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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Coração e mente


Saikawa Roshi, um grande mestre.

Uma vez, aqui mesmo neste local, uma senhora passou e nos viu fazendo zazen, depois comentou com uma praticante: “Como vocês podem ficar o dia inteiro com a cara enfiada na parede? Que monótono”. Somente nós que ficamos o dia inteiro com a cara enfiada na parede e percebemos a quantidade de coisas que emergem e se mexem em nossa mente, sabemos que ficar ali não é monótono. Há muita coisa acontecendo dentro daquelas pessoas sentadas quietas com a cara enfiada na parede. Vocês sabem que dentro de vocês há infinitas coisas acontecendo, há muito assunto para resolver.

Um algumas  escolas existe um retiro onde o praticante é colocado dentro de uma caverna e pratica meditação o dia inteiro, recebe refeições diárias e isso acontece durante três anos. No Zen também existem histórias de retiros assim, Bodhidharma ficou nove anos em uma caverna. Precisa de tempo para aprender algo sobre si mesmo. Nossos retiros são de tempo insuficiente para depurarmos nossa mente. Mas o sesshin é mais uma preparação, no zazen nós preparamos o terreno e é mais provável que lá fora, após o retiro, vocês possam ter um insight, é esse tipo de experiência que estamos procurando, experiências não expressáveis com palavras, mas uma percepção de que algo mudou.

A paisagem é a mesma, mas a maneira de percebê-la é diferente. Antes você olhava para uma montanha e apenas a via, depois você será capaz de ouvi-la. Se você for capaz de ouvi-la, conseguiu algo inenarrável. É por isso que as pessoas sofrem nos retiros, mas estão sempre retornando. Alguma coisa aconteceu.

PERGUNTAS

1) Como funciona essa relação coração e mente? Se o coração é a casa do sentimento como é possível acessar isso?

Monge Genshô – Todos os sentimentos também são construídos. Amor, ódio, paixão, tristeza, alegria e felicidade são construções de nossa mente. Coração e mente são uma só coisa, em japonês elas têm o mesmo radical “shin” formando o “kanji”. Há uma famosa frase “ISHIN DEN SHIN”, que significa “de mente para mente” ou “de coração para coração”, nesse sentido mente e coração são indistinguíveis.

O que temos que perceber, e que às vezes é muito difícil, é o quanto de construção tem em cada coisa. Pensem no seu primeiro amor, quando você olhou para uma pessoa e se apaixonou, imediatamente projetou uma série de sonhos e ideais. Tudo que você construiu a seguir foi pensando nisso. Há muita fantasia e construção nisso, mas conforme o tempo vai passando vamos percebendo que as coisas não são exatamente como foram construídas. A relação será mais bem sucedida se não forem acalentadas demasiadas ilusões e principalmente se você vir que a outra pessoa é apenas um ser humano. Com o professor do Dharma é a mesma coisa, muitos o colocam como um ser superior e infalível o que é um tremendo engano. Por um lado devemos ter grande reverência pelo manto de Buda, mas por outro lado não devemos criar um culto à personalidade. Nós gostaríamos que os sentimentos fossem surgimentos maravilhosos, mas eles são construídos e coração e mente são uma coisa só.