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quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Cortar a raiz
5) Eu vejo muita dificuldade em cortar a raiz.
Saikawa Roshi – Eu vi num noticiário que há um conflito no Paquistão. Alguém deu um coração da filha morta para transplante. Se você assim o desejar pode dar o coração para qualquer pessoa, mesmo seu inimigo. O problema é o conceito de inimigo que o impede.
** Comentário de Monge Genshô – O que Roshi está querendo dizer é que se amanhã judeus e palestinos perdessem suas memórias, seus conceitos, tudo estaria resolvido, pois quando se olha para uma pessoa sem saber sua nacionalidade ou religião, elas são iguais.
Os ensinamentos de Buda tentam disseminar paz e harmonia ensinando a ver a realidade, ver a raiz da realidade. Costumamos dizer que nascemos, nós não nascemos, é a vida que nasce, porem a vida não nasce do nada, é pura transmissão, na verdade sua vida é infinita. É difícil viver no mundo dessa maneira, as pessoas não entenderiam, pois esse mundo é dualista. Por isso dizemos “eu nasci em tal data”.
6) Eu não entendo muito bem essa parte, nós já existíamos antes como parte do todo, ou passamos a existir a partir da união dos pais?
Roshi – Shakyamuni Buda foi perguntado sobre passado e futuro e ele não deu resposta. Algumas poucas vezes ele respondeu em outras ficou em silêncio. Para nós o que importa é esse momento, prestar atenção somente a esse momento é o que realmente importa.
** Comentário de Monge Genshô – Sua pergunta seria, “eu existia separado antes de meus pais”? Esse é o desejo do ego, ter existência própria. Ter existido antes e continuar a existir depois.
A separação existe, eu sou separado de Genshô e ele é separado de mim e de vocês. E somos todos diferentes. Esse mundo é dualístico. Mas ao ver a divisão você perde de vista a unidade.
7) Embora já existíssemos antes, o momento da concepção é quando se juntam pai e mãe, então, como é isso de verdade? Existíamos antes, mas passamos a existir de fato no momento da concepção, como isso funciona?
Roshi – Essa idéia de eu e os outros é que não é boa. Não há eu e os outros, começo ou fim. Se você entende como nascimento, você irá morrer. Mas no círculo não existem nascimentos ou mortes, em todos os pontos há nascimento e há morte, então de verdade não há nascimento ou morte, vida ou destruição.
** Comentário de Monge Genshô – O que ele está explicando é que na dimensão histórica existem nascimento e morte, vida e destruição, certo e errado, bom e ruim. Mas na dimensão suprema não, é como ele acabou de explicar no Sutra do Coração, na parte em que nega a existência de tudo, no mundo do Dharma nada é puro ou impuro, nada nasce ou morre, justamente para que não surja esse tipo de pergunta, não existe começo ou fim. Onde estava você antes das duas células se juntarem?
O koan, “qual a sua face antes de seus pais nascerem?” parece falar sobre passado e futuro, mas não é isso. Quase todos os koans não podem ser respondidos através da mente racional e dualística. É impossível. Se você se concentrar nesse koan não conseguirá respondê-lo com sua mente racional. Para respondê-lo você deve entrar no mundo não dual. O koan irá guiá-lo para o mundo não dual.
** Comentário de Monge Genshô – De certa forma, seus avós e seus pais estão aqui. Roshi please, Do you understand? It’s ok?
Roshi – Anyway it’s ok, I don’t understand. (De qualquer jeito está bem, eu não entendo mesmo)
(Final)
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Tudo sempre esteve e estará contido
A relatividade do mundo diz que a terra na mão do oleiro se transforma em vaso e que o vaso irá um dia quebrar, se transformar em cacos e jogado fora, uma vez na natureza será reciclado para quem sabe um dia novamente seja transformado em vaso. No mundo absoluto, tudo sempre esteve contido, o vaso sempre foi argila, a argila sempre foi terra, sempre foi caco, tudo sempre foi, aqui na Terra, a mesma coisa.
Nós todos somos seres constituídos de hidrogênio, oxigênio, ferro, cálcio, carbono, estamos há muito tempo no universo. Todos os nossos agregados estão por aí há muito tempo, mesmo antes da Terra existir, há bilhões de anos. Somos reciclagem. Essa reciclagem é o relativo e nosso absoluto é nossa eternidade, pertencemos ao universo e, neste sentido, somos eternos. Precisamos integrar essas duas visões e ver a identidade do relativo com o absoluto, relativo e absoluto são uma coisa só.
