Mostrando postagens com marcador Nova. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nova. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Vidas e sua sucessão



Pergunta – Essa história dos carmas que passam para as próximas vidas eu consigo entender claramente, mas ainda é difícil para mim, entender essa questão do budismo não ver o indivíduo se repetir em outras vidas, como que uma coisa se relaciona com a outra? Sei que na outra vida não serei eu, mas a essência é a mesma.

Monge Genshô – Sim. Mas isso pode acontecer agora. Vamos supor que você, Glenda, é sozinha e está fazendo uma viagem em outro país, sofre um acidente e perde completamente a memória. A Glenda não existe mais na sua mente, mas naquela localidade onde você foi encontrada sem memória você é aceita, as pessoas cuidam de você, lhe dão um emprego e como você não se lembra de seu nome eles à chamam de Bárbara. Você não se lembra de sua vida pregressa, a vida da Glenda, mas ainda tem os mesmos desejos e apegos. Você é Bárbara. Tirando somente a memória, existe Glenda ou existe Bárbara? Glenda não existe mais. Todos na sua vida de Glenda pensam que você morreu. Podemos ou não dizer que é mesmo “eu”? Para que você diga “eu Glenda”, precisa ter memórias de Glenda. Após dez anos de Bárbara você só tem memórias de Bárbara, amigos de Bárbara, novo marido, filhos, toda uma nova história, agora de Bárbara. É uma continuação da Glenda, mas o “eu” é outro. Por falar nisso, agora você é Glenda, qual era seu nome na sua vida passada? Não lembra, não é? O nosso “eu” é uma construção, quando nascemos não sabemos qual nosso nome, aos poucos vamos sendo ensinados, aprendemos nosso nome e o nome de nossos pais. Qual a diferença entre uma história e outra? Praticamente nenhuma. Na história você é Bárbara porque não tem as memórias de Glenda e agora você é Glenda, pois não tem as memórias de sua vida passada.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Eus e reencarnação


Pergunta – O fato de não nos lembrarmos de nossas vidas passadas tem uma função, não é?

Monge Genshô – Podemos pensar desta forma. Desde o momento que não há um “Eu”, pois este é uma construção, não há ninguém para carregar uma memória. Se houvesse um portador de memória, haveria a continuidade de um “Eu”.

Pergunta – Posso supor depois das suas explicações que existe reencarnação?

Monge Genshô – De quem? Se não existe um “Eu” como pode haver reencarnação? Se memórias não permanecem, reencarnação de quê? O que reencarnaria? Reencarnação é uma palavra que não serve ao Budismo. Reencarnação significa que um “Eu” carrega uma nova vida e ganha uma nova carne. Se dizemos que não há almas ou espíritos e que as memórias desaparecem com a morte, então o que há para reencarnar? Só restam impulsos, que é o que chamamos de carma, o movimento do universo. Esse movimento produz novas identidades, novos seres. É o carma que produz manifestações, não são as manifestações que carregam carmas. Essa definição cabe ao espiritismo onde um espírito carrega carma e vai ganhando novos corpos e é dessa definição que vem também a noção de missões, resgates e um progresso permanente. Prefiro falar em nova manifestação cármica, outros professores em renascimento. 
No Budismo nem mesmo essa noção de progresso permanente existe, pois você pode regredir. É muito fácil destruir sua vida, você pode nascer numa condição muito boa, boa família, bom emprego, bom casamento. Mas basta você se viciar em drogas e poderá acabar perdendo tudo isso. Outro detalhe é que os universos são cíclicos e nada é permanente, nada irá durar para sempre.  Há continuidade mas não de um eu.

Pergunta – Eu penso na questão da fé, que é uma questão cultural e social. Acreditar no que “a priori”, não pode ser comprovado ou investigado...

Monge Genshô – A proposta do Budismo é outra, não se trata de fé e sim de uma grande dúvida. Não tenho nenhuma solução para lhe dar e, portanto, você não tem onde se agarrar. Você está sozinho, sem anjos ou deuses pra lhe ajudar e em suas mãos está o poder de construir seu próprio caminho. O que posso te oferecer no Zen é um método de treinamento.

Pergunta – Mas a doutrina do carma, se é que pode ser chamado assim, não é uma questão de fé?

Monge Genshô – Não. Veja bem, você poderia me apontar um efeito sem causa?

Pergunta – No mundo fenomênico não.

