paz vivendonum mundo onde existam dívidas, cobranças, processos, onde existe todo o tipo de conturbação. Buda tinha, então, recomendado aos monges e essa tinha sido a pratica durante alguns séculos, que os monges se mantivessem completamente alheios a sociedade. Não comerciassem, não trabalhassem, não guardassem dinheiro e apenas mendigassem sua comida. Eles sobreviviam da sangha. Esse modo de vida ainda existe em monges de algumas escolas do sul da Ásia, onde a mendicância é admitida. No momento em que o budismo entrou na China e em países mais frios, ao norte da Índia e sul da Ásia, a mendicância não era bem vista, não só isso, havia perseguição e os monges tiveram que se ocultar em montanhas e viver em comunidades reservadas, mosteiros.
No momento que se começou a viver em mosteiros eles tiveram que trabalhar, criou-se então uma ética do trabalho, uma cozinha, e essa está profundamente impregnada no Zen, porque o Zen foi para a China pelo século VII depois de Cristo e a maneira de viver passou a ser “dia sem trabalhar, dia sem comer”. Então para os monges não havia feriados, todos os dias tem trabalho, ou coletivo ou para si mesmo. Existe uma história de um mestre já em idade avançada, e os discípulos temerosos de que ele morresse em razão de sua dedicação ao trabalho, esconderam seus instrumentos. Imediatamente o mestre parou de comer. Os discípulos preocupados disseram: “Por favor, o senhor não comeu ontem, está se recusando a comer hoje” e ele respondeu, “Dia sem trabalho, dia sem comida”. Então os discípulos devolveram seus instrumentos de trabalho e ele voltou a comer.
( Trecho de palestra, Monge Genshô, decupada por Ápio San)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vegetarianismo budista


P: É necessário comer carnes?

R: Se fosse necessário eu estaria morto ou doente... Meu pai era vegetariano e não comi carnes toda a minha vida de 63 anos. Uma dieta com produtos de origem animal sem carnes,nem peixes, é perfeitamente completa, dizer o contrário é falta de informação nutricional em que incorrem mal preparados nutricionistas e médicos.
Os mosteiros zen tem há já 1400 anos uma tradição de comida estritamente vegetariana, desde que se estabeleceram na China, e sabe-se que os monges zen em mosteiros vivem longamente e com lucidez. O fato de o budismo não ser vegetariano como regra não altera estes fatos simples.

P: Como se sente aquele que é vegetariano e budista em relação a uma criança passando fome?

R: A pergunta tem sentido, mas precisamos aprofundar.

Podemos perceber que qualquer ampliação do eu em direção ao mais abrangente é um ganho de consciência. A prática é a ampliação, não importa onde começa: importa seu processo de expansão, porque uma vez iniciado abrangerá cada criança faminta e ser sofredor sem distinção.

Se alguém sente compaixão, ela será em todos os casos uma ampliação. Para alguns, a compaixão vai somente até os limites de seu próprio corpo. Para outros, abrange o seu próximo. Para a maioria, restringe-se àquilo que se vê; se não estiver vendo não se condói. Para outros, até os limites das fronteiras de seu país, de sua raça. É etnocêntrica e cessa com os diferentes; é fácil ver tais limites em ação nas guerras tribais e religiosas.

É muito difícil conhecer alguém que vê toda a humanidade como objeto de seus sentimentos. Para quase todos, a compaixão tem os limites da espécie humana, e não lhe dói um cavalo escravizado e o chicote que zumbe à frente da carroça. Tampouco os matadouros em que as 'Auchwitz' de animais funcionam. Para quem o planeta e suas pedras torturadas doem? E a finitude das estrelas entristece?

A dor por alguém de nossa espécie não desqualifica a compaixão por um animal, apenas demonstra até onde vai o limite da consciência. Quantos são incapazes de matar, mas permitem ou pagam para que outrem o faça? São mandantes e não se creem cruéis porque não agiram por suas mãos, apenas outorgaram procuração.

Quantos dizem não gostar de política, e deixam de influir nos destinos de seu povo deixando que outros decidam tudo por eles? Deixam que os outros decidam, até mesmo, os destinos das crianças de quem se apiedam, mas evitam olhar.

Assim, repita-se: qualquer ampliação do eu em direção ao mais abrangente é um ganho de consciência. Por esta razão, o voto do bodisatva fala em todos os seres sencientes como objeto da prática. Falharemos nesta incorporação inevitavelmente.

Mas ao fim, como ocorre com alguns monges que conheço, nenhum país, nem pessoa , nem comunidade, estará fora de seu objetivo. Essas pessoas percorrem o mundo em um permanente esforço de ampliação da compreensão para libertar todos os seres do sofrimento, por todos os meios possíveis, sacrificando, até o limite, seus próprios corpos. Isso porque sua compaixão quer abranger tudo que puder tocar.

