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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Liberdade e ofensa
É um erro declarar que liberdade não inclui a liberdade de ofender, afinal quem decidirá o que é ofensa ou não? Como dissociar esta declaração de uma defesa da censura prévia? Mesmo que algo seja absolutamente de mau gosto e pornográfico qual será o tribunal a decidir isto? Como teremos imprensa livre se cada grupo e religião tem seus critérios à respeito do que é ofensivo ou não? Eu posso saber no meu quadro referencial mas e quanto ao quadro referencial dos outros?
Um mulá islâmico tem uma idéia bem diferente de um padre do que é insulto a fé. Se queremos uma imprensa livre não poderemos ter censura de espécie alguma, se houver injúria, difamação ou calúnia elas devem ser tratadas a luz da lei de reparações posteriores. Qualquer um que pretenda restringir isto apelará para seu quadro referencial e tentará impor seus valores aos outros, isto é o fim da liberdade tão duramente conquistada pela civilização.
Para um budista não há nada que precise ser visto como insulto, somos nós que nos ofendemos, os outros emitem sons que nós interpretamos como tal, um cão a ladrar com fúria nada mais é que um emissor de sons. Não há sentido em reagir com um murro a quem ofenda com palavras nossa mãe, não dar importância alguma é uma resposta mais sábia.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Quando você a manifesta a raiva cresce
Pergunta – Quando surge um sentimento de raiva, o que é o melhor a fazer? Essa é uma grande dificuldade, controlar a raiva.
Monge Genshô – Você não deve tentar vencer pelo controle, isso é uma má técnica, pois o controle sempre falha. Você tem que investigar de onde vem a raiva e descobrindo a raiz poderá matar essa planta. É muito bom não manifestar a raiva, mas você deve ser capaz de perceber quando ela surge e detectar sua origem. Geralmente vem do orgulho, ou seja, essa pessoa está incomodando meu orgulho, então a raiva não nasce da pessoa que me ofende e sim de dentro de mim. Sou eu quem faço o sentimento existir. Tenho que descobrir dentro de mim a raiz que sustenta o sentimento que estou projetando sobre outra pessoa. Não são os outros que nos perturbam e sim nós que nos perturbamos com os outros.
Pergunta – Sim, entendo, só que parece que se eu não explodir a situação fica pior, pois vou continuar sentindo. Mesmo sabendo que é um sentimento inútil, ele continua presente.
Monge Genshô – Essa é outra ilusão. Se você o manifesta ele não irá diminuir, mas sim aumentar. A coisa funciona mais ou menos assim: você me diz algo que me causa raiva e eu respondo levantando minha voz. Você então retruca levantando ainda mais a voz. A cada resposta sua minha raiva se alimenta. A cada resposta e contra resposta o sentimento dos dois aumenta podendo chegar até mesmo à agressão física, ou seja, o que era ruim só piorou e as consequências cármicas são ainda maiores. Do ponto de vista Budista você não deve manifestar. Existem alguns momentos que merecem indignação e reação, mas você pode fazer isso sem raiva, sem perder a lucidez e sem levantar a voz. Tendo compaixão pela pessoa que faz algo errado. O que precisa é treinar como fazer.
Pergunta – Sim, eu tenho a compreensão, mas minha questão é como chegar na raiz e não deixar que ela obscureça.
Monge Genshô – Se você souber de onde vem é um grande começo. De onde vem? Por exemplo, se alguém me ofende, quem se ofende? Quem é esse que se ofende? O “eu”. E quem é o “eu”? Uma construção. Se o “eu” não está presente, quem pode ser ofendido? Algo que ajuda muito é pensar que tudo será esquecido e que tanto você quanto quem o ofende irá morrer. Não importa. Você pode olhar para a pessoa que o ofende e pensar: “quanta besteira ela irá morrer e eu também”.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Inconsciente e controle
Pergunta: O zazen ajuda a demolir o ego. O que acontece com o inconsciente? O que ficou gravado vem à tona e sentimentos como a cólera que estavam escondidos mostram quem você é. Posso com o tempo também trabalhar o que ficou lá no fundo?
Monge Genshõ: Tudo aquilo que você chamou inconsciente...o budismo nem usa esta palavra, ele usa outra abordagem. Ele diz que nós criamos automatismos, energias de hábito que vieram de longe e que estão impregnados em nós. Nós podemos mudar estes automatismos e essas energias de hábitos com muitas estratégias. A primeira óbvia é o mero controle. Simplesmente quando surge aquela energia conseguir parar para não agir. Pelo menos não agir com o corpo, pelo menos não agir com a boca, embora você saiba que todos os sentimentos surgiram dentro de você e você ferveu.
Controle sempre vai falhar porque se as energias estão lá dentro em algum momento mesmo que você tente se controlar em algum momento você explode. A verdadeira prática é identificar de onde surgem esses sentimentos e deixá-los perderem sua força. Por que surge por exemplo a raiva? Normalmente porque o seu eu foi ameaçado em algo, por exemplo na sua vaidade, no seu orgulho. Você foi insultado e você reage com raiva. Então quem é que alimenta a raiva? A noção de um eu.
Se você conseguir perceber que a identidade é falsa e construída não tem mais ninguém para ser ofendido e quando a ofensa acontecer ela simplesmente não toca em você porque não tem ninguém ali, quem é que vai reagir? Então a maneira certa é essa: demolir a sua identidade vai tirar toda a energia do automatismo e energias de hábito.(Lembre que o eu é necessário para transitar no mundo, mas que ele é uma fantasia) Eles são construídos mesmo que estejam tão fortemente enraizados que estejam no que você chamou de inconsciente. Se você praticar corretamente seus sonhos mudarão. Isso eu posso testemunhar para vocês. Os sonhos mudam. Em vez de você ter sonhos normais, você tem sonhos Dhármicos. Em vez de você reagir com raiva você no sonho reage com afeto, com compaixão, então você sabe que está realmente funcionando o seu treinamento. Se você tem sonhos de que morre e tem medo, no dia que você sonhar que está acontecendo a situação de morte e você sente apenas paz então você fez seu treinamento chegar lá na base dos seus automatismos, aquilo que você chamou de inconsciente.
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