Todo esse fluxo de mudanças constantes é nossa relativa existência, em termos absolutos é a própria dimensão suprema. Eterna. Temos olhos somente para a dimensão histórica, o passado o hoje e o amanhã, e para as dores e sofrimentos do mundo relativo. Quando você percebe o absoluto, todo sofrimento desaparece assim como desaparece nascimento e morte, sabedoria e ignorância. Nosso grande desafio é andar no mundo relativo conscientes do mundo absoluto. Saber que andamos no mundo e que estamos aqui praticando e nos esforçando, mas que na verdade já somos seres potencialmente iluminados, apenas ainda não percebemos nossa possibilidade. Ela está disponível.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés
Porque temos uma mente que pensa, pensamos “eu sou”. Por isso Descartes disse, ”penso logo existo”. Para o Budismo a frase correta é, “Penso, por isso penso que existo”. Somos uma ilusão ambulante com um cérebro fabricando continuamente a noção de um “eu”. Por estarmos continuamente fabricando a noção de um “eu” nos perdemos da interconexão, interdependência e da unidade de todas as coisas.
Voltando à analogia da onda. Somos uma onda e não percebemos que somos mar. As ondas surgem e desaparecem, o mar não. As pessoas ficam tristes quando vêem uma onda morrer na beira da praia? Não, as pessoas olham o mar e dizem -”Que lindo”. Quando as pessoas olham as ondas quebrando, elas vêem o mar e sua verdadeira natureza, e sabem que as ondas são manifestações que surgem e desaparecem na sua superfície, sempre retornando a ser mar, a única realidade verdadeira. A dimensão suprema do oceano é o próprio oceano. As ondas vivem numa dimensão histórica, surgem e desaparecem, surgem e desaparecem continuamente. Isso é muito claro sobre o mar, não é? Mas não é igualmente claro sobre nós mesmos.
Vemo-nos como ondas, pensamos que existimos e temos medo de morrer na beira da praia. Porque não nos vemos como o próprio oceano, perdemos de visão nossa verdadeira natureza, só percebemos nossa natureza temporária, que surge e desaparece, sofremos e temos medo de morrer. Por termos esse medo e essa angústia existencial, inventamos religiões. As religiões existem para dar uma crença na continuidade do “eu”. Por isso inventamos almas e espíritos imortais. As religiões sempre fizeram isso. Os egípcios mumificavam seus corpos para sobreviver à morte. Os gregos acreditavam que após a morte os bons iriam para uma ilha onde a comida caía do céu e poderia se passar tempo discutindo filosofia. Para os Vikings o céu era uma eterna guerra de muitas batalhas e saques. Em todas as religiões há uma solução para salvar o “eu” após a morte.
O Budismo não se encaixa facilmente como uma religião porque não tem nenhuma crença desse tipo para oferecer. O Budismo lhe diz: “Você está iludido e estou aqui para puxar o tapete de baixo de seus pés”.
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Criaturas de sonho
Tudo dentro do vazio é assim, “sem nada”.
Sem “mundo da visão”, ou “campo da visão”. Sem “mundo da consciência”, sem ignorância, sem fim da ignorância, sem velhice, sem morte e sem fim à velhice e morte, sem sofrimento, sem causa, sem extinção e sem caminho, sem sabedoria, sem ganho e sem nenhum ganho.
Como os fenômenos não são mais do que sonhos, e aparências, na verdade, nada neles é concreto, só tem a consistência de um sonho. Na realidade o Sutra está dizendo que cada um de vocês é um fenômeno sem uma consistência real, são só uma manifestação histórica aparente. Mas, nesta unidade, não existem.
É só borbulho. Surgem e desaparecem, mas eles não são reais. Na dimensão suprema não são reais. O Sutra está falando na dimensão suprema, não na dimensão histórica. Nesta, estamos aqui falando, existindo, etc. estamos aparentemente separados. Mas, na dimensão suprema, nós não somos separados, só parece que somos. Na realidade, é como se gotas do oceano achassem que são separadas mas estão todas juntas, misturadas, e fazem o oceano.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Atravessar o primeiro portal
O portal a nossa frente começa, assim, a abrir-se. Uma pequena fresta poderá nos mostrar a luz do outro lado da porta, nossa intenção é atravessar o portal, mas só o faremos se o merecermos. Não existe um ritual, uma roupa ou mestre que possa abrir o portal para você. Só você pode passar o portal. E esse portal implica não em um engrandecimento pessoal, mas em um apagar da consciência pessoal para integrar-se à dimensão suprema. Para enxergar a dimensão suprema. O resultado disso é abandonar toda a dimensão histórica, quem perde a dimensão histórica e penetra na dimensão suprema não nasce nem morre mais, porque ele engoliu a eternidade.