Monge Genshô – Então você sabe que não existe causa sem efeito, essa é a maior declaração de Buda a respeito do carma. Carma significa ação. “Carma Vipaka” é “fruto da ação”. Se você encontra cacos de uma xícara no chão, irá concluir que alguém deixou cair, os cacos são frutos de uma ação. O carma não precisa de fé, ele é auto evidente, ação e consequência. A definição de fé é a firme convicção em algo que não se vê ou ouve, ou seja, acreditar em algo sem qualquer evidência. Para o Budismo isso não faz qualquer sentido. “Teste”, disse Buda, “se funcionar para você, está ótimo”.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Feitiço do tempo



Mas se você puder alcançar um esclarecimento perfeito e iluminado, não precisará retornar. Retornar para cá e repetir sem parar sempre a mesma coisa é um castigo. Parece bom, não é? Mas pense. Não escapar, estar preso a repetir sem fim sempre o mesmo tipo de vida, morrer, nascer e recomeçar tudo novamente. Existe um filme muito interessante chamado “O Feitiço do Tempo”, onde o personagem se vê obrigado a repetir todos os dias sempre o mesmo dia, ou seja, todos os dias são iguais, acontecem as mesmas coisas. Após alguns dias o que é que ele mais deseja? Morrer. Ele tenta várias vezes se matar e acorda sempre repetindo o mesmo dia. É a mesma coisa que acontece conosco. Acordamos e repetimos, morremos e repetimos. Não é que a vida tenha só sofrimentos, ela tem também coisas boas e alegres, mas termina muito mal. Todos nessa sala iremos morrer, sou um condenado à morte falando para condenados à morte.

Todos os dias quando me olho no espelho posso perceber o trabalho da morte, os cabelos e os dentes caindo, a pele enrugando e a fisionomia se transformando. Outro dia mostrei minha foto com vinte anos de idade para uma amiga e ela deixou escapar, “Mas o senhor era bonito”. Cada dia que passa estamos mais perto da morte. Cada um de nós está caindo de um precipício com uma corda amarrada ao pescoço, só não sabemos o comprimento da corda. Por isso o que devemos fazer com nossa mente, ou seja, transformá-la, exige certa urgência. O personagem do filme depois de mudar sua mente é que consegue escapar. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Como se liberar dos ciclos da existência?



Pergunta – De onde vêm os agregados que compõem a nossa existência? E qual a diferença entre a percepção e a consciência?

Monge Genshô – Está merecendo uma resposta Zen. Os agregados surgem da sua mente. 

Vou explicar um pouquinho mais:
Os agregados só estão se manifestando sob a forma do corpo  porque sua mente guarda impulsos de desejos e apegos tais que, obrigatoriamente, se manifestam no mundo. Então os agregados surgem do carma, da energia cármica, que faz com que haja uma manifestação. Esta manifestação que surge, em última análise, da ignorância. Mas não se preocupe, em absoluto, porque  tudo que é composto, tudo que é agregado, está sujeito à desagregação e decomposição. Você irá morrer e se decomporá, portanto, não precisa se preocupar.

Pergunta – Mas e quando surge novamente outra existência, quando os agregados se dissolvem...

Monge Genshô – Se os impulsos continuarem farão, obrigatoriamente, surgir uma nova manifestação.

Pergunta - E o que faz os impulsos não continuarem?

Monge Genshô - Muito boa pergunta. Como fazer para os impulsos não continuarem? Se você conseguir fazer com que sua mente esgote seu carma e você se vir livre de todos os desejos, de todos os apegos, de todas as paixões, se você conseguir extinguir isso através da iluminação, não haverá energia para uma nova manifestação cármica. Somente então, você estará realmente livre dos ciclos de nascimento e morte. Estará liberada. Será um Buda.

Palestra em BH, na sede do Nalanda, decupada da gravação por Chudô San.
(Fim)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Reencarnação - Uma palavra estranha no budismo




P. Por isso então que é confundido com reencarnação?
P.Sim, reencarnação, este termo implica que há uma alma que é verdadeira, a pessoa que simplesmente toma um outro corpo, no conceito budista não é isto, o karma manifesta por suas características uma outra identidade que tem as mesmas características, mas a nova identidade se sente única como cada um de vocês se sente único agora, ah, não eu sou único, pode ser que numa vida passada você em vez de Marly foi Joana, mas a Joana era muito parecida com a Marly, mesmo tipo de temperamento, caráter, angústia, mesmas coisas, se não resolvemos levamos para a frente, sempre repetindo como nas nossas vidas agora, nós tendemos a repetir os mesmos tipos de erro durante a vida, veja se não é verdade, examinem suas vidas, ah, fiz tal coisa, fiz um relacionamento assim, assim, deu errado por causa disso, aí você repete o ciclo, um pouco diferente, mas são as mesmas coisas que você vai repetindo porque você não mudou o seu karma, mas se você muda a sua mente, automaticamente o karma muda porque uma nova mente com outra maneira de ver as coisas é diferente, age diferente, gera karma diferente, se você muda nesta vida a maneira de ver as coisas, sua mente também faz coisas diferentes, de outra forma, e não repete o erro anterior, é muito importante a mente com a qual nós morremos, se você consegue até o momento da sua morte levar uma determinada mente isto vai influenciar muito o que vai acontecer depois, a próxima manifestação kármica, a próxima identidade, é complexo ensinar isso desta forma sofisticada e muitas vezes fica mais fácil e inclusive para professores budistas simplesmente falar em reencarnação ...


