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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Atravessar o primeiro portal



O portal a nossa frente começa, assim, a abrir-se. Uma pequena fresta poderá nos mostrar a luz do outro lado da porta, nossa intenção é atravessar o portal, mas só o faremos se o merecermos. Não existe um ritual, uma roupa ou mestre que possa abrir o portal para você. Só você pode passar o portal. E esse portal implica não em um engrandecimento pessoal, mas em um apagar da consciência pessoal para integrar-se à dimensão suprema. Para enxergar a dimensão suprema. O resultado disso é abandonar toda a dimensão histórica, quem perde a dimensão histórica e penetra na dimensão suprema não nasce nem morre mais, porque ele engoliu a eternidade.

Pergunta – Me veio a mente a famosa frase de Descartes, “Penso, logo existo”, o senhor poderia falar um pouco sobre essa frase sob o ponto de vista budista?

Monge Genshô – Esse é na verdade o erro de Descartes. “Cogito, ergo sum”. Assim ele começa seu Discurso do Método. Descartes queria transformar tudo em plena lógica e raciocínio. Então à pergunta, “como sei que existo?”, ele responde, “penso, logo existo”. Do ponto de vista do Zen a frase estaria mais correta dessa forma, “penso, logo, penso”, apenas porque penso, a única coisa que posso dizer de quem pensa é que pensa, do ponto de vista do Zen, porque ele pensa ele pensa que existe, a frase de Descartes cristaliza a ilusão. Ele não percebeu que pensar é que constrói a noção de um eu. Porque eu percebo ouço e vejo, porque eu penso, então eu acredito em mim. Essa é nossa verdadeira tragédia. Porque ao fazer isso e acreditarmos em nós mesmos, perdemos a dimensão suprema, porque acreditarmos em nós mesmos é a perdição do homem. Ela está oculta em muitos mitos e metáforas. Na tradição judaico-cristã o homem come, no paraíso, do fruto de uma árvore. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesse mito a metáfora é que para o homem perder-se do paraíso ele toma consciência da dualidade e começa a pensar, porque o pensamento é dual, é dessa forma que ele funciona, bem e mal, certo e errado, gosto e não gosto, direita e esquerda, toda nossa linguagem é construída dessa forma, em pares de opostos.

Quando o homem começa a mergulhar nessa questão, ele deixa de ser o Adão do Éden, é expulso do paraíso e para que não retorne é colocado um anjo na porta com uma espada flamejante. Por que ele não pode ficar? Porque ele começou a pensar a dualidade. Tornou-se, como diz o Gênesis, como os deuses, conhecedor do bem e do mal. Na mitologia Budista os deuses estão perdidos, os deuses não estão libertos, eles acreditam em si mesmos. Alguns se crêem tão poderosos que acreditam que criaram mundos. Nessa dimensão tudo passa pela ilusão de acreditar em sua separação e perder-se da dimensão suprema. A libertação é retornar, abandonar o pensamento dual, o raciocínio, a distinção, bem e mal, gosto e não gosto e retornar para a dimensão suprema.

(Final da palestra em sesshin de 7 de setembro 2012, realizada pelo Rev. Genshô e decupada da gravação por Chudo San.)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Mundos em uma almofada de meditação



P. Dentro da lógica Budista para passar para um outro mundo, o mundo dos deuses ou dos semi-deuses não teríamos que acreditar no divino?
R. Mas como eu expliquei estes mundos já estão aqui, eu disse você pode entrar neste mundo agora  na sua almofada.

P. Mas parece que tem um guardião no limiar...
R. Estas são imagens esotéricas, guardiões de portais etc são imagens esotéricas que o Budismo não usa. Isso é uma imagem para explicar, para fazer um acesso qualquer você precisa passar por determinadas condições, mas as condições estão acessíveis ali na sua almofada, na sua almofada você tem condições para entrar em qualquer dos mundos porque as chaves estão dentro da sua mente, os guardiões são os obstáculos mentais que você mesma tem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Portais do Dharma



"Os portais do Dharma são incontáveis, eu faço o voto de penetra-los", significa atravessa-los, transpo-los para uma nova realidade/etapa, da sabedoria. No entanto cada portal tem uma dificuldade que é seu guardião, e cobra do praticante uma senha/compreensão para ser transposto.
A situação pode parecer assim: primeiro o praticante se sente encantado com a promessa de alcançar algo com a prática, depois a prática torna-se árida mas ele tem uma ambição e por isso persiste, a seguir ele nota que teve ganhos mas parece que não avança mais e recai em erros que pensava que já tinha superado, idealizava a si mesmo, desanima, se queixa ao professor, que insiste que ande sem desistir, ele tenta e de repente , sem aviso, tem uma experiência maravilhosa, durante algum tempo há um entusiasmo, mas a seguir parece que não avança mais e tudo recomeça, no entanto ele não é mais o mesmo, sequer pode retornar, ele atravessou um portal e não se pode retornar a ignorância anterior, só se pode mirar para o próximo portal, e eles são incontáveis.

sábado, 30 de maio de 2009

Daissen, Portal do Zen


O Daissen, Portal do zen, tem um blog em sua primeira página, nele voluntários colocam textos de mestres que acham relevantes, vejam este:

Zagche
A palavra tibetana para emoção é zagche que significa “contaminado” no sentido de ser permeado por confusão e dualidade

NÓS naturalmente vemos certas emoções, como agressão ou inveja, como dolorosas. Mas e o amor, afeto, bondade e devoção, estas emoções bonitas, leves e amáveis? Nós não pensamos nelas como dolorosas; contudo, elas implicam dualidade, e isto significa que,no final, elas são uma fonte de dor.

A MENTE dualista inclui praticamente todos os pensamentos que temos. Por que isto é doloroso? Toda mente dualista é uma mente enganada, uma mente que não entende a natureza das coisas. Como podemos entender a dualidade? Ela é sujeito e objeto: nós de um lado, e a nossa experiência do outro. Este modo de percepção está enganado porque, no caso de diferentes pessoas. percebemos o mesmo objeto de diferentes maneiras. Um homem pode achar que uma certa mulher é bonita, e isto é a sua verdade. Se isto fosse uma espécie de verdade absoluta e independente, todo mundo também a veria como bonita. Com certeza esta não é uma verdade que independe de todo o resto. Ela depende da sua mente; é a sua própria projeção(as emoções não têm uma existência real inerente).

SEMPRE que há uma mente dualista, há esperança e medo. A esperança é dor perfeita e sistematizada. Tendemos a pensar que a esperança não é dolorosa, mas, na verdade, é uma grande dor. Quanto à dor do medo, isto é algo que não precisa de explicação. Muitos de nós confundimos a dor com o prazer – o prazer que temos agora é, de fato, a causa da dor que vamos ter, mais cedo ou mais tarde. Uma outra maneira de ver isto é quando uma dor grande diminui, nós a chamamos de prazer. Isto é o que chamamos de felicidade.

ESTE é o motivo pelo qual, por exemplo, se faz meditação comtemplativa(sem foco) – isto ajuda a afrouxar o nó que as nossas emoções fizeram, e as obsessões que temos por causa delas.
("Buddhismo em poucas palavras" de Dzongsar Khyentse Rinpoche - tradução:Lucas Seigaku)