Nós
nos sentamos em zazen para criar o terreno onde as sementes do Dharma podem
germinar. A semente da iluminação vai germinar em um terreno bem preparado, e
esse terreno bem preparado é uma mente pacificada, calma, serena, não
ambiciosa, sem pretensões, humilde, que reconhece sua própria incapacidade, ou
seja, só quando desistimos é que há condições para uma experiência, porque a
mente está esvaziada dessas ambições, desses sentimentos perturbadores de
aquisição, ou de competição, ou mesmo o sentimento de derrota, porque a derrota
só existe porque você pensou em vitória. Se você não pensar em nenhuma vitória
não existe derrota. Então, sentamo-nos para nada. Shikantaza quer dizer
"apenas sentar-se" e é essa nossa técnica de zazen. Apenas sentar-se,
mais nada. Vários mestres já responderam à pergunta: "para que serve o
zazen?" com "para nada!". Se o aluno pensar que serve para
alguma coisa, ele fará qualquer outra prática que sirva para obter
tranquilidade ou calma.
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segunda-feira, 29 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
A mente que se prende
(continuação)
Monge Kômyô: Quando nós somos capazes de superar o impulso egoísta, nós vamos ser capazes de enxergar o que nós consideramos nosso inimigo e ter compaixão por ele. Enxergar aquelas coisas que nós não gostamos, compreender essas coisas. Nós temos o direito de ter critérios, podemos gostar de certas coisas e não gostarmos de outras, mas mesmo ao se ter um critério, não é necessário que você crie apegos e aversões. Isso é uma sutileza, mas nós podemos exercitar isso.
O exercício vem através da Quarta Nobre Verdade, o caminho do meio, o caminho óctuplo – agir, viver, com profunda atenção, profunda paciência para aprender para compreender, para reconhecer, descobrir as origens e, no que diz respeito às outras coisas e às outras pessoas, ter o dom de se colocar no lugar do outro, de conseguir enxergar a ignorância do outro, aquela pessoa que nos fez sofrer. Aquela pessoa que nos magoou, essa pessoa sofre muito, ela é profundamente ignorante, nós temos a nossa ignorância, ela tem a dela. Certamente foi a profunda ignorância dela que fez com que ela agisse ou deixasse de agir de certa forma, e nos fizesse sofrer.
Compaixão significa você compreender a natureza daquela pessoa que te fez sofrer. Compreender. Não é condescender. A pessoa pode ter feito um grande mal, ela pode por exemplo ter batido em você, ela pode ter matado, dado um tiro em você, uma coisa horrível e agora você perdeu um olho por causa disso. Ainda assim, é possível fazer surgir a mente Bodichitta, é possível ter compaixão por essa pessoa, ainda que reconheça, que ela cometeu um ato de grave violência.
Eu temo que talvez eu não esteja conseguindo explicar corretamente este contexto, porque é uma experiência muito intensa, muito delicada, de equilíbrio no exercício de compreensão dos aspectos cruéis e não saudáveis que existem e a compreensão profunda dos mecanismos que levam a essas crueldades e injustiças, ódios, etc.
Todos nós aqui somos praticantes, cada um de vocês assumiu uma responsabilidade de prática. E ao praticante é necessário aprender a trabalhar a si mesmo para evitar cada vez mais se deixar intoxicar pelos aspectos não saudáveis da natureza da mente. A mente quando se perde na distorção egóica, age com uma identificação mesmo que ilusória, muito intensa. Faz parte do mecanismo distorcido da mente, se prender a coisas, mesmo que ela não precise se prender.
O grande ensinamento de Buda, é que nossa mente é livre, nós não estamos presos a nada e a ninguém. “Em essência”, ninguém, nem nada, nos faz mal. A ideia de que alguém ou alguma coisa nos faça mal, é uma ilusão. É uma aparência. Uma mágica. Nós experimentamos essa mágica como se ela fosse muito concreta, às vezes vira uma dor física, mas é a sua mente construindo aquela dor. O mundo continua o mesmo, nós é que estamos em conflito com o mundo. A mente fica presa.
Existe uma historia Zen de um homem que gostaria de praticar o Zen, estava muito interessado, procurou ler algumas coisas, e finalmente ouviu falar em um grande Mestre, um grande professor do Zen, e foi até o local onde havia a prática e bateu na porta. Abriu um velhinho comum, um monge Zen e o rapaz disse que gostaria de praticar, que procurou se preparar lendo muito sobre a prática, e que queria que o monge o introduzisse. O velhinho olhou pra ele e disse: “você quer praticar o Zen? Então ok. Vá para casa e pratique apenas uma coisa: não pense em macacos. Volte amanhã”. O homem foi embora, agradeceu. Duas horas depois ele volta, bate à porta, desesperado: “Monge, eu não consigo deixar de pensar em macacos!”
