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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Linhagens femininas


Pergunta – Quando fazemos cerimônias, recitamos os nomes dos patriarcas. Por que não temos nenhuma matriarca, apesar de no budismo não haver a distinção dos gêneros?

 Monge Genshô – Não é verdade. No tempo de Buda tivemos Prajnapati, que era sua tia, e que foi uma grande mestra. Ela juntou-se à Buda com um grupo de amigas dando origem a uma grande linhagem feminina. Acontece que por volta do século XIII a Índia sofreu uma invasão islâmica que destruiu praticamente a base budista existente na época, as monjas foram mortas, este foi um dos eventos que marcou uma decadência do budismo indiano, em outras regiões linhagens femininas permaneceram, mas ao menos no budismo Theravada, no japonês e tibetano as linhas femininas se extinguiram com o tempo.

Também a universidade de Nalanda foi destruída. Muitos monges também foram assassinados, mas, como por uma questão cultural, sempre houve mais monges que monjas, elas foram extintas, acabando assim com a base contínua de transmissão de monjas. A partir de então as monjas passaram a ser ordenadas nas linhagens masculinas ao menos no zen. Não temos nenhuma monja cuja linhagem nos leve a Prajnapati no zen japonês. Por isso falei que não é verdade, já tivemos no passado uma linhagem feminina.

Linhagens Theravada do sul da Ásia, não consideram as monjas como plenamente ordenadas. Eles as consideram inferiores por não terem linhagens femininas e por não considerar que elas possam ser ordenadas em linhagens masculinas. Há controvérsias e tentativas de recriar isto no Theravada mas não com unanimidade.


Pergunta – Mas por que Bodhidharma não transmitiu para uma mulher?

Monge Genshô – Ele só passou a transmissão para uma única pessoa, que por acaso era homem, “Taiso Eka”. A sociedade dessa época era muito machista, de forma que era natural acontecer coisas do tipo, uma mulher era ordenada monja, mas seu pai ia até o mosteiro dizendo que seu filho homem havia morrido e ele necessitava que sua filha lhe desse um neto para continuar o nome da família. O abade do mosteiro mandava que a monja saísse do mosteiro, casasse e desse um neto para seu pai.  No Japão de hoje existem apenas dois monastérios exclusivamente femininos.

Pergunta – A linhagem não é uma exclusividade do Zen?

Monge Genshô – Não, varias escolas possuem linhagens, veja que Nagarjuna, que aparece na nossa linhagem, também aparece na linhagem de outras nove escolas, ou seja, mais nove escolas o reivindicam como patriarca do passado.

Pergunta – Como reagir com as pessoas que nos perguntam algo sobre o budismo? Eu pratico há pouco tempo, mas as pessoas notam algumas mudanças e fazem perguntas e pelo que o senhor fala devemos ter cuidado com quando e como falar do Dharma.

Monge Genshô – Essa é uma pergunta pessoal, no sentido que é você quem deve examinar a circunstância, mas a regra é: não fale do Dharma onde não há respeito. Não fale apenas para satisfazer a curiosidade de uma pessoa, espere que ela esteja realmente interessada, que pergunte mais de uma vez, pelo menos três vezes. Não fazemos proselitismo e não estamos interessados em convencer ninguém. As pessoas devem realmente querer, devem procuram com afinco.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Pacifismo e militarismo


4) Uma vez vi em uma entrevista, um repórter perguntar ao Dalai Lama o por quê do Tibete, sendo um país tão pacífico, sofrer tanto nas mãos dos Chineses e o Dalai Lama respondeu que o Tibete tem carma para isso. Esse é um exemplo de carma coletivo?

Monge Genshô – Exatamente. Se você renascer no Tibete, é porque tem carma para isso. Com tudo o que o Tibete já foi, ele já teve um povo guerreiro e conquistador. Transformou-se em povo pacífico? Sim. Mas carma de povo pacifico é ser dominado por povos agressivos. Uma coisa interessante que acontece na história humana é que nenhuma cultura de fundo matriarcal sobreviveu, com exceção feita àquelas isoladas em ilhas. Porque as características dessas culturas é não serem guerreiras. As culturas guerreiras patriarcais destruíam as matriarcais. Isso aconteceu também na história Budista, como por exemplo, o Tibete.

O Budismo nunca sobreviveu aos confrontos armados. No século XIII os islâmicos invadiram a Índia e destruíram o Budismo, universidades muito mais antigas que as da Europa, como a Universidade Nalanda com 10 mil alunos que foram queimadas e os monges mortos. Na China, o budismo também foi destruído e no Tibete atual o budismo está em processo de destruição, tudo através da força. Como o budismo tem uma marca pacífica e tende a fazer com que seus povos sejam pacíficos e não militares, no confronto, é destruído.

As pessoas dizem que no Japão foi diferente e o Budismo sobreviveu. No Japão houve certa associação com o Shintoísmo e durante um período de paz foi possível esse crescimento. Foi no período “Tokugawa”, durante trezentos anos de isolamento. Quando o império japonês foi se militarizando e entrando em confrontos com o ocidente, na restauração “Meiji” em 1868, surgiu uma pressão para restaurar o Shintoísmo como religião nacional, porque ela fazia do imperador um Deus e permitia o militarismo. O budismo havia transformado os samurais, que eram guerreiros, em pessoas sensíveis capazes de escrever poesias, pintar e fazer arranjos de flores. O imperador, com o objetivo de enfraquecer o budismo, tratou de baixar éditos. Muitos destes éditos tiveram efeito positivo em seu objetivo de fazer renascer o Shintoísmo enfraquecendo o budismo, o resultado foi um Japão militarizado que se lançou em guerras, primeiro contra a Rússia, na década de trinta contra a China e depois a Segunda Guerra Mundial.

Bom, voltando à origem de nossa discussão, o pacifismo não sobrevive aos confrontos com o militarismo. Doutrinas como a Budista só sobrevivem em locais pacíficos, democráticos e com liberdade. É muito provável que o que está acontecendo agora em Bangladesh, onde os budistas são minorias e os templos estão sendo queimados é que o budismo vá desaparecer, talvez não totalmente, mas nesse confronto o lado pacifista, no caso o budismo, irá perder. Com certeza não leremos noticias de um grupo de budistas queimando templos muçulmanos, não existe um suporte doutrinário que torne os budistas guerreiros, melhor morrer que matar.

5) Dentro desse tema, melhor morrer que matar, não seria legítimo eu lutar pela minha vida?

Monge Genshô – Sim, é legítimo que você lute por sua vida. Mas carmicamente é melhor morrer. Nagarjuna, grande mestre do século I que pertence à nossa linhagem, foi assassinado. Ele foi esfaqueado e seus discípulos que o encontraram sangrando, perguntaram quem havia feito aquilo. Sua resposta foi - “eu mesmo”. Seus discípulos sabendo da impossibilidade de Nagarjuna ter cometido tal ato, perguntaram novamente. “Fui eu através de meu carma, se eu disser quem fez isso, vocês odiarão e irão querer vingança e esse carma não terá fim”. Ninguém jamais ficou sabendo quem matou Nagarjuna e também ninguém foi perseguido ou morto por causa disso.