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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Colocar os olhos de Buda


Aluno – Achei a cerimônia de hoje muito bonita…

Monge Genshô – Esta é a cerimônia de Uposata. Vem dos Upasakas e Upasikas, os praticantes leigos. Esses são os votos que esses praticantes deveriam fazer. Os votos são muito bonitos. Se você prestar atenção, seguí-los é praticamente impossível. Muito difícil! “Cuidar de todas as formas de vida”. Não só dos seres humanos, mas de todos os seres. Se você for realmente responsável e começar a pensar no sofrimento de todos os seres envolvidos, verá que tem que ser muito cuidadoso. Cada um daqueles votos, são eticamente muito profundos. O que nós conhecemos como mandamentos religiosos são muito leves, perto dos votos. São, de fato, muito significativos.

Pergunta– Gostaria que o Senhor comentasse um pouco sobre o Sutra do Coração.

Monge Genshô – “Oh Shariputra, forma é vazio e vazio é forma. Vazio nada mais é do que forma, forma nada mais é do que vazio”. Este é o centro do Sutra do Coração da Sabedoria. Se você entender esta frase, promete o Sutra, livra-se de toda dor e sofrimento. Nesse texto (publicado no blog), eu expliquei que toda vida é um ciclo, um fluxo. Nós olhamos inícios, mortes, etc., mas na verdade a vida é um ciclo. Nós morremos, viramos adubo, crescem plantas, plantas viram frutos, comemos o fruto, etc… Nós olhamos uma floresta e vemos um reciclar contínuo. Quem olha os eventos particulares vê nascimento e morte. Em uma floresta há muita morte acontecendo, certo? Troncos apodrecendo, animais que nascem e morrem. No entanto, nós olhamos a floresta e vemos sua beleza. Da mesma forma a vida humana, nós vemos os inícios e fins. Por não observarmos a continuidade das coisas, vemos tudo começando e terminando, e tudo tão sofrido, logo, achamos que a vida não vale a pena. Perdemos, de fato, a visão do todo.

Seria como uma pessoa na floresta chorando a folha que cai, ou outra na beira da praia chorando as ondas que quebram. A beleza nada tem a ver como começos e fins, a beleza da vida está na continuidade. Então o vazio de um eu é forma, as formas são todas manifestações da vacuidade. A vacuidade é ausente de um eu, logo, não há eu em coisa alguma. Só existe o vazio, que é belíssimo, pois é o próprio céu azul. Despertar é trocar nossos olhos e colocar os olhos de Buda. Aqueles que colocam os olhos de Buda, vêem o nirvana, que é aqui. A diferença não está no mundo e sim nos olhos.