É assim a mente, o objeto que a mente se prende, ele em si, não tem relação direta com a mente, mas existe um estímulo, algo que desencadeia uma mente condicionada, uma relação de envolvimento ilusório com a ideia, e ai a mente começa a criar todo um universo de ilusão em torno daquilo.
Apesar desse impulso egoísta ser muito arraigado em função dos nossos condicionamentos, ainda assim existem aspectos na nossa vida, na nossa existência pessoal que favorecem a superação de qualquer apego. A resposta para a superação de apegos ou aversões se encontra nos vários aspectos belos da vida, que não tem a ver com os macacos. Está na capacidade de compreender que, ao haver uma experiência, nós nunca estamos realmente presos a ela, nós somos sempre livres. Fazer o zazen não é um problema. Caminhar lá fora e praticar respiração também não é um problema. As mosquinhas em torno da gente também não é um problema. Perder pessoas que nós amamos não é u problema. Lidar com problemas em nossa vida, em si, não é um problema. O problema é o desafio, o que nós entendemos de “problemas” nas nossas vidas são, na ótica da prática contemplativa, desafios. Como vamos lidar com esses desafios?
O trabalho ou o esforço para libertar a mente tem uma dinâmica particular, de cada um de vocês e cada um de nós lida a seu tempo e da melhor forma possível. Mas o caminho para a superação do egoísmo está no favorecimento da mente compassiva, no favorecimento de nossa capacidade, nem que seja aos pouquinhos, de começar a compreender melhor o sofrimento ou a ignorância daquele outro, daquela outra coisa, do objeto que aparentemente nos faz sofrer tanto. Compreender a natureza do objeto, o copo é o copo, o copo não sou eu. Se eu esperava beber água pura no copo mas bebi algo amargo, que me desagradou, não é culpa do copo. É uma circunstância. É um acontecimento, é um desafio. E o desafio é saber lidar com a circunstância e não se perder nela. Eu esperava água pura, mas bebi líquido amargo. Vou tentar praticar, para tentar encontrar meios de não ficar com raiva do copo ou do próprio líquido amargo porque ele não atendeu as minhas expectativas e, quem sabe, conseguir água pura em outro lugar. (Final)
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terça-feira, 15 de julho de 2014
Eu, meu, minha
(quadro de Eduardo Salinas)
Monge Genshô - Você traça o objetivo, vai atrás dele, mas você tem que saber que ele é fonte de sofrimento. O segredo é não alimentar nenhuma expectativa. Eu desejo uma coisa, não consegui, não tem importância nenhuma, você se livrou. Então ter objetivos é necessário, quando se está trabalhando na vida, mas você tem que saber que não pode se agarrar a eles como se fosse sua essência, e se você não conseguir, que horror. Não é assim.
Você agrega as coisas a vocês mesmo. Você compra um vaso bonito e leva pra casa, aí é “meu vaso”. Aí “meu vaso” cai no chão e quebra. A pessoa diz, “ah, meu vaso quebrou”, e sofre. Porque ela colocou “meu”. Se fosse só “vaso”, não teria sofrimento. Se fosse: “comprei um vaso, levei pra casa, vaso. Caiu, quebrou. Vaso quebrou. Juntar cacos, ponto”.
Agora quando você coloca “meu”, pronto. Por isso que os relacionamentos amorosos são sofridos, porque coloca-se “minha” mulher, “meu” marido”. Você não me deu atenção, você não me cumprimentou, você não se lembrou do meu aniversário, etc., tudo é “meu”, então há muito sofrimento. Quando acaba o relacionamento, perdi “meu” relacionamento, levei um ponta pé. Então há sofrimento. Mas o sofrimento vem de quê? Sempre vem de “eu, meu, minha”. E o "meu" objetivo também é assim, esse que é o problema. Se fosse só “objetivo”, não teria problema.
É mais ou menos assim, a gente vai fazer uma palestra, já fui fazer palestra e não veio ninguém, então o que vamos fazer? Vamos sentar e meditar, porque tanto faz. Vem um vem vinte, é a mesma coisa, tem que ser assim, se não for assim, não funciona.
