Follow by Email

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Uma descoberta arqueológica revolucionária a respeito do Buddha?


 Pela excelência da análise reproduzimos artigo do Prof. Ricardo Sasaki publicado no blog Folhas do Caminho. ( link ao final)


 Uma descoberta arqueológica revolucionária a respeito do Buddha?

Lumbini, local de nascimento do Buda
Uma descoberta arqueológica revolucionária a respeito do Buddha?

A notícia no site da Globo é: “Estudo sugere que Buda viveu dois séculos antes do que se pensava - Cientistas descobriram estrutura de madeira no lugar onde ele teria nascido. Evidências indicam que sábio pode ter vivido no século VI a.C.” Desde ontem essa notícia tem circulado pela internet no mundo todo como fogo em capim seco. Já perdi a conta de quantas pessoas me enviaram essa notícia e de quantos compartilhamentos já fui notificado nas redes sociais. Escreverei aqui, sucintamente, minhas impressões iniciais sobre tal notícia que considero altamente superestimada.

Tudo isso começou a partir da publicação no site da National Geographic (que apoiou o projeto) de uma escavação liderada pelo arqueólogo Robin Coningham da Durham University da Grã-Bretanha e cujo estudo inicial foi publicado na revista Antiquity na segunda-feira, dia 25 de novembro. Segundo Coningham: “O que descobrimos é o mais antigo altar buddhista no mundo”. A matéria da National Geographic tem como título: “Oldest Buddhist Shrine Uncovered In Nepal May Push Back the Buddha's Birth Date

A partir desse artigo, jornais e revistas de todo o mundo começaram a replicar a matéria, e mesmo sites brasileiros de notícias, como Globo, Estado de São Paulo e UOL, deram destaque com chamadas sensacionais, enquanto que os internautas receberam a notícia ainda mais entusiasmadamente.

Mas será que tudo isso é justificado? Vamos aos fatos: Lumbini, localizada no Terai nepalês é considerada como o local de nascimento do Buddha (A matéria da UOL tem como título: “Arqueólogos descobrem local onde Buda teria nascido no século 6 a.C.”, como se nunca se tivesse sabido disso). Lá se encontra um templo erigido em homenagem à sua mãe, o Templo Maya Devi, que hoje é um centro de peregrinação para buddhistas de todo o mundo. Na época em que o visitei, Lumbini não era ainda um local muito visitado, havia apenas um ou dois templos buddhistas no local, a hospedagem era difícil, e o Templo Maya Devi estava muito aquém de sua importância. De lá para cá muito mudou.

No interior do templo, a equipe de arqueólogos da Universidade de Durham, que já trabalha no local há três anos, descobriu uma estrutura ainda mais antiga, e dentro dela, cercando um local semelhante a um altar em homenagem a uma árvore, uma estrutura protetora de madeira onde foram achados fragmentos de carvão vegetal e solo batido. Ao serem examinados por meio de técnicas de radiocarbono e luminescência estimulada opticamente, os acadêmicos dataram as amostras para aproximadamente 550 a.C. Esses são os fatos, o resto é especulação.

Vamos primeiramente notar a afirmação presente no título do Globo: “Estudo sugere que Buda viveu dois séculos antes do que se pensava”. Alguns internautas até aumentaram essa notícia e já vi pessoas divulgarem que a descoberta provou que o Buddha havia nascido 300 anos antes do que se imaginava! Pois bem, segundo as crônicas cingalesas da tradição Theravāda, a morte do Buddha seria situada a 218 anos antes do coroamento do rei Aśoka. O ano estimado antigamente para esse coroamento era 325 a.C. A partir dessa data se chega à morte do Buddha em 543 a.C., com seu nascimento, então, ocorrendo por volta de 624 a.C. Essas são as datas oficialmente reconhecidas dentro da tradição Theravāda do Buddhismo. Não se pode absolutamente saber quando o altar para a árvore, em Lumbini, foi construído. Se ele foi construído por volta do nascimento do Buddha, então, a data de nascimento do Buddha seria adiantada (para 550 a.C.) uns 70 anos, e não retrocedida, como noticiado. Se o altar foi construído durante o período em que o Buddha viveu, comemorando seu nascimento, então, a datação acadêmica se mantém estritamente dentro do que a tradição Theravāda já dizia, sem nenhuma novidade.

