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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Analogias tem limites


P: Podemos ficar levando questões para o zazen?

Monge Genshô:  Você pode, mas não raciocinar no zazen. Você tem uma questão, você faz zazen. Ela continua lá, rodando inconscientemente, não com sua mente racional. Aí, você vai resolver num estalo, de repente achará a resposta. Mas não é através de raciocínio. Os problemas são resolvidos não por pensar, mas por não pensar. Os problemas normalmente são ligados à emoção, não à razão. As verdadeiras grandes questões, são ligadas à emoção. Assim só podem ser resolvidos com a intuição. 
A percepção dessas coisas eu posso explicar, mas se explicar resolvesse, não teria sentido o “vazio é forma e forma é vazio”. As analogias tem limites, elas tem obstáculos, chega um momento que elas não funcionam mais. Você vai sofisticando a pergunta e a analogia não ajuda mais.
 Porque ainda, a água é uma “coisa” e daí na analogia  a água é uma coisa e o vazio seria como a água e aí eu “reifiquei” o vazio, exatamente o que eu disse que não se podia fazer. Porque no vazio  não existe um substrato que sustenta todos os outros ou que é a origem dos fenômenos. Não é assim. O vazio não é isso. Por isso a analogia tem um limite claro. Só serve até determinado ponto. E depois deste ponto é uma dificuldade se a pessoa ficar agarrada na analogia.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Coração e razão




Aluno – Por isso que eu penso que quando a gente vai tomar uma decisão, tem que estar muito seguro, muito certo sobre o que vai decidir.

Monge Genshô - E como estar certo? Você não sabe. Você só sabe depois. E mesmo assim, é um saber suposto, porque você não sabe realmente como seria se você não tivesse tomado a decisão. Temos uns amigos que estão tentando migrar para a Austrália, estamos observando o que pode acontecer; talvez eles consigam. A grande diferença será para seus filhos pequenos, eles sofrerão, não é fácil fazer isso. Nossos antepassados fizeram; gente muito corajosa.

Aluno – Mas fizeram por causa da situação...

Monge Genshô – Sim, a situação  estava insuportável. Eu conheci um monge Zen que era dentista no Brasil e foi para o Japão, depois de dez anos voltou ao Brasil e tentou se estabelecer novamente no país. Ele disse que quando era monge no Japão não precisava pensar em nada, porque a instituição estava toda organizada, não precisava se preocupar com a conta da luz, da água, com nada. No Brasil, tinha que arrumar dinheiro para morar, comer, pagar água, luz. “Não agüento mais, como vou viver no Brasil?” perguntou-se ele. O resultado é que retornou ao Japão. Era impossível para ele viver no Brasil, ele havia se tornado monge da instituição. Aqui é diferente, pois somos monges que temos que trabalhar, é muito mais difícil ser monge, nessa situação. Talvez em algumas décadas seja diferente, talvez tenhamos nossa instituição, o monastério. Talvez haja, no futuro, a possibilidade de morar no monastério, de só realizar algumas tarefas, como, por exemplo, quem for morar no templo irá trabalhar na cozinha. 

Pergunta – Existe um ditado que diz que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Isso significa que a razão é mais forte do que o coração? Ou às vezes isso é invertido?

Monge Gesnhô – Observando seres humanos ao longo da vida, tenho constatado que o coração é mais forte que a razão. É raro que a razão esteja acima.
A essência do que estamos falando talvez seja, “nós temos a capacidade de mudar nosso carma?” Temos, mas não é fácil, precisa haver grande empenho e esforço. Ocorre, ao se tomar uma decisão, do carma mudar muito. Quando aceitei ser monge, isso mudou muito minha vida. Não mudou inteiramente, mas mudou um aspecto: me deu um ideal. Se não fosse isso, eu estaria simplesmente trabalhando e tentando ganhar dinheiro. Talvez sentisse que a vida fosse vazia, porque a gente precisa ter ideais para sentir a vida mais plena.

 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Se eu fosse para um mosteiro...



Pergunta - E onde entra o que chamamos de intuição?