Pergunta – Me veio a mente a famosa frase de Descartes, “Penso, logo existo”, o senhor poderia falar um pouco sobre essa frase sob o ponto de vista budista?
Monge Genshô – Esse é na verdade o erro de Descartes. “Cogito, ergo sum”. Assim ele começa seu Discurso do Método. Descartes queria transformar tudo em plena lógica e raciocínio. Então à pergunta, “como sei que existo?”, ele responde, “penso, logo existo”. Do ponto de vista do Zen a frase estaria mais correta dessa forma, “penso, logo, penso”, apenas porque penso, a única coisa que posso dizer de quem pensa é que pensa, do ponto de vista do Zen, porque ele pensa ele pensa que existe, a frase de Descartes cristaliza a ilusão. Ele não percebeu que pensar é que constrói a noção de um eu. Porque eu percebo ouço e vejo, porque eu penso, então eu acredito em mim. Essa é nossa verdadeira tragédia. Porque ao fazer isso e acreditarmos em nós mesmos, perdemos a dimensão suprema, porque acreditarmos em nós mesmos é a perdição do homem. Ela está oculta em muitos mitos e metáforas. Na tradição judaico-cristã o homem come, no paraíso, do fruto de uma árvore. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesse mito a metáfora é que para o homem perder-se do paraíso ele toma consciência da dualidade e começa a pensar, porque o pensamento é dual, é dessa forma que ele funciona, bem e mal, certo e errado, gosto e não gosto, direita e esquerda, toda nossa linguagem é construída dessa forma, em pares de opostos.
Quando o homem começa a mergulhar nessa questão, ele deixa de ser o Adão do Éden, é expulso do paraíso e para que não retorne é colocado um anjo na porta com uma espada flamejante. Por que ele não pode ficar? Porque ele começou a pensar a dualidade. Tornou-se, como diz o Gênesis, como os deuses, conhecedor do bem e do mal. Na mitologia Budista os deuses estão perdidos, os deuses não estão libertos, eles acreditam em si mesmos. Alguns se crêem tão poderosos que acreditam que criaram mundos. Nessa dimensão tudo passa pela ilusão de acreditar em sua separação e perder-se da dimensão suprema. A libertação é retornar, abandonar o pensamento dual, o raciocínio, a distinção, bem e mal, gosto e não gosto e retornar para a dimensão suprema.
(Final da palestra em sesshin de 7 de setembro 2012, realizada pelo Rev. Genshô e decupada da gravação por Chudo San.)
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Buscando a experiência
Não há movimento em nós, não precisa existir, se pararmos esse movimento e apenas refletirmos, o que não significa não pensar, mas sim estar além do pensar e não pensar, então refletiremos a dimensão suprema. Esquecendo de nós mesmos, mergulhando na dimensão suprema, nós seremos o próprio universo, entenderemos a natureza dos deuses, seremos indestinguíveis dos deuses porque, ao morrermos para nós, permitiremos que a dimensão suprema se manifeste.
É essa nossa tarefa no sesshin, por isso não desperdice o sesshin com palavras vãs ou pensamentos tolos, não permitam que sua mente critique e julgue, não interprete, aceite tudo como vem, como vai acontecendo, cada um está sozinho no sesshin, o professor não pretende arrastar carismaticamente nem liderar as pessoas. A ambição do Zen é libertar. Libertar-nos de nossa própria ilusão. Toda a técnica e o ambiente do Zen foi concebida dessa forma, para estarmos conscientes dos momentos presentes, calarmos nossos pensamentos e aprendermos profundamente sobre nós mesmos.
