Mostrando postagens com marcador compreender. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador compreender. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Compreensão espiritual

Pergunta: Uma vez que se ouve a música se ouve sempre? E uma vez que se supera uma ilusão ainda há outras ilusões para serem superadas?
Monge Genshô: Há muitos degraus de compreensão, mas depois que você ouve a música, aquela música você não esquece mais. Vamos dizer que você ouviu uma melodia simples, mas ainda é incapaz de ouvir uma música mais complexa. Eu me lembro que quando eu era jovem e tocava violino, um dia eu comprei o concerto em ré maior de Beethoven para violino e orquestra. Botei no disco, a música tocou e eu não entendi. Me pareceu só que eram muitos sons, muitas notas, mas eu não compreendi. É a mesma música que eu ouço hoje, começa com percussão e é um concerto fabuloso. Hoje eu ouço e penso: “como é que eu não consegui ouvir naquela época?”, mas é assim mesmo. Só que depois que você ouve mesmo, de verdade, sempre escutará. É como mostrar um desenho em duas dimensões para um índio que jamais viu isso. Ele olha e só vê riscos, não vê o desenho, depois de algum tempo é que consegue traduzir para três dimensões essas duas dimensões. Funciona assim para muitas coisas que fazemos hoje ainda e é a mesma coisa que acontece com a compreensão espiritual. A compreensão espiritual precisa acontecer em saltos, se ela não ocorreu, ela é incompreensível, é cega e é intraduzível, você não consegue explicar. (Continua)

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Compreeendendo ambos os lados, sem ódio ou desprezo

Monge Kōmyō
O Caminho do Meio
O ensinamento de Buddha, em suas escolas tradicionais, dá grande valor ao exercício da moderação. É o "Caminho do Meio", a prática de interconexão com o mundo fundamentada em forte atenção, correção, cuidado.
O caminho do centro tem como base oito aspectos práticos. Este “caminho óctuplo” não é complicado de explicar. Os oito aspectos (fala, pensamento, ação; esforço, concentração, percepção; modo de vida, discernimento) não são complexos em sua natureza.
Os termos pertencem ao nosso universo de potencialidades, não existe nada místico neles.
De fato, eles iniciam e se fundamentam em três elementos sem os quais nenhum ser humano poderia interagir consigo mesmo e com toda a existência: ações, palavras (ou meios de expressão) e pensamentos. Eis tudo.
Nenhum poder sobrenatural, nenhuma espiritualidade extravagante.
Apenas agir, expressar e refletir com maturidade de consciência e clareza de interpretação ao lidar com as diversidades na vida.
Mas, infelizmente, o obstáculo para o exercício do Caminho do Meio está na própria mente. Mesmo que você pense ter entendido o sentido do que acabei de escrever, mesmo que tenha convicção de que já realizou essas coisas, é muito provável que você esteja enganado.
Não estou dizendo que você não teria capacidade de realizar o caminho. De fato, todos nós sem exceção podemos fazer isso.
Mas o simples fato de alguém achar que já está imbuído da harmonia, demonstra sua falta de moderação. Entende?
O caminho do meio nunca termina, não há fim para a prática dos oito aspectos da mente correta. Não estamos em equilíbrio; estamos (e precisamos) sempre estar em constante pratica da composição de nossas partes. A mente é uma dinâmica.
Além disso, e mais importante, a moderação nos torna estranhos. A mente passional, essa mente egoísta cheia de paixões, opiniões, escolhas, conflitos, sempre está buscando um lado. O meio não pertence a qualquer lado; é apenas o ponto de equilíbrio, em torno do qual todos os extremos transitam.
Em nossa sociedade, ser moderado é sinal de fraqueza. E mais do que isso, advogar o meio do caminho nos faz menos relevantes para as partes.
Mas o fato é que será apenas através dos homens e mulheres conscientes, moderados, que a humanidade poderá evitar o abismo que a ameaça cada vez mais.
Thich Nhat Hanh, o grande mestre do zen vietnamita, quando jovem se esforçou muito para dialogar com americanos e vietcongs na guerra do Vietnam.
Ele diz que procurou compassivamente demonstrar que todas as partes deveriam encontrar um denominador comum, e não defender apenas os seus pontos de vista.
Como resultado, para os americanos ele era visto como “agente comunista”, para o Vietcong ele era “espião da CIA”.
Assim é para a prática do meio. Se praticamos a moderação, precisamos estar prontos para lidar com a estranheza dos extremos.
O Caminho do Meio exige paciência, e coragem. Assim -- apesar de minhas muitas faltas -- eu procuro praticar.
E nos acontecimentos que nos dividem atualmente em nosso país, me esforço sempre para compreender todos os lados, sem ódio ou desprezo.
Em nome do Dharma,
Monge Kōmyō