As pesquisas modernas, no entanto, principalmente a partir de comparações com os registros gregos da época, modificaram a data em que se acreditava como sendo a do coroamento de Aśoka. No 13o Edito em Pedra do imperador Aśoka é dito que ele enviou vários missionários para as quatro regiões da terra. Com base em registros de cinco reinos gregos hoje se admite com relativa segurança que Aśoka foi coroado em 268 a.C. Essa cronologia, então, foi revisada para 486 a.C como a sendo a da morte do Buddha (alguns dão a data de 483 a.C.), e portanto o nascimento vai para 566 a.C., ou seja, exatamente aquilo que a datação dos pesquisadores indicou, caso o templo tivesse sido construído na época do nascimento do Buddha. Mas como disse acima, não há como relacionar cronologicamente a construção do altar com os dados da vida do Buddha. O altar, cuja datação aponta para 550 a.C. poderia ter sido construído 500 anos ou mil anos após a morte do Buddha, o que hipoteticamente poderia levar a retrocedermos seu nascimento para qualquer tempo antes de 550 a.C. Mas caso ele tenha sido construído ainda durante a vida do Buddha ou logo após sua morte, tal descoberta em nada muda de maneira significativa o que a tradição Theravāda já diz há séculos.

Nas últimas décadas, no meio acadêmico buddhista, uma nova data para o período de vida do Buddha, tem sido sugerida, baseada em dados cruzados de fontes históricas, textuais e arqueológicas, colocando a morte do Buddha por volta de 400 a.C., e seu nascimento, portanto, para 480 a.C. Ainda nesse caso, se o altar encontrado e datado tivesse sido construído na época de seu nascimento, tal datação (550 a.C.) teria uma diferença de apenas 70 anos, um diferença numérica praticamente irrelevante em termos de arqueologia antiga.

AP/National Geographic
Todas essas considerações acima, porém, são pertinentes apenas no caso do altar encontrado ser realmente um altar buddhista, o que absolutamente não foi comprovado. O fato de se encontrar uma estrutura religiosa submersa dentro de outra mais recente, absolutamente não indica que as duas façam parte do mesmo movimento religioso. A história mundial é repleta de igrejas cristãs sendo construídas sobre antigos templos romanos, mesquitas sendo construídas sobre ruínas de igrejas cristãs e templos hindus, e assim por diante, pois frequentemente as religiões ‘reaproveitam’ lugares considerados sagrados anteriormente. O fato de existir originariamente um altar em homenagem a uma árvore, e sobre ele ter sido construído muito mais tarde um templo buddhista é algo completamente comum e normal. O culto a árvores sempre foi extremamente comum e disseminado por toda a Índia, continuando forte até hoje. Certas árvores são vistas como especialmente sagradas, alguns acreditando serem habitadas por espíritos e deidades poderosas. Seu culto aparece já nos Vedas de milhares de anos antes, sendo as árvores consideradas como o meio de comunicação entre as deidades superioras e os homens. É dito no Atharva Veda: “O Grande Espírito, imerso na concentração sobre a superfície da água no meio do mundo, sobre ele várias deidades estão fixadas como ramos ao redor do tronco de uma árvore” (AV 10.7.38). O culto às árvores sagradas é também parte da religiosidade não-védica, uma religiosidade que o Buddhismo e o Jainismo abarcam posteriormente assimilando vários de seus elementos e locais sagrados. O arqueólogo Coningham aponta que o fato de não terem encontrado vestígios de sacrifícios animais, como era comum no Brahmanismo, seria um indicativo do altar ser buddhista. Entretanto, o Brahmanismo não era tão forte na região dos Śakyas, cujo predomínio era da casta dos nobres, portanto antagônica ao domínio brahmāṇico. Além disso, jainistas e outros ascetas já perambulavam nessa região há muito, levando a não podermos absolutamente concluir que a mera existência de um altar em homenagem a uma árvore seja ligado originariamente ao Buddhismo. A única coisa que a descoberta mostra é que houve um altar dedicado a uma árvore, e que muito mais tarde um templo buddhista foi construído sobre ele.

Tudo isso mostra que a descoberta e datação realizadas, ainda que importantes em si mesmas, absolutamente não implicam na conclusão de que a estrutura analisada seja buddhista (como no alardeado “encontrado o mais antigo templo budista do mundo”), e nem justifica as afirmações de que a descoberta altera significativamente a data em que se supõe que o Buddha teria vivido, ou nem mesmo prova que ele viveu em tal data sugerida. Tudo muito longe de ser “uma descoberta que pode mudar a história do Buddhismo”, tal como anunciado no National Geographic Channel, e aplaudida por tantos.
Reproduzido de: http://folhasnocaminho.blogspot.com.br/2013/11/uma-descoberta-arqueologica.html