Todos somos iniciantes, também sento e me vem pensamentos, deixe-os passar isto nunca cessará completamente. O que precisamos é de experiência de momentos de dimensão suprema. Dessa forma sentamos e lutamos para ter lapsos de dimensão suprema, para enxergamos a dimensão suprema, esquecermos de nós mesmos, se tivermos lapsos de dimensão suprema não precisamos de fé alguma, e ninguém precisará acreditar no Budismo, pois trata-se de uma experiência, simplesmente sente e experimente, se você vir um lapso da dimensão suprema você saberá que ela existe e assim poderá aprofundar essa experiência, fazendo com que seja mais prolongada através do treinamento, da insistência e da prática continuada, então, em vez de segundos, você terá centenas de segundos, minutos. Até que um longo samadhi se estabeleça.
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Surgindo e desaparecendo
Hoje andamos na praia e vimos os restos de conchas, milhões de restos de conchas. Andamos em cima deles ouvindo-os crepitarem. Alguém se entristeceu pelas mortes dos habitantes das conchas? Não, porque sabemos que surgem constantemente moluscos que habitam as conchas, quando morrem seus restos chegarão à praia e viram parte integrante da areia, é o fluxo normal desse mundo, sempre surgindo e desaparecendo, mas o que está atrás é a dimensão suprema, resta que olhemos para nós mesmos e percebamos que esta noção de eu que nós temos, que surge quando estamos sentados em zazen ( meditação zen) através do fluxo dos pensamentos, é pura ilusão, um sonho, e por estarmos sonhando o sonho de nossos pensamentos, sonhamos uma existência particular. Mergulhados nesse sonho tão nítido deixamos de perceber nossa dimensão suprema e nossa dimensão suprema é como a dos moluscos, dos ventos e das ondas, sempre surgindo e desaparecendo, não há nenhum eu nela.
Nós não existimos por nós mesmos, também somos movimento, se percebermos que somos movimentos, treinamos sentados em zazen não cogitar mais, parar esse fluxo e refletir o universo em volta com a perfeição de um espelho que não critica ou julga, que não pensa “o que surge na minha frente é bonito ou feio”, o espelho somente reflete sem nenhuma consideração. Sentados em zazen, sem qualquer consideração, ouvimos o pássaro cantar e refletimos, nós somos este fenômeno.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Dimensão histórica, dimensão suprema
Todos nós assim como as ondas, os ventos e as xícaras somos surgimentos e manifestações na dimensão suprema. Todos temos uma dimensão histórica. A onda surge e desaparece, tem um antes e um depois. O vento, a xícara e nós homens também. Nossa tragédia e nosso sofrimento é que não vemos nossa dimensão suprema. Olhamos para a dimensão histórica e pensamos que ela é tudo que existe. Pensamos que uma pessoa nasce e morre, surge e desaparece, e nos entristecemos ou nos alegramos. Mas quando olhamos os outros fenômenos da natureza, aos quais não somos tão ligados, e vemos que surgem e desaparecem, que são uma manifestação contínua e infindável de surgimentos e desparecimentos, então aí, vemos a dimensão suprema.
Vemos a dimensão suprema do mar, surgem e desaparecem as ondas, não nos alegramos nem nos entristecemos porque sabemos que o mar se manifesta desta forma. Esse ano vemos as baleias no mar aí em frente, no ano que vem novamente estarão aqui, até que as baleias ou a Terra desapareçam. Surgirão todos os anos. É a mesma baleia? Não sabemos. Sabendo que existem e surgem baleias não nos preocupamos se é a mesma baleia ou não. Apenas vemos seu espetáculo. Mesmo que elas em si tenham uma dimensão histórica nós as vemos como quem vê a dimensão suprema.
Olhamos para o mar como quem vê a dimensão suprema. O que falta é olharmos para nós mesmos é vermos a manifestação, que somos também a dimensão suprema. Se olharmos para os homens e virmos a dimensão suprema, perceberemos que eles não nascem nem morrem, não surgem nem desaparecem. Nós somos a própria dimensão suprema, livres de nascimento e morte. Se enxergarmos a dimensão suprema na nossa própria vida e em toda a vida humana, toda a angústia existencial desaparecerá como por encanto. Estamos apenas brincando de surgir e desaparecer. É como se fossemos participantes de um grande jogo do universo, um jogo de esconde-esconde.
(continua)
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
A xícara existe por si mesma?