Aí não há mais distinções estreitas para a mente iluminada, homem, criança, animal, ou rios e pedras.

Mas ao fim e ao cabo, a compreensão final mostrará a ilusão que mesmo o sofrimento carrega. É ilusão, mas dói naqueles que nela estão mergulhados. Por isso, os bodisatvas permanecem no mundo tentando acordar os seres até que este tempo cósmico se esgote. Eles sabem que o bem e o mal não existem, nem o certo nem o errado, nem a dor. Mas, para quem a sente, ela é angustiante e é uma alegria libertar qualquer ser de seu grilhão.

( Mais respostas podem ser encontradas em www.daissen.org.br na secção "Perguntas")

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Instituição no zen


Vista de terreno doado para construção de um monastério em Florianópolis.

Sempre tivemos uma natural divisão entre os que se ligam a instituição e os que seguem caminhos independentes, históricamente, no entanto, são as instituições que trouxeram o budismo até os dias de hoje, preservando os textos, transmitindo, impedindo os mais variados exageros, mas com o peso natural de suas burocracias e autoridades.
Os centros do Dharma em si, também são instituições. E vemos os benefícios de suas paredes, biblioteca e evidentemente sua organização.
Pessoalmente não vejo um bom caminho senão na vinculação com uma instituição séria, e no procurar os que foram bem formados dentro dela, minha experiência com grupos mais independentes e caóticos não foi boa, são justamente neles que se estabelecem as mais acirradas lutas por poder e a falta de diretrizes básicas acaba criando situações tristes e quebra dos preceitos.
Uma leitura caótica dos textos pode induzir a uma crença libertária sobre o budismo, no entanto os grandes mestres fundaram mosteiros, preservaram a ordem e a hierarquia e ainda escreveram muito.
Infelizmente lemos textos não originais e praticamente ninguém leu o Vinaya Pitaka.
Acho o debate interessante mas já resolvido pelo zen budismo, cuja tradição narra que no seu primeiro Concílio, foi Mahakasyapa escolhido como Primeiro Patriarca, e o zen preserva a linhagem e a recita justamente para que a legitimação e a instituição seja preservada. Buda também esmerou-se na criação do Vinaya, expulsando da ordem os que não aceitavam as regras, isto era chamado de Prajika, ou seja " derrota", quando não conseguimos seguir a ordem e as regras isto significa que fomos derrotados no caminho. É uma história de 2 600 anos, não imagino que discutiremos uma caminho consolidado a tanto tempo, mas, é claro, visões diferentes são naturais, muitas vezes já ocorreram, apenas não sobreviveram a prova do tempo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A forma - agindo como um tolo...

"No Japão, os Roshis não precisam se preocupar com ensinar a forma, pois a forma já está tão impregnada no ar que não há como o aluno não incorpora-la - há sempre os exemplos dos outros monges e sempais. Além do mais, quando o aluno vai para o mosteiro, vai aprender a forma - e, possivelmente, alcançar algumas realizações.

Vamos olhar para a nossa informalidade ocidental - in-forma - sem forma - caos. Para a nossa prática, podemos adotar a forma que quisermos, mas o uso da forma me parece de extrema importância no Zen, pois é na forma que vivemos as nossas vidas, é na forma que lidamos com as pessoas e com os objetos é que vamos manifestar a nossa compreensão e iluminação. Diferentes escolas usam formas diferentes de atingir os mesmos objetivos - de libertar o aluno da mente condicionada e, espera-se, leva-lo a manifestar isto na vida diária. A Iluminação em si, sozinha, não basta - como transporta-la para o mundo da forma - eis a nossa prática.

A insegurança - é algo que todo 'novato' passa no mosteiro - já em si vira um treinamento fantástico - como ficar bem no meio da insegurança? Como fluir, e estar em paz, no meio da confusão? Como realizar as atividades com plena atenção, adaptando-se a cada instante? Como ficar livre do ego e orgulho, da mente mundana, que não quer errar ou passar vergonha e simplesmente fazer o seu melhor naquele exato momento? Como agir - fazer as atividades do dia-a-dia - com a mente iluminada e não com a mente condicionada e robotizada? Uma das maneiras de distinguir primeiro anistas dos mais graduados no mosteiro é exatamente como eles lidam com esta insegurança e com os imprevistos... Sim, temos licença para sermos 'tolos' - como diz no sutra "Em segredo e misteriosamente, agindo como um tolo, atuando como um bobo, apenas o capaz de herdá-lo é chamado de mestre entre os mestres'. Temos licença de "simplesmente" sermos nós mesmos, minuto após minuto - mas este ser nós mesmos é algo muito profundo e não tão 'simples' quanto parece à primeira vista."

Monja Isshin