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sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Os deuses "explicação"
Perguntas: De forma geral, as religiões usam alegorias para explicar a existência de praticamente todos os fenômenos. Isso ocorreu, também, no caso da invenção de um deus antropomórfico?
Monge Genshô – É, isso é natural. Porque os homens sempre inventaram religiões para dar explicações. Por exemplo, os italianos viam lá o [vulcão] Etna. Dele saía fumaça e fogo. E o que os homens conheciam que saía fumaça e fogo? A forja dos ferreiros. Então Vulcano se tornou o grande ferreiro. Vulcano estava lá embaixo [do vulcão] e o Etna não passava da “chaminé” da forja de Vulcano. Então os homens tinham um deus para isso. Exatamente igual aos gregos, que olhavam para o céu e viam passar o sol. Mas quem conduzia o Sol? Então disseram que era o deus Apolo quem conduzia o Sol, com seu carro de fogo. Nós esquecemos estas coisas, mas por exemplo os índios daqui [do Tocantins] ainda têm o deus da chuva. Daí nós temos deuses para explicar tudo o que nos não entendemos.
À medida que nós vamos entendendo algumas coisas, os deuses vão desaparecendo. Zeus lançava raios de cima do Monte Olimpo, mas quando passamos a entender mais – e sabemos que os raios são fenômenos elétricos –, nós esquecemos os deuses da eletricidade e dos raios. Alguém aqui ainda acredita nos deuses dos raios? Ninguém, porque as crenças recuam à medida que o saber aumenta. Sempre digo em minhas palestras que o zen não é a religião de acreditar. Ela é a religião de “acordar” das ilusões. E os deuses fazem parte das ilusões, pois nós os criamos para nos socorrer. Embora o budismo não possa ser considerado uma religião ateísta, e sim não-teísta. Mas isso é tema para outra questão.
Esta resposta do zen pode ser terrível quando se vai ouvir uma palestra. Tenho até certo receio de dar estas respostas tanto alguém pode se sentir abalado. Mas a visão do zen é de que não adianta rezar para Buda, ele já morreu. Quem pode resolver todos os problemas do sofrimento “está aqui dentro”. Eu posso atuar para resolver os problemas dos meus sofrimentos, e você pode resolver os problemas do seu sofrimento. Mas para resolver estes problemas, você tem que se esquecer de “meu” e “eu”. Enquanto ainda acreditar em “eu” e “meu”, você não entenderá o universo.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Você cria seu mundo
Aluno - E quem controla essa manifestação? Se não sou eu quem controla, de onde vem esse controle?
Monge Genshô – Quem controla a gravidade, a chuva e os ventos? Nós sempre desejamos um “quem” por trás de todas as coisas, mas nem em você existe um “quem”. Quem dentro de você pensa? Você saberia me dizer? Quem é essa dentro de você que pensa?
Aluno – A mente.
Monge Genshô – E quem é essa mente? Quem controla essa mente?
Aluno – Eu ou aquilo que a gente pensa que é.
Monge Genshô – Você pensa que controla sua mente. Mas se é sua mente que pensa, que mente que pensa e que mente que controla o pensamento? Você tem duas mentes? Uma controladora e outra pensadora?
Aluno – Não. Penso que seja uma manifestação maior que eu, que está por trás e que criou...
Monge Genshô – E quem controla essa manifestação?
Aluno – Deus?
Monge Genshô – E quem controla esse Deus? Se ele parar e pensar, “Eu penso, mas quem me controla”? Qual seria a resposta que ele encontraria?
Aluno – Não, ele é a expressão de tudo.
Monge Genshô – E por que você não é a expressão de tudo?
Aluno – Eu quero ser a expressão de tudo, mas tenho que me livrar desse “eu”.
Monge Genshô – Mas então por que você atribuiu esse “eu” a alguém fora de você e por que esse “eu” fora de você não tem o mesmo problema que você? Ele teria, não é mesmo?
Aluno – Não vejo dessa forma. Ele é, logo já sabe tudo...
Monge Genshô – Mas então por que você não é?
Aluno – Alguma coisa aconteceu que mudou tudo isso...
Monge Genshô – Você está querendo atribuir isso a uma definição. Existe alguém atrás de mim que sabe tudo, pensa tudo e que sabe o motivo de tudo.
Aluno – Não acredito que ele, por exemplo, fosse criar o sofrimento. Se eu soubesse que sou parte dessa célula, não iria criar sofrimento para eu própria sofrer...
Monge Genshô – Mas então por que esse ser atrás de você criou o sofrimento?
Aluno – Não sei se foi ele quem criou. Pode ter sido algo...
Monge Genshô – Ah, então existe outro além dele capaz de criar e que criou o sofrimento?
Aluno – Não sei, é o que eu gostaria de saber.
Monge Genshô – A resposta é não. Isso é uma regressão sem fim. Se eu criar alguém extremamente bom atrás de nós, precisarei criar alguém extremamente mau para poder explicar a existência do mal.
Aluno – E sobre o véu de Maya, o véu da ilusão?
Monge Genshô – O véu da ilusão é que cria todas essas armadilhas. Nós criamos soluções através de regressões, por exemplo, como não sei como isso surgiu, eu crio algo atrás de mim para explicar o surgimento disso. Veja bem, os gregos não sabiam o que era o sol, então criaram o deus do sol que era Apolo e guiava o carro do sol todos os dias. Dessa forma, eles atribuíram à Apolo a solução do sol. Mas alguém poderia perguntar: “Mas e Apolo, de onde surgiu”? Para resolver esse problema, Apolo é filho de Zeus. Mas Zeus é filho de quem? Então criaram um Deus que era pai de Zeus a quem Zeus matou. E assim por diante.
Quando você cria uma explicação, tem que criar uma regressão para explicar o surgimento da explicação. Para resolver esse problema o Budismo nunca fala sobre essas coisas. Nós estamos raciocinando para ver como é a historia do pensamento, mas o budismo não tem esse tipo de respostas ou perguntas, “quem foi que fez isso”? Ninguém controla sua mente, ela é sua. Você tem o poder de ser senhora de sua mente, completamente, não existe ninguém comandando sua mente do lado de fora. Você pode induzir sua mente a se sintonizar e trabalhar com outras coisas, por exemplo, você falar palavras boas e criar um mundo bom ou pode viver a reclamar e insultar e criar um mundo semelhante a isso, atraindo pessoas com energia semelhante. Você cria seu mundo. No budismo o mundo não é criado de fora para dentro, mas sim de dentro para fora. Não atribuímos nada a uma força externa.
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