Monge Genshô – A intuição é, na realidade, um conjunto de coisas. Sentimentos, percepções do passado, um conjunto nebuloso dentro de sua mente que lhe dá uma sensação a respeito de algo. Se fossemos tabular as questões intuitivas, você veria que seus resultados são aleatórios. Algumas vezes dá certo, outras, dá errado. É mais de acordo com a lei das probabilidades mesmo. Aquilo que consideramos intuição também não é confiável. Estou dizendo que o coração não é confiável, a razão não é confiável, a intuição não é confiável, que é melhor deixar o fluxo da vida correr, observando e agindo como você puder. Mas é muito importante não tentar impor aos outros nossas crenças ou convicções, sentimentos, ou razões. Você não sabe.

Pergunta – Então, escolhemos uma vida, vivemos uma vida?

Monge Genshô – Na realidade, vivemos uma vida arrastados por condições cármicas, é o carma que nos conduz.  Isso me faz lembrar o momento em que eu quis ser monge. Naquela época estava trabalhando como consultor e viajando demais – fazia mais de duzentas viagens de avião por ano. Sentia-me muito cansado e com dores nas costas. Um dia, parei no Rio de Janeiro e conversando com um monge Zen, reclamei da dor nas costas. Como ele fez acupuntura, me perguntou sobre o que eu andava fazendo, então respondi que fazia duzentas viagens de avião por ano. “Mas, afinal, o que você quer?” Foi a pergunta que ele me fez e que é, na verdade, um grande questionamento. Algum tempo depois, procurei Igarashi Roshi e disse-lhe que eu queria ser monge. Eu pensei que sendo monge estaria escapando da minha vida de empresário e consultor, consequentemente, das viagens. Ele então me perguntou, “por que?”, ao que respondi “minha vida é tumultuada e acredito que o melhor caminho para mim seja o de ser monge”. Então ele me disse, “você está muito enganado, não vai solucionar nada. Eu sou monge e viajo de um lado para o outro, quero construir um mosteiro em um lugar, ajudar uma pessoa em outro, tenho que pegar avião, tenho que viajar, reunir dinheiro para fazer as coisas. Meus problemas são iguais aos seus”. Voltei para Porto Alegre e um amigo que trabalhava junto comigo conseguiu uma sala e me pediu que o ensinasse a fazer meditação. Depois de dois anos já tínhamos uma sede: fechamos uns boxes no estacionamento e fizemos um zendo. No terceiro ano Igarashi Roshi me ligou perguntando o que eu estava fazendo e disse que iria me visitar para me ordenar monge. O resultado é que além de continuar a fazer tudo o que eu já fazia, ainda tive que assumir mais o compromisso com uma Sangha. Então eu penso que isso é carma mesmo, não tem jeito. Isso é freqüente, você julga que vai escapar da vida e pensa “ah, se eu saísse daqui e fosse para um monastério me livraria de todos os problemas da vida!” Não é assim, você conseguiria treinar determinadas coisas, mas sua vida continua com você. Eu tenho essa convicção: meu caminho é ter família, ser monge, trabalhar. Muito provavelmente morrerei assim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Escolhemos uma vida?


Pergunta - E onde entra o que chamamos de intuição?

Monge Gensho – A intuição é, na realidade, um conjunto de coisas. Sentimentos, percepções do passado, um conjunto nebuloso dentro de sua mente que lhe dá uma sensação a respeito de algo. Se fossemos tabular as questões intuitivas, você veria que seus resultados são aleatórios. Algumas vezes dá certo, outras, dá errado. É mais de acordo com a lei das probabilidades mesmo. Aquilo que consideramos intuição também não é confiável. Estou dizendo que o coração não é confiável, a razão não é confiável, a intuição não é confiável, que é melhor deixar o fluxo da vida correr, observando e agindo como você puder. Mas é muito importante não tentar impor aos outros nossas crenças ou convicções, sentimentos, ou razões. Você não sabe.

Pergunta – Então, escolhemos uma vida, vivemos uma vida?