Aqueles que começam grupos de estudo do zen eu sempre digo: você vai lá, fez um grupo de meditação na sua casa, não veio ninguém, o que é que você faz? Senta sozinho. Qual é o problema? Nenhum problema, eles não são “seus”, todos são livres, não tem problema. Quanto sofrimento por causa de “meu”.
Alguém pega um passarinho, põe numa gaiola e diz: “meu” passarinho. E o passarinho tem que ficar preso na gaiola. E ele nunca quis ficar numa gaiola. Então, melhor tirar os “meus”. Tirar o “eu, meu, minha”.
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segunda-feira, 31 de março de 2014
O futuro com melhor tecnologia
4) Da forma que vivemos estamos sempre insatisfeitos, somos estimulados ao consumo sempre de novos e mais modernos produtos. A essência como o senhor falou, é a satisfação, mas isso não nos levará a um comodismo?
Monge Genshô – Não, não levará. Nós estamos subestimando o que vai acontecer conosco. As pessoas que querem regredir e voltar para uma vida do machado, não sabem como era nessa época. Nenhum índio que conheça a civilização deseja voltar a sua vida tribal. As pessoas morrem com vinte e poucos anos em média e mais da metade das crianças morre antes de completar um ano. Fome e frio são situações frequentes. Nós tivemos conquistas maravilhosas com a civilização. A libertação feminina é uma destas conquistas que veio com a revolução industrial. Antes disso, rachar lenha era trabalho para homem. Antes da medicina desse século tínhamos mais homens que mulheres, pois a mortalidade de mulheres no parto era enorme. Vivemos hoje quase o dobro do que vivíamos na década de quarenta. A solução para a humanidade não é menos tecnologia, o problema é que a tecnologia que empregamos é pobre e muitas vezes burra e destruidora, mas é perfeitamente possível ter casas auto-suficientes energeticamente, não precisamos produzir tanto lixo, não precisamos lançar os dejetos no mar, não precisamos matar para comer pois, com a tecnologia disponível hoje, muitas coisas não seriam necessárias.
Com mais tecnologia podemos consumir de forma diferente, mas precisamos de educação e conhecimento, porém, a humanidade está à beira de passar por uma situação que é a extinção do trabalho. Mais algumas décadas e a maior parte do trabalho será feito por máquinas com inteligência artificial e muitas das profissões que conhecemos terão se extinguido. Nesse momento, os homens terão que olhar para si mesmos e perguntar qual o sentido da vida. Já vivemos situação parecida na época dos escravos na qual uma pequena parcela da população, cerca de 10%, era cidadão, isso aconteceu em Atenas. Cada cidadão ateniense tinha nove escravos e ele não precisava fazer nada. Como resultado, a Grécia produziu filosofia.
Teremos que descobrir novas coisas para fazer, pois toda nossa educação irá mudar totalmente. As religiões sofrerão enorme crise, pois iremos perguntar se um cérebro eletrônico que é capaz de pensar e atinge auto consciência, tem alma ou não, está vivo ou morto e quem ele é. O budismo tem a resposta para isso, mas as religiões com almas não. As pessoas estão sendo invadidas por tecnologias cada vez mais sofisticadas sem que elas mesmas decidam como será seu mundo. Outras pessoas estão decidindo por elas, algumas poucas pessoas estão decidindo por todas as outras. Não vejo como isso poderá mudar, pois se você pergunta para uma pessoa ela olha para o passado, como na idade do ouro, mas estão enganadas sobre isso. A humanidade sempre olhou para o passado pensando ver uma idade dourada, isso sempre aconteceu, em todas as eras. Talvez esse seja o momento de olhar para o futuro e o budismo está preparado para isso, pois ele não busca ilusões e sim lucidez e clareza. Não desejamos santos ou pessoas iludidas, queremos homens e mulheres despertos, lúcidos e com clareza mental. Isso pode mudar o mundo.
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quarta-feira, 27 de novembro de 2013
A vida se mostra a cada passo
Nós pensamos em alcançar ou fazer algo e isso cria ansiedade e expectativa. A vida não é para ser vivida desta forma, impondo à vida nossos projetos pessoais. Talvez o projeto da vida seja diferente. Vamos construindo nossa vida com nosso caminhar. Quando existe um projeto, este cria um conflito, pois irei forçar a vida a se coadunar ao meu projeto. Temos que aceitar a vida tal como se apresenta, pois talvez meu projeto não seja possível dentro da vida.