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A mente que se prende


(continuação)
Monge Kômyô:  Quando nós somos capazes de superar o impulso egoísta, nós vamos ser capazes de enxergar o que nós consideramos nosso inimigo e ter compaixão por ele. Enxergar aquelas coisas que nós não gostamos, compreender essas coisas. Nós temos o direito de ter critérios, podemos gostar de certas coisas e não gostarmos de outras, mas mesmo ao se ter um critério, não é necessário que você crie apegos e aversões. Isso é uma sutileza, mas nós podemos exercitar isso.
O exercício vem através da Quarta Nobre Verdade, o caminho do meio, o caminho óctuplo – agir, viver, com profunda atenção, profunda paciência para aprender para compreender, para reconhecer, descobrir as origens e, no que diz respeito às outras coisas e às outras pessoas, ter o dom de se colocar no lugar do outro, de conseguir enxergar a ignorância do outro, aquela pessoa que nos fez sofrer. Aquela pessoa que nos magoou, essa pessoa sofre muito, ela é profundamente ignorante, nós temos a nossa ignorância, ela tem a dela. Certamente foi a profunda ignorância dela que fez com que ela agisse ou deixasse de agir de certa forma, e nos fizesse sofrer.
Compaixão significa você compreender a natureza daquela pessoa que te fez sofrer. Compreender. Não é condescender. A pessoa pode ter feito um grande mal, ela pode por exemplo ter batido em você, ela pode ter matado, dado um tiro em você, uma coisa horrível e agora você perdeu um olho por causa disso. Ainda assim, é possível fazer surgir a mente Bodichitta, é possível ter compaixão por essa pessoa, ainda que reconheça, que ela cometeu um ato de grave violência.
Eu temo que talvez eu não esteja conseguindo explicar corretamente este contexto, porque é uma experiência muito intensa, muito delicada, de equilíbrio no exercício de compreensão dos aspectos cruéis e não saudáveis que existem e a compreensão profunda dos mecanismos que levam a essas crueldades e injustiças, ódios, etc.
Todos nós aqui somos praticantes, cada um de vocês assumiu uma responsabilidade de prática. E ao praticante é necessário aprender a trabalhar a si mesmo para evitar cada vez mais se deixar intoxicar pelos aspectos não saudáveis da natureza da mente. A mente quando se perde na distorção egóica, age com uma identificação mesmo que ilusória, muito intensa. Faz parte do mecanismo distorcido da mente, se prender a coisas, mesmo que ela não precise se prender.
O grande ensinamento de Buda, é que nossa mente é livre, nós não estamos presos a nada e a ninguém. “Em essência”, ninguém, nem nada, nos faz mal. A ideia de que alguém ou alguma coisa nos faça mal, é uma ilusão. É uma aparência. Uma mágica. Nós experimentamos essa mágica como se ela fosse muito concreta, às vezes vira uma dor física, mas é a sua mente construindo aquela dor. O mundo continua o mesmo, nós é que estamos em conflito com o mundo. A mente fica presa.
Existe uma historia Zen de um homem que gostaria de praticar o Zen, estava muito interessado, procurou ler algumas coisas, e finalmente ouviu falar em um grande Mestre, um grande professor do Zen, e foi até o local onde havia a prática e bateu na porta. Abriu um velhinho comum, um monge Zen e o rapaz disse que gostaria de praticar, que procurou se preparar lendo muito sobre a prática, e que queria que o monge o introduzisse. O velhinho olhou pra ele e disse: “você quer praticar o Zen? Então ok. Vá para casa e pratique apenas uma coisa: não pense em macacos. Volte amanhã”. O homem foi embora, agradeceu. Duas horas depois ele volta, bate à porta, desesperado: “Monge, eu não consigo deixar de pensar em macacos!”
É assim a mente, o objeto que a mente se prende, ele em si, não tem relação direta com a mente, mas existe um estímulo, algo que desencadeia uma mente condicionada, uma relação de envolvimento ilusório com a ideia, e ai a mente começa a criar todo um universo de ilusão em torno daquilo.
Apesar desse impulso egoísta ser muito arraigado em função dos nossos condicionamentos, ainda assim existem aspectos na nossa vida, na nossa existência pessoal que favorecem a superação de qualquer apego. A resposta para a superação de apegos ou aversões se encontra nos vários aspectos belos da vida, que não tem a ver com os macacos. Está na capacidade de compreender que, ao haver uma experiência, nós nunca estamos realmente presos a ela, nós somos sempre livres. Fazer o zazen não é um problema. Caminhar lá fora e praticar respiração também não é um problema. As mosquinhas em torno da gente também não é um problema. Perder pessoas que nós amamos não é u problema. Lidar com problemas em nossa vida, em si, não é um problema. O problema é o desafio, o que nós entendemos de “problemas” nas nossas vidas são, na ótica da prática contemplativa, desafios. Como vamos lidar com esses desafios?
O trabalho ou o esforço para libertar a mente tem uma dinâmica particular, de cada um de vocês e cada um de nós lida a seu tempo e da melhor forma possível. Mas o caminho para a superação do egoísmo está no favorecimento da mente compassiva, no favorecimento de nossa capacidade, nem que seja aos pouquinhos, de começar a compreender melhor o sofrimento ou a ignorância daquele outro, daquela outra coisa, do objeto que aparentemente nos faz sofrer tanto. Compreender a natureza do objeto, o copo é o copo, o copo não sou eu. Se eu esperava beber água pura no copo mas bebi algo amargo, que me desagradou, não é culpa do copo. É uma circunstância. É um acontecimento, é um desafio. E o desafio é saber lidar com a circunstância e não se perder nela. Eu esperava água pura, mas bebi líquido amargo. Vou tentar praticar, para tentar encontrar meios de não ficar com raiva do copo ou do próprio líquido amargo porque ele não atendeu as minhas expectativas e, quem sabe, conseguir água pura em outro lugar. (Final)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Escute aqui seu idiota!