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Mapa da nova sede em Florianópolis


Mapa da nova sede, agora com 3 banheiros, zendô, templo, biblioteca e loja, quarto de monges e vestiário, cozinha, copa, depósito de materiais, lavanderia, estacionamento para carros gratuito a 5o m, ar condicionado. Próximo ao centro.

Pergunta – Uma coisa em que eu penso muito é sobre o consumo da carne. Não é mais somente uma coisa de propaganda. Antes eu pensava que era um hábito de família. Mas se formos observar a pirâmide alimentar dos nutricionistas, a base é carne e derivados de animais. Se for ao médico, ele lhe dirá para comer carne. Meu pai, por exemplo, ficou anos sem comer carne, então teve um problema de saúde, e o médico o assustou tanto, que ele voltou a comer carne. Existe algo além da mídia, é algo da ciência equivocada mesmo.

Monge Gensho – O que existe é um sistema de crenças, e ele irá variar. Por exemplo, nós sabemos que nos mosteiros Zen budistas, desde o tempo da China - ou seja, há mil e quatrocentos anos - se desenvolveu uma cozinha vegetariana, porque não se podia matar e na China a mendicância era proibida. O resultado final dessa cultura é que no Japão, por exemplo, o consumo de carne é uma coisa recente, tem apenas cento e poucos anos. Antes disso, comer carne era uma coisa absurda. Comiam bastante peixe, mas jamais carne de caça ou de bois e porcos. O resultado disso foi a longevidade; a tradição nos mosteiros Zen é de longevidade com lucidez, e dificilmente você vê alguém gordo, pois ali comem muitos vegetais e grãos.

Aluno - Parece que todo o modelo de consumo leva para a carne, não existe um financiamento de pesquisa contra o consumo de carne.

Monge Gensho – Existem outras correntes que questionam isso, já temos literatura a esse respeito. O máximo que posso oferecer é meu exemplo pessoal: não como carne há mais de sessenta anos, meu pai era vegetariano, fui criado numa casa onde até o cachorro era vegetariano, pois naquela época não se dava ração e ele comia o resto da nossa comida. E lembro que quando viajávamos e deixávamos o cachorro com minha avó, quando voltávamos, ele estava gordo. O cachorro pode viver sem carne, mas é essencialmente carnívoro. Sua arcada dentária é completamente diferente da nossa, por exemplo, que é semelhante à dos macacos frugívoros, ou seja, que comem frutas. Não temos dentadura típica de um animal carnívoro; nossa mandíbula é diferente também, tem movimentos laterais que os carnívoros não tem. Mas o budismo não está focado nessa questão.

Aluno – Eu sei, só quis colocar uma questão minha, uma dificuldade que tenho. Meu projeto é ir tirando a carne, é uma coisa minha...

Monge Gensho - Muitos budistas se dirigem para isso por um sentimento de compaixão ou por responsabilidade planetária, porque setenta por cento do desmatamento é para virar área de pasto. Se a humanidade não comesse carne, sobrava comida amanhã, porque a maior parte dos grãos cultivados vira ração para o gado. Existem os extremos. Existem animais que comem vinte e seis quilos de grãos para a produção de um quilo de carne. Por isso a carne é tão cara. Então, como existe esta tradição nos mosteiros, muitos budistas têm essa tendência de ter uma responsabilidade social sendo vegetariano. Mas o budismo jamais defendeu essa posição como um item necessário, sempre se focou na mente, “um pragmatismo dialético de métodos psicológicos”, como disse Edward Conze. É isso que o budismo é, um método de libertação pessoal, mas não com regras desse tipo com relação ao mundo. Isso tem que ser desenvolvido internamente...

Aluno – Desenvolvido e evitado, né? Eu vejo por mim, pois no meu caminho de apenas dois anos no budismo, já vejo a necessidade de mudar meus hábitos alimentares, mas não pela saúde física, e sim pela compaixão. Eu tenho sonhado com bichos, tenho acordado com um sentimento de compaixão por bichos, pois nos sonhos eu sou sempre muito amiga dos animais. Então está sendo quase inevitável...

Monge Gensho – Agora, isso é uma mudança cármica, não é? Na realidade é uma mudança de carma, a pessoa vai mudando. Mas isso tem muitos aspectos na vida, em muitos aspectos você pode ser impactado por isso, mas nós só estamos aqui nesse tipo de mundo, nos manifestando como seres humanos, porque somos criaturas de desejo, de apegos e profundamente egoístas. Nós somos assim. A solidariedade e a compaixão pelo outro é algo que a gente desenvolve, e se você desenvolver muito terá dificuldade de voltar para esse mundo; como existem muitos mundos, quem sabe você renasce numa terra pura onde a prática seja mais fácil? Essa é uma escola que existe dentro do budismo – “a terra pura”. A terra pura é um lugar onde a bondade é mais freqüente. Renascer num lugar assim não me parece ser um mau objetivo; é um bom objetivo.