Monge Genshô – Na realidade, vivemos uma vida arrastados por condições cármicas, é o carma que nos conduz. Outro dia estava conversando com minha filha e disse, “poxa, sempre volto à questão de fazer algum empreendimento... tenho mais de sessenta anos e continuo me envolvendo em algum empreendimento”. Não consigo escapar desse carma. Isso ocorre desde os meus vinte anos, e hoje sou monge mas sempre tem algo nesse sentido; agora é o monastério, antes era o restaurante para subsidiar a sangha; tem sempre um empreendimento. E os empreendimentos naturalmente perturbam, porque há tarefas e muitas coisas envolvidas. Isso me faz lembrar o momento em que eu quis ser monge. Naquela época estava trabalhando como consultor e viajando demais – fazia mais de duzentas viagens de avião por ano. Sentia-me muito cansado e com dores nas costas. Um dia, parei no Rio de Janeiro e conversando com um monge Zen, reclamei da dor nas costas. Como ele fez acupuntura, me perguntou sobre o que eu andava fazendo, então respondi que fazia duzentas viagens de avião por ano. “Mas, afinal, o que você quer?” Foi a pergunta que ele me fez e que é, na verdade, um grande questionamento. Algum tempo depois, procurei Igarashi Roshi e disse-lhe que eu queria ser monge. Eu pensei que sendo monge estaria escapando da minha vida de empresário e consultor, consequentemente, das viagens. Ele então me perguntou, “por quê?”, ao que respondi “minha vida é tumultuada e acredito que o melhor caminho para mim seja o de ser monge”. Então ele me disse, “você está muito enganado, não vai solucionar nada. Eu sou monge e viajo de um lado para o outro, quero construir um mosteiro em um lugar, ajudar uma pessoa em outro, tenho que pegar avião, tenho que viajar, reunir dinheiro para fazer as coisas. Meus problemas são iguais aos seus”. Voltei para Porto Alegre e um amigo que trabalhava junto comigo conseguiu uma sala e me pediu que o ensinasse a fazer meditação. Depois de dois anos já tínhamos uma sede: fechamos uns boxes no estacionamento e fizemos um zendo. No terceiro ano Igarashi Roshi me ligou perguntando o que eu estava fazendo e disse que iria me visitar para me ordenar monge. O resultado é que além de continuar a fazer tudo o que eu já fazia, ainda tive que assumir mais o compromisso com uma sangha. Então eu penso que isso é carma mesmo, não tem jeito. Isso é freqüente, você julga que vai escapar da vida e pensa “ah, se eu saísse daqui e fosse para um monastério me livraria de todos os problemas da vida!” Não é assim, você conseguiria treinar determinadas coisas, mas sua vida continua com você. Eu tenho essa convicção: meu caminho é ter família, ser monge, trabalhar. Muito provavelmente morrerei assim.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Desenvolva sua intuição - Sesshin



ABRA SUA INTUIÇÃO

“O objetivo do sesshin é desenvolver a prática estável. No sesshin, não há comunicação com palavras, mas o fato de estar com outras pessoas é um grande estímulo. A comunicação verbal tende a ser superficial, mas quando não há fala, uma comunicação mais profunda será estimulada entre todos, e sua mente se tornará muito sutil. Ficar em silêncio abrirá sua intuição.
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Portanto, para abrir sua natureza inata e sentir algo do fundo do coração, é preciso permanecer em silêncio. Por esse tipo de prática, você terá uma compreensão mais intuitiva do ensinamento. Não conversar não significa ficar surdo e mudo, mas ouvir sua intuição.
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Apenas sente-se e veja o que acontece. Tente manter a postura correta, de acordo com as instruções, seguindo as regras. Seguir as regras permite que vocês se encontrem. As regras permitem que vocês saibam que horas são, quando comer e como caminhar. Se não houver regras e ninguém cuidando de vocês é bastante difícil praticar. Assim as regras serão de muita valia. É muito melhor do que não ter nenhuma regra e sentar-se num canto durante cinco dias sem fazer nada. As regras não são algo para limitá-los, mas algo para dar amparo à sua prática.”

SUZUKI, SHUNRYU. Nem sempre é assim: praticando o verdadeiro espírito do zen. São Paulo : Religare, 2003. Págs. 103-104.