5)  O senhor começou sua palestra falando sobre aproveitar sua vida, seja feliz pelo momento e fiquei pensando, não tem como não sofrer, até o mestre iluminado se a mãe dele morrer ele irá chorar. Então seria assim, eu aproveito minha vida, não significa deixar de viver para não sofrer, então vou aproveitar o máximo minha vida, vou amar, mas eu sei que o sofrimento vem junto. Na verdade amar e sofrer seriam duas coisas iguais?

Monge Genshô – Sim, é verdade, estão dentro uma da outra. E aproveite sua vida já que você tem uma vida. Quando tiver sofrimento, sofra. Morre sua mãe, o que você faz? Chora, não há mais nada para ser feito.

Aluno - Mas se compreender, não chora. Compreende e não chora.  Porque teremos a compreensão de que a vida é assim, cresce, adoece e morre.  É da natureza.

Monge Genshô - Não é assim, compreende e chora assim mesmo. Nós poderíamos dizer – “Ah, meu filho morreu, é como uma folha que caiu” – mas isso não é realista. Na verdade você sofre e sofre mesmo, entregue-se ao sofrimento e sofra de verdade, porque faz parte da vida.

Aluno - Me veio à mente a imagem do filme de Dogen, que quando ele morre todos os monges caem em pranto. Naquele momento eles choram compulsivamente,  sofrem e muitos já estariam até iluminados, já teriam uma compreensão, já sabiam que ele iria morrer e mesmo assim sofreram.


Monge Genshô -  A melhor história para isso, talvez, seja a do mestre que recebe uma carta com o comunicado de uma morte na família. Ele senta-se numa pedra e começa a chorar. Um discípulo vai até ele e faz esse discurso – “Mas como o Senhor nos ensinou sobre apego e agora o recebe uma carta sobre a morte de alguém da família e está aí chorando”? -  o Mestre dobra a carta olha para ele diz – “Escute aqui seu idiota! Estou chorando porque quero” – vira-se para o outro lado e volta a chorar.  Esse é o Zen.