O mais famoso físico da era moderna, Stephen Hawking, tem uma doença degenerativa que lhe paralisou o corpo inteiro e se comunica através de um dispositivo de geração de fala que lhe permite ditar seus livros, dar palestras e entrevistas. Quantas pessoas no mundo têm um problema infinitamente menor que esse, mas que é suficiente para impedir que essa pessoa faça algo em sua vida? Temos no Brasil um famoso pianista, João Carlos Martins, que após alguns acidentes e uma agressão física na Bulgária, onde lhe bateram com uma barra de ferro na cabeça acarretando um problema neurológico, que fez com que perdesse os movimentos das mãos e fosse impedido de continuar a tocar piano. Ele desistiu da musica? Não, tornou-se um maestro e rege uma orquestra. Ele aceitou a vida tal como ela se apresentou.
Nós, com nossos corpos e mentes perfeitos, nos incomodamos com situações, palavras e atitudes e não enxergamos que temos que nos adaptar ao mundo e não ele a nós. Durante milênios a Escola Zen vem desenvolvendo esse tipo de treinamento que estamos realizando. Antes de criticarmos o modelo da sangha, modelo de aceitação, obediência e silêncio, modelo de destruição do ego, temos que nos lembrar que são mais de mil anos de trabalho de muitos mestres para desenvolver esse tipo especifico de treinamento. Por quê os mestres ensinam um dia de um jeito e no outro dia mudam? Para que ninguém se agarre às instruções, métodos, formas e pensem que elas são a essência do Zen. São apenas instrumentos de treinamento. Mudar as formas é um ensinamento precioso que diz para que não nos agarremos, não existe certo e errado ou tem que ser feito dessa ou daquela maneira.
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Como não se decepcionar ?
P: Como funciona a relação mestre discípulo no budismo? Como não se decepcionar com as possíveis falhas de um mestre humano como cada um de nós?
R: Sua pergunta é sobre como funciona o budismo. Na verdade o aluno deve escolher cuidadosamente o professor com quem tem conexão, isto não significa nenhum envolvimento maior do que uma relação de ensino, portanto não se devem alimentar expectativas superiores que levem a um sentimento de injustiça, se aconteceu isto é porque houve expectativa, só ela pode levar a desilusão, pois a desilusão é justamente a falta de acontecer o que se espera e portanto daquilo com que nos iludimos.
Assim o budismo não tem um funcionamento neste sentido e sim a relação mestre aluno é uma escolha particular sujeita a todo tipo de evento. Veja que os mestres do passado peregrinavam para procurar quem lhes merecesse confiança, esta é mesmo a história de Dogen, que foi procurar ensino na China e depois de muitas peripécias encontrou seu mestre Tendo Nyojo.
Espero que você possa praticar com denodo e manter sua mente livre das ilusões. Se houver merecimento encontrará ao fim um mestre. Um ditado antigo diz " more dois vales distante de seu mestre" o que quer dizer mantenha-se tão distante que sua mente não crie expectativas sobre ele.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Por que a fé é tão frágil diante do sofrimento?

Porque somos frágeis e delicados, às vêzes não é possível ficar acima das circunstâncias e é necessário, sim, sofrer, saber que é um pedaço do inferno, mas que temos força para atravessa-lo mesmo chorando. Nós temos capacidade de atravessar estes campos lamacentos da vida, mas lá adiante existe o momento de refrigério, é preciso ter confiança nele, que bom que existe a impermanência! Ela permite que saibamos que os sofrimentos se esgotam.
Doutro lado, quem dentro de nós é que sofre com os insultos? É nosso desejo de ser amado, de ser reconhecido, é nosso pobre orgulho de sermos seres diversos, diferentes daquilo que ouvimos...como estar acima disto? Difícil,mas pelo menos podemos respirar fundo, esquecer as coisas tristes nos voltando para as boas, sei que quando experimentamos alguma esperança qualquer recaída é mais dolorosa, por que? Porque alimentamos a expectativa do futuro, porque saímos do presente esperando que tudo continue bom como naquele momento melhor, mas este momento não desapareceu, faz parte da mesma pessoa, ela é tudo isto, o bem e o mal misturados, o que será que nossos olhos podem ver através das aparências das emoções que animam o outro?
São as ações que são erradas, mas as pessoas no fundo tem a pura natureza búdica, é só o carma que as agita.
Saia um pouco e olhe o céu azul, as nuvens passam sem perturba-lo.
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