Xícaras com arte de Claudio Miklos (Monge Kômyô) Disponíveis em www.daissen.org.br
A nossa maior dificuldade é perceber que nosso eu é construído completamente, nossas infelicidades são construídas por nossos pensamentos. Sobre o passado por arrependimento e por memórias, ou sobre o futuro por imaginações, expectativas e ambições. Nós construímos um eu e suas infelicidades e angústias com esses pensamentos. Se conseguirmos jogar fora todos eles e sentarmos aqui e esquecermos, penetraremos na dimensão suprema. A dimensão suprema mostra que todas as coisas surgem dela e nenhuma tem um eu ou uma existência própria. Tudo que julgamos como um eu ou existência própria é atribuído, não é verdadeiro.
Essa xícara foi construída com barro, forma e cozida num forno. Tornou-se uma xícara. Nós olhamos para ela e a chamamos de xícara. Ela funciona no mundo e contem chá. Mas a xícara ela existe por si mesma? Não. Para que ela seja uma xícara é necessário que haja barro, oleiro, forno, esmalte e mais do que isso é necessário um ser que olhe para ela, veja sua utilidade e diga “xícara”. Esse que olha para ela enxerga sua utilidade de conter o chá, que a chama de xícara é quem faz com que ela tenha uma identidade.
Nós, de forma muito mais complexa, também somos assim. Surgimos da dimensão suprema e como manifestações da dimensão suprema. Então nos manifestamos nesse mundo de forma histórica e temporária. Voltando a analogia da onda e do vento. Estes fenômenos surgem no ar ou na água e não existem por si mesmos, são manifestações. Nós que acreditamos em nós mesmos, na nossa consciência e em nosso eu, somos manifestações dessa consolidação de pensamentos, confundimos o fluxo dos nossos pensamentos como uma identidade separada. Confundimos esse fluxo com um eu. A xícara parece um ser separado e existente por si mesmo, dizemos xícara e somos capazes de nos entristecer se ela cair no chão e quebrar. Se for antiga e tiver pertencido a nossa avó e tivermos atribuído a ela um determinado significado, ficaremos entristecidos ao vê-la quebrar. Mas onde existe a xícara? Só na nossa memória e mente ela pertenceu a nossa avó. Só no nosso aprendizado do que é uma xícara ela tornou-se uma xícara. Só por a concebermos como receptáculo é que ela é uma xícara. Para um ser primitivo que jamais viu uma xícara ela não seria nada. Se eu der a xícara para minha cadela, ela pensará que é um brinquedo, morderá, e se conseguir quebrá-la, pegará seus cacos e espalhará pelo jardim, porque para ela uma xícara não é uma xícara. A xícara só existe na mente de quem a entende como receptáculo, e olha para ela e a transforma com sua percepção e mente. É fácil entendermos isso sobre a xícara, mas difícil entendermos isso sobre os outros seres.
A nossa maior dificuldade é perceber que nosso eu é construído completamente, nossas infelicidades são construídas por nossos pensamentos. Sobre o passado por arrependimento e por memórias, ou sobre o futuro por imaginações, expectativas e ambições. Nós construímos um eu e suas infelicidades e angústias com esses pensamentos. Se conseguirmos jogar fora todos eles e sentarmos aqui e esquecermos, penetraremos na dimensão suprema. A dimensão suprema mostra que todas as coisas surgem dela e nenhuma tem um eu ou uma existência própria. Tudo que julgamos como um eu ou existência própria é atribuído, não é verdadeiro.
Essa xícara foi construída com barro, forma e cozida num forno. Tornou-se uma xícara. Nós olhamos para ela e a chamamos de xícara. Ela funciona no mundo e contem chá. Mas a xícara ela existe por si mesma? Não. Para que ela seja uma xícara é necessário que haja barro, oleiro, forno, esmalte e mais do que isso é necessário um ser que olhe para ela, veja sua utilidade e diga “xícara”. Esse que olha para ela enxerga sua utilidade de conter o chá, que a chama de xícara é quem faz com que ela tenha uma identidade.
