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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Um grão de mostarda



Meses atrás soube que um neto meu com um ano e oito meses de idade está com câncer. Isso não significa que eu pense que posso solicitar ajudas sobrenaturais, mas sim que ele deve ser internado, fazer quimioterapia e que todos à sua volta sofrerão.  O que devemos fazer com a dor e o sofrimento? Vivê-los e enfrentá-los completamente, sabendo que a vida se mostra a cada passo e que ao longo da história muitas pessoas já sofreram muito mais que nós. Todos nesta sala são muito bem alimentados e jamais enfrentaram uma guerra, é mais sofrimento do que podemos entender.

Em 1945 logo depois da Segunda Guerra, em Berlim 50% das mulheres foram estupradas pelos soviéticos como ato de vingança dos horrores que por sua vez os nazistas haviam cometido em suas terras. Das crianças nascidas em 1946, 80% ou 90% morreram, porque a ração destinada às pessoas que não trabalhavam, no caso as mães, era de trezentos gramas de pão e cento e cinquenta gramas de banha por dia. As pessoas ficavam deitadas para não gastar energia, mas como a temperatura caía a -20 graus as pessoas morriam congeladas. Quando ficamos sabendo destes fatos, vemos que os sofrimentos individuais que enfrentamos não são nada se comparados aos sofrimentos que já aconteceram na história da humanidade e ocorrem hoje em países convulsionados. São sofrimentos muito mais intensos e maiores do que podemos sequer imaginar.

O ensinamento deve ser: “é possível sofrer galhardamente sem se importar”? Não, você irá sofrer de verdade e sofra sinceramente se houver, de fato, sofrimento. Você não será salvo do sofrimento por nada sobrenatural, só pela fortaleza que você será capaz de criar, através de sua lucidez.

O ensinamento Zen é duro porque as pessoas procuram consolo nas religiões e o Budismo não oferece consolo. Quando uma mulher foi até Buda com um filho morto no colo pedindo à Buda que o ressuscitasse, Buda disse que o faria desde que ela lhe trouxesse um grão de mostarda de uma casa em cuja família nunca tivesse morrido ninguém. Desta forma ele ensinou que o sofrimento faz parte do mundo.

Por que então fazemos cerimônias para os doentes e falecidos? Para benefício de todos os que sofrem e de todos os vivos naturalmente.