Nós, de forma muito mais complexa, também somos assim. Surgimos da dimensão suprema e como manifestações da dimensão suprema. Então nos manifestamos nesse mundo de forma histórica e temporária. Voltando a analogia da onda e do vento. Estes fenômenos surgem no ar ou na água e não existem por si mesmos, são manifestações. Nós que acreditamos em nós mesmos, na nossa consciência e em nosso eu, somos manifestações dessa consolidação de pensamentos, confundimos o fluxo dos nossos pensamentos como uma identidade separada. Confundimos esse fluxo com um eu. A xícara parece um ser separado e existente por si mesmo, dizemos xícara e somos capazes de nos entristecer se ela cair no chão e quebrar. Se for antiga e tiver pertencido a nossa avó e tivermos atribuído a ela um determinado significado, ficaremos entristecidos ao vê-la quebrar. Mas onde existe a xícara? Só na nossa memória e mente ela pertenceu a nossa avó. Só no nosso aprendizado do que é uma xícara ela tornou-se uma xícara. Só por a concebermos como receptáculo é que ela é uma xícara. Para um ser primitivo que jamais viu uma xícara ela não seria nada. Se eu der a xícara para minha cadela, ela pensará que é um brinquedo, morderá, e se conseguir quebrá-la, pegará seus cacos e espalhará pelo jardim, porque para ela uma xícara não é uma xícara. A xícara só existe na mente de quem a entende como receptáculo, e olha para ela e a transforma com sua percepção e mente. É fácil entendermos isso sobre a xícara, mas difícil entendermos isso sobre os outros seres.
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
A construção do "Eu sou"
O tema de nossa palestra é A Dimensão Suprema. Gostaria de repetir mais profundamente algumas palavras que disse quando estávamos iniciando o sesshin. Uma onda não existe por si mesma, não tem um eu próprio. Uma onda não existe por si mesma porque ela é movimento na água. O vento também não existe por si mesmo. O vento é um movimento do ar. O vento movimenta a água. Nossa mente, nosso eu, também não existe por si mesmo. Nossa mente e nossa consciência são movimentos de nossos pensamentos. Porque existem pensamentos, percepções e formações mentais, existe consciência. Nossa consciência, que confundimos com nosso eu, é o movimento de nossos pensamentos. Tal como a onda que é um movimento na água, interdependente, que não existe por si mesma e que precisa da água para existir, tal como o vento, que é um movimento do ar, interdependente, que não existe por si mesmo e necessita do ar para existir, nossa mente precisa dos nossos pensamentos, percepções e formações mentais para formar uma consciência de si mesma, e aí diz “Eu sou”. Então nós não existimos por nós mesmos. Somos o resultado de um movimento, que é o movimento de nossos pensamentos. Somos profundamente agarrados a essa percepção, completamente ancorados nela.
Estamos aqui para olhar para a verdadeira dimensão dessa percepção. Sentamos em meditação e vemos a turbulência de nossa mente, pensamentos que se apresentam um após o outro. Mesmo que o professor diga, “sentem em zazen, voltem para cá, para o momento presente, ouçam o som do mar, os pássaros, janelas batendo, um espirro, ouçam o que está acontecendo, esqueçam suas considerações e julgamentos, não cogitem sobre o passado, não pensem sobre o futuro, não se angustiem por um futuro que ainda não existe, não criem imaginações sobre coisas do amanhã, isso que nos dá ansiedade e angústia, insegurança, pode ser completamente diferente do que imaginamos, amanhã pode acontecer um evento que mude tudo em nossa vida. Para o bem ou o mal você não sabe, até porque mesmo essa divisão entre bem e mal não passa de pensamento. Você não sabe, não pode classificar se é bom ou ruim.” Se não imaginamos um futuro que ainda não existe e não elaboramos sobre um passado que já se foi e ficamos aqui com uma mente atenta plenamente ao momento presente, buscamos essa experiência, então, nessa experiência nós esvaziamos as cogitações desse eu construído.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012
Palestra sobre a Dimensão Suprema no Jisui Zendô
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quinta-feira, 2 de julho de 2009
Fazendo zazen

Fazendo zazen calmamente no dojo
Colocando de lado todos os pensamentos negativos
Obtendo nada além de uma mente sem desejos
Esta alegria está além do paraíso
O mundo corre atrás de fama e honra
Roupas bonitas e conforto
Mas estes prazeres não são a verdadeira paz
Você corre e permanece insatisfeito até a morte
Vista o kesa e o quimono preto e pratique o zazen
Concentre-se com determinação,
Quer esteja quieto ou em movimento
Veja com seus olhos a profunda sabedoria interior
Observe e conheça intimamente
O verdadeiro aspecto de toda ação e de toda a existência
Seja capaz de observar o equilíbrio
Compreenda e conheça com uma mente que está totalmente calma
Se você é assim
Sua dimensão espiritual,
A mais elevada no mundo,
Estará além de qualquer comparação
Kodo Sawaki Roshi (1